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     A CASA VERDE

     Mario Vargas Llosa

Publicado em 1971


Obs: a paginao  inferior.

Nota da edio: todas as notas de p de pgina so do tradutor.



PRIMEIRA PARTE



O sargento lana um olhar  Madre Patrocnio e a varejeira continua l. A lancha cabeceia sobre as guas turvas, entre duas

muralhas de rvores que exalam um bafo
abrasador, pegajoso. Encolhidos sob a tolda, nus da cintura para cima, os guardas dormem abrigados pelo esverdeado, amarelado 

sol do meio-dia: a cabea de Chiquito
jaz sobre o ventre do Pesado, o Rubio sua em bicas, o Oscuro ressona com a boca aberta. Uma nuvenzinha de mosquitos escolta 

a lancha, entre os corpos evoluem borboletas,
vespas, moscas gordas. O motor ronca igual, entope, ronca e o prtico
Nieves segura o timo com a esquerda, com a direita
fuma, e seu rosto, muito lustroso, permanece
inaltervel sob o chapu de palha. Essa gente da selva no era normal, por que no suava como os demais cristos?. Empertigada
na popa, Madre Anglica est com
os olhos fechados, em seu rosto h pelo menos mil rugas, de vez em quando estica uma pontinha de lngua, sorve o suor do 

buo e cospe. Pobre velhinha, no dava mais
para essas proezas. A varejeira bate as asinhas azuis, salta com suave impulso da testa rosada de Madre Patrocnio, perde-se 

traando crculos na luz branca, e
o prtico ia apagar o motor, sargento, j estavam chegando, atrs dessa quebrada vinha
Chicais'. Mas o corao dizia ao
sargento no haver ningum. Cessa o rudo
do motor, as madres e os guardas abrem os olhos, levantam as cabeas, olham. De p, o prtico Nieves ladeia o remo  direita
e  esquerda, a lancha se aproxima da
margem silenciosamente,
' Povoado indgena,  margem do Piura, Peru.
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os guardas se levantam, pem as camisas, os quepes, ajustam as perneiras. A paliada vegetal da margem direita se interrompe
bruscamente, passado o cotovelo do
rio, e aparece um barranco, um breve parntese de terra avermelhada, que desce at uma minscula enseada de lama, calhaus,
matos de bambus e de samambaias. No se
v nenhuma canoa na margem, nenhuma silhueta humana no barranco. A embarcao encalha, Nieves e os guardas saltam, chapinham
no lodo plmbeo. Um cemitrio, o corao
no enganava, tinham razo os mangaches'. O sargento est curvado sobre a proa, o prtico e os guardas arrastam a lancha
para a terra seca. Que ajudassem as madrezinhas,
fizessem cadeirinha-de-mo, que no se molhassem. Madre Anglica permanece muito sria nos braos do Oscuro e do Pesado,
Madre Patrocnio vacila quando o Chiquito
e o Rubio unem as mos para receb-la e, ao se deixar cair, enrubesce como um camaro. Os guardas atravessam a praia bamboleando,
depositam as madres onde acaba
a lama. O sargento salta, chega ao p do barranco, e Madre Anglica est subindo a ladeira, muito expedita, seguida pela
Madre Patrocnio, ambas engatinham, desaparecem
entre redemoinhos de p vermelho. A terra do barranco  solta, cede a cada passo, o sargento e os guardas avanam afundados
at os joelhos, agachados, afogados no
p, o leno na boca, o Pesado espirrando e cuspindo. No alto, limpam as fardas uns dos outros e o sargento observa: uma
clareira circular, um punhado de cabanas
de teto cnico, pequenas plantaes de mandioca e bananas e, em toda a volta, mata fechada. Entre as cabanas, pequenas rvores
com bolsas ovaladas, que pendem dos
ramos; ninhos de xexus. Ele havia dito, Madre Anglica o constatava, nenhuma alma, j iam ver. Madre Anglica anda de um
lado para outro, entra em uma cabana, sai
e mete a cabea na do lado, espanta com palmadas as moscas, no pra um segundo e, assim,  distncia, esfumada pelo p,
no  uma anci, mas um hbito ambulante,
ereto, uma sombra muito ativa. Em contrapartida, Madre Patrocnio est imvel, as mos escondidas no hbito, e seus olhos
percorrem uma e outra vez o povoado vazio.
Uns ramos se agitam e h guinchos, uma esquadrilha de asas verdes, bicos negros e peitos azuis revoluteia sonoramente sobre
as desertas cabanas de Chicais, os guardas
e as madres seguem-na at que a selva a engula, sua gritaria dura ainda um instante. Havia papagaios, era bom saber, caso
faltasse comida.
' Habitantes da Mangachera, subrbio de Piura.
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Mas davam disenteria, madre, quer dizer, afrouxavam o estmago da gente. No barranco aparece um chapu
de palha, o rosto queimado do prtico Nieves:
quer dizer que os aguarunas' se espantaram, madrezinhas. De pura teimosia, quem mandou no lhe darem ouvidos. Madre Anglica
se aproxima, olha aqui e ali com os
olhinhos enrugados, e suas mos nodosas, rgidas, de sardas castanhas, agitam-se diante do rosto do sargento: estavam perto
daqui, no levaram suas coisas, tinham
que esperar at que voltassem. Os guardas se entreolham, o sargento acende um cigarro, dois xexus vo e vm pelo ar, suas
plumas negras e douradas reluzem com
brilhos midos. Tambm passarinhos, havia de tudo em Chicais. Menos aguarunas, e o Pesado ri. Por que no peg-los desprevenidos?
Madre Anglica est ofegante, por
acaso no os conhecia, madrezinha? o penacho de plos brancos de seu queixo treme suavemente, tinham medo dos cristos e
se escondiam, nem sonhasse que iam voltar,
enquanto estivessem aqui no veriam nem o rastro deles. Pequena, rolia, Madre Patrocnio est ali tambm, entre o Rubio
e o Oscuro. Mas no ano passado eles no
se esconderam, vieram receb-los e at serviram um tambaqui fresquinho, no se lembrava, sargento?  que ento no sabiam,
Madre Patrocnio, agora sim, que entendesse
isso. Os guardas e o prtico Nieves sentam-se no cho, se descalam, o Oscuro abre o cantil, bebe e suspira. Madre Anglica
levanta a cabea: que armem as barracas,
sargento, um rosto desbotado, ponham os mosquiteiros, um olhar lquido, esperariam que voltassem, uma voz alquebrada, e
que no ficasse com essa cara, ela tinha
experincia. O sargento joga o cigarro, enterra-o a pisadelas, que importava, rapazes, que se mexessem. E nisso brota um
cacarejo e um matagal cospe uma galinha,
e o Rubio e o Chiquito gritam de alegria, negra, perseguem-na, com pintas brancas, capturam-na, e os olhos da Madre Anglica
chispam, bandidos, que  que estavam
fazendo, seu punho vibra no ar, mas era sua? que a soltassem, e o sargento, que a soltassem, mas, madres, se iam ficar,
necessitavam comer, no estavam para passar
fome. Madre Anglica no permitiria abusos, que confiana podiam ter neles se roubavam seus animaizinhos? E Madre Patrocnio
concorda, sargento, roubar era ofender
a Deus, com seu rosto redondo e saudvel, no conhecia os mandamentos?
' Selvagens que, com os huambisas, formam a grande tribo dos jvaros, no Peru. Vivem nas margens do Maran e na regio
do Nieva.
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A galinha toca o cho, cacareja, bate as asas, foge requebrando, e o sargento encolhe os ombros: por que se iludiam? elas
os conheciam, tanto ou mais que
ele. Os guardas afastam-se at o barranco, nas rvores gritam de novo os papagaios e os xexus, h zumbidos de insetos,
uma brisa leve agita as folhas de jarina
dos telhados de Chicais. O sargento afrouxa as perneiras, rosna entre dentes, tem a boca torcida, e o prtico Nieves lhe
d um tapinha no ombro, sargento: que no
ficasse de mau humor e considerasse as coisas com calma. E o sargento aponta para as madres furtivamente, Dom Adrin, esses
trabalhinhos arrebentavam sua alma.
Madre Anglica tinha muita sede e talvez um pouco de febre, o esprito continuava forte, mas o corpo j estava cheio de
achaques, Madre Patrocnio e ela, no, no,
que no dissesse isso, Madre Anglica, agora que os guardas se foram tomaria uma limonada e se sentiria melhor, ia ver.
Falavam mal de sua pessoa? o sargento olha
os arredores com olhos distrados, pensavam que era um babaca? abana-se com o quepe, esse par de
urubus'! e de repente volta-se
para o prtico Nieves: segredos
diante dos outros era falta de educao, e ele, olhe, sargento, os guardas voltavam correndo. Uma canoa? e o Oscuro, sim,
com aguarunas? e o Rubio, sim, meu sargento,
e o Chiquito, sim, e o Pesado e as madres, sim, sim, vo e perguntam e vm sem rumo, e o sargento, que o Rubio voltasse
ao barranco e avisasse se subiam, que os
demais se escondessem e o prtico Nieves recolhe as perneiras do cho, os fuzis. Os guardas e o sargento entram numa cabana,
as madres continuam na clareira, madrezinhas,
que se escondessem, Madre Patrocnio, rpido, Madre Anglica. Elas se olham, cochicham, do pulinhos, entram na cabana da
frente e, do mato que o oculta, o Rubio
aponta o rio com um dedo, j desciam, meu sargento, amarravam a canoa, j subiam, meu sargento, e ele, medroso, que viesse
e se escondesse, Rubio, no durma no
ponto. Estendidos de bruos, o Pesado e o Chiquito espiam o exterior pelas fendas do tabique de lascas de juara, o Oscuro
e o prtico Nieves esto de p no fundo
da cabana e o Rubio chega correndo, acocora-se junto ao sargento. A estavam, Madre Anglica, j a estavam, e Madre Anglica
podia ser velha mas tinha boa vista,
Madre Patrocnio, via-os, eram seis.
' No original, gallinazas, aluso ao hbito das freiras e  Gallinacera, favela de negros em Piura, de onde viera o sargento.
Gallinazo, no caso,  uma espcie de
corvo negro, aura.
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A velha, cabeluda, veste uma tanga esbranquiada e dois tubos de carne mole e escura lhe pendem at a cintura. Atrs dela,
dois homens de idade imprecisa,
baixos, barrigudos, de pernas esquelticas, o sexo coberto com retalhos de fazenda ocre, seguros por cips, as ndegas peladas, 

os cabelos cortados at as sobrancelhas. 
Carregam cachos de banana. Depois vm duas meninas com diademas de fibras, uma leva argola no nariz, a outra, aros de couro 

nos tornozelos. Esto nuas como o menino 
que as segue, ele parece menor e  mais magro. Olham a clareira deserta, a mulher abre a boca, os homens sacodem as cabeas. 

Vo falar com eles, Madre Anglica? 
e o sargento, sim, a vo as madres, ateno, rapazes. As seis cabeas giram ao mesmo tempo, permanecem paradas. As madres 

avanam para o grupo a passos iguais, 
sorrindo, e simultneos, quase imperceptveis, os aguarunas aproximam-se uns dos outros, logo formam um s corpo terroso 

e compacto. Os seis pares de olhos no se 
afastam das duas figuras de pregas negras que flutuam em sua direo, e se ficassem bravos tinham que sair correndo, rapazes, 

nada de tirinhos, nada de assust-los. 
Deixavam as freiras se aproximar, meu sargento, o Rubio pensava que fugiriam ao v-las. E que delicadinhas eram as crianas, 

que novinhas, no , meu sargento? este 
Pesado no tinha cura. As madres param e, ao mesmo tempo, as meninas recuam, estendem as mos, agarram as pernas da velha, 

que comeou a bater nos prprios ombros 
com a mo aberta, cada tapa estremece as compridssimas tetas, balana-as: que o Senhor estivesse com eles. E Madre Anglica 

d um grunhido, cospe, lana um jorro 
de sons rangentes, rudes e sibilantes, se interrompe para cuspir, e magnfica, marcial, continua grunhindo, suas mos evolucionam, 

desenham traos solenes ante os 
imveis, plidos, impassveis rostos aguarunas. A madrezinha falava com eles em pago, rapazes, cuspia igualzinho s selvagens. 

Isso tinha que agradar quela gente, 
meu sargento, que uma crist falasse no idioma deles, mas que fizessem menos barulho, se ouvissem, eles se espantariam. 

Os grunhidos de Madre Anglica chegam  cabana
ntidos, fortes, destemperados, e tambm o Oscuro e o prtico Nieves espiam agora a clareira, as caras grudadas no tabique.
Metera-os no bolso, rapazes, que sabida 
era a freirinha, e as madres e os dois aguarunas sorriem, trocam reverncias. E ainda mais, cultssima, o sargento sabia
que na misso ficavam o tempo todo estudando?
Seria melhor rezando, Chiquito, pelos pecados do mundo. Madre Patrocnio sorri para a
velha,
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ela desvia os olhos e continua muito sria, as mos nos ombros das meninas. Que estariam dizendo, meu sargento, como falavam.
Madre Anglica e os dois homens
fazem caretas, trejeitos, cospem, se interrompem e, logo, as trs crianas afastam-se da velha, correm, riem alto. O menino 

estava olhando para eles, rapazes, no 
tirava o olho daqui. Que magrinho era, o sargento tinha notado? uma tremenda cabeorra e to pouquinho corpo, parecia aranha. 

Sob a mata de cabelos, os olhos grandes 
do menino apontavam fixamente para a cabana. Est queimado como uma formiga, suas pernas so curvas e magrelas. De repente, 

levanta a mo, grita, rapazes, filho 
da puta, meu sargento, e h uma violenta agitao atrs do tabique, palavres, encontres, e estalam vozes guturais na clareira 

quando os guardas a invadem, correndo 
e tropeando. Que baixassem esses fuzis, burros ', Madre Anglica mostra aos guardas as mos iracundas, ah, j se queixaria 

ao tenente. As duas meninas escondem 
a cabea no peito da velha, aplastam seus seios moles, e o menino continua desorientado, a meio caminho entre os guardas 

e as madres. Um dos aguarunas solta o cacho 
de banana, nalgum lugar cacareja a galinha. O prtico Nieves est na entrada da cabana, o chapu de palha para trs, um 

cigarro entre os dentes. Que estava pensando 
o sargento, e Madre Anglica d um pulinho, por que se metia onde no era chamado? Mas se baixavam os fuzis virariam picadinho, 

madre, ela mostra o punho sardento, 
e ele, que baixassem os museres, rapazes. Suave, contnua, Madre Anglica fala aos aguarunas, as mos tensas desenham figuras 

lentas, persuasivas, pouco a pouco 
os homens perdem a rigidez, agora respondem com monosslabos, e ela, risonha, inexorvel, no pra de grunhir. O menino 

aproxima-se dos guardas, examina os fuzis, 
apalpa-os, o Pesado d um tapinha na testa dele, ele se agacha e grita, era desconfiado o puto, e o riso sacode a flcida 

cintura do Pesado, sua papada, as bochechas. 
Madre Patrocnio se altera, desavergonhado, o que estava dizendo, por que os desrespeitava assim, seu grosseiro, e o Pesado, 

mil desculpas, meneia a confusa cabea 
de boi, escapou sem querer, madre, tem a lngua solta. As meninas e o menino circulam entre os guardas, examinam, tocam 

neles com a
ponta dos dedos.
' No original, alcomoques; alcomoque , em espanhol, ao mesmo tempo, uma rvore (fagcea), de madeira durssima, e uma pessoa
ignorante, burra. O autor usa alcomoque
para um jogo de palavras, adiante, neste mesmo captulo.
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Madre Anglica e os dois homens grunhem amistosamente e o sol brilha ainda distante, mas os arredores esto encobertos e
sobre a mata amontoa-se
outra mata de nuvens brancas e copadas: choveria. Madre Anglica os insultara antes, madre, e eles, o que tinham dito? Madre 

Patrocnio sorri, pedao de asno, alcomoque 
no era um insulto, mas uma rvore dura como a cabea dele, e Madre Anglica volta-se para o sargento: comeriam com eles, 

que trouxessem os presentinhos e as limonadas. 
Ele concorda, d instrues ao Chiquito e ao Rubio, aponta o barranco, as bananas verdes e peixe cru, rapazes, um banquetao 

filho da puta. As crianas vadiam em 
volta do Pesado, do Oscuro e do prtico Nieves, e Madre Anglica, os homens e a velha arrumam folhas de bananeira no cho, 

entram nas cabanas, trazem recipientes 
de barro, mandioca, acendem uma pequena fogueira, envolvem bagres e bocachicas com as folhas que amarram com cips, e os 

aproximam da chama. Iam esperar os outros, 
sargento? Seria um nunca acabar, e o prtico Nieves joga seu cigarro, os outros no voltariam, foram embora, no queriam 

visitas, e esses caras a fugiriam ao primeiro 
descuido. Sim, o sargento sabia, s que era intil discutir com as madrezinhas. Chiquito e Rubio voltam com bolsas e garrafas 

trmicas, as madres, os aguarunas 
e os guardas esto sentados em crculo, diante das folhas de bananeira, e a velha afugenta os insetos com palmadas. Madre 

Anglica distribui os presentes que os 
aguarunas recebem sem dar mostras de entusiasmo, mas logo, quando as madres e os guardas comeam a comer pedacinhos de peixe, 

que cortam com as mos, os dois homens, 
sem se olhar, abrem as bolsas, acariciam espelhinhos e colares, repartem as contas coloridas, e nos olhos da velha acendem-se 

sbitas luzes cobiosas. As meninas 
disputam uma garrafa, o menino mastiga com raiva, e o sargento adoeceria do estmago, merda, viriam diarrias, incharia 

como um sapo barrigudo, apareceriam bolotas 
no corpo, rebentariam e sairia pus. Tem o pedao de peixe  beira dos lbios, seus olhinhos piscam, e o Oscuro, o Chiquito 

e o Rubio fazem caretas tambm, Madre 
Patrocnio fecha os olhos, engole, o rosto se crispa, e s o prtico Nieves e Madre Anglica estendem as mos constantemente 

at as folhas de bananeiras, e, com 
uma espcie de regozijo pressuroso, esmiuam a carne branca, limpam-na de espinhas, levam-na  boca. Todos os da selva eram 

um pouco brbaros, at as madres, como
comiam. O sargento arrota, todos olham para ele e ele tosse. Os aguarunas
puseram os colares,
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mostram-nos um ao outro. As bolinhas de vidro so granadas e contrastam com a tatuagem que adorna o peito do que usa seis
pulseiras de continhas
num brao, trs no outro. A que horas partiriam, Madre Anglica? Os guardas olham o sargento, os aguarunas deixam de mastigar. 

As meninas estendem as mos, tocam 
timidamente os colares ofuscantes, as pulseiras. Tinham de esperar os outros, sargento. O aguaruna da tatuagem grunhe e 

Madre Anglica, sim, sargento, estava vendo? 
que comesse, ofendia-os com tanto nojo. Ele no tinha apetite, mas queria lhe dizer uma coisa, madrezinha, no podiam ficar 

mais tempo em Chicais. Madre Anglica 
tem a boca cheia, o sargento viera para ajudar, sua mo mida e ptrea abre uma garrafa trmica de limonada, no para dar 

ordens. O Chiquito tambm ouvira o tenente, 
que foi que dissera? e ele, que voltassem antes de oito dias, madre. J levavam cinco, e quantos para voltar, Dom Adrin? 

Trs dias, desde que no chovesse, compreendia? 
eram ordens, madre, que no se zangasse com ele. Junto ao rumor da conversa entre o sargento e Madre Anglica h outro, 

spero: os aguarunas dialogam em voz alta, 
batem os braos e comparam suas pulseiras. Madre Patrocnio engole e abre os olhos, e se os outros no voltassem? e se demorassem 

um ms para voltar? claro que era 
s uma opinio, e fecha os olhos, talvez se enganasse, e engole. Madre Anglica franze o cenho, brotam novas rugas no seu 

rosto, a mo acaricia a mechinha de plos 
brancos do queixo. O sargento bebe um gole do seu cantil: pior que purgante, tudo ficava quente nesta terra, no era como 

o calor de sua terra, o daqui apodrecia 
tudo. O Pesado e o Rubio deitam-se de costas, os quepes sobre o rosto, e o Chiquito queria saber se algum sabia disso, 

Dom Adrin, e o Oscuro,  verdade, que continuasse, 
que contasse, Dom Adrin. Eram meio peixe e meio mulher, estavam no fundo das lagunas, esperando os afogados, e nem bem 

virava uma canoa vinham e agarravam os cristos 
e os levavam para seus palcios no fundo. Punham-nos em umas redes, que no eram de juta mas de cobras, e a se davam ao 

prazer com eles e a Madre Patrocnio, j 
estavam falando de supersties? eles no, no, e pensavam ser cristos? nada disso, madrezinha, falavam sobre se ia chover. 

Madre Anglica inclina-se para os aguarunas, 
grunhindo docemente, sorrindo com obstinao, tem as mos enlaadas, e os homens, sem se mexer do lugar, endireitam-se pouco 

a pouco, esticam os pescoos como as 
garas quando tomam banho de sol,  beira do rio, e aparece um
vaporzinho,
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e algo os assombra, dilata suas pupilas e o peito de um deles incha, a tatuagem se destaca, apaga, destaca e, aos
poucos, eles se adiantam at Madre Anglica, 
muito atentos, graves, mudos, e a velha cabeluda abre as mos, agarra as meninas. O menino continua comendo, rapazes, chegava 

a parte mais dura, ateno. O prtico, 
o Chiquito e o Oscuro se calam. O Rubio levanta-se com os olhos avermelhados e sacode o Pesado, um aguaruna olha o sargento 

de vis, depois o cu e agora a velha 
abraa as meninas, incrusta-as em seus seios abundantes e riscados, e os olhos do menino giram da Madre Anglica para os 

homens, destes para a velha, desta para 
os guardas e para a Madre Anglica. O aguaruna da tatuagem comea a falar, o outro o acompanha, a velha, uma tormenta de 

sons afoga a voz de Madre Anglica, que 
agora nega com a cabea e com as mos e, imediatamente, sem deixar de roncar nem de cuspir, lentos, cerimoniosos, os dois 

homens despojam-se dos colares, das pulseiras, 
e h uma chuva de continhas sobre as folhas de bananeiras. Os aguarunas estendem as mos para os restos do peixe, entre 

os quais percorre um delgado rio de formigas 
pardas. J tinham ficado xucros, rapazes, mas eles estavam prontos, meu sargento, quando ele mandasse. Os aguarunas limpam 

as sobras de carne branca e azul, agarram 
com as unhas as formigas, esmagam-nas e, com muito cuidado, envolvem a comida nas folhas venosas. Que o Chiquito e o Rubio 

se encarregassem das crianas, o sargento 
as recomendava, e o Pesado, que sortudos. Madre Patrocnio est muito plida, move os lbios, os dedos apertam as contas 

negras de um rosrio, isso mesmo, sargento, 
que no esquecessem que eram meninas, j o sabia, j o sabia, e que o Pesado e o Oscuro mantivessem os pelados quietos, 

e que a madre no se preocupasse, e Madre 
Patrocnio, ai deles se cometessem brutalidades, e o prtico se encarregaria de levar as coisas, rapazes, nada de brutalidades: 

Santa Maria, Me de Deus. Todos contemplam 
os lbios exangues de Madre Patrocnio, e ela, Rogai por ns, tritura com os dedos as bolinhas negras, e Madre Anglica, 

acalme-se, madre, e o sargento, j, era 
a hora. Pem-se de p, sem pressa. O Pesado e o Oscuro sacodem as calas, agacham-se, pegam os fuzis e h correrias agora, 

gritos, e na hora, pisadelas, o menino 
esconde o rosto, de nossa morte, os dois aguarunas ficam rgidos, amm, seus dentes batem e seus olhos olham, perplexos, 

os fuzis que lhes apontam. Mas a velha est 
de p, lutando com o Chiquito, e as meninas debatem-se como enguias entre os braos do Rubio.
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Madre Anglica cobre a boca com um leno, a poeira cresce e se espessa, o Pesado espirra e o sargento, pronto, podiam ir
para o barranco, rapazes, Madre Anglica.
E quem ajudava o Rubio, o sargento, no via que escapavam? O Chiquito e a velha rolam pelo cho abraados, que o Oscuro 

fosse ajud-lo, o sargento o substituiria, 
vigiaria o pelado. As madres caminham para o barranco, levadas pelo brao, o Rubio afasta duas figuras entrelaadas e gesticulantes, 

e o Oscuro sacode furiosamente 
a cabeleira da velha at que solte o Chiquito e ele se levante. Mas a velha salta atrs deles, alcana-os, arranha-os, e 

o sargento, pronto, o Pesado, se foram. 
Sempre apontando para os dois homens, recuam, deslizam sobre os calcanhares, e os aguarunas levantam-se ao mesmo tempo e 

avanam imantados pelos fuzis. A velha pula 
como um barrigudo, cai e prende dois pares de pernas, o Chiquito e o Oscuro cambaleiam, Me de Deus, caem tambm, e que 

Madre Patrocnio no desse esses gritos. 
Uma rpida brisa vem do rio, escala a ladeira, h ativos e envolventes torvelinhos alaranjados e gros de terra pesada, 

areos como varejeiras. Os dois aguarunas 
se mantm dceis frente aos fuzis, e o barranco est muito prximo. E se escapassem, o Pesado podia atirar? e Madre Anglica, 

estpido, podia mat-los. O Rubio pega 
pelo brao a menina da argola, por que no desciam, sargento? a outra, pelo pescoo, escapavam, agorinha mesmo escapavam, 

e elas no gritam, mas se debatem, e suas 
cabeas, ombros, ps e pernas lutam e golpeiam e empurram, e o prtico Nieves passa carregado de garrafas trmicas: que 

se apressasse, Dom Adrin, no esquecera 
nada? No, nada, quando o sargento quisesse. O Chiquito e o Oscuro seguram a velha pelos ombros e cabelos, e ela est sentada, 

gritando, de vez em quando bate sem 
fora nas pernas deles, e bendito era o fruto, madre, madre, de seu ventre, e escapavam do Rubio, Jesus. O homem da tatuagem 

olha o fuzil do Pesado, a velha grita 
e chora, dois fios midos abrem finssimos canais na crosta de p de seu rosto, e que o Pesado no se fizesse de louco. 

Mas se fugia, sargento, partia o seu crnio, 
ainda que a coronhadas, sargento, e se acabava a brincadeira. Madre Anglica tira o leno da boca: estpido, por que dizia 

maldades? por que o sargento permitia 
isso? e Rubio, podia ir descendo? essas bandidas o esfolavam. As mos das meninas no alcanam o rosto do Rubio, s seu 

pescoo, cheio de risquinhos violceos, e 
rasgaram sua camisa e arrancaram os botes. Parecem desanimar s vezes, afrouxam o corpo e gemem, e de novo atacam,
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seus ps descalos chocam-se contra as perneiras do Rubio, ele pragueja e as sacode, elas continuam a resistir em silncio,
e que a madre descesse, o que esperava,
e tambm o Rubio, e Madre Anglica, por que as apertava assim se eram crianas? de seu ventre Jesus, madre, madre. Se o 

Chiquito e o Oscuro soltassem a velha, ela 
se atiraria em cima deles, sargento, que fariam? e o Rubio, que ela as pegasse, ento, madre, no via como o arranhavam? 

O sargento mexe com o fuzil, os aguarunas 
resmungam, do um passo atrs, e o Chiquito e o Oscuro soltam a velha, ficam com as mos prontas para se defender, mas ela 

no se move, esfrega os olhos apenas, 
e a est o menino como que segregado pelos redemoinhos: fica de ccoras e afunda o rosto entre as tetas meladas. O Chiquito 

e o Oscuro vo costa abaixo, uma muralha 
rosada engole-os logo, e como, merda, o Rubio podia desc-las sozinho, que acontecia, sargento, por que  que aqueles j 

estavam indo? e Madre Anglica aproxima-se 
dele, sacudindo os braos com deciso: ela o ajudava. Estende as mos at a menina da argola, mas nem toca nela e se dobra, 

e o pequeno punho bate outra vez, e 
o hbito se rasga, e Madre Anglica solta um gemido e encolhe-se: no estava dizendo? e o Rubio sacode a menina como um 

trapo, madre, no era uma fera? Plida e 
enrugada, Madre Anglica insiste, pega o brao com as duas mos, Santa Maria, e agora uivam, Me de Deus, esperneiam, Santa 

Maria, arranham, todos tossem, Me de 
Deus, e em vez de tanta reza que fossem descendo, Madre Patrocnio, por que diabos se assustava tanto, e at que hora, e 

at quando, que descessem, que o sargento 
j se esquentava, merda. Madre Patrocnio volta-se, lana-se pela ladeira e se esfuma, o Pesado avana o fuzil e o da tatuagem 

recua. com que dio olhava, sargento, 
parecia rancoroso, filho da puta, e orgulhoso: assim deviam ser os olhos do
Chulla-Chaqui', sargento. As grandes nuvens
que envolvem aqueles que descem esto mais 
distantes, a velha chora, se contorce, e os dois aguarunas observam o cano, a culatra, as bocas redondas dos fuzis: que 

o Pesado no tremesse o pulso. No tremia 
o pulso, sargento, mas que modo de olhar era este, porra, com que direito. O Rubio, Madre Anglica, e as meninas se desvanecem 

tambm entre ondas de p e a velha
rasteja at a beira do barranco,
' Personagem de conhecida lenda peruana:  um coxo que tem uma perna de cabra. Os que vivem na selva tm mais medo do Chulla-
Chaqui que do Diabo.
17
olha para o rio, seus mamilos tocam a terra, e o menino profere sons estranhos, ulula como uma ave lgubre, e ao Pesado
no agradava ter os pelados to
perto, sargento, que  que faziam para descer, agora que estavam sozinhos. E nisso ronca o motor da lancha: a velha se cala 

e levanta o rosto, olha o cu, o menino 
a imita, os dois aguarunas a imitam, e os babacas estavam procurando um avio. Pesado, estavam distrados, era a hora. Recuam 

o fuzil e o avanam bruscamente, os 
dois homens pulam para trs e gesticulam, e agora o sargento e o Pesado descem de costas, sempre apontando, afundando at 

os joelhos, e o motor ronca cada vez mais 
alto, envenena o ar de soluos, gargarejos, vibraes e sacudidelas, e no barranco no  como na clareira, no h brisa, 

s o bafo quente e o p avermelhado e ardido 
que faz espirrar. Confusamente, l no alto do barranco, umas cabeas peludas exploram o cu, balanam suavemente procurando 

algo entre as nuvens, e o motor estava 
a e as crianas chorando, Pesado, e ele, o qu, meu sargento? no agentava mais. Atravessam a lama correndo e quando chegam 

 lancha arquejam e tm as lnguas 
de fora. J era hora, por que se demoraram tanto? Como queriam que o Pesado subisse, como se acomodaram bem, os sacanas, 

que dessem lugar a ele. Mas ele tinha que 
emagrecer, que tivessem cuidado, se o Pesado subisse a lancha afundava, e no era momento para brincadeiras, que partissem 

de uma vez, sargento. Agorinha mesmo partiam, 
Madre Anglica, de nossa morte, amm.
18



I.



Uma porta bateu, a superiora levantou o rosto da escrivaninha, Madre Anglica irrompeu como uma tromba-d'gua no gabinete,
suas mos lvidas caram sobre o espaldar
de uma cadeira.
- Que h, Madre Anglica? Por que est assim?
- Fugiram, madre! - balbuciou Madre Anglica. No ficou uma s, meu Deus!
- Que est dizendo, Madre Anglica - a superiora levantara-se de um salto e caminhava para a porta. - As pupilas?
- Meu Deus, meu Deus! - concordava Madre Anglica, com movimentos de cabea curtos, idnticos, muito rpidos, como uma galinha
bicando gros.
Santa Maria de Nieva' levanta-se na desembocadura do Nieva, no alto
Maran, dois rios que abraam a cidade e so seus limites.
Frente a ela, emergem do Maran
duas ilhas que servem aos vizinhos para medir as enchentes e as vazantes. Da povoao, quando no h nvoa, percebem-se,
atrs, colinas cobertas de vegetao e,
adiante, guas abaixo do largo rio, os vultos da cordilheira que o Maran cinde no Pongo de
Manseriche': dez quilmetros violentos de redemoinhos, pedras e torrentes,
que comeam numa guarnio militar, a do Tenente Pinglo, e acabam noutra, a de
Borja'.
' Povoado s margens do rio Nieva, afluente do Maran, no departamento do Amazonas (Peru).
' Garganta de mais de um metro e dez de altura, prxima  cordilheira dos Andes.
' Guarnies militares de Tenente Pinglo e Borja, s margens dos rios Santiago e Maran, respectivamente.
19
- Foi por aqui, madre - disse Madre Patrocnio. Veja, a porta est aberta, foi por aqui.
A madre superiora levantou o lampio e inclinou-se: o mato era uma sombra uniforme inundada de insetos. Apoiou a mo na 

porta entreaberta e voltou-se para as madres. 
Os hbitos haviam desaparecido na noite, mas os vus brancos resplandeciam como plumagens de garas.
- Procure Bonifacia, Madre Anglica - sussurrou a superiora. - Leve-a ao meu gabinete.
- Sim, madre, j, j. - O lampio iluminou por um segundo a barbicha trmula de Madre Anglica, seus olhinhos que pestanejavam.
- Avise Dom Fbio, Madre Griselda - disse a superiora. - E a senhora, o tenente, Madre Patrocinio. Que saiam para procur-las 

agora mesmo. Apressem-se, madres.
Dois halos alvos afastaram-se do grupo em direo ao ptio da misso. A superiora, seguida das madres, caminhou para a residncia, 

junto ao muro da horta, onde um 
grasnar afogava, a intervalos iguais, o bater de asas dos morcegos e o cricrilar dos grilos. Entre as rvores frutferas 

surgiam piscadelas e cintilaes, vaga-lumes? 
olhos de coruja? A superiora parou diante da capela.
- Entrem as senhoras, madres - disse suavemente.
- Roguem  Virgem para que no acontea nenhuma desgraa. Eu voltarei logo.
Santa Maria de Nieva  como uma pirmide irregular e sua base so os rios. O cais est sobre o Nieva e em torno do molhe
flutuante balanam as canoas dos aguarunas,
os botes e lanchas dos cristos. Mais acima est a praa quadrada, de terra ocre, em cujo centro elevam-se dois troncos
de capirona *, lisos e corpulentos. Num deles
os guardas hasteiam a bandeira em feriados nacionais. E ao redor da praa esto o comissariado, a casa do governador, vrias
casas de cristos e a cantina do Paredes,
que  ao mesmo tempo comerciante, carpinteiro e sabe preparar puangas, uns amavios que incitam ao amor. E mais acima ainda,
em duas colinas que so como vrtices
da cidade, esto os prdios da misso: tetos de zinco, vigas de barro e de palmeira, paredes rebocadas de cal, tela nas
janelas, portas de madeira.
- No percamos tempo, Bonifacia - disse a superiora. - Conte tudo.
' Bela rvore que solta a casca em grandes pedaos (Calicophilluni spruceanum).
20
- Estava na capela - disse Madre Anglica. - As madres a encontraram.
- Eu lhe fiz uma pergunta, Bonifacia - disse a superiora. - Que est esperando?
Vestia um hbito azul, um estojo que ocultava seu corpo desde os ombros at os tornozelos, e seus ps descalos, da cor 

das tbuas cobreadas do cho, jaziam juntos: 
dois animais chatos, policfalos.
- Voc no ouviu? - perguntou Madre Anglica. Fale de uma vez.
O vu escuro que emoldurava seu rosto e a penumbra do gabinete acentuavam a ambigidade de sua expresso, entre estranha 

e indolente, e seus olhos grandes olhavam 
fixamente a escrivaninha; s vezes, a chama do pavio, agitada pela brisa que vinha da horta, descobria sua cor verde, sua 

suave cintilao.
- Roubaram suas chaves? - perguntou a madre superiora.
- Voc jamais se emendar, descuidada! - a mo de Madre Anglica esvoaou sobre a cabea de Bonifacia. Est vendo no que 

deram suas negligncias?
- Deixe-a para mim, madre - disse a superiora. No me faa perder mais tempo, Bonifacia.
Os braos pendiam s suas costas e ela mantinha a cabea baixa, o hbito mal revelava o movimento do peito. Seus lbios 

retos e grossos estavam soldados num esgar 
carrancudo e seu nariz se dilatava e franzia ligeiramente, num ritmo muito igual. 
- vou ficar aborrecida, Bonifacia, eu lhe falo com considerao e voc fica como se ouvisse chover - disse a superiora. 

- A que horas voc deixou as pupilas sozinhas? 
No fechou  chave o quarto?
- Fale de uma vez, demnio!  - Madre Anglica agarrou o hbito de Bonifacia. -- Deus h de castigar esse orgulho.
- Voc tem todo o dia para ir  capela, mas de noite o seu dever  cuidar das pupilas - disse a superiora. Por que saiu 

do quarto sem permisso?
Dois breves toques soaram na porta do gabinete, as madres voltaram-se, Bonifacia levantou um pouco as plpebras e, por um 

segundo, seus olhos ficaram maiores, verdes
e intensos.
Das colinas da cidade, se vem, cem metros adiante, na margem direita do rio Nieva, a cabana de Adrin Nieves,
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sua chacrinha, e depois s um dilvio de cips, matos, rvores de galhos tentaculares e altssimos cumes. No distante da
praa est o povoado indgena, aglomerao
de cabanas erigidas sobre rvores decapitadas. O lodo devora ali o capim selvagem e circunda charcos de gua fedorenta, 

que fervilham de sapinhos e minhocas. Aqui 
e ali, diminutas e quadriculadas, h plantaes de mandioca, milho, pequenas hortas. Da misso, um caminho escarpado desce 

at a praa. E atrs da misso um muro 
de barro resiste  presso da mata, a furiosa acometida vegetal. Nesse muro h uma porta clausurada.
-  o governador, madre - disse Madre Patrocnio.
- Podemos entrar?
- Sim, faa-o entrar, Madre Patrocinio - disse a superiora.
Madre Anglica levantou a lamparina e resgatou duas figuras imprecisas da escurido da entrada. Envolto numa manta, lanterna 

na mo, Dom Fbio entrou fazendo reverncias:
- Estava deitado e sa deste jeito, madre, desculpe-me esta cara - deu a mo  superiora,  Madre Anglica. Como pde acontecer 

isso, juro que no conseguia acreditar. 
Imagino como se sentem, madre.
Seu crnio calvo parecia mido, seu rosto magro sorria para as madres.
- Sente-se, Dom Fbio - disse a superiora. -Agradeo-lhe por ter vindo. Traga uma cadeira para o governador, Madre Anglica.
Dom Fbio se sentou, a lanterna que pendia de sua mo esquerda se acendeu: um crculo dourado sobre o tapete de tucum.
- J foram procur-las, madre - disse o governador.
- O tenente tambm foi. No se preocupe, com certeza vo encontr-las esta noite mesmo.
- Aquelas pobres crianas por a, entregues  sua prpria sorte, Dom Fbio, imagine - suspirou a superiora.
- Felizmente no est chovendo. No imagina que susto levamos.
- Mas como aconteceu isso, madre? - perguntou Dom Fbio. - Ainda me parece mentira.
- Um descuido dela - disse Madre Anglica, apontando Bonifcia. - Ela as deixou sozinhas e foi  capela. Deve ter-se esquecido 

de fechar a porta.
O governador olhou para Bonifcia e seu rosto assumiu um ar severo e
condodo.
22
Mas um segundo depois sorriu e fez uma reverncia  superiora.
- As meninas no sabem o que fazem, Dom Fbio
- disse a superiora. - No tm noo dos perigos. Isso  o que mais nos inquieta. Um acidente, um animal.
- Ah, que meninas - disse o governador. - Veja, Bonifcia, voc tem que ser mais cuidadosa.
- Pea a Deus que no acontea nada a elas - disse a superiora. - Seno, que remorsos voc ter por toda a vida, Bonifcia.
- No as ouviram sair, madre? - perguntou Dom Fbio. - Pelo povoado no passaram. Devem ter ido pela mata.
- Saram pela horta, por isso  que no ouvimos nada
- disse Madre Anglica. - Roubaram a chave dessa boba.
- No me chame de boba, mezinha - disse Bonifcia, os olhos muito abertos. - No me roubaram.
- Boba, boba rematada - disse Madre Anglica. Ainda se atreve? E no me chame de mezinha.
- Eu abri a porta para elas - Bonifcia mal desgrudou os lbios. - Eu  que deixei que fugissem, v como no sou boba?
Dom Fbio e a superiora esticaram as cabeas para Bonifcia. Madre Anglica fechou, abriu a boca, roncou antes de poder 

falar:
- Que  que voc est dizendo? - e roncou de novo. - Voc deixou que elas fugissem?
- Sim, mezinha - disse Bonifcia. - Eu deixei.
- Voc j est ficando triste outra vez, Fusha disse Aquilino. - No seja assim, homem. Ande, converse um pouco para que 

a tristeza passe. Conte logo como foi que 
voc fugiu.
- Onde estamos, velho? - perguntou Fusha. Falta muito para entrar no
Maran'?
- Faz pouco que entramos - disse Aquilino. Voc nem percebeu, roncava como um frade.
- Foi de noite? - perguntou Fusha. - Como  que no senti as corredeiras, Aquilino?
' O rio Maran tem sua origem no lago Lauricocha, zona andina do Peru; tem mil e trezentos quilmetros de extenso e 
um dos principais formadores do Amazonas.
23
- Estava to claro que at parecia madrugada, Fusha
- disse Aquilino. - O cu estava pura estrela e o tempo era o melhor do mundo, no se mexia uma s folha. De dia h pescadores,
s vezes uma lancha da guarnio;
de noite  mais seguro. E como  que voc podia sentir as corredeiras se eu as conheo de memria? Mas no fique com essa
cara, Fusha. Pode se levantar se quiser,
deve estar com calor a debaixo dos cobertores. No h ningum, somos os donos do rio.
- vou ficar aqui - disse Fusha. - Estou sentindo frio e o meu corpo treme todo.
- Claro, homem, como for melhor para voc - disse Aquilino. - Mas ande, conte logo como foi que fugiu. E por que o prenderam?
Que idade voc tinha?
Estivera na escola e por isso o turco lhe deu um trabalhinho no seu armazm. Fazia as contas, Aquilino, nuns livrinhos que
chamam de Deve e Haver. E ainda que fosse
honrado ento, j sonhava em ficar rico. Como economizava, velho, s comia uma vez por dia, nada de cigarros, nada de bebidas.
Queria um capitalzinho para fazer
negcios. E assim so as coisas, o turco meteu na cabea que ele o roubava, pura mentira, e fez com que o prendessem. Ningum
quis acreditar que era honrado e o
meteram num calabouo com dois bandidos. No foi a coisa mais injusta, velho?
- Mas isso voc j me contou quando samos da ilha, Fusha - disse Aquilino. - Quero que voc me diga como conseguiu fugir.
- com esta gazua - disse Chango. - Foi o Iricuo que a fez com o arame do catre. J experimentamos, ela abre a porta sem
fazer rudo. Quer ver, japonesinho?
Chango era o mais velho, estava ali por essas coisas de drogas, e tratava Fusha com carinho. Iricuo, entretanto, sempre 

zombava dele. Uma fera que tinha logrado 
muita gente com o conto da herana, velho. Foi ele quem fez o plano.
- E deu tudo certo, Fusha? - perguntou Aquilino.
- Tudo certo -- disse Iricuo. - Voc no sabe que no Ano-Novo todos os guardas vo embora? S ficou um no pavilho,  preciso 

tirar as chaves dele antes que jogue 
para o outro lado da grade. Depende disso, rapazes.
- Abra logo, Chango - disse Fusha. - No agento mais, Chango, depressa.
- Voc deveria ficar, japonesinho - disse Chango.
24
Um ano passa logo. Ns no perdemos nada, mas se
falhar voc se azara, vai pegar mais uns dois anos.
Mas ele insistiu e saram, e o pavilho estava vazio. Encontraram o carcereiro dormindo junto  grade, com uma garrafa na 

mo.
- Dei nele com o p do catre e ele se desmanchou no cho - disse Fusha. - Acho que matei o cara, Chango.
- Ento voe,  idiota,  j  tenho  as chaves - disse Iricuo. -  preciso atravessar o ptio correndo. Voc tirou o revlver 

dele?
- Me deixe passar primeiro - disse Chango. - Os da porta principal tambm devem estar bbados como este.
- Mas estavam acordados, velho - disse Fusha. Eram dois e jogavam dados. Abriram uns olhos deste tamanho quando entramos.
Iricuo apontava o revlver para eles: abriam o porto ou comeava a chuva de balas, putos. E ao primeiro grito que dessem 

comeava, e que se apressassem ou comeava, 
seus putos, a chuva de balas.
- Amarre esses caras, japonesinho - disse Chango.
- com os cintures. E enfie as gravatas na boca deles. Depressa, japonesinho, depressa.
- No abrem, Chango - disse Iricuo. - Nenhuma dessas  a do porto. Nos queimamos na porta do forno, rapazes.
- Uma dessas tem que ser, continue experimentando
- disse Chango. - Que est fazendo, rapaz, por que est batendo neles?
- E por que voc batia neles, Fusha? - perguntou Aquilino. - No entendo, nesse momento a gente pensa em fugir e em mais 

nada.
- Eu tinha raiva de todos aqueles cachorros - disse Fusha. - Como tratavam a gente, velho. Sabe que tiveram de ir para 

o hospital? Nos jornais diziam crueldade 
de japons, Aquilino, vinganas de oriental. Me dava vontade de rir, eu nunca havia sado de Campo Grande e era mais brasileiro 

que qualquer um.
- Agora voc  peruano, Fusha - disse Aquilino.
- Quando o conheci em Moyobamba' voc ainda podia ser brasileiro, falava meio esquisito. Mas agora voc fala como os cristos 

daqui.
' Provncia do departamento de San Martin.
25
- Nem brasileiro nem peruano - disse Fusha. Um pobre merda, velho, um lixo, isso  o que sou agora.
- Por que voc  to violento? - perguntou Iricuo.
- Por que bateu neles? Se pegam a gente, nos matam a pauladas.
- Tudo est saindo bem, no h tempo para discutir
- disse Chango. - Vamos nos esconder, Iricuo, e voc, japonesinho, corra, roube o carro e venha voando.
- No cemitrio? - perguntou Aquilino. - Isso no  coisa de cristos.
- No eram cristos, mas bandidos - disse Fusha.
- Os jornais diziam, foram ao cemitrio para abrir tmulos. Assim  a gente, velho.
- E voc roubou o carro do turco? - perguntou Aquilino. - Como foi que pegaram o Iricuo e o Chango, e a voc no?
- Ficaram toda a noite no cemitrio me esperando disse Fusha. - A polcia prendeu os dois ao amanhecer. Eu j estava longe
de Campo Grande.
- Quer dizer  que voc  os  traiu,  Fusha - disse Aquilino.
- E por acaso no tra todo mundo? - perguntou Fusha. - Que foi que eu fiz com o Pantacha e os
huambisas'? Que foi que
eu fiz com Jum, velho?
- Mas ento voc no era mau - disse Aquilino. - Voc mesmo me disse que era honrado.
- Antes de entrar na cadeia - disse Fusha. - L deixei de ser.
- E como  que voc chegou ao Peru? - perguntou Aquilino. - Campo Grande deve ser muito longe.
- No Mato Grosso, velho - disse Fusha. - Os jornais diziam, o japons est indo para a Bolvia. Mas eu no era bobo, estive 

por todas as partes, um tempo fugindo, 
Aquilino. At que cheguei a Manaus. Da era fcil passar para Iquitos.
- E foi l que voc conheceu o Senhor Jlio Retegui, Fusha? - perguntou Aquilino.
- Naquela vez no o conheci pessoalmente - disse Fusha. - Mas ouvi falar dele.
- Que vida a sua, Fusha - disse Aquilino. - Quanta coisa voc viu, quanto viajou. Gosto de ouvi-lo, no sabe
como  divertido.
' Ou huambisas, selvagens da famlia dos jvaros que vive no rio
Santiago, na bacia do Maran (departamento de Loreto).
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Voc no tem prazer em contar tudo isso? No sente que assim a viagem passa mais depressa?
- No, velho - disse Fusha. - S sinto frio.
Ao cruzar a regio das dunas, o vento que desce da cordilheira se abrasa e endurece: armado de areia, segue o curso do rio 

e quando chega  cidade aparece entre 
o cu e a terra como uma deslumbrante couraa. Ali esvazia suas entranhas: todos os dias do ano,  hora do crepsculo, uma 

chuva seca e fina como serragem de madeira, 
que s pra  alvorada, cai sobre as praas, os telhados, as torres, os campanrios, as sacadas e as rvores, e assoalha 

de branco as ruas de Piura'. Os forasteiros 
se enganam quando dizem "As casas da cidade esto a ponto de cair"; os estalidos noturnos no provm das construes, que 

so antigas mas slidas, mas dos invisveis, 
incontveis, minsculos projteis de areia, que se estilhaam contra as portas e as janelas. Enganam-se, tambm, quando 

pensam: "Piura  uma cidade estranha, triste". 
O povo se recolhe ao lar  cada da tarde para se livrar do vento sufocante e da acometida da areia que fere a pele como 

uma pontada de agulhas e a avermelha e incomoda, 
mas nas rancharias de Castilla, nas choas de barro e cana-brava na Mangachera, nas picanteras e chicheras da
Gallinacera', 
nas residncias dos grados do Malecn 
e na Plaza de Armas, diverte-se como a gente de qualquer outro lugar, bebendo, ouvindo msica, conversando. O aspecto abandonado 

e melanclico da cidade desaparece 
 entrada de suas casas, inclusive nas mais humildes, esses frgeis casebres construdos em linha, s margens do rio, no 

outro lado do Camal'.
A noite piurana est cheia de histrias. Os camponeses falam de almas do outro mundo; no seu canto, enquanto cozinham, as
mulheres contam mexericos, desgraas. Os
homens bebem cabaas de chicha amarelinha', speros copos de aguardente.
' Departamento e capital no litoral peruano. Limita-se com o Equador, Cajamarca, Lambayeque e Tumbes.
' Espcies de restaurantes e bares que servem comidas  base de pimenta e chicha. Gallinacera, no original, favela de Piura
habitada por negros.
' Matadouro.
' A chicha  o produto da fermentao do milho, conhecida em todo o Peru.  feita do milho fermentado, durante vinte e um
dias, em buracos cavados no cho, a vinte
centmetros de profundidade,
27
Uma aguardente serrana  muito forte: os forasteiros choram quando a provam pela primeira vez. Os meninos se espojam na
terra, lutam, fecham os buraquinhos
das minhocas, fabricam armadilhas para as iguanas ou, imveis, os olhos muito abertos, ouvem as histrias dos velhos: bandoleiros 

que se desafiam nas quebradas de 
Canchaque, Huancabamba e Ayabaca', para roubar os viajantes e, s vezes, degol-los; manses onde penam espritos; curas 

milagrosas dos feiticeiros; tesouros de 
ouro e prata escondidos, que se revelam pelo rudo de correntes e gemidos; grupos de guerrilheiros que dividem os fazendeiros 

da regio em duas faces e percorrem 
o areal em todas as direes, perseguindo-se, investindo no seio da poeira descomunal, e ocupam casarios e distritos, confiscam 

animais, alistam homens  fora e 
pagam tudo com papis que chamam bnus da ptria; grupos de guerrilheiros que mesmo os adolescentes viram entrar em Piura, 

como um furaco de ginetes, armar tendas 
de campanha na Plaza de Armas e derramar fardas vermelhas e azuis pela cidade; histrias de duelos, adultrios e catstrofes, 

de mulheres que viram a Virgem da catedral 
chorar, levantar a mo para Cristo, sorrir furtivamente para o Menino Deus.
Nos sbados, geralmente, organizam festas. A alegria percorre como uma onda eltrica a Mangachera, Castilla, Gallinacera, 

as choas da beira do rio. Em toda Piura 
ressoam toadas e pasillos, valsas lentas, os huaynos que os serranos danam batendo no cho com os ps descalos, estilizadas 

marineras, tristes con fuga de tondero'.
Quando a embriaguez se propaga e cessam os cantos, o rasgado da guitarra, o troar das caixas e o choro das harpas, das rancharias 

que abraam Piura como uma muralha
surgem sombras fugazes que desafiam o vento e a areia: so casais jovens, ilcitos, que deslizam at o ralo bosque de algarobeiras 

que ensombrece o areal, vo s
praiazinhas escondidas do rio,
'' dois metros de comprimento e um metro e meio de largura. Aps a fermentao, esse milho  modo e a farinha que da resulta,
chamada de winapo, ser a chicha, aps ferv-la
pelo espao de seis a oito horas. Quando est frio o cozimento, a ele se mistura o fermento, ou koncho, da chicha do dia
anterior, numa nova fermentao que dura
doze horas. De cada arroba de winapo, obtm-se quarenta litros de boa chicha. Seu principal centro de fabricao  Arequipa.
' Cidades prximas a Piura.
' Danas peruanas, que se danam aos pares, com msicas alegres ou melanclicas, estribilho ou sapateado.
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s grutas que olham para Catacaos', os mais audazes vo at o comeo do deserto. L se amam.
No corao da cidade, nos quadrilteros que cercam a Plaza de Armas, em casares de muros caiados e sacadas com gelosias, 

vivem os fazendeiros, os comerciantes, 
os advogados, as autoridades. De noite, eles se renem nas hortas, sob as palmeiras, e falam sobre pragas que ameaam o 

algodo e os canaviais este ano, sobre se 
o rio desaguar em tempo e vir caudaloso, sobre o incndio que devorou uns roados de Chpiro Seminrio, da rinha de galos 

do domingo, do assado que organizam para 
recepcionar o recm-formado mdico da cidade: Pedro Zevallos. Enquanto jogam cartas, domin ou voltarete nos sales cheios 

de tapetes e penumbras, entre quadros 
ovalados, grandes espelhos e mveis com forro de damasco, as senhoras rezam o rosrio, negociam os futuros noivados, programam 

as recepes e as festas de beneficncia, 
sorteiam entre si as obrigaes para a procisso e o adorno dos altares, preparam quermesses e comentam os mexericos sociais 

do jornal local, uma folha em cores 
que se chama Ecos y Notcias.
Os forasteiros ignoram a vida interior da cidade. Que  que detestam em Piura? Seu isolamento, os vastos arcais que a separam 

do resto do pas, a falta de estradas, 
as extensssimas travessias a cavalo sob um sol abrasador e as emboscadas dos bandidos. Chegam ao Hotel La Estrella del 

Norte, que est na Plaza de Armas e  uma 
manso desbotada, alta como o coreto onde se toca a retreta dos domingos, e a cuja sombra se instalam os mendigos e os engraxates, 

e devem permanecer ali encerrados, 
desde as cinco da tarde, vendo atravs das cortinas como a areia se apossa da cidade solitria. No bar do La Estrella del 

Norte bebem at cair bbados. "Aqui no 
 como em Lima", dizem, "no h onde se divertir: a gente piurana no  m, mas como  austera, como  dirna." Gostariam 

de antros que fervessem toda a noite para 
queimar seus lucros. Por isso, quando partem, costumam falar mal da cidade, chegam  calnia. E h por acaso gente mais 

hospitaleira e cordial que a piurana? Recebe 
os forasteiros em triunfo, disputa-os quando o hotel est cheio. A esses negociantes de gado, aos corretores de algodo, 

a cada autoridade que chega, os grados
divertem o melhor que podem:
' Cidade prxima a Piura.
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organizam em sua honra caadas de veado nas serras de Chulucana', levam-nos a passear pelas fazendas, oferecem-lhes assados.
As portas de Castilla e da Mangachera 
esto abertas para os ndios que emigram da
serra e chegam  cidade esfomeados e atemorizados, para os feiticeiros expulsos das aldeias pelos padres, para os mercadores 

de bugigangas que vm tentar fortuna
em Piura. Chicheras, aguateros, regadores' acolhem-nos familiarmente, dividem com eles sua comida e seus ranchos. Os forasteiros
levam sempre presentes quando vo 
embora. Mas nada os contenta, tm fome de mulher e no suportam a noite piurana, onde s est acordada a areia que cai do 

cu.
Tanto desejavam mulher e diverso noturna esses ingratos, que por fim o cu ("o Diabo, o maldito chifrudo", diz o Padre 

Garcia) acabou por lhes fazer a vontade. 
E assim foi que nasceu, buliosa e frvola, noturna, a Casa Verde.
O Cabo Roberto Delgado anda algum tempo diante do gabinete do Capito Artemio Quiroga, sem se decidir. Entre o cu cinza 

e a guarnio de Borja passam lentamente 
nuvens escuras e, na esplanada vizinha, os sargentos exercitam os recrutas: sentido, porra, descanso, porra. O ar est carregado 

de uma nvoa mida. Em suma, quando 
muito, uma esculhambao, e o cabo empurra a porta e sada o capito, que est em sua mesa, abanando-se com a mo: que foi, 

que queria, e o cabo, uma licena para 
ir a Bagua', podia? Que  que havia com o cabo, o capito se abana agora furiosamente com as duas mos, que bicho o tinha 

mordido? Mas os bichos no mordiam o 
Cabo Roberto Delgado, porque era da selva, meu capito, de Bagua: queria uma licena para ver a famlia. E a estava, de 

novo, a maldita chuva. O capito fica de 
p, fecha a janela, volta  sua cadeira, com as mos e o rosto molhados. Quer dizer que os bichos no o mordiam, no era 

porque tinha sangue ruim? no queriam se 
envenenar, por isso no o mordiam, e o cabo concorda: podia ser, meu capito. O oficial sorri como um autmato, e a chuva
impregnou o gabinete de rudos: as gotas
grandes caem como pedradas sobre o zinco do teto, o vento assobia nas fendas da parede. Quando  que o cabo
tivera a ltima licena?
' Capital da provncia de Morropn, departamento de Piura.
' Chicheras, donas ou mulheres que atendem nas chicheras; aguateros, vendedores de gua; regadores, homens encarregados
de molhar as ruas para evitar o p.
' Provncia do departamento do Amazonas.
30
no ano passado? Ah, bom, esse era outro papo, e o rosto do capito se crispa. Ento tinha direito a uma licena de trs
semanas, e sua
mo se levanta, ia a Bagua? faria umas compras para ele, e bate na face, que fica vermelha. O cabo est com uma expresso 

muito sria. Por que no ria? no era 
engraado que o capito desse tapas na cara? e o cabo, no, mas que idia, meu capito, imagine. Uma chispa alegre brilha 

nos olhos do oficial, adoa sua boca amarga, 
caboclinho: ria a gargalhadas ou no ganhava licena. O Cabo Roberto Delgado olha confuso para a porta, para a janela. Ento, 

abre a boca e ri, a princpio com 
um riso amarelo e artificial, depois naturalmente e, por fim, com alegria. O pernilongo que picara o capito era uma femeazinha, 

e o cabo est estremecido de riso, 
s as fmeas picavam, sabia? os machos eram vegetarianos, e o capito, v embora logo, o cabo emudece: cuidado para que 

os bichos no o comam no caminho para Bagua 
por ser engraadinho. Mas no era piada, era uma coisa cientfica, s as femeazinhas chupavam sangue: o Tenente de La Flor 

explicara a ele, meu capito, e ao capito, 
que porra que fossem fmeas ou machos, se ardia do mesmo jeito, e quem foi que lhe perguntara, bancava o sabicho? Mas o 

cabo no estava brincando, meu capito, 
e olhe, tinha um remdio que no falhava, uma pomada que os urakusas' usavam, traria para ele uma vasilha, meu capito, 

e o capito queria que falasse em lngua 
de gente, quem so esses urakusas? Como  que o cabo podia falar de outro jeito, se  assim que chamavam os aguarunas, esses 

que viviam em Urakusa, e o capito vira, 
por acaso, um bicho picar a um selvagem? Eles tinham seus segredos, faziam suas pomadas com as resinas das rvores e se 

lambuzavam, zngo que se aproximava morria, 
e ela traria, meu capito, uma vasilha, palavra que trazia. Que bom humor tinha o cabo nessa manh, queria ver que cara 

faria se os pagos diminussem sua cachola'
e o cabo, essa  boa, essa  boa, meu capito: j estava vendo sua cabea deste tamanhinho. Que  que o cabo ia fazer em
Urakusa? S para trazer essa pomadinha? 
e o cabo, claro, claro, e depois cortava caminho, meu capito. Seno, passaria a licena viajando, e no poderia estar com 

a famlia e os
amigos.
' Tratamento dado aos aguarunas que vivem em Urakusa, na selva amaznica.
' No original, achicar la tutuma, a reduo da cabea humana, prtica conhecida pelos ndios da regio.
31
Toda a gente de Bagua era como o cabo? e ele, pior, to viva? muito pior, meu capito, nem podia imaginar, e o capito ri
gostosamente, e o cabo imita-o, observa-o,
mede-o com seus olhos quase fechados e, de sbito, podia levar um prtico, meu capito? um criado? poderia? e o Capito
Artemio Quiroga, como? O cabo pensa que
 muito sabido, no? acalmava-o com palhaadas, o capito ria e ele queria pass-lo para trs, no? Mas sozinho o cabo ia
demorar horrores, meu capito, por acaso
havia estradas? como podia ir e vir a Bagua em to poucos dias sem um prtico, e todos os oficiais fariam encomendas, fazia
falta algum que ajudasse com os pacotes,
que o deixasse levar um prtico e um criado, palavra que ele traria essa pomadinha matamosquitos, meu capito. Agora trabalhava
o seu moral: o cabo sabia todas;
e o cabo, o senhor  uma grande pessoa, meu capito. Entre os recrutas que chegaram na semana passada havia um prtico,
que levasse esse, e um criado que fosse da
regio. Escute aqui, trs semanas, nem um dia mais, e o cabo, nenhum mais, meu capito, jurava. Bate os calcanhares, faz
continncia e na porta pra, perdo, meu
capito, como se chamava o prtico? e o capito, Adrin Nieves, e o cabo, j estava indo, tinha trabalho atrasado. O Cabo
Roberto Delgado abre a porta, sai, um vento
mido e ardente invade a sala, agita levemente os cabelos do capito.
Bateram na porta, Josefino Rojas foi abri-la e no encontrou ningum na rua. J escurecia, ainda no haviam acendido os
lampies do Jirn Tacna', uma brisa circulava
tepidamente pela cidade, Josefino deu uns passos em direo  Avenida Snchez Cerro e viu os
Len, num banco da pracinha,
junto  esttua do pintor Merino. Jos
tinha um cigarro entre os lbios, Mono limpava as unhas com um palito de fsforo.
- Quem morreu? - perguntou Josefino. - Por que essas caras de enterro?
- Agarre-se bem para no cair de costas, invencvel - disse Mono. - Lituma chegou.
' Jirn, no Peru,  um correr de ruas, como uma ampla avenida, ao qual se d um nome geral e, a cada um dos quarteires 

que o formam, um nome particular.
' Em um grupo de amigos, o modo como se tratam. O autor, em Os chefes (edio Nova Fronteira), trata de outras turmas de 

meninos, que se fazem adultos mas continuam
usando o tratamento dos primeiros anos.
32
Josefino abriu a boca mas no falou; ficou piscando por alguns segundos, com um sorriso perplexo e aptico, que franzia
todo o seu rosto. Comeou a esfregar as
mos, suavemente.
- H umas duas horas, no nibus da Roggero disse Jos.
As janelas do Colgio San Miguel estavam iluminadas e, do porto, um inspetor apressava os alunos da noite batendo palmas. 

Rapazes em uniforme vinham conversando 
sob as sussurrantes algarobeiras da Calle Libertad. Josefino enfiara as mos nos bolsos.
- Seria bom que voc viesse - disse Mono. - Est nos esperando.
Josefino voltou a atravessar a avenida, fechou a porta de sua casa, retornou  pracinha, e os trs comearam a andar, em 

silncio. Uns metros depois do Jirn Arequipa, 
passaram pelo Padre Garcia que, enrolado no seu cachecol cinza, avanava, dobrado em dois, arrastando os ps e ofegante. 

Mostrou-lhes o punho e gritou "Ateus!" "Incendirio!",
retrucou Mono, e Jos "Incendirio, incendirio!" Iam pela calada da direita. Josefino no meio.
- Mas os nibus da Roggero chegam de manhzinha, ou de noite, nunca a esta hora - disse Josefino.
- Ficaram retidos na Cuesta de Olmo' - disse Mono. Furou um pneu. Trocaram, e depois furaram outros
dois. Que gente de sorte.
- Ficamos gelados quando o vimos - disse Jos.
- Queria sair logo para festejar - disse Mono. Ns o deixamos registrando-se no hotel, para vir buscar voc.
- Que azar - disse Josefino. - Me pegou desprevenido.
- Que vamos fazer agora? - perguntou Jos.
- O que voc mandar, primo - disse Mono.
- Tragam o coleguinha, ento - disse Lituma. Tomaremos uns traguinhos com ele. Vo busc-lo, digam a ele que o invencvel 

nmero quatro voltou. Vamos ver que cara 
faz.
- Est falando srio, primo? - perguntou Jos.
- Muito srio - disse Lituma.
' Litoral do departamento de Lambayegue, ao norte do Peru.
33
- Trouxe a umas garrafas de Sol de Ica!, esvaziaremos uma com ele. Tenho vontade de v-lo, palavra. Vo, enquanto mudo 
de roupa.
- Cada vez que fala de voc diz o coleguinha, o invencvel - disse Mono. - Gosta tanto de voc como de ns.
- Imagino que encheu vocs de perguntas - disse Josefino. - Que foi que contaram a ele?
- Voc se engana, no falamos disso de jeito nenhum
- disse Mono. - Nem sequer a mencionou. Talvez tenha esquecido dela.
- Logo que a gente chegar, ele descarrega um monto de perguntas - disse Josefino. -  preciso acertar isso hoje mesmo,
antes que lhe contem histrias.
- Voc se encarregar - disse Mono. - Eu no me atrevo. Que lhe dir voc?
- No sei - disse Josefino -, depende de como se apresentem as coisas. Se pelo menos tivesse avisado que vinha. Mas aparecer
assim, de supeto. Que azar, eu no
o esperava.
- Deixe de esfregar tanto as mos - disse Jos. Assim voc me contagia com seus nervos, Josefino.
- Mudou muito - disse Mono. - A gente j nota um pouco os anos, Josefino. Mas agora no est to gordo.
Os lampies da Avenida Snchez Cerro acabavam de se acender e as casas eram ainda grandes, suntuosas, de paredes claras,
sacadas de madeira lavrada e aldravas de
bronze, mas ao fundo, nos estertores azuis do crepsculo, aparecia j o perfil encurvado e confuso da Mangachera. Uma caravana
de caminhes desfilava pela pista,
em direo ao Puente Nuevo e, nas caladas, havia casais encolhidos contra os portes, grupos de rapazes, lentos ancios
com bengalas.
- Os brancos ficaram valentes - disse Lituma. Agora passeiam pela Mangachera como em sua casa.
- A culpa  da avenida - disse Mono. - Tem sido uma verdadeira foda contra os mangaches. Quando a estavam construindo, o
harpista dizia nos foderam, acabou-se a
liberdade, todo mundo vir meter o nariz aqui no bairro. Dito e feito, primo.
- No h branco que no acabe agora suas festas nas chicheras - disse Jos. - Voc j viu como Piura cresceu,
primo?
' Marca de pisco, uma aguardente de uva, elaborada tradicionalmente no departamento de Ica e exportada pelo seu porto de
Pisco;  um tipo de bagaceira.
34
H edifcios novos por toda parte. Embora isso no chame a sua ateno, vindo de Lima.
- vou dizer uma coisa a vocs - disse Lituma. Acabaram-se as viagens para mim. Todo este tempo tenho pensado  e percebi
que  me dei mal por no  ter ficado na minha
terra, como vocs. Pelo menos isso aprendi, quero morrer aqui.
- Pode ser que mude de idia quando souber o que se passa - disse Josefino. - Ter vergonha quando as pessoas o apontarem
com o dedo na rua. E ento ir embora.
Josefino parou e tirou um cigarro. Os Len fizeram uma proteo com as mos para que a brisa no apagasse o fsforo. Continuaram
andando, devagar.
- E se no vai? - perguntou Mono. - Piura ficar pequena para os dois, Josefino.
- Acho difcil que Lituma v embora, ele voltou piurano at a medula - disse Jos. - No  como quando voltou da montanha,
que tudo aqui cheirava mal. Em Lima despertou
nele o amor pela terra.
- Nada de comidas chinesas - disse  Lituma. Quero pratos piuranos. Um bom assado de cabrito novo, tira-gosto e muita chicha
clarinha.
- Vamos ento at a Anglica Mercedes, primo disse Mono. - Continua sendo a rainha das cozinheiras. Voc no se esqueceu
dela, no  mesmo?
- Melhor a Catacaos, primo - disse Jos. - No Carro Hundido, l a chicha clarinha  a melhor que conheo.
- Que contentes vocs ficaram com a volta de Lituma
- disse Josefino. - Os dois at parecem felizes.
- Apesar  de  tudo,    nosso  primo,  um  invencvel
- disse Mono. - Sempre d prazer ver de novo a algum da famlia.
- Temos que lev-lo a algum lugar - disse Josefino.
- Prepar-lo um pouco, antes de lhe contar.
- Calma, Josefino - disse Mono -, no terminamos de contar.
- Amanh iremos  Dona Anglica - disse Lituma.
- Ou  Catacaos, se preferem. Mas hoje j sei onde festejar o meu regresso, vocs tm de me fazer a vontade.
- Aonde merda quer ir? - perguntou Josefino. Ao Reina, ao Trs Estrellas?
-  casa da Chunga Chunguita - disse Lituma.
- Que coisa - disse Mono. - Nada menos que  Casa Verde. Imagine s, invencvel.
35



II.


- Voc continua o mesmo demnio de sempre disse Madre Anglica, e inclinou-se para Bonifcia, estendida no cho, como uma
escura, compacta alimria. - Uma malvada
e uma ingrata.
- A ingratido  o pior, Bonifcia - disse a superiora, lentamente. - At os animais so agradecidos. Voc j reparou nos
micos, quando jogam bananas para eles?
Os rostos, as mos, os vus das madres pareciam fosforescentes na penumbra da despensa; Bonifcia continuava imvel.
- Algum dia voc entender o que fez e se arrepender - disse Madre Anglica. - E se no se arrepender, voc ir para o
inferno, perversa.
As pupilas dormem num quarto comprido, estreito, fundo como um poo; nas paredes nuas h trs janelas que do para o Nieva,
a nica porta comunica com o largo ptio
da misso. No cho, apoiados contra a parede, esto os catrezinhos dobrveis de lona: as pupilas dobram-nos ao se levantar, 

desdobram-nos e os estendem de noite.
Bonifcia dorme num catre de madeira, no outro lado da porta, num quartinho que  como uma cunha entre o dormitrio das 

pupilas e o ptio. Sobre seu leito h um
crucifixo e, ao lado, um ba. As celas das madres esto no outro extremo do ptio, na residncia: uma construo branca, 

com teto de duas guas, muitas janelas
simtricas e uma slida varanda de madeira. Junto  residncia esto o refeitrio e a sala de costura, que  onde as pupilas 

aprendem a falar lngua crist, a soletrar,
somar, coser e bordar. As aulas de religio e de moral so dadas na capela.
36
Num canto do ptio h uma construo parecida com um hangar, que confina com a horta da misso; sua alta chamin avermelhada 

destaca-se entre os ramos invasores
da mata:  a cozinha.
- Voc era deste tamanho, mas j se podia adivinhar o que seria - a mo da superiora estava a meio metro do cho. - Sabe 

do que falo, no  verdade?
Bonifcia virou-se, levantou a cabea, os olhos examinaram a mo da superiora. At aquele canto da despensa chegava a tagarelice 

dos papagaios na horta. Pela janela,
j aparecia a ramada escura das rvores, inextricvel. Bonifcia apoiou os cotovelos no cho: no sabia, madre.
- Tambm no sabe tudo o que temos feito por voc, no ? - estourou Madre Anglica, que andava de um lado para outro, os
punhos fechados. - Nem sabe como era quando
ns a recolhemos, no ?
- Como quer que eu saiba - sussurrou Bonifcia. Era muito pequena, mezinha, no me lembro.
- Olhe s a vozinha que ela faz, madre, que dcil parece - gritou Madre Anglica. - Voc pensa que pode me enganar? Por 

acaso no a conheo? E com permisso de 
quem voc continua a me chamar de mezinha?
Depois das oraes da noite, as madres entram no refeitrio e as pupilas, precedidas por Bonifcia, dirigem-se ao dormitrio. 

Estendem suas camas e, quando esto 
deitadas, Bonifcia apaga as lamparinas, fecha a porta  chave, ajoelha-se ao p do crucifixo, reza e se deita.
- Voc corria para a horta, cavoucava a terra e logo que achava uma minhoca, um verme, metia-o na boca disse a superiora. 

- Andava sempre doente, e quem curava e 
cuidava de voc? Tambm no se lembra disso?
- E vivia nua - gritou Madre Anglica - e eu tinha prazer em fazer vestidos para voc;   e voc os arrancava e saa mostrando
as vergonhas para todo mundo, e j
devia ter mais de dez anos. Tinha maus instintos, demnio, voc s sentia prazer na imundcie.
Terminara a estao das chuvas e anoitecia depressa: atrs do encrespamento de ramos e folhas da janela, o cu era uma constelao
de formas sombrias e de brilhos. 
A superiora estava sentada sobre um fardo, muito ereta, e Madre Anglica ia e vinha, agitando o punho, s vezes sungava 

a manga do hbito e aparecia o brao, uma 
delgada viborazinha branca.
- Nunca poderia imaginar que voc fosse capaz de uma coisa assim
37
- disse a superiora. - Como foi, Bonifcia? Por que  que voc fez isso?
- Ser que no se lembrou de que podiam morrer de fome ou se afogar no rio? - perguntou Madre Anglica. Que pegariam febres?
No pensou em nada, bandida?
Bonifcia soluou. A despensa estava impregnada por um cheiro de terra cida e vegetais midos que vinha e se acentuava
com as sombras. Um cheiro espesso e picante,
noturno, parecia atravessar a janela misturado ao cricrilar de grilos e cigarras, muito ntido j.
- Voc era como um animalzinho e aqui ganhou um lar, uma famlia, um nome - disse a superiora. - Tambm demos um Deus a
voc. Isso no significa nada para voc?
- No tinha o que comer nem o que vestir - grunhiu Madre Anglica - e ns a criamos, vestimos, educamos. Por que voc fez
isso com as meninas, malvada?
De quando em quando, um estremecimento percorria o corpo de Bonifcia, da cintura aos ombros. O vu estava solto e os cabelos
lisos ocultavam parte de sua testa.
- Pare de chorar, Bonifcia - disse a superiora. Fale logo.
A misso desperta  alvorada, quando ao rumor dos insetos sucede o canto dos pssaros. Bonifcia entra no dormitrio agitando
uma campainha: as pupilas saltam dos
catrezinhos, rezam ave-marias, vestem os guardaps. Logo se repartem em grupos pela misso, de acordo com as obrigaes:
as menores varrem o ptio, a residncia,
o refeitrio; as maiores, a capela e a sala de costura. Cinco pupilas carregam latas de lixo para o ptio e esperam Bonifcia.
Guiadas por ela, descem o caminho,
atravessam a Plaza de Santa Maria de Nieva, as plantaes e, antes de chegar  cabana do prtico Nieves, internam-se por
um atalho que serpenteia entre capanahuas,
juaras e tucuns e desemboca em uma pequena garganta, que  a lixeira do povoado. Uma vez por semana, os criados do Prefeito
Manuel Aguilla fazem uma grande fogueira 
com o lixo. Os aguarunas dos arredores vm toda tarde pilhar por ali, e uns esgaravatam o lixo em busca de coisas comveis 

e de objetos caseiros, enquanto outros 
espantam a gritos e a pauladas as aves carniceiras que planam cobiosamente sobre a garganta.
- No se importa que essas meninas voltem a viver na indecncia e no pecado? - perguntou a superiora. Que percam tudo o
que aprenderam aqui?
- Sua alma continua pag,
38
ainda que voc fale como crist e j no ande nua -- disse Madre Anglica. - No s no se importa, madre, mas ela as fez
fugir porque queria que voltassem a ser 
selvagens.
- Elas queriam ir - disse Bonifcia; - saram ao ptio e vieram at a porta, e em seus rostos vi que tambm queriam ir com 

aquelas duas que chegaram ontem.
- E voc fez a vontade delas! - gritou Madre Anglica. - Porque tinha raiva delas! Porque lhe davam trabalho e voc odeia 

o trabalho, preguiosa! Demnio!
- Acalme-se, Madre Anglica - a superiora levantou-se.
Madre Anglica levou a mo ao peito, tocou na testa: as mentiras a tiravam do srio, madre, sentia muito.
- Foi por causa das duas que voc trouxe ontem, mezinha - disse Bonifcia. - Eu no queria que as outras fossem embora, 

s aquelas duas, porque fiquei com pena. 
No grite assim, mezinha, depois voc adoece, sempre que voc se zanga, adoece.
Quando Bonifcia e as pupilas que carregam o lixo regressam  misso, Madre Griselda e suas ajudantes j prepararam a refeio 

da manh: fruta, caf e um pozinho 
que se faz no forno da misso. Depois da refeio, as pupilas vo  capela, recebem lies de catecismo e histria sagrada 

e aprendem as oraes. Ao meio-dia, voltam 
 cozinha e, sob a direo de Madre Griselda - vermelha, sempre agitada e loquaz - preparam o almoo: sopa de legumes, 
peixe, mandioca, dois pezinhos, fruta e
gua do filtro. Depois, as pupilas podem brincar uma hora pelo ptio e a horta, ou sentar-se  sombra das rvores frutferas.
Em seguida, sobem  sala de costura. 
s recm-chegadas Madre Anglica ensina o castelhano, o alfabeto e os nmeros. A superiora tem a seu cargo os cursos de 

histria e de geografia, Madre ngela, o 
desenho e as artes domsticas, e Madre Patrocinio, as matemticas. Ao entardecer, as madres e as pupilas rezam o rosrio 

na capela, e essas voltam a se repartir 
em grupos de trabalho: a cozinha, a horta, a despensa, o refeitrio. A refeio da noite  mais leve que a da manh.
- Contavam coisas do seu povo para me convencer, madre - disse Bonifcia. - Me ofereciam tudo e fiquei com pena.
- Voc nem sequer sabe mentir, Bonifcia - a superiora desenlaou as mos, que revoaram brancamente nas trevas azuis, e 

se juntaram de novo numa forma redonda.
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- As meninas que Madre Anglica trouxe de Chicais no falavam lngua crist, v como voc peca em vo?
- Eu falo como os pagos, madre, s que voc no sabia - Bonifcia levantou a cabea, duas chaminhas verdes cintilaram um 

segundo sob um mato de cabelos. Aprendi 
de tanto ouvir  as pagzinhas e no lhe contei nunca.
- Mentira, demnio - gritou Madre Anglica, e a forma redonda se desfez e adejou suavemente. - Veja s o que inventa agora, 

madre. Bandida!
Foi, porm, interrompida por uns grunhidos que brotaram como se na despensa estivesse escondido um animal que, subitamente 

enfurecido, se delatasse uivando, roncando, 
ronronando, provocando rudos altos e rangentes, vindos da escurido, numa espcie de desafio selvagem.
- V, mezinha? - disse Bonifcia. - Voc no entendeu o meu pago?
Todos os dias h missa, antes da refeio da manh. Oficiam-na os jesutas de uma misso vizinha, geralmente o Padre Venancio. 

A capela abre suas portas laterais 
nos domingos para que os habitantes de Santa Maria de Nieva possam assistir ao ofcio. As autoridades nunca faltam e s 

vezes vm agricultores, caucheiros da regio 
e muitos aguarunas, que permanecem s portas, seminus, espremidos e contidos.  tarde, Madre Anglica e Bonifcia levam 

as pupilas  beira do rio, deixam-nas botar 
os ps na gua, pescar, subir nas rvores. Nos domingos, o almoo  mais abundante e costuma incluir carne. As pupilas so 

umas vinte, de idades que vo de seis
a quinze anos, todas aguarunas. s vezes, h entre elas uma moa guambisa e at uma
shapra'. Mas no  comum.
- No gosto de me sentir intil, Aquilino - disse Fusha. - Queria que fosse como antes. A gente se revezaria, voc se lembra?
- Me lembro, homem - disse Aquilino. - Se foi por sua causa que me tornei o que sou.
-  verdade, voc ainda estaria vendendo gua de casa em casa se eu no tivesse chegado a Moyobamba disse Fusha. - Que 

medo que voc tinha do rio, velho.
' ndios jvaros que vivem nas margens do rio Morona, no departamento de Loreto.
40
- S do Mayo, porque quase me afoguei nele, quando moo - disse Aquilino. - Mas eu nadava sempre no Rumiyacu'.
- O Rumiyacu? - perguntou Fusha. - Passa por Moyobamba?
- Aquele rio mansinho, Fusha -- disse Aquilino -, o que atravessa as runas, perto de onde vivem os
lamistas'. Tem muitos laranjais. Voc no se lembra nem das
laranjas mais doces do mundo?
- Tenho vergonha de ver voc suando todo o dia, e eu aqui, como um morto - disse Fusha.
- Mas no  preciso remar, homem -- disse Aquilino -, s seguir o rumo. Agora que passamos os pongos, o Maran faz o trabalho
sozinho. O que eu no gosto  que
voc fique calado, e que se ponha a olhar o cu como se estivesse vendo o Chulla-Chaqu.
- Mas eu nunca vi - disse Fusha. - E aqui na selva todos viram, pelo menos uma vez, menos eu. Falta de sorte tambm nisso.
- Melhor dizer boa sorte - disse Aquilino. - Voc sabia que ele apareceu uma vez ao Senhor Retegui? Numa quebrada do Nieva,
dizem. Mas viu que mancava muito, e numa
dessas descobriu-lhe a pata pequeninha e correu com ele a balaos. A propsito, Fusha, por que  que voc brigou com o
Senhor Retegui?  Voc deve ter feito uma
boa para ele.
Fizera muitas, e a primeira, antes de conhec-lo, recm-chegado a Iquitos, velho. Muito depois  que contou a ele e Retegui
ria, quer dizer que foi voc que logrou
o pobre do Dom Fbio? e Aquilino, o Senhor Dom Fbio, o governador de Santa Maria de Nieva?
- Para servi-lo, senhor - disse Dom Fbio. - O que deseja? Ficar muito tempo em Iquitos?
Ficaria um bom tempo, talvez definitivamente. Um negcio de madeira, sabia? ia instalar uma serraria perto de
Nauta'
e esperava uns engenheiros. Tinha trabalho
atrasado e pagaria mais, mas queria um quarto grande, cmodo, e Dom Fbio, no faltava mais nada, senhor, estava ali para 

servir os clientes, velho: engoliu-a inteira.
- Me deu o melhor quarto do hotel - disse Fusha.
' Rios do departamento de So Martin.
' De lamas, selvagens da regio central peruana.
' Capital da provncia de Loreto, no departamento de Loreto. Fica na confluncia dos rios Amazonas e Ucayali.
41
- Com janelas sobre um jardim onde havia palmeiras. Me convidava para almoar com ele e falava pelos cotovelos do seu patro.
Eu mal o entendia, meu espanhol
era muito ruim nesse tempo.
- O Senhor Retegui no estava em Iquitos? - perguntou Aquilino. - J era rico?
- No, ficou rico de verdade depois, com o contrabando - disse Fusha. - Mas j tinha aquele hotelzinho e comeava a negociar 

com as tribos, por isso se meteu 
em Santa Maria de Nieva. Comprava caucho, couros, e vendia em Iquitos. Foi l que tive a idia, Aquilino. Mas  sempre a 

mesma coisa, era necessrio um capitalzinho 
e eu no tinha um centavo.
- E voc roubou muito dinheiro, Fusha? - perguntou Aquilino.
- Cinco mil soles', Dom Jlio - disse Dom Fbio. Meu passaporte e uns talheres de prata. Estou amargurado, Senhor Retegui, 

calculo o mal que o senhor pensar de mim. 
Mas eu pagarei tudo, juro, com o suor da minha testa, Dom Jlio, at o ltimo centavo.
- Voc nunca teve remorsos, Fusha? - perguntou Aquilino. - Faz um monto de anos que estou para perguntar isso a voc.
- Por roubar do cachorro do Retegui?  - disse Fusha. - Ele  rico porque roubou mais que eu, velho. Mas ele comeou com 

alguma coisa, e eu no tinha nada. Esse 
foi sempre o meu azar, ter que comear do zero.
- E para que serve a cabea? - perguntou Jlio Retegui. - Como  que no pensou sequer em pedir os documentos dele, Dom 

Fbio?
Mas ele pedira e o passaporte parecia novinho, como podia saber que era falso, Dom Jlio? E, alm disso, chegou to bem-vestido 

e falando de um jeito que convencia. 
Ele, inclusive, dizia quando o Senhor Retegui voltar de Santa Maria de Nieva eu o apresentarei e juntos faro grandes negcios. 

Como tinha sido ingnuo, Dom Jlio.
- Que  que levava naquela maleta, Fusha? - perguntou Aquilino.
- Mapas da Amaznia, Senhor Retegui - disse Dom Fbio. - Enormes, como os que h no quartel. Pregou-os no seu quarto e 

dizia  para saber de onde extrairemos a
madeira.
' Moeda peruana.
42
Tinha feito marcas e anotaes em portugus, veja s que estranho.
- No tem nada de estranho, Dom Fbio - disse Fusha. - Alm de madeira, tambm me interessa o comrcio. E, s vezes,  

til ter contatos com os ndios. Por isso 
assinalei as tribos.
- At as do Maran e as do Ucayali', Dom Jlio disse Dom Fbio -, e eu pensava, que homem empreendedor, ele far uma boa
dupla com o Senhor Retegui.
- Voc se lembra de quando queimamos seus mapas?
- perguntou Aquilino. - Puro lixo, os que fazem mapas no sabem que a Amaznia  como uma mulher ardente, nunca fica quieta. 

Aqui tudo se altera, os rios, os animais, 
as rvores. Eta terra louca a que nos tocou, Fusha.
- Ele tambm conhece a selva a fundo - disse Dom Fbio. - Quando voltar do alto Maran eu o apresentarei e sero bons amigos, 

senhor.
- Aqui em Iquitos todos me falam maravilhas dele
- disse Fusha. - Tenho muita vontade de conhec-lo. No sabe quando vem de Santa Maria de Nieva?
- Tem seus negcios por l e, depois, o governo lhe toma tempo, mas sempre d suas escapadinhas - disse Dom Fbio. - Uma 

vontade de ferro, senhor. Herdou-a do pai, 
outro grande homem. Foi um dos grandes do caucho, na grande poca de Iquitos. Na depresso, se matou. Perderam at a camisa. 

Mas Dom Jlio se levantou, sozinho. 
Uma vontade de ferro, eu garanto.
- Uma vez, em Santa Maria, ofereceram um almoo a ele e ouvi um discurso seu - disse Aquilino. - Falou do pai com muito 

orgulho, Fusha.
- O pai era um de seus temas - disse Fusha. Para mim tambm falava dele a propsito de tudo, quando trabalhamos juntos. 

Ah, aquele cachorro do Retegui, rabudo 
de merda. Sempre tive inveja dele, velho.
- To branquinho, to carinhoso - disse Dom Fbio.
- E pensar que o agradava, que lambia seus ps, ele entrava no hotel e o Jesus Cristo abanava o rabinho, contentssimo. 

Que homem mau, Dom Jlio.
- Em Campo Grande, batendo nos guardas, e em Iquitos, matando um gato - disse Aquilino. - Que belas despedidas, Fusha.
- Na verdade, Dom Fbio, isso no me parece to grave
' Afluente do Amazonas, atravessa o departamento de Loreto.
43
- disse Jlio Retegui. - O que sinto  que levasse meu dinheiro.
Mas ele sentia muito. Dom Jlio, enforcado no mosquiteiro por um lenol, e entrar no quarto e de repente v-lo, danando 

no ar, teso, com seus olhinhos saltados. 
A maldade pela maldade era coisa que no compreendia, Senhor Retegui.
- O homem faz o que pode para viver e eu compreendo os seus roubos - disse Aquilino. - Mas por que fazer isso ao gato?, 

foi de raiva, porque voc no tinha um capitalzinho 
para comear?
- Tambm por isso - disse Fusha. - E depois o bicho cheirava mal, e mijou na minha cama um monto de vezes.
E tambm coisa de asiticos, Dom Jlio, tinha uns costumes canalhas, ningum entendia e ele procurava saber e por exemplo 

os chineses de Iquitos criavam gatos em 
gaiolas, engordavam-nos com leite, e depois os metiam na panela, e os comiam, Senhor Retegui. Mas ele queria falar agora 
das 
compras, Dom Fbio, para isso viera de 
Santa Maria de Nieva, que esquecessem as coisas tristes, tinha comprado?
- Tudo o que o senhor encomendou, Dom Jlio disse Dom Fbio -, os espelhinhos, as facas, os tecidos, as miangas, e com 

bons descontos. Quando  que o senhor volta 
ao alto Maran?
- No podia entrar sozinho na selva para fazer comrcio, precisava de um scio - disse Fusha. - E tinha que buscar um longe 

de Iquitos, depois daquela confuso.
Por isso  que voc foi a Moyobamba - disse Aquilino.   E ficou meu amigo, para que o acompanhasse s
tribos. Foi assim que voc comeou a imitar Retegui antes mesmo de v-lo, antes de ser seu empregado. Voc s falava de 

dinheiro, Fusha, venha comigo, Aquilino, 
num ano voc fica rico, me deixava louco com aquela cantilena.
E voc est vendo, tudo por gosto - disse Fusha.
- Me sacrifiquei mais que qualquer um, ningum arriscou tanto como eu, velho.  justo que acabe assim, Aquilino?
- So coisas de Deus, Fusha - disse Aquilino. Isso no cabe a ns julgar.
Numa calorenta madrugada de dezembro, um homem chegou a Piura. Sobre uma mula que se arrastava
penosamente,
44
surgiu de repente entre as dunas do sul: uma silhueta com chapu de abas largas, envolta num poncho leve. Atravs da avermelhada 

luz da madrugada, quando
as lnguas de sol comeam a rastejar pelo deserto, o forasteiro descobriria alvoroado a apario dos primeiros matagais 

de cactos, as algarobeiras calcinadas, as 
casas brancas de Castilla, que se apinham e multiplicam  medida que se aproximam do rio. Avanou atravs de um ar denso 

at a cidade, que j via, na outra margem, 
reverberando como um espelho. Atravessou a nica rua de Castilla, deserta ainda e, ao chegar ao Viejo Puente, desmontou. 

Esteve uns segundos contemplando as construes 
da outra margem, as ruas caladas, as casas com sacadas, o ar coalhado de grozinhos de areia, que desciam suavemente, a 

macia torre da catedral, com seu redondo 
sino cor de fuligem, e, para o norte, as manchas esverdeadas das chcaras, que seguem o curso do rio em direo a Catacaos. 

Tomou as rdeas da mula, atravessou o 
Viejo Puente e, batendo nas pernas com o chicote de quando em quando, percorreu a rua principal da cidade, aquela que segue 

reta e elegante, do rio at a Plaza 
de Armas. Ali parou, atou o animal a um tamarindeiro, sentou no cho, baixou as abas do chapu para se defender da areia 

que fustigava seus olhos sem piedade. Devia 
ter realizado uma longa viagem: seus movimentos eram lentos, fatigados. Quando, acabada a chuva de areia, os primeiros piuranos 

apareceram na praa inteiramente 
iluminada pelo sol, o estranho dormia. A seu lado jazia a mula, o focinho coberto de baba esverdeada, os olhos em branco. 

Ningum se atrevia a acord-lo. A notcia 
se propagou pelos arredores, logo a Plaza de Armas ficou cheia de curiosos que, s cotoveladas, murmuravam sobre o forasteiro, 

empurravam-se para chegar junto a 
ele. Alguns subiram ao coreto, outros o observaram empoleirados nas palmeiras. Era um jovem atltico, de ombros quadrados, 

uma barbicha crespa cobria seu rosto e 
a camisa sem botes deixava ver um peito cheio de msculos e plos. Dormia com a boca aberta, roncando suavemente; entre 

os lbios ressequidos apareciam dentes 
como os de um mastim: amarelos, grandes, carnvoros. Suas calas, suas botas, o poncho desbotado estavam em tiras, muito 

sujos, a mesma coisa com o chapu. No 
estava armado. Ao acordar, ps-se em p de um salto, em atitude defensiva: sob as plpebras inchadas, os olhos perscrutavam 

cheios de inquietao a multido de rostos. 
De todos os lados brotaram sorrisos, mos espontneas,
45
um ancio abriu caminho at ele aos empurres e entregou-lhe uma cabaa de gua fresca. Ento, o desconhecido sorriu. Bebeu 

devagar, saboreando a gua com avidez, 
os olhos aliviados.
Havia um murmrio crescente, todos se esforavam para conversar com o recm-chegado, interrogavam-no sobre a viagem, lamentavam 

a morte da mula. Ele agora ria abertamente, 
apertava muitas mos. Logo, deu um tiro, arrancou os alforjes da sela do animal e perguntou por um hotel. Rodeado de piuranos 

solcitos, atravessou a Plaza de Armas 
e entrou no La Estrella del Norte: estava cheio. Eles o tranqilizaram, muitas vozes lhe ofereceram hospitalidade. Alojou-se 

na casa de Melchor Espinoza, um velho
que vivia s, no Malecn, perto do Viejo Puente. Tinha uma pequena chcara distante, nas margens do
Chira', para onde ia duas vezes por ms. Naquele ano, Melchor
Espinoza obteve um recorde: hospedou cinco forasteiros. Normalmente, eles permaneciam em Piura o tempo indispensvel para 

comprar uma colheita de algodo, vender 
umas reses, colocar uns produtos: quer dizer, uns dias, umas semanas quando muito.
O estranho, ao contrrio, ficou. Os piuranos descobriram poucas coisas sobre ele, quase todas negativas: no era comerciante 

de gado, nem arrecadador de impostos, 
nem agente de viagens. Chamava-se Anselmo e dizia ser peruano, mas ningum conseguiu reconhecer a procedncia do seu sotaque: 

no tinha a fala arrastada e afeminada 
dos limenhos, nem a cantante entonao de um chiclayano'; no pronunciava as palavras com a viciosa perfeio da gente de 

Trujillo', nem deveria ser serrano, pois
no estalava a lngua nos erres e nos esses. Seu sotaque era diferente, muito musical e um pouco lnguido, inslitos os 

circunlquios e modismos que empregava e, 
quando discutia, a violncia de sua voz fazia pensar em um capito de guerrilhas. Os alforjes, que constituam toda a sua 

bagagem, deviam estar cheios de dinheiro: 
como  que atravessara o areal sem ser assaltado pelos bandidos? Ningum conseguiu saber de onde vinha, nem por que havia 

escolhido Piura por destino.
No dia seguinte  sua chegada, apareceu na Plaza de Armas barbeado, e a juventude do seu rosto surpreendeu
a todo mundo.
' Rio que atravessa o departamento de Piura, na provncia de Paita e Sullana; desemboca no oceano Pacfico.
' Natural de Chidayo, provncia de Chiclayo, departamento de Lambayeque.
' Capital do departamento de La Libertad; situada na provncia de Trujillo, s margens do oceano Pacfico.
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No armazm do espanhol Eusebio Romero, comprou umas calas novas e botas; pagou  vista. Dois dias mais tarde, encomendou 

a Saturnina, crebre tecedeira
de Catacaos, um chapu de palha branca, desses que se podem guardar no bolso, e depois ficam sem nenhum amassado. Todas 

as manhs, Anselmo ia  Plaza de Armas e, 
instalado no terrao do La Estrella del Norte, convidava os passantes a beber. Assim fez amigos. Era conversador e brincalho, 

e conquistou os piuranos celebrando 
os encantos da cidade: a simpatia do seu povo, a beleza das mulheres, seus esplndidos crepsculos. Logo aprendeu o jeito 

da linguagem local e sua toada quente, 
preguiosa: em poucas semanas dizia "gu" para demonstrar espanto, chamava "churres" s crianas, "piajenos" aos burros, 

formava superlativos de superlativos, sabia 
distinguir a clarinha da chicha espessa e as variedades de pimentas, sabia de cor os nomes das pessoas e das ruas, e danava 

o tondero como os mangaches.
Sua curiosidade no tinha limites. Mostrava um interesse insacivel pelos costumes e usos da cidade, informava-se, com luxo 

de detalhes, sobre vidas e mortes. Queria 
saber tudo: quem eram os mais ricos, e por que, e desde quando; se o governador, o prefeito e o bispo eram ntegros e queridos, 

e quais eram as diverses do povo, 
que adultrios, que escndalos inquietavam as beatas e os padres, de que modo os piuranos cumpriam seus deveres para com 

a religio e a moral, que formas adotava 
o amor na cidade.
Ia todos os domingos ao Coliseo e exaltava-se nas rinhas de galo como um velho aficionado, de noite era o ltimo a abandonar 

a cantina do La Estrella del Norte, 
jogava cartas com elegncia, apostando alto, e sabia ganhar e perder sem se alterar. Assim conquistou a amizade de comerciantes 

e fazendeiros e se fez popular. 
Os grados convidaram-no para uma caada em Chulucanas e ele deslumbrou a todos com sua pontaria. Ao passar por ele, na 

rua, os camponeses chamavam-no familiarmente 
pelo nome e ele lhes dava palmadas speras e cordiais. O povo apreciava seu esprito jovial, a desenvoltura de suas maneiras, 

sua liberalidade. Mas todos viviam 
intrigados com a origem do seu dinheiro e com seu passado. Comearam a circular boatos sobre ele: quando chegavam a seus 

ouvidos, Anselmo saudava-os com gargalhadas, 
no os desmentia nem os confirmava. s vezes percorria com amigos as chicheras mangaches e terminava sempre na Anglica 

Mercedes,
47
porque ali havia uma harpa e ele era um harpista consumado, inimitvel. Enquanto os outros sapateavam e bebiam, ele, horas
a fio, num canto, acariciava as cordas
brancas, que
lhe obedeciam docilmente e, a seu mando, podiam sussurrar, rir, soluar.
Os piuranos deploravam apenas que Anselmo fosse descorts e olhasse as mulheres com atrevimento quando estava bbado. s 

criadas descalas que atravessavam a Plaza 
de Armas em direo ao mercado, s vendedoras que, com cntaros ou vasilhas de barro na cabea, iam e vinham, oferecendo 

sucos de sapoti e de manga, e queijinhos 
frescos da serra, s senhoras com luvas, vus e rosrios, que desfilavam para a igreja, a todas fazia propostas em voz alta 

e improvisava rimas de apurado colorido. 
"Cuidado, Anselmo", diziam-lhe os amigos, "os piuranos so ciumentos. Um marido ofendido, um pai genioso o desafiar para 

um duelo no dia em que menos esperar; mais 
respeito com as mulheres." Anselmo, porm, respondia com uma gargalhada, levantava o copo e brindava por Piura.
No aconteceu nada no primeiro ms de sua estada na cidade.
No  para tanto e, alm disso, tudo se arranjava neste mundo, o sol cintila nos olhos de Jlio Retegui e as garrafas esto 

em uma talha cheia de gua. Ele mesmo 
serve os copos; a espuma branca borbulha, infla-se e rompe em crateras: no deviam se preocupar e, antes de tudo, outro 

copinho de cerveja. Manuel Aguila, Pedro 
Escabino e Arvalo Benzas bebem, enxugam os lbios com as mos. Atravs da tela metlica das janelas v-se a Plaza de Santa 

Maria de Nieva, um grupo de aguarunas 
mi mandioca em uns recipientes bojudos, vrios garotinhos correm ao redor dos troncos de capirona. No alto, nas colinas, 

a residncia das madres  um retngulo 
gneo e, em primeiro lugar, era um projeto a longo prazo, e, aqui, os projetos no prosperavam, Jlio Retegui achava que 

se alarmavam em vo. Mas Manuel Aguila 
no, nada disso, governador, fica de p, eles tinham provas, Dom Jlio, um homenzinho baixo e calvo, de olhos saltados, 

aqueles dois caras tinham corrompido os selvagens. 
E Arvalo Benzas tambm, Dom Jlio, fica de p, perdia a esperana, ele dissera, atrs daquelas bandeiras e daquelas cartilhas 

h outra coisa, e ele se ops a que 
os professores viessem, Dom Jlio, e Pedro Escabino bate na mesa com o
copo,
48
Dom Jlio: a cooperativa era um fato, os aguarunas  que iam vender em Iquitos, os caciques se reuniram em Chicais para 

tratar disso, e aquela
era a verdadeira situao, e o resto, iluso. S que Jlio Retegui no conhecia um nico aguaruna que soubesse o que  

Iquitos ou uma cooperativa, de onde  que 
Pedro Escabino tirara semelhante histria? e pedia que falassem um de cada vez, senhores. O copo soa seco e surdo de novo 

contra a mesa, Dom Jlio, ele passava muito 
tempo em Iquitos, tinha muitos negcios, e no percebera que a regio andava agitada desde que aqueles dois caras chegaram. 

A voz de Jlio Retegui  sempre suave, 
Dom Pedro, o governo fizera com que perdesse tempo, e dinheiro, mas seus olhos endureceram, e ele no quisera aceit-lo, 

e Pedro Escabino foi um dos que mais insistiram, 
que fizesse o favor de medir suas palavras. Pedro Escabino sabia quanto deviam a ele e no queria ofend-lo; s que acabava 

de chegar de Urakusa e, pela primeira 
vez em dez anos, Dom Jlio, seco e surdo, duas vezes contra a mesa, os aguarunas no quiseram vender uma bolinha de caucho, 

apesar dos adiantamentos, e Arvalo Benzas: 
mostraram-lhe at a cooperativa. Dom Jlio, que no risse, construram uma cabana especial e mantinham-na cheia de caucho 

e de couros, e no quiseram vender a Escabino 
e disseram que iam vend-las em Iquitos. E Manuel Aguila, baixo e calvo atrs dos olhos saltados: o governador entendia? 

Aqueles caras no deveriam ter ido nunca 
s tribos, Arvalo tinha razo, s queriam corromp-los. Mas no viriam mais, senhores, e Jlio Retegui enche os copos. 

Ele no ia a Iquitos s por seus negcios, 
tambm pelos deles, e o ministrio tinha anulado o plano de extenso cultural silvcola, e acabara com as turmas volantes 

de professores. Mas Pedro Escabino, seco 
e surdo pela terceira vez: j tinham vindo e o mal estava feito, Dom Jlio. De modo que no poderiam nem se entender com 

os selvagens? Ia ver que se entenderiam 
muito bem, trouxeram o intrprete que aqueles dois caras levaram a Urakusa, e ele contaria, Dom Jlio, e ele veria. O homem 

acobreado e descalo, que est acocorado 
junto  porta, levanta-se, avana confuso para o governador de Santa Maria de Nieva, e Bonino Prez, por quanto lhe compravam 

o quilo do caucho, que lhe perguntasse 
isso. O intrprete comea a rugir, movimenta muito as mos, cospe, e Jum escuta em silncio, os braos cruzados sobre o 

peito nu. Duas aspas finas e avermelhadas 
decoram seus pmulos esverdeados, e no seu nariz quadrado h tatuadas trs barras
horizontais,
49
finas como minhoquinhas, sua expresso  sria, solene sua postura: os urakusas, apinhados na clareira, esto imveis, e 

o sol lanceta as rvores, as
cabanas de Urakusa. O intrprete se cala, e Jum e um velho diminuto gesticulam e gaguejam ruidosamente, e o intrprete, 

se for de boa qualidade, dois, de regular, 
um sol o quilo, patro, dizendo, e Tefilo Canas pisca, custando, um cachorro ladra longe. Bonino Prez sabia, irmo, puta 

que os pariu, que grandssimos comos, 
e, para o intrprete: maus peruanos, eles vendiam a vinte o quilo, os patres sacaneando todos, que no deixassem, homem, 

que levassem o caucho e os couros a Iquitos, 
nunca mais comercio com esses patres: traduza isso a ele. E o intrprete, dizendo-lhes? e Bonino, sim, patres roubando-lhes 

dizendo-lhes e Tefilo, sim, maus 
peruanos dizendo-lhes? sim, sim, patro sacaneando, dizendo? e eles, sim, sim, porra, sim: diabos, ladres, maus peruanos, 

que no deixassem, sim, porra, sem medo, 
traduzindo isso. O intrprete grunhe, ruge, d cuspidas e Jum grunhe, ruge, d cuspidas, e o velho bate no peito, sua pele 

tem ruguinhas speras, e o intrprete 
Iquitos no vindo nunca, patro Escabino vindo, trazendo faca, machete, tecido, e Tefilo Canas  assim, irmo, pensam que 

Iquitos  um homem, no levariam nada, 
Bonino, e o intrprete dizendo, trocando por caucho. Mas Bonino Prez aproxima-se de Jum, aponta a faca que ele tem na cintura, 

vamos ver, quantos quilos de caucho 
ela custou: perguntei-lhe isso. Jum puxa sua faca, levanta-a, o sol inflama a lmina branca, dissolve suas bordas e Jum 

sorri com arrogncia, e atrs dele os urakusas 
sorriem, e muitos puxam suas facas, levantam-nas e o sol as incendeia, e as desfaz, e o intrprete: vinte bolas pela faca 

do Jum, dizendo, os outros, dez, quinze 
bolas, custando, e Tefilo Canas queria voltar a Lima, irmo. Tinha febre, Bonino, e estas injustias e estes selvagens 

que no compreendiam, melhor esquecer e Bonino 
Prez soma e diminui com os dedos, Tefilo, nunca se dera bem com os nmeros, saa por uns quarenta soles a faca de Jum, 

no? e o intrprete, dizendo? traduzindo? 
e Tefilo no, e Bonino antes fosse isto: patro diabo, essa faca no custava nem uma bola, se achava uma igual no lixo, 

Iquitos no era patro mas cidade, rio abaixo, 
Maran abaixo, que levassem para l o caucho, que o venderiam cem vezes melhor, comprariam as facas que quisessem, ou o 

que fosse, e o intrprete, senhor? no entendia, 
repetindo devagarinho, e Bonino tinha razo:  preciso explicar tudo a eles, irmo,
50
desde o princpio, no desanime, Tefilo, e talvez tivessem razo, mas Jlio Retegui insistia: no podiam perder a cabea. 

Aqueles caras no tinham ido embora?
Nunca voltariam, e s os aguarunas  que andavam sestrosos, ele negociara com os shapras como sempre, e alm disso, tudo 

tinha remdio. S que ele pensava que ia 
terminar tranqilo sua gesto de governador, senhores, e estavam vendo, e Arvalo Benzas: isso no era tudo, Dom Jlio. 

No soubera o que aconteceu em Urakusa a 
um cabo, um prtico e um criado da guarnio de Borja? Na semana passada, agora mesmo, Dom Jlio, e ele, o qu, o que acontecera?
- Alegrem-se, j estamos na Mangachera - disse Jos.
- A areia arranha, faz ccegas. vou tirar os sapatos
- disse o Mono.
com a Avenida Snchez Cerro terminavam o asfalto, as fachadas brancas, os slidos portes e a luz eltrica, e comeavam 

os muros de cana-brava, os tetos de palha, 
lata ou papelo, o p, as moscas, os meandros. Nas janelinhas quadradas e sem cortinas das choas, resplandeciam as velas 

de sebo e os candeeiros mangaches, famlias 
inteiras tomavam a fresca da noite no meio da rua. A toda hora, os Len levantavam a mo para cumprimentar os amigos.
- Por que esto assim orgulhosos? De que a elogiam tanto? - perguntou Josefino. - Cheira mal e o povo vive como animais. 

Pelo menos quinze em cada casebre.
- Vinte, contando os cachorros e a foto de Snchez Cerro' - disse o Mono. - Essa  outra coisa boa da Mangachera, no h 

diferenas. Homens, cachorros, cabras, 
todos iguais, todos mangaches.
- E  estamos  orgulhosos  porque  nascemos  aqui  disse Jos. - Ns a elogiamos porque  nossa terra. No fundo, voc morre 

de inveja, Josefino.
- Toda Piura est morta a essas horas - disse o Mono. - E aqui, no ouve? a vida est comeando.
- Aqui somos todos amigos ou parentes, e valemos pelo que valemos - disse Jos.
' Snchez Cerro foi presidente do Peru durante vrios anos. Chegou ao poder atravs de um golpe militar, transformando-se, 

porm, em um dos presidentes mais benquistos
pelo povo peruano; quase todas as residncias tinham sua fotografia na parede.
51
- Em Piura s consideram a gente pelo que se tem, e se voc no  branco,  puxasaco de brancos.
- Cago para a Mangachera - disse Josefino. Quando acabarem com ela, como com a Gallinacera, vou tomar um porre de contente.
- Voc est nervoso e no sabe com quem desabafar
- disse o Mono. - Mas se quer anarquizar com a Mangachera,  melhor que fale baixinho, ou os mangaches arrancam a sua alma.
- Parecemos crianas - disse Josefino. - Como se este momento fosse para discusses.
- Faamos as pazes, cantemos o hino - disse Jos. O povo sentado na areia estava silencioso, e todo o
rudo - cantos, brindes, msica de guitarras, palmas saa das chicheras, cabanas maiores que as outras, mais bem iluminadas, 

e com bandeirinhas vermelhas ou brancas 
flamejando sobre a fachada na ponta de uma taquara. O ambiente fervilhava de cheiros tpidos e opostos e,  medida que 
as ruas se iam desvanecendo, surgiam cachorros, 
galinhas, porcos, que, grunhindo tristemente, espojavam-se na terra, cabras de olhos enormes presas a estacas, e era mais 

numerosa e sonora a fauna area suspensa 
sobre suas cabeas. Os invencveis caminhavam sem pressa pelos tortuosos sendeiros da jngal mangacke, esquivando-se dos 

velhos que tinham estendido suas esteiras 
ao ar livre, contornando as choas intempestivas que brotavam no meio do caminho, como cetceos. O cu ardia de estrelas, 

algumas grandes e de luz intensa, outras 
como chaminhas de fsforos.
- J saram as Trs-Marias - disse Mono; apontava trs pontos  altssimos,  reluzentes, paralelos. - E como piscam. Domitila 

Yara dizia que quando se vem as TrsMarias 
to clarinhas, a gente pode pedir graas. Aproveita, Josefino.
- Domitila Yara! - disse Jos. - Pobre velha. Me dava um pouco de medo, mas, desde que morreu, eu me lembro dela com carinho. 

Se  que nos perdoou a confuso no 
seu velrio.
Josefino ia calado, as mos nos bolsos, o queixo metido no peito. Os Len murmuravam todo o tempo, em coro, "boa noite, 

dom", "boa noite, dona", e do cho vozes 
invisveis e sonolentas devolviam o cumprimento e os chamavam por seus nomes. Pararam diante de uma choa e o Mono empurrou 

a porta: Lituma estava de costas, vestido
com uma roupa cor de abbora, o casaco se avolumava nos quadris,
52
e tinha os cabelos midos e brilhantes. Sobre sua cabea bailava um recorte de jornal, pendurado por um alfinete.
- Aqui est o invencvel nmero trs, primo - disse o Mono.
Lituma girou como um pio, atravessou a sala risonho e rpido, os braos abertos, e Josefino saiu ao seu encontro. Abraaram-se 

com fora, e estiveram um bom tempo 
dando-se palmadas, quanto tempo irmo, quanto tempo Lituma, e que prazer ver voc aqui de novo, esfregando-se como dois 

perdigueiros.
- Que belo terno voc est usando, primo - disse o Mono.
Lituma recuou para que os invencveis contemplassem  vontade suas vestes flamantes e multicoloridas: camisa branca de colarinho 

duro, gravata rosada com pintas 
cinza, meias verdes e sapatos de bico fino, lustrados como espelhos.
- Gostam dele? Estou estreando em homenagem a minha terra. Comprei-o faz trs dias, em Lima. E tambm a gravata e os sapatos.
- Voc est que  um prncipe - disse Jos. Bacanrrimo, primo.
-- O terno,  s o terno - disse Lituma, beliscando as lapelas do seu casaco. - O guarda-roupa comea a criar traas. Mas 

ainda posso fazer alguma conquista. Agora 
que estou solteirinho, chegou minha vez.
- Quase no o reconheci - interrompeu Josefino.
- Tanto tempo que no via voc  paisana, colega.
-  melhor dizer que faz tanto tempo que no me v - disse Lituma, e seu rosto se animou, sorriu de novo.
- Tambm ns tnhamos esquecido como voc era  paisana, primo - disse Jos.
- Assim est melhor que disfarado de tira - disse o Mono.  - Agora voc volta  a  ser um invencvel de verdade.
- O que esperamos? - perguntou Jos. - Cantemos o hino.
- Vocs so meus irmos - riu Lituma. - Quem ensinou vocs a mergulhar no rio do Viejo Puente?
- E tambm a mamar e a ir s putas - disse Jos.
- Voc nos corrompeu, primo.
Lituma agarrava os Len, sacudia-os afetuosamente. Josefino esfregava as mos e, ainda que sua boca sorrisse,
53
em seus olhos imveis brilhava algo furtivo e assustado, e a postura de seu corpo, os ombros atirados para trs, o peito 

saliente, as pernas ligeiramente arqueadas,
era ao mesmo tempo forada, inquieta e cautelosa.
- Temos que provar esse Sol de Ica -- disse o Mono.
- Voc prometeu e promessa  dvida.
Sentaram-se em duas esteiras, sob um lampio de querosene pendurado do teto, e que, balanando, resgatava das paredes de 

adobe, sumidas na penumbra, curtas rachaduras, 
inscries, e um nicho em runas, no qual, aos ps de uma Virgem de gesso com o Menino nos braos, estava um candelabro. 

Jos acendeu a vela e,  sua luz, o recorte 
do jornal mostrou a silhueta amarelecida de um general, uma espada, muitas condecoraes. Lituma aproximara uma maleta das 

esteiras. Abriu-a, tirou uma garrafa, 
desarrolhou-a com os dentes, e o Mono o ajudou a encher quatro copinhos at a borda.
- Parece mentira, estar de novo com vocs, Josefino
- disse Lituma. - Senti muita falta dos trs. E tambm da minha terra. Bebo pelo prazer de estarmos juntos de novo.
Bateram os copos e beberam ao mesmo tempo, at esvazi-los.
- Porra,  puro fogo! - berrou o Mono, os olhos cheios de lgrimas. - Voc est certo de que no  lcool
40, primo?
- Mas est fraquinho - disse Lituma. - O pisco  para limenhos, mulheres e crianas, no  como a aguardente. J esqueceu
quando tomvamos aguardente como se fosse 
refresco?
- O Mono sempre foi fraco para o trago - disse Josefino. - Dois copos e j est tonto.
- Me embriago logo, mas tenho mais resistncia que qualquer um - disse o Mono. - Posso continuar assim um monto de dias.
- Voc era sempre o primeiro a cair, irmo - disse Jos. - Voc se lembra, Lituma, de como a gente o arrastava at o rio 

e o ressuscitava a mergulhos?
- E, s vezes, no puro tabefe - disse o Mono. Por isso no tenho barba, de tanto sopapo que me deram para curar as bebedeiras.
- vou fazer um brinde - disse Lituma.
- Antes, deixe que eu encha os copos, primo.
O Mono pegou a garrafa de pisco, comeou  servir e o
rosto de Lituma foi se entristecendo, duas rugas enviesaram levemente seus olhinhos, seu olhar pareceu andar.
54
- Vamos ver esse brinde,  invencvel - disse Josefino.
- Por Bonifcia - disse Lituma. E levantou o copo, devagar.
55



III.


- Pare de bancar a criana - disse a superiora. Voc teve toda a noite para choramingar  vontade.
Bonifcia agarrou a barra do hbito da superiora e o beijou:
- Prometa que Madre Anglica no vir. Prometa, madre, a senhora  boa.
- Madre Anglica repreende voc com razo - disse a superiora. - Voc ofendeu a Deus e traiu a nossa confiana.
- Para que no fique com raiva, madre - disse Bonifcia. - No sabe que sempre adoece quando tem raiva? E eu no me importo 

que me repreenda.
Bonifcia bate palmas e o cochicho das pupilas diminui mas no pra, bate mais forte e se calam: agora s o roar das sandlias 

contra as pedras do ptio. Abre o 
dormitrio e, depois de a ltima pupila passar, fecha e encosta o ouvido  porta: no  o barulho de todos os dias, alm 

da azfama domstica h esse cochichar surdo, 
secreto, assustado, o mesmo que ouviu quando as meninas chegaram, ao meio-dia, entre Madre Anglica e Madre Patrocnio, 

o mesmo que aborreceu a superiora durante 
o rosrio. Bonifcia escuta um momento ainda e volta  cozinha. Acende uma lamparina, pega um prato de lato cheio de bananas 

fritas, corre a tranca da despensa, 
entra e, ao fundo, na escurido, h como que uma correria de ratos. Levanta a lamparina, explora o aposento. Esto atrs 

das sacas de milho: um tornozelo fino, cingido 
por um aro de couro, dois ps descalos que se esfregam e torcem, queriam se ocultar mutuamente?
56
O espao entre as sacas e a parede  muito estreito, devem estar incrustadas uma na outra, no choram.
- Acho que o Demnio me tentou, madre - disse Bonifcia. - Mas eu no percebi. S senti pena, acredite.
- De que sentiu pena? - perguntou a superiora. E que tem isso a ver com o que voc fez, Bonifcia, no se faa de boba.
- Das duas pagzinhas de Chicais, madre - disse Bonifcia. - Estou dizendo a verdade. A senhora no viu quando choraram?
No viu como se abraavam? E que nem comeram
nada quando Madre Griselda as levou  cozinha, no viu?
- No tm culpa por ficarem assim - disse a superiora. - No sabiam que era para o bem delas que estavam aqui, pensavam
que amos fazer mal a elas. No  assim sempre,
at que se acostumam? Elas no sabiam, mas voc, sim, sabia que era pelo bem delas, Bonifcia.
- Mas mesmo assim me dava pena - disse Bonifcia.
- O que queria que fizesse, madre?
Bonifcia ajoelha-se, ilumina as sacas com a lamparina, e ali esto: unidas como duas enguias. Uma tem a cabea enterrada
no peito da outra, que, de costas para
a parede, no pode esconder o rosto quando a luz invade seu esconderijo, s fecha os olhos e geme. Nem as tesouras da Madre
Griselda, nem o ardente desinfetante
avermelhado passaram por ali. Vastas, escuras, fervendo de p, de palhinhas, sem dvida de piolhos, as cabeleiras chovem
sobre suas costas e coxas nuas, so montinhos
de lixo. Por entre fios sujos e embaraados, delineiam-se  claridade da lamparina os membros enfraquecidos, tiras de pele
cor de mate, as costelas.
- Foi sem querer, madre, sem pensar - disse Bonifcia. - No tinha a inteno, nem sequer pensara,  verdade.
- No pensou nem tinha a inteno, mas deixou fugirem - disse a superiora. - E no s quelas duas, tambm s outras. Voc
planejou tudo com elas h muito tempo,
no  verdade?
- No, madre, juro que no - disse Bonifcia. Foi anteontem  noite, quando trouxe comida para elas aqui na despensa. Quando
me lembro, me assusto, virei outra,
e pensava que era por pena, mas talvez o Diabo me tentasse como a senhora diz, madre.
- Isso no  desculpa - disse a superiora -, no se ampare tanto no Diabo. Se a tentou foi porque voc se
deixou tentar.
57
Que  que voc quer dizer com isso de ter virado outra?
Sob os matos de cabelos, os pequenos corpos misturados se pem a tremer, seus estremecimentos se comunicam e esse bater 

de dentes parece o dos apavorados barrigudos 
quando so enjaulados. Bonifcia olha para a porta da despensa, inclina-se e, muito devagar, desafinadamente, persuasivamente, 

comea a grunhir. Algo muda no ambiente, 
como se uma lufada de ar puro refrescasse de sbito a escurido da despensa. Sob os monturos, os corpos deixam de tremer, 

duas cabecinhas iniciam um prudente, mal 
perceptvel movimento, e Bonifcia continua grasnando, crepitando suavemente.
- Ficaram nervosas desde que viram as meninas disse Bonifcia. - Andavam de segredos e, se eu me aproximava, falavam de 

outra coisa. Disfarando, madre, mas eu sabia 
que falavam das pagzinhas. No se lembra como ficaram na capela?
- Por que ficaram nervosas? - perguntou a superiora. - Por acaso era a primeira vez que viam chegar  misso duas meninas?
- No sei por qu, madre - disse Bonifcia. Eu conto o que se passava, no sei por que era assim. Decerto se lembraram de 

quando vieram, e disso deviam estar falando.
- Que houve na despensa com aquelas crianas? perguntou a superiora.
- Prometa primeiro que no me manda embora, madre - disse Bonifcia. - Rezei toda a noite para que no me mande embora. 

Que faria eu sozinha, madre? Eu mudo se a 
senhora prometer. E ento conto tudo.
- Voc impe condies para se arrepender de seus erros? - perguntou a superiora. - Era s o que faltava. E no sei por 

que quer ficar na misso. Voc no deixou 
fugir as meninas porque tinha pena de elas estarem aqui? Deveria estar feliz por ir embora.
Bonifcia aproxima o prato de lato e elas no tremem, esto imveis e a respirao levanta seus peitos num ritmo idntico 

e pausado. Bonifcia pe o prato  altura 
da menina sentada. Grunhe sempre, a meio tom, familiarmente e, logo, a cabecinha se levanta, atrs da cascata de cabelos 

surgem duas luzes breves, dois peixinhos
que vo dos olhos de Bonifcia ao prato de lato. Um brao emerge e se estende com infinita cautela, a mo medrosa aparece 

 luz da
lamparina,
58
dois dedos sujos pegam uma banana, sepultam-na sob a floresta.
- Mas eu no sou como elas, madre - disse Bonifcia. - Madre Anglica e a senhora me dizem sempre, voc j saiu da escurido, 

j  civilizada. Para onde vou, madre, 
no quero ser paga outra vez. A Virgem era boa, no  verdade? perdoava tudo, no  verdade? Tenha compaixo, madre, seja 

boa, para mim a senhora  como a Virgem.
- Voc no me compra com bajulaes, eu no sou a Madre Anglica - disse a superiora. - Se voc se sente civilizada e crist, 

por que deixou fugir as meninas? Como 
no se importou com que elas voltassem a ser pags?
- Mas vo encontr-las, madre - disse Bonifcia. A senhora vai ver como os guardas vo traz-las de novo. No me jogue a 

culpa por elas, se saram ao ptio e quiseram 
ir embora, eu nem percebia bem as coisas, madre, acredite que virei outra.
- Voc tinha era ficado louca - disse a superiora.
- Ou idiota, para no perceber que estavam saindo debaixo do seu nariz.
- Pior que isso, madre, uma pag igualzinha s de Chicais - disse Bonifcia. - Agora penso e me assusto, a senhora tem que 

rezar por mim, quero me arrepender, madre.
A menina mastiga sem afastar a mo da boca e vai acrescentando pedacinhos de banana frita  medida que engole. Afastou seus 

cabelos, que agora emolduram o rosto 
em duas bandas e, ao mastigar, a argola do nariz oscila, ligeiramente. Seus olhos espiam Bonifcia e, de repente, a outra 

mo agarra a cabeleira da menina aninhada 
contra seu peito. A mo livre vai ao prato de lato, captura uma banana e a cabecinha oculta, obrigada pela mo que empunha 

seus cabelos, gira: esta no tem o nariz 
perfurado, as plpebras so duas pequenas bolsas irritadas. A mo desce, coloca a banana junto aos lbios fechados, que 

se franzem ainda mais, desconfiados, obstinados.
- E por que voc no veio me avisar? - perguntou a superiora. - Voc se escondeu na capela porque sabia que havia agido 

mal.
- No tinha medo da senhora, mas de mim, madre
- disse Bonifcia. - Parecia um pesadelo quando no as vi mais, e por isso entrei na capela. Dizia no  verdade,
59
no se foram, no houve nada, eu sonhei. Prometa que no vai me mandar embora, madre.
- Voc mesma se mandou embora - disse a superiora. - Para voc fizemos o que no fizemos para nenhuma outra, Bonifcia. 

Voc teria ficado toda a vida na misso. 
Vai embora to logo as meninas voltem, no podem mais ver voc aqui. Eu tambm sinto, apesar de voc ter-se portado mal.
E sei que Madre Anglica vai sentir muito.
Mas pelo bem da misso  necessrio que voc v embora.
- Deixe-me ficar como criada, pelo menos, madre disse Bonifcia. - No cuidarei mais das pupilas. S varrerei e tirarei 

o lixo e ajudarei Madre Griselda na cozinha. 
Eu lhe peo, madre.
A menina que est deitada resiste: tensa, os olhos fechados, morde os lbios, mas os dedos da outra escavam implacveis, 

porfiam contra essa boca obstinada. As duas 
suam com o esforo, tm mechinhas de cabelo aderidas  pele brilhante. E, de repente, os lbios se abrem: velozes, os dedos 

introduzem na boca aberta os restos 
quase dissolvidos de banana, e a menina comea a mastigar. com a banana entraram na boca umas pontas de cabelo. Bonifcia 

mostra isso, com um gesto,  menina da 
argola e ela levanta a mo outra vez, seus dedos recolhem os cabelos apanhados e delicadamente os retiram. A menina deitada 

agora engole, uma bolinha sobe e desce 
por sua garganta. Segundos depois, abre a boca de novo e fica assim, com os olhos fechados, esperando. Bonifcia e a menina 

da argola olham-se  claridade oleosa 
da lamparina. Sorriem ao mesmo tempo.
- Voc no quer mais? - perguntou Aquilino. Tem que se alimentar um pouco, homem, voc no pode viver s de ar.
- Me lembro daquela puta o tempo todo - disse Fusha. - A culpa  sua, Aquilino, faz duas noites que passo vendo e ouvindo 

aquela puta. Mas de como era quando moa, 
quando eu a conheci.
- Como foi que voc a conheceu, Fusha? - perguntou Aquilino. - Foi muito depois que nos separamos?
- Faz um ano, Doutor Portillo, mais ou menos - disse a mulher. - Vivamos ento em Beln, e com a cheia a gua entrava na 

nossa casa.
- Sim, claro, senhora - disse o Doutor Portillo. Mas me fale do japons, est bem?
60
Justamente, o rio tinha subido, o bairro de Beln parecia um mar, e o japons passava todos os sbados na frente da casa, 

Doutor Portillo. E ela, quem ser, e que 
estranho
que sendo to bem-vestido venha ele mesmo embarcar sua mercadoria, e no tenha quem se ocupe disso. Aquela fora a melhor 

poca, velho. Comeava a ganhar dinheiro 
em Iquitos, trabalhando para o cachorro do Retegui, e um dia uma mocinha no podia atravessar a rua inundada, e ele pagou 

a um carregador para que a atravessasse, 
e a me veio e lhe agradeceu: uma caftina terrvel, Aquilino.
- E sempre parava para conversar conosco, Doutor Portillo - disse a mulher. - Antes de ir ao cais, ou depois, e todas as 

vezes muito amvel.
- A senhora j sabia em que negcio andava? perguntou o Doutor Portillo.
- Parecia muito decente e muito elegante, apesar de sua raa - disse a mulher. - Trazia-nos presentinhos, doutor. Roupa, 

sapatos e uma vez at um canrio.
- Para essa p-no-cho da sua filha, senhora - disse Fusha. - Para que ele a desperte cantando.
Entendiam-se s mil maravilhas, ainda que sem se dar por entendidos, velho; a caftina sabia o que ele queria, e ele sabia 

que a caftina queria dinheiro, e Aquilino, 
e Lalita? o que dizia ela de tudo isso.
- J tinha os cabelos compridssimos - disse Fusha.
- E ento seu rosto era limpo, nem sequer uma espinhazinha. Que bonita era, Aquilino.
- Vinha com um chapu de sol, vestido com ternos brancos e sapatos brancos tambm - disse a mulher. Nos levava a passear, 

ao cinema, uma vez levou Lalita quele 
circo brasileiro que veio, se lembra?
- Dava-lhe muito dinheiro, senhora? - perguntou o Doutor Portillo.
- Muito pouco, quase nada, doutor - disse a mulher. - E muito raramente. S nos dava presentinhos.
E Lalita j estava grande para ir ao colgio: daria um emprego a ela no seu escritrio, e o salrio seria uma grande ajuda 

para as duas, no  que Lalita gostava 
da idia? Ela tinha pensado no futuro da filha, e nas necessidades, Doutor Portillo, nas dificuldades que passavam: em resumo, 

Lalita foi trabalhar com o japons.
- Viver com ele, senhora - disse o Doutor Portillo.
- No tenha vergonha, o advogado  como um confessor para seus clientes.
61
- Juro que Lalita dormia sempre em casa - disse a  mulher. - Pergunte s vizinhas  se  no  me acredita, doutor.
- E em que foi que ele fez sua filha trabalhar, senhora? - disse o Doutor Portillo.
Em um trabalho fcil, velho, que o teria feito rico para sempre se durasse uns dois aninhos mais. Mas algum denunciou a 

coisa, e Retegui ficou so e salvo de culpa, 
e ele teve que suportar tudo, fugir, e a comeou o pior de sua vida. Um trabalho fcil, velho: receber o caucho, armazen-lo 

com muito talco, para tirar o cheiro, 
embal-lo como tabaco e despach-lo.
- Voc estava apaixonado por Lalita nessa poca?
- perguntou Aquilino.
- Eu a comi virgenzinha - disse Fusha - sem saber nada de nada da vida. S fazia chorar, e se eu estava num mau dia dava 

um sopapo nela, e se estava bom comprava 
caramelos.  como ter uma mulher e uma filha ao mesmo tempo, Aquilino.
- E por que voc joga em Lalita a culpa disso tambm? - disse Aquilino. - Estou certo de que ela no denunciou vocs. Talvez 

a me.
Mas ela s soube pelos jornais, doutor, jurava por todos os santos. Era pobre mas honrada como a que mais fosse, e no depsito 

esteve apenas uma vez, e ela, o que 
tem a, senhor, e o japons, tabaco, e ela, inocente, acreditou.
- Tabaco, coisa nenhuma, senhora - disse o Doutor Portillo. - Isso  o que se marcava nos caixotes, mas a senhora sabe que 

dentro tinha caucho.
- A caftina nunca soube de nada - disse Fusha. Foi um daqueles cachorros que me ajudavam a pr talco e a encaixotar. Nos 

jornais diziam que ela era outra das minhas 
vtimas, porque roubei sua filha.
- Pena que voc no guardou esses jornais e tambm os de Campo Grande - disse Aquilino. -- Seria engraado ler agora, e 

ver como voc foi famoso, Fusha.
- Voc aprendeu a ler? - disse Fusha. - Quando a gente trabalhava junto voc no sabia, velho.
- Voc teria lido para mim - disse Aquilino. Mas como  que no aconteceu nada ao Senhor Jlio Retegui? Por que voc teve 

que fugir, e ele ficou to tranqilo?
- Injustias da vida - disse Fusha. - Ele entrava com o capital e eu com o corpo. O
caucho aparecia como
meu,
62
ainda que s me tocassem as sobrinhas. Apesar disso, teria ficado rico, Aquilino, o negcio era fcil.
Lalita no lhe contava nada, ela a crivava de perguntas e a moa, no sei, no sei, era a pura verdade, Doutor Portillo, 

por que devia maliciar? O japons estava 
sempre 
de viagem, mas tanta gente sempre est viajando, e depois, como  que ela podia saber que embarcar caucho era contrabando 

e tabaco, no.
- O tabaco no  material estratgico, senhora disse o Doutor Portillo. - O caucho, sim. Temos que vend-lo s aos nossos 

aliados, que esto em guerra com os alemes.
No sabe que o Peru tambm est em guerra?
- Ento voc devia ter vendido o caucho aos gringos, Fusha - disse Aquilino. - No teria tido encrencas, e eles pagariam 

em dlares.
- Nossos aliados compram o caucho a um preo de guerra, senhora - disse o Doutor Portillo. - O japons vendia escondido 

e recebia quatro vezes mais. Tambm no sabia
disso?
-  a primeira vez que ouo falar disso, doutor disse a mulher. - Eu sou pobre, no me interessa a poltica, nunca teria 

deixado que minha filha sasse com um contrabandista. 
E ser verdade que ele era tambm um espio, doutor?
-- Sendo to mocinha, teria pena de deixar a me disse Aquilino. - Como foi que voc convenceu Lalita, Fusha?
Lalita podia gostar muito da me, mas com ele comia e usava sapatos, em Beln acabaria como lavadeira, puta ou criada, velho, 

e Aquilino, histrias, Fusha: voc 
tinha que estar apaixonado por ela ou no a teria levado. Era muito mais fcil fugir s do que arrastando uma mulher, se 

no a queria, no a roubava.
- Selva adentro, Lalita valia seu peso em ouro disse Fusha. - No disse que era bonita? Atraa qualquer um.
- Seu peso em ouro - disse Aquilino. - Como se voc tivesse pensado em fazer negcio com ela.
- Fiz um bom negcio com ela - disse Fusha. Aquela puta nunca lhe contou? Tenho a certeza de que o cachorro do Retegui 

no me perdoou nunca. Foi a minha vingana.
- E uma noite no voltou, nem na seguinte, e depois chegou uma carta dela - disse a mulher.
63
- Contando que ia ao estrangeiro com o japons, e que se casariam. Eu trouxe a carta, doutor.
- Eu a guardarei, me d - disse o Doutor Portillo. Por que no deu parte  polcia de que sua filha tinha fugido, senhora?
- Eu pensei que era coisa de amor, doutor - disse a mulher. - Que ele fosse casado e que por isso fugia com minha filha. 

S uns dias depois saiu no jornal que o 
japons era um bandido.
- Quanto dinheiro Lalita mandou na carta? - perguntou o doutor.
- Muito mais do que valiam juntas as duas cadelas
- disse Fusha. - Mil soles.
- Duzentos soles, olhe que mesquinharia, doutorzinho - disse a mulher. -- Mas j gastei, pagando dvidas.
Ele conhecia a alma da velha: mais miservel que a do turco que o botou na cadeia, Aquilino, e o Doutor Portillo queria 

saber se o que declarou na polcia era o 
mesmo 
que contara a ele, senhora, com pontos e vrgulas?
- Menos sobre os duzentos soles, doutor - disse a mulher. - Eles me teriam tomado, o senhor sabe como so no comissariado.
- vou estudar o assunto com calma - disse o Doutor Portillo. - Eu a chamarei logo que haja alguma novidade. Se a citarem 

em juzo ou na polcia, eu a acompanharei. 
No faa nenhuma declarao se eu no estiver presente, senhora. A ningum, entende?
- Como o senhor mandar, doutor - disse a mulher.
- Mas e os danos e prejuzos? Todos dizem que tenho direito. Ele me enganou e tirou minha filha, doutor.
- Quando o prenderem pediremos uma reparao disse o Doutor Portillo. - Eu me encarregarei disso, no se preocupe. Mas se 

no quer complicaes, j sabe, nenhuma 
palavra 
se o seu advogado no estiver presente.
- Quer dizer que voc voltou a ver o Senhor Jlio Retegui? - perguntou Aquilino. - Eu pensei que de Iquitos voc tinha 
ido 
direto  ilha.
Mas como queria que eu fosse: nadando? atravessando a p toda a selva, velho? No tinha mais que uns poucos soles e ele 

sabia que o cachorro do Retegui lavaria 
as mos, porque ele no aparecia em nada. Sua sorte  que levou Lalita, que o homem tinha suas fraquezas, e Jlio Retegui 

estava ali, ouvira tudo, mas era certo 
que a velha no sabia de nada? Tinha um jeito que dava para desconfiar,
compadre.
64
E alm disso, preocupava-se porque Fusha levava uma mulher, os apaixonados fazem loucuras.
- L sim, ele faz loucuras - disse o Doutor Portillo. Mas no pode compromet-lo ainda que queira. Tudo est bem estudado.
- No me disse uma s palavra sobre a tal Lalita disse Jlio Retegui. - Voc sabia que ele vivia com aquela moa?
- Nunca soube - disse o Doutor Portillo. - Deve ser ciumento, devia t-la sob sete chaves. O importante  que essa bendita 

velha est no mundo da lua. No acho que 
haja perigo, os noivos j devem estar no Brasil. Jantamos juntos hoje?
- No posso - disse Jlio Retegui. - Chamam-me com urgncia de
Uchamala'. Chegou um peo, no sei que diabo acontece. Tentarei voltar no sbado. Acho que Dom Fbio
j chegou a Santa Maria de Nieva, preciso mandar dizer que no compre mais caucho. At que a coisa se acalme.
- E onde voc foi se esconder com Lalita? - perguntou Aquilino.
- Em Uchamala - disse Fusha. - Numa casa de campo no Maran, daquele cachorro do Retegui. Vamos passar perto, velho.
As reses saem das fazendas depois do meio-dia e entram no deserto com as primeiras sombras. Embuados em ponchos, com amplos 

chapus para resistir  investida 
do vento e da areia, os pees tangem toda a noite at o rio os pesados, lentos animais. Ao alvorecer, divisam Piura: uma 

miragem cinza no outro lado da ribeira, 
uma aglomerao imvel. No entram na cidade pelo Viejo Puente, que  frgil. Quando o leito est seco, atravessam-no, levantando 

uma grande nuvem de poeira. Nos 
meses de enchente, aguardam na margem do rio. Os animais exploram a terra com seus largos focinhos, derrubam a chifradas 

as algarobeiras novas, lanam lgubres 
mugidos. Os homens falam sossegadamente enquanto quebram o jejum com um fiambre e traguinhos de aguardente, ou cochilam 

enrolados em ponchos. No tm de esperar 
muito, s vezes Carlos Rojas chega ao cais antes do gado. Sulcou o rio do outro confim da cidade, onde tem
seu rancho.
' Povoado s margens do Maran.
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O barqueiro conta os animais, calcula seu peso, decide o nmero de viagens para balde-los. Na outra margem, os homens do 

Camal aprontam sogas, serras
e facas, e o barril onde ferver esse espesso caldo de cabea de boi, que s os.do matadouro podem tomar sem desmaiar. Terminado 

seu trabalho, Carlos Rojas amarra 
a lancha em um dos suportes do Viejo Puente e vai a uma cantina da Salinacera, onde vo os madrugadores. Naquela manh j 

havia um bom nmero de aguadeiros, varredores 
e vendedoras do mercado, todos eles gallinazos'. Serviram-lhe uma cabaa de leite de cabra, perguntaram por que estava com 

aquela cara. Sua mulher estava bem? E 
seu filho? Sim, estavam bem, e Josefino j estava andando e dizia papai, mas tinha que contar uma coisa. E continuava com 

a bocarra aberta e os olhos saltados de 
assombro, como se acabasse de ver o Chifrudo. Dez anos que trabalhava na barca e nunca encontrara ningum na rua ao se levantar, 

sem contar o pessoal do Camal. 
O sol ainda no apareceu, est tudo escuro,  quando a areia cai mais forte, quem vai pensar, ento, em passear a essas 

horas? E os gallinazos, voc tem razo, homem, 
ningum pensaria. Falava com mpeto, suas palavras eram como tiros, e se ajudava com gestos enrgicos; nas pausas, sempre, 

a bocarra aberta e os olhos saltados. 
Foi por isso que se assustou, porra, era estranho. Que  isso? E escutou outra vez, ntido, os cascos de um cavalo. No 

estava ficando louco, sim, olhara para todos 
os lados, que esperassem, que o deixassem contar: vira-o entrando no Viejo Puente, reconheceu-o a mesmo. O cavalo de Dom 

Melchor Espinoza? Aquele que  branco? 
Sim, senhor, por isso mesmo, porque era branco, brilhava na madrugada e parecia fantasma. E os gallinazos, decepcionados, 

teria se soltado, no  novidade, ou Dom 
Melchor pegou a caduquice de viajar no escuro? Foi o que ele pensou, a est, o animal fugiu,  preciso peg-lo. Saltou 

da barca e a trancos subiu a ladeira, ainda
bem que o cavalinho no ia apressado, foi se aproximando devagar para no espant-lo, agora ficaria adiante dele e o pegaria 

pelas crinas, e com a boca
tom, tom,
no fique arisco, montaria em plo e o devolveria a seu dono. Ia a passo, j pertinho, e mal o via tal a quantidade de areia,
' O autor chama de gallinazos os moradores da Gallinacera, em Piura, favela de negros. Em vrias outras ocasies, jogar 

com as palavras gallinazos e urubus, para
falar dos favelados ou das aves de rapina, freqentes na paisagem de Piura e personagens importantes de um fato da trama 

deste romance.
66
entraram juntos em Castilla, e ele ento atravessou  sua frente e zs. Interessados de novo, os gallinazos, que houve, 

Carlos, que  que voc viu? Sim, senhor,
viu Dom Anselmo, que olhava para ele de cima da montaria, palavra de honra. Tinha um leno no rosto e, instantaneamente, 

seus cabelos ficaram de p: perdo, Dom 
Anselmo, pensei que o animal fugia. E os gallinazos, que fazia l? para onde ia? fugia de Piura s escondidas, como um ladro? 

Que o deixassem acabar, porra. Riu 
gostosamente, olhava para ele e morria de rir, e o cavalinho cabriolava. Sabiam o que foi que disse? No faa essa cara 

de medo, Rojas, no conseguia dormir e sa 
para dar uma volta. Ouviram? Bem assim como contava. O vento era puro fogo, chicoteava duro, durssimo e ele teve vontade 

de perguntar a Dom Anselmo se tinha cara 
de bobo, pensava que ia acreditar? E um gallinazo, mas voc no diria isso a ele, Carlos, no se chama de mentiroso um homem, 

e depois, aquilo no era da sua conta. 
Mas no terminava a a histria. Um pouco depois ele o viu,  distncia, no atalho para Catacaos.  uma gallinaza, no areal? 

coitado, deve estar com a cara maltratada, 
e os olhos e as mos. Pelo que ventara nesse dia. Mas se no o deixavam falar ia embora. Sim, continuava a cavalo e dava 

voltas e mais voltas, olhava o rio, o Viejo 
Puente, a cidade. E depois desmontou e brincava com a manta. Parecia uma criana contente, brincava e saltava como Josefino. 

E os gallinazos, ser que Dom Anselmo 
ficou louco? seria uma pena, sendo to boa pessoa, talvez estivesse bbado? E Carlos Rojas, no, no estava louco nem bbado, 

ao se despedir lhe dera a mo, perguntou 
pela famlia e pediu que o recomendasse. Dissessem se tinha ou no razo de vir assombrado.
Nessa manh Dom Anselmo apareceu na Plaza de Armas, sorridente e loquaz,  hora de costume. Via-se que estava muito alegre, 

a todos que passavam  frente do terrao 
do La Estrella del Norte propunha brindes, possudo por uma incontida necessidade de gracejar; sua boca expulsava, uma aps 

outra, histrias de duplo sentido, que 
Jacinto, o garom, aplaudia, torcendo-se de riso. E as gargalhadas de Dom Anselmo retumbavam na praa. A notcia do seu 

passeio noturno j tinha circulado por toda 
parte, e os piuranos o acossavam com perguntas: ele respondia com gracejos e expresses ambguas.
A histria de Carlos Rojas intrigou a cidade e foi tema de conversao durante dias. Alguns curiosos foram a Dom Melchor 

Espinoza em busca de informaes.
67
O velho agricultor no sabia de nada. E, alm disso, no faria nenhuma pergunta a seu hspede, porque no era impertinente
nem intrigante. Encontrara seu cavalo 
desencilhado
e limpo. No queria saber de mais nada, que fossem embora e o deixassem
tranqilo.
Quando o povo deixava de falar daquele passeio, sobreveio uma notcia ainda mais surpreendente. Dom Anselmo comprara  municipalidade 

um terreno situado no outro 
lado do Viejo Puente, mais alm dos ltimos ranchos de Castilla, em pleno areal, l por onde o barqueiro o encontrara brincando 

naquela madrugada. No era estranho 
que o forasteiro, se decidira radicar-se em Piura, quisesse construir uma casa. Mas no deserto! A areia devoraria qualquer 

casa em pouco tempo, ela a engoliria como 
as velhas rvores podres ou os gattinazos mortos. O areal  instvel, inconsistente. As dunas mudam de paradeiro a cada 

noite, o vento as cria, aniquila e movimenta 
a seu capricho, diminui-as e aumenta-as. Aparecem ameaadoras e mltiplas, cercam Piura como uma muralha, branca ao amanhecer, 

vermelha no crepsculo, parda durante 
as noites, e no dia seguinte fugiram e as vemos dispersas, distantes, como uma rala erupo na pele do deserto. Nos entardeceres, 

Dom Anselmo ficaria ilhado e  
merc do p. Efusivos, numerosos, os piuranos trataram de impedir essa loucura, foram exuberantes em argumentos para dissuadi-lo. 

Que adquirisse um terreno na cidade, 
que no fosse teimoso. Mas Dom Anselmo desdenhava todos os conselhos e respondia com frases que pareciam enigmas.
A lancha com soldados chega por volta do meio-dia, quer atracar de ponta e no de lado como manda a razo, a gua a leva 

e a traz, chefes, agentem-se: Adrin Nieves 
ia ajud-los. Atira-se  gua, agarra o remo, encosta a lancha na margem, e os soldados, sem dizer obrigado nem nada, laam-no, 

deixam-no amarrado, e correm para 
o povoado.  tarde, chefes, quase todos os cristos tiveram tempo de fugir para a mata, s agarram meia dzia, e quando 

chegam  guarnio de Borja o Capito Quiroga 
se aborrece, como resolveram trazer um invlido? e para Vilano, desaparea, coxo, voc no serve para o exrcito. A instruo 

comea na manh seguinte: levantam-nos 
cedinho, cortam seus cabelos, do a eles calas e camisas caqui e uns sapates que apertam os ps. Depois, o Capito Quiroga 

fala sobre a ptria e divide-os em grupos.
68
Um cabo pega Adrin Nievis e outros onze e exercita-os: perfilar, continncia, marchar, atirar-se, alto, sentido, porra, 

descanso, porra. E assim todos os dias, 
e no h maneira de fugir,
a vigilncia  rigorosa, chovem murros por qualquer coisa, e o Capito Quiroga, no h desertor que a gente no pegue e 

ento o servio  dobrado. E uma manh chega 
o Cabo Roberto Delgado, um passo adiante o recruta que for prtico, e Adrin Nieves, s suas ordens, meu cabo, ele era. 

Conhecia bem a regio, rio acima? e ele, 
como esta mo, meu cabo, rio acima e tambm rio abaixo, e ento que se preparasse, que iam a Bagua. E ele, chegou o momento 

Adrin Nieves, agora ou nunca. Partem 
na manh seguinte, eles, a lanchinha, e um criado aguaruna da guarnio. O rio anda cheio e vo devagar, evitando bancos 

de areia, plantas enormes, troncos atorados 
que saem ao seu encontro. O Cabo Roberto Delgado viaja contente, fala sem parar, chegou um tenente da costa, que quis conhecer 

o pongo, e eles,  perigoso, meu tenente, 
tem chovido muito, mas ele quis, e foi, e a lancha virou, e se afogaram todos, e o Cabo Delgado se salvou porque inventou 

uma tera para no ir, fala sem parar. 
O criado no abria a boca, meu cabo, .o Capito Quiroga era da selva? Adrin Nieves era quem perguntava. De jeito nenhum, 

faz dois meses foram em misso pelo Santiago 
' e os pernilongos incharam as pernas do capito. Ficaram vermelhas, cheias de bolotas, levava-as metidas na gua, e o cabo 

assustava-o: cuidado com as mes-d'gua, 
cuidado que o deixam mocho, meu capito, elas vem que a gente no sente, abrem a bocarra e comem uma perna de uma dentada. 

E o capito, que viessem e comessem. 
Tanta ardncia at tirava o gosto pela vida, s a gua aliviava, porra, que maldita era sua estrela, merda. E o cabo, as 

pernas estavam sangrando, meu capito, o 
sangue chama as piranhas, e se elas lhe arrancavam uma poro de fatias? Mas o Capito Quiroga se esquentou, filho da puta, 

chega de me meter medo, e o cabo, tinha 
nojo de ver: gordas, cheias de crostas, com o roar de um raminho se abriam e gotejavam uma aginha branca. E Adrin Nieves, 

por isso  que as piranhas no apareceram, 
meu cabo, sentiam que se mordessem aquelas pernas morriam envenenadas. O criado vai calado, de ponteiro, medindo o fundo 

com o remo, e dois dias mais tarde chegam 
a Urakusa: no h um aguaruna, todos se esconderam na selva.
' Rio que nasce no Equador e entra no Peru pelo departamento do Amazonas.
69
Tinham levado at os cachorros, que sabidos. O Cabo Roberto Delgado est no centro da clareira, a boca aberta de par em 

par, urakusas! urakusas! sua dentadura  
de cavalo, forte,
muito branca, no tm fama de machos? o sol do crepsculo despedaa-a em raios azuis, venham, veados, voltem! Mas para o 

criado, no machos, meu cabo, cristos assustando, 
e o cabo, que revistassem suas cabanas, fizessem um pacotinho com o que houvesse de comvel, vestvel ou vendvel, agorinha 

mesmo, e voando. Adrin Nieves no aconselhava, 
meu capito, eles podiam estar vendo, e se roubassem cairiam em cima da gente, e eles eram s trs. Mas o cabo no queria 

conselhos de ningum, merda, perguntaram 
alguma coisa a ele? e depois, que viessem, encarregava-se dos urakusas sem necessidade do revlver, de mos limpas, e senta 

no cho, cruza as pernas, acende um cigarro. 
Eles vo s cabanas, voltam e o Cabo Roberto Delgado dorme pacificamente, a guimba se consome na terra,  rodeada de  formigas 

curiosas. Adrin Nieves e o criado 
comem mandiocas, bagres, fumam, e quando o cabo desperta vai se arrastando at eles e bebe do cantil. Em seguida, examina 

o embrulho: um courinho de lagarto, lixo, 
colares de contas e de conchas, era tudo o que havia? pratos de barro, braceletes, e o que ele prometeu ao capito? tornozeleiras, 

diademas, nem um pouquinho de 
resina mata-insetos? um cesto de tucum e uma cabaa cheia de masato', puro lixo. Esgaravata o embrulho com o p, e queria 

saber se eles viram algum enquanto dormia. 
No, meu cabo, ningum. Achava que andavam perto, e o criado aponta com o dedo a mata, mas o cabo, isso no tinha nenhuma 

importncia: dormiriam em Urakusa e viajariam 
amanh cedo. Resmunga ainda, que histria era essa de se esconderem como se eles estivessem pesteados? fica de p, mija, 

tira as perneiras e vai at uma cabana, 
os outros o seguem. No faz calor, a noite  mida e rumorosa, uma brisa lenta traz at a clareira um cheiro de plantas 

apodrecidas e o criado, melhor indo, meu 
cabo, fodido aqui, dizendo, no ficando, no gostando, e Adrin Nieves encolhe os ombros: e quem podia gostar, mas que no 

se cansasse, o cabo no o ouvia, j estava 
dormindo.
' Espcie de cbicha de mandioca, banana ou milho, obtida por fermentao. No Peru  mais propriamente a fermentao da mandioca, 

que  mastigada por mulheres selvagens,
servindo a ptialina como fermento para produzir uma espcie de cbicha, ou cerveja de elevado teor alcolico.
70
- Como  que foi por l? - perguntou Josefino. Conte, Lituma.
- Como podia ir, coleguinha? - disse Lituma, os olhinhos surpresos. - Muito mal.
- Batiam em voc, primo? - perguntou Jos. Passava a po e gua?
- Nada disso, me tratavam bem. O Cabo Crdenas fazia com que me dessem mais comida que a qualquer um. Foi meu subordinado 

na selva, um bom mulato, que a gente 
chamava de Oscuro. Mas era uma vida triste, de qualquer maneira.
O Mono tinha um cigarro nas mos e, de repente, ps a lngua e piscou um olho para Lituma. Sorria, alheio aos outros, e 

fazia caretas que abriam covinhas nas bochechas 
e rugas na testa. E mostrava alegria por isso.
- Me admiravam um pouco - disse Lituma -, diziam, voc tem culhes, caboclo.
- Tinham razo, primo, claro que sim, ningum duvida.
- Toda Piura falava de voc, colega - disse Josefino. - As crianas, a gente grande. Muito tempo depois que voc foi embora 

continuavam discutindo.
- Que fui embora? - perguntou Lituma. - No fui por minha vontade.
- Ns temos os jornais - disse Jos. - Voc vai ver, primo. Em El Tiempo s tinha insultos, diziam que voc era um perverso, 

mas em Ecos y Notcias e em La Indstria, 
nem reconheciam voc como valente.
- Voc foi macho, colega - disse Josefino. - Os mangaches ficaram orgulhosos.
- E de que me serviu isso? - Lituma encolheu os ombros, cuspiu e pisou no cuspe. - E depois, foi coisa de bebedeira. A seco 

no me atreveria.
- Aqui na Mangachera somos todos urristas' - disse o Mono, pondo-se de p de um salto. - Fanticos do General Snchez Cerro 

at o fundo da alma.
Parou diante do recorte de jornal, fez uma continncia e voltou  esteira, ria a gargalhadas.
- O Mono j est bbado - disse Lituma. - Vamos  casa da Chunga antes que durma.
' Partidrios do General Eloy Ureta, que foi candidato  presidncia do Peru.
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- Temos uma coisa para contar a voc, colega disse Josefino.
- No ano passado, um aprista' veio viver aqui, Lituma - disse o Mono. - Um desses caras que mataram o general. Me d um 

dio!
- Em Lima conheci muitos apristas - disse Lituma.
- Tambm estavam presos. Falavam mal  bea de Snchez Cerro, diziam que ele foi um tirano. Alguma coisa para me contar, 

colega?
- E voc deixava que falassem mal daquele grande mangache na sua frente? - perguntou Jos.
- Piurano, no mangache - disse Josefino. - Essa  outra das invenes de vocs. Uma coisa  certa, Snchez Cerro nunca 

pisou neste bairro.
- Que  que voc tem para me contar? - perguntou Lituma. - Fale, homem, voc me deixou curioso.
- No era um, mas toda uma famlia, primo - disse o Mono. - Construram uma casa perto de onde vivia Patrocnio Naya, e 

botaram uma bandeira aprista na porta. Imagine 
s, que sacanagem.
- De Bonifcia, Lituma - disse Josefino. - A gente l na sua cara que no quer saber. Por que voc no perguntou, invencvel? 

Tinha vergonha? Mas se somos irmos, 
Lituma.
- Ento, a, botamos aquela gente no seu lugar disse o Mono -, a vida ficou impossvel para eles. E tiveram que ir embora, 

apitando como trem.
- Nunca  tarde para perguntar - disse Lituma; endireitou-se um pouco, apoiou as mos no cho e ficou imvel. Falava com 

muita calma. - No me escreveu uma s carta. 
Que houve com ela?
- Dizem que o jovem Alexandre era aprista desde pequeno - disse Jos, rapidamente. - Que quando Haya de Ia Torre esteve 

aqui uma vez, ele desfilou com um cartaz 
que dizia: "Professor, a juventude o sada".
- Calnias, o jovem  um grande sujeito, uma das glrias da Mangachera - disse o Mono, com voz frouxa.
- Calem-se, vocs no esto vendo que estamos conversando? - Lituma deu um tapa no cho, e uma nuvenzinha de p se levantou. 

O Mono deixou de sorrir,
' Partidrio da APRA, Aliana Popular Revolucionria Americana, liderada por Victor Haya de La Torre.
72
Jos baixara a cabea e Josefino, muito tenso e com os braos cruzados, piscava sem parar.
- Que houve, colega?  - perguntou Lituma, com suavidade quase afetuosa. - Eu no tinha perguntado nada e voc me puxou a 

lngua. Continue agora, no fique mudo.
- Algumas coisas ardem mais que a aguardente, Lituma - disse Josefino, a meia voz.
Lituma interrompeu-o com um gesto:
- vou abrir outra garrafa, ento. - Nem sua voz, nem seus gestos revelavam qualquer emoo, mas sua pele comeara a transpirar 

e ele respirava fundo. - O lcool 
ajuda a receber as ms notcias, no  verdade?
Abriu a garrafa com os dentes e encheu os copos. Esvaziou o seu de um gole, seus olhos se avermelharam e ficaram molhados, 

e o Mono, que bebia a golinhos, os olhos 
fechados, todo o rosto contrado numa careta, de repente se engasgou. Comeou a tossir e a bater no peito com a mo aberta.
- Este Mono, sempre to desajeitado - murmurou Lituma. - Vamos ver, colega, estou esperando.
- O pisco  a nica bebida que volta ao mundo pelos olhos - cantarolou o Mono. - As outras, pelo pipi.
- Virou puta, irmo - disse Josefino. - Est na Casa Verde.
O Mono teve outro acesso de tosse, seu copo rolou no cho e, na terra, uma manchinha mida se encolheu, desapareceu.
73


IV


- Os dentes delas batiam, madre - disse Bonifcia -, falei em pago para que no tivessem medo. Queria que a senhora visse 

com o que se pareciam.
- Por que voc nunca nos disse que sabia aguaruna, Bonifcia? - perguntou a superiora.
- A senhora no v que, por qualquer coisa, as madres dizem que voltei a ser selvagem? - disse Bonifcia. No v que dizem 

j est comendo com as mos, pag? Eu
tinha vergonha, madre.
Ela as traz pela mo da despensa e, na entrada do seu estreito quarto, pede que esperem. Elas se juntam, transformam-se 

num novelo, coladas  parede. Bonifcia entra,
acende a lamparina, abre o ba, revista-o, tira o velho molho de chaves e sai. Volta a pegar as meninas pela mo.
-  verdade que penduraram o pago na capirona?
- perguntou Bonifcia. - Que cortaram o cabelo dele, e ficou com a cabea pelada?
- Parece louca - disse Madre Anglica -, de repente sai com cada coisa.
Mas ela sabia, mezinha: os soldados o trouxeram num bote, amarraram-no  rvore da bandeira, as pupilas subiam ao teto 

de residncia para olhar, e Madre Anglica
surrava-as. As bandidas continuam com essa histria? Quando foi que a contaram a Bonifcia?
- Foi um passarinho amarelo que veio voando e me contou - disse Bonifcia. -  verdade que cortaram o cabelo dele? Como 

a Madre Griselda fez com as pagzinhas?
- Os soldados  que cortaram, boba - disse Madre Anglica. - No  a mesma coisa.
74
Madre Griselda corta os cabelos das meninas para acabar com os piolhos. O dele foi por castigo.
- E que foi que o pago fez, mezinha? - perguntou Bonifcia.
- Maldades, coisas feias - disse Madre Anglica. Tinha pecado.
Bonifcia e as meninas saem nas pontas dos ps. O ptio est partido em dois: a lua ilumina a fachada triangular da capela 

e a chamin da cozinha; o outro setor 
da misso  uma aglomerao de sombras midas. O muro de tijolos recorta-se, impreciso, sob a arcada opaca de cips e de 

galhos. A residncia das madres desapareceu 
na noite.
- Voc tem uma maneira muito injusta de ver as coisas - disse a superiora. - Sua alma  que importa s madres, no a cor 

da sua pele, nem o idioma que voc fala. 
Voc  ingrata, Bonifcia. Madre Anglica no fez outra coisa seno mim-la desde que voc chegou  misso.
- Eu sei, madre, por isso peo que reze por mim disse Bonifcia. -  que nessa noite voltei a ser selvagem, vai ver como 

foi horrvel.
- Pare de chorar - disse a superiora. - J sei que voc voltou a ser selvagem. Agora, o que quero  saber o que fez.
Larga suas mos, pede silncio com um gesto e comea a correr, sempre nas pontas dos ps. A princpio leva certa vantagem, 

mas a meio ptio as duas meninas correm 
a seu lado. Chegam juntas diante da porta fechada. Bonifcia inclina-se, experimenta as grossas, enferrujadas chaves do 

molho, uma aps outra. A fechadura chia, 
a madeira est molhada e soa como se estivesse oca quando elas batem com a mo aberta, mas a porta no se abre. A respirao 

das trs  difcil.
- Eu era muito pequena ento? - perguntou Bonifcia. - De que tamanho, mezinha? Mostre com sua mo.
- Assim, deste tamanho - disse Madre Anglica. Mas j era um demnio.
- E desde quando estava na misso? - perguntou Bonifcia.
- Pouco tempo - disse Madre Anglica. - S uns meses.
Pronto, j estava com o diabo no corpo, mezinha. Que estava dizendo esta louca? Vamos ver que histria contaria agora, 

e Bonifcia fora trazida para Santa Maria 
de Nieva com aquele pago. As pupilas contaram a ela,
75
agora Madre Anglica tinha que ir confessar a mentira. Seno iria para o inferno, mezinha.
- E ento por que me pergunta, manhosa? - perguntou Madre Anglica. -  falta de respeito e, alm disso, pecado.
- Estava brincando, mezinha - disse Bonifcia. Eu sei que a senhora vai para o cu.
A terceira chave gira, a porta cede. Mas fora deve haver uma tenaz concentrao de troncos, mato e plantas trepadeiras, 

ninhos, teias de aranha, fungos e madeixas 
de cip que resistem e atacam a porta. Bonifcia apoia todo seu corpo na madeira e empurra - h suavssimos, mltiplos dilaceramentos 

e um rudo fraco - at que 
se forma uma abertura suficiente. Ela segura a porta entreaberta, sente no rosto o roar de suaves filamentos, escuta o 

murmrio da folhagem invisvel e, logo, em 
suas costas, outro murmrio.
- Voltei a ser como elas, madre - disse Bonifcia.
- A da argola no nariz comeu e,  fora, fez a outra pagzinha comer. Empurrava a banana na boca com os dedos, madre.
- E o que tem isso a ver com o Demnio? - perguntou a superiora.
- Uma agarrava a mo da outra e chupava os dedos
- disse Bonifcia -, e depois a outra fazia o mesmo. Viu s a fome que tinham, madre?
E por que no teriam? As pobrezinhas no tinham comido nada desde Chicais, Bonifcia, a superiora sabia que tivera pena 

delas. E Bonifcia mal as entendia, madre, 
porque falavam esquisito. Aqui iam comer todos os dias, e elas, queremos ir embora, aqui iam ser felizes, e elas, queremos 

ir embora, e comeou a contar aquelas 
histrias do Menino Jesus, que agradavam tanto s pagzinhas, madre.
-  o que voc faz de melhor - disse a superiora.
- Contar histrias. E que mais, Bonifcia?
E ela tem os olhos como dois vaga-lumes, vo embora, verdes e assustados, voltem ao dormitrio, d um passo at as pupilas, 

com que licena saram? e empurrada 
pela mata a porta se fecha sem rudo. As pupilas olham para ela caladas, duas dezenas de pirilampos e uma s silhueta largussima 

e disforme, a escurido desfigura 
rostos, aventais. Bonifcia olha para a residncia: nenhuma luz se acendeu. De novo, ordena que voltem ao dormitrio, mas 

elas no se movem nem respondem.
76
- Aquele pago era meu pai, mezinha? - perguntou Bonifcia.
- No, no era seu pai - disse Madre Anglica. Voc nasceu em Urakusa, mas  filha de outro, no daquele malvado.
No lhe estava mentindo, mezinha? Mas Madre Anglica nunca mentia, louca, por que mentiria a ela? Para que no tivesse 

pena agora, mezinha? Para que no se envergonhasse? 
E no acreditava que seu pai tambm foi malvado?
- E por que devia ser? - perguntou Madre Anglica. - Podia ter bom corao, h muitos pagos assim. Mas por que voc se 

preocupa com isso? Por acaso no tem agora 
um pai muito maior e muito bom?
Nem desta vez obedecem, vo embora, voltem ao dormitrio, e as duas meninas esto a seus ps, tremendo, agarradas a seu 

hbito. Subitamente, Bonifcia d meia-volta, 
corre at a porta, empurra, abre-a, aponta a escurido da mata. As duas meninas esto junto dela mas no se decidem a passar 

o umbral, suas cabeas oscilam entre 
Bonifcia e a sombria abertura, e agora os pirilampos avanam, suas silhuetas delineiam-se diante de Bonifcia, comeam 

a murmurar, algumas a toc-la.
- Catavam piolho uma na outra, madre - disse Bonifcia -, pegavam e matavam com os dentes. No por maldade, mas brincando, 

madre, e antes de morder, mostravam o 
piolho e diziam, olhe o que eu tirei de voc. Brincando, e tambm fazendo carinho, madre.
-- Se j tinham confiana em voc, podia t-las aconselhado - disse a superiora. - Dizer que no fizessem essas sujeiras.
Mas ela s pensava no dia seguinte, madre: que no chegasse amanh, que Madre Griselda no corte os cabelos delas, no ir 

cortar, no por desinfetante e a superiora, 
que bobagens so essas?
- A senhora no v como ficam, eu tenho que segur-las e vejo - disse Bonifcia. - E tambm quando do banho nelas e o sabo 

entra nos seus olhos.
Tinha pena que Madre Griselda as livrasse dos bichos que devoravam suas cabeas? Aqueles bichos que as comem e as deixam 

doentes e incham suas barriguinhas? E  
porque ela ainda sonhava com as tesouras da Madre Griselda. Daquilo que lhe doeu tanto, madre, talvez fosse por isso.
- Voc no parece inteligente, Bonifcia - disse a superiora.
77
- Devia era sentir pena vendo essas crianas convertidas em animaizinhos, fazendo o que fazem os macacos.
- A senhora vai se aborrecer ainda mais, madre disse Bonifcia. - Vai me odiar.
Que queriam? por que no a atendiam? e uns segundos depois, falando mais alto, ir tambm? voltar a ser pags de novo? e 

as pupilas envolveram as duas meninas, diante 
de Bonifcia h s a massa compacta de aventais e olhos vidos. Que lhe importava, ento, Deus saberia, elas saberiam, que 

voltassem ao dormitrio ou fugissem ou 
morressem e olha a residncia: sempre s escuras.
- Cortaram-lhe o cabelo para tirar o Diabo que tinha dentro - disse Madre Anglica. - E agora basta, no pense mais no pago.
 que ela sempre se lembrava, mezinha, de como seria quando cortaram o cabelo dele, e o Diabo era como os piolhinhos? Que 

coisas dizia esta louca? A ele, para livr-lo 
do Diabo; s pagzinhas, para livr-las dos piolhos. Quer dizer que os dois se metiam pelos cabelos, mezinha, e Madre Anglica, 

que boba era, Bonifcia, que menina 
mais boba.
Saem, uma atrs da outra, em ordem, como nos domingos quando vo ao rio, ao passar por Bonifcia algumas estendem a mo 

e apertam carinhosamente seu hbito, seu 
brao nu, e ela, depressa, Deus as ajudaria, rezaria por elas. Ele cuidaria delas, e sustenta a porta com as costas. Cada 

pupila que pra no umbral e volta a cabea 
para a oculta residncia, ela empurra, obriga a afundar-se no boqueiro vegetal, a pisar a terra lamacenta e a se perder 

nas trevas.
- E de repente se soltou da outra e veio at onde eu estava - disse Bonifcia. - A menorzinha, madre, e pensei que ia me 

abraar, mas comeou tambm a catar na minha 
cabea, com seus dedinhos, e era para isso, madre.
- Por que no levou as meninas para o dormitrio?
- perguntou a superiora.
- De agradecida, pelo que dei de comer a elas, sabe?
- disse Bonifcia. - Seu rosto ficou triste porque no achava um piolho, e eu, tomara tivesse, tomara a pobre encontrasse 

unzinho.
- E depois voc protesta quando as madres chamam voc de selvagem - disse a superiora. - Por acaso est falando como uma 

crist?
E ela tambm catava piolho no cabelo das meninas e no sentia nojo, madre, e cada um que encontrava matava
com seus dentes.
78
Asquerosa? sim, podia ser e a superiora, voc fala como se estivesse orgulhosa dessa porcaria e Bonifcia 
estava, isso  que era horrvel, madre, 
e a pagzinha fazia como se tivesse encontrado um piolho na sua cabea e o mostrava com a mo, e depressa metia-o na boca, 

como se fosse mat-lo. E a outra tambm 
comeou a catar, madre, e ela tambm na outra.
- No me fale desse jeito - disse a superiora. - E agora chega, no quero que me conte mais nada, Bonifcia.
E ela, que entrassem as madres e a vissem, Madre Anglica e tambm a senhora, madre, e at as teria insultado, que furiosa 

estava, que dio tinha, madre, e as duas 
meninas j no esto mais l: devem ter sado entre as primeiras, engatinhando velozmente. Bonifcia atravessa o ptio, 

pra ao passar junto  capela. Entra, senta-se 
em um banco. A luz da lua chega obliquamente at o altar, morre junto  grade que separa as pupilas dos fiis de Santa Maria 

de Nieva na missa do domingo.
- E, alm disso, voc era uma ferazinha - disse Madre Anglica. - Era preciso correr atrs de voc por toda a misso. Em 

mim, voc deu uma mordida na mo, bandida.
- No sabia o que fazia - disse Bonifcia -, no v que era pagzinha? Se der um beijo a onde mordi, a senhora me perdoar, 

mezinha?
- Voc diz tudo com um tom de deboche e um olhar maroto que me do vontade de surr-la - disse Madre Anglica. - Quer que 

eu conte outra de suas histrias?
- No, madre - disse Bonifcia. - Estou rezando aqui faz tempo.
- Por que no est no dormitrio?  - perguntou Madre ngela. - com que licena voc veio  capela a estas horas?
- As pupilas fugiram - disse Madre Leonor -, Madre Anglica est procurando por voc. Ande, corra, a superiora quer falar 

com voc, Bonifcia.
- Devia ser bonita quando moa - disse Aquilino. Seus cabelos to compridos chamavam a ateno quando a conheci. Pena que 

saram tantas espinhas nela.
- E aquele cachorro do Retegui, ande, v, pode vir a polcia, voc vai me comprometer - disse Fusha. Mas aquela puta se
oferecia a ele todo o tempo, e ele foi
se embeiando.
79
- Mas se voc mesmo  que a mandava, homem disse Aquilino. - No era coisa de
putaria, mas obedincia. Por que voc a insulta?
- Porque voc  linda - disse Jlio Retegui. Comprarei um vestido na melhor loja de Iquitos. Voc gostaria? Mas afaste-se
dessa rvore; aproxime-se, no tenha medo
de mim.
Ela tem os cabelos claros e soltos, est descala, sua silhueta destaca-se diante do imenso tronco, sob uma espessa copa 

que vomita folhas como labaredas. A base 
da rvore  um coto de barbatanas de casca rugosa, impenetrvel, cinzenta, e no seu interior h madeira de lei para os cristos, 

duendes malignos para os pagos.
- Tambm tem medo da lupuna, patro? - perguntou Lauta. - No pensava isso do senhor.
Olha-o com olhos brincalhes e ri jogando a cabea para trs: os cabelos compridos varrem seus ombros queimados e seus ps 

brilham entre as samambaias midas, mais 
morenos que os ombros, de tornozelos grossos.
- E tambm sapatos e meias, menina - disse Jlio Retegui. - E uma bolsa. Tudo o que voc quiser.
- E voc, o que fazia enquanto isso? - perguntou Aquilino. - Apesar de tudo, ela era sua companheira. No tinha cimes?
- Eu s pensava na polcia - disse Fusha. - E ela o deixou louco, velho, tremia-lhe a voz quando falava com ela.
- O Senhor Jlio Retegui se babando por uma crist disse Aquilino. - Lalita!  Custo a acreditar, Fusha. Ela nunca me contou 

isso, e entretanto eu era seu confessor 
e seu pano de lgrimas.
- Velhas sbias essas horas - disse Jlio Retegui;
- no h jeito de saber como preparam as tinturas. Olhe que forte o vermelho, o preto. E j tm uns vinte anos, talvez mais. 

Ande, menina, vista isso, deixe ver 
como fica em voc.
- E para que queria que Lalita pusesse a manta? disse Aquilino. - Que idia, Fusha. Mas no entendo como  que voc ficou 

to tranqilo. Qualquer outro puxava a 
faca.
- O cachorro estava na sua rede e ela na janela disse Fusha. - Eu ouvia toda a sua lbia e morria de rir.
' Selvagens que habitam desde o rio Iguaparana, afluente do Potumayo, at o Cahuinari, em Loreto.
80
- E por que agora no faz o mesmo? - perguntou Aquilino. - Por que tanto dio de Lalita?
- No  a mesma coisa - disse Fusha. - Desta vez foi sem minha licena, s escondidas, de sacanagem.
- Nem sonhe com isso, patro - disse Lalita. Nem que rezasse e chorasse.
Mas ela a veste e o abanador de madeira, que funciona com o balano da rede, emite um som entrecortado, uma espcie de gaguejo 

nervoso e, enrolada na manta preta 
e vermelha, Lalita permanece imvel. A tela metlica da janela est constelada de nuvenzinhas verdes, quase amarelas, e, 

 distncia, entre a casa e a mata, aparecem 
os pezinhos de caf, certamente cheirosos.
- Voc parece um bicho-da-seda no seu casulo disse Jlio Retegui. - Uma dessas borboletinhas da janela. No custa nada 

a voc, Lalita, faa a minha vontade, tire-a.
- Coisa de louco - disse Aquilino. - Primeiro que a ponha e depois que a tire. Que idias as desse ricao.
- Voc nunca teve teso, Aquilino?  - perguntou Fusha.
- Darei o que voc quiser - disse Retegui. Pea, Lalita, seja o que for, venha, chegue para c.
A manta, agora no cho,  uma redonda vitria-rgia e dela brota, como a orqudea de uma planta aqutica, o corpo da moa, 

mido, de seios garbosos com corolas 
pardas e botes como flechas. Atravs da blusa transparecem um ventre liso, umas coxas firmes.
- Entrei fazendo que no via - disse Fusha -, rindo para que o cachorro no se sentisse envergonhado. Saiu da rede de um 

pulo e Lalita cobriu-se com a manta.
- Mil soles por uma moa no  coisa de cristos prudentes - disse Aquilino. -  o preo de um motor, Fusha.
- Vale dez mil - disse Fusha. - S que estou apressado, o senhor sabe de sobra por qu, Dom Jlio, e no posso carregar 

mulheres. Queria partir hoje mesmo.
Mas assim desse jeito no iam lhe tomar mil soles, ainda mais que o tinha escondido. E alm disso, Fusha estava vendo que 

o negcio do caucho tinha ido para o diabo, 
e com as cheias era impossvel extrair madeira este ano e Fusha, essas
lorelanas', Dom Jlio, sabia bem: so uns vulces que incendeiam tudo. Ficava com pena
de deix-la,
' Naturais do departamento de Loreto.
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porque no era s bonita: cozinhava e tinha bom corao. Decidia-se, Dom Jlio?
-  verdade que voc sentia pena por deixar Lalita em Uchamala com o Senhor Retegui? - perguntou Aquilino.
- Ou era s por dizer?
- E ento devia ter pena? - perguntou Fusha. Nunca amei aquela puta.
- No saia da laguna - disse Jlio Retegui -, vou tomar banho com voc. Mas est nua, e se vierem as sanguessugas? Vista 

algo, Lalita, no, espere, ainda no.
Lalita est acocorada no remanso e a gua vai subindo, a seu redor brotam ondas, circunferncias concntricas. H uma chuva 

de cips  flor da gua, e Jlio Retegui 
j os estava sentindo, Lalita, cubra-se: eram finas, espetavam, metiam-se pelos buraquinhos, menina, e dentro arranhavam, 

infeccionavam tudo e teria que tomar os 
chs dos horas e agentar uma semana de diarria.
- No so sanguessugas, patro - disse Lalita -, no est vendo que so peixes pequeninos? E as plantas que esto no fundo, 

isso  o que a gente sente. Que morna 
que est a gua, que boa, no  verdade?
- Entrar no rio com uma mulher, os dois pelados disse Aquilino. - Nunca pensei nisso quando era moo e agora me arrependo. 

Deve ser uma coisa muito boa, Fusha.
- Entrarei no Equador pelo Santiago - disse Fusha.
- Uma viagem difcil, Dom Jlio, no nos veremos mais. J pensou nisso? Saio esta noite mesmo. Ela s tem quinze anos, e 

eu fui o primeiro que a comeu.
- s vezes penso por que no me casei - disse Aquilino. - Mas com a vida que levo, no podia. Sempre viajando, no rio  

que no a encontrar mulher. Voc, sim, 
que no pode se queixar, Fusha. Elas nunca lhe faltaram.
- Estamos de acordo - disse Fusha. - Sua lanchinha e as conservas.  um bom negcio para os dois, Dom Jlio.
- O Santiago est muito longe e voc nunca chegar sem que o vejam - disse Jlio Retegui. - E, alm disso, sem parar, e 

nesta poca, demorar um ms e pouco. Por 
que no vai para o Brasil, no  melhor?
- L esto me esperando - disse Fusha. - Deste lado da fronteira e tambm do outro, por um negcio de Campo Grande. No 

sou bobo, Dom Jlio.
- Voc no chegar nunca ao Equador - disse Jlio Retegui.
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- E voc no chegou, de verdade - disse Aquilino.
- Ficou no Peru mesmo.
- Sempre foi assim, Aquilino - disse Fusha. Todos os meus planos saram s avessas.
- E se ela no quiser? - perguntou Jlio Retegui.
- Voc mesmo tem que convencer Lalita antes que eu lhe d a lancha.
- Ela sabe que minha vida ser correr de um lado para outro - disse Fusha -, que mil coisas podem acontecer. Nenhuma mulher 

gosta de andar atrs de um homem fodido. 
Se sentir feliz por ficar, Dom Jlio.
- E, apesar disso, voc v - disse Aquilino. - Seguiu-o e o ajudou em tudo. Teve uma vida de co, a seu lado, e sem se queixar. 

Ruim por ruim, Lalita foi uma boa 
mulher, Fusha.
Foi assim que nasceu a Casa Verde. Sua construo demorou muitas semanas; as tbuas, as vigas e os tijolos tinham de ser 

arrastados do outro lado da cidade, e as 
mulas alugadas por Dom Anselmo andavam penosamente pelo areal. O trabalho comeava de manh, ao parar a chuva seca, e terminava 

ao aumentar o vento. De tarde, de 
noite, o deserto engolia os cimentos e enterrava as paredes, os iguanos roam as madeiras, os urubus armavam seus ninhos 

na incipiente construo e, a cada manh, 
era preciso refazer o iniciado, corrigir os planos, repor os materiais, num combate mudo que foi empolgando a cidade. "Em 

que momento o forasteiro se dar por vencido?" 
perguntavam os piuranos. Mas os dias passavam e, sem se deixar abater pelos percalos nem contagiar pelo pessimismo de conhecidos 

e de amigos, Dom Anselmo continuava 
desenvolvendo uma assombrosa atividade. Dirigia os trabalhos seminu, o mato de plos de seu peito mido de suor, a boca 

cheia de alegria. Distribua aguardente e 
chicha entre os pees, e ele mesmo carregava tijolos, fincava vigas, ia e vinha pela cidade aulando as mulas. E certo dia 

os piuranos admitiram que Dom Anselmo 
venceria, ao perceber, no outro lado do rio, diante da cidade, como o seu mensageiro no umbral do deserto, um slido, invicto 

esqueleto de madeira. A partir de ento, 
o trabalho foi rpido. O povo de Castilla e das rancharias do Camal vinha todas as manhs presenciar os trabalhos, aconselhavam 

e, s vezes, espontaneamente, davam 
uma mo aos pees. Dom Anselmo oferecia bebidas a todo mundo.
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Nos ltimos dias, um ambiente de feira popular reinava em torno da obra: vendedoras de chicha, fruteiras, vendedoras de 

queijos, doces e refrescos, vinham oferecer
sua mercadoria a trabalhadores e curiosos. Os fazendeiros paravam ao passar por ali e, de seus cavalos, dirigiam a Dom Anselmo 

palavras de estmulo. Um dia, Chpiro 
Seminrio, o poderoso agricultor, deu um boi e uma dezena de cntaros de chicha. Os pees prepararam um churrasco.
Quando a casa ficou pronta, Dom Anselmo decidiu que fosse inteiramente pintada de verde. At as crianas riam s gargalhadas 

ao ver como seus muros cobriam-se de 
uma pele esmeralda, onde estalava o sol e retrocediam reflexos cheios de escama. Velhos e jovens, ricos e pobres, homens 

e mulheres zombavam alegremente do capricho 
de Dom Anselmo de lambuzar sua morada daquela maneira. Batizaram-na de imediato: a Casa Verde. Mas no s a cor os divertia, 

tambm a sua extravagante anatomia. 
Constava de dois andares, mas o inferior mal merecia esse nome: um espaoso salo dividido por quatro vigas, tambm verdes, 

que sustentavam o teto; um ptio descoberto, 
com cho de pedrinhas polidas pelo rio e um muro circular, alto como um homem. O segundo andar compreendia seis quartos 

minsculos, alinhados diante de um corredor 
com balaustrada de madeira, que encimava o salo. Alm da entrada principal, a Casa Verde tinha duas portas traseiras, uma 

cavalaria e uma grande despensa.
No armazm do espanhol Eusebio Romero, Dom Anselmo comprou esteiras, lamparinas, cortinas de cores berrantes, muitas cadeiras. 

Certa manh, dois carpinteiros da 
Gallinacera anunciaram: "Dom Anselmo encomendou-nos uma escrivaninha, um balco igualzinho ao do La Estrela del Norte e 

meia dzia de camas!" Ento, Dom Eusbio 
Romero confessou: "E para mim, seis pias, seis espelhos, seis bacias". Uma espcie de efervescncia apossou-se de todos 

os bairros, uma ruidosa e agitada curiosidade.
Brotaram as suspeitas. De casa em casa, de salo em salo, as beatas cochichavam, as senhoras olhavam para seus maridos 

com desconfiana, os vizinhos trocavam sorrisos 
maliciosos e, um domingo, na missa do meio-dia, o Padre Garcia afirmou do plpito: "Prepara-se uma agresso contra a moral 

desta cidade". Os piuranos atacavam Dom 
Anselmo na rua, exigiam que falasse. Mas era intil: " um segredo", dizia-lhes alvoroado como um colegial; "um pouco de 

pacincia, j vo saber". Indiferente  
agitao dos bairros,
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continuava vindo todas as manhs ao La Estrella del Norte, e bebia, brincava e distribua brindes e galanteios s mulheres 

que atravessavam a praa. De tarde, fechava-se
na Casa Verde, para onde se mudara, depois de dar a Dom Melchor Espinoza uma caixa de garrafas de pisco e uma sela de couro 

cinzelado.
Pouco depois, Dom Anselmo partiu. Em seu cavalo negro, que acabava de comprar, abandonou a cidade como havia chegado, numa 

manh de madrugada, sem que ningum o 
visse, com rumo desconhecido.
Tanto se tem falado em Piura sobre a Casa Verde original, aquela casa matriz, que j ningum sabe com exatido como era 

realmente, nem os verdadeiros pormenores 
de sua histria. Os sobreviventes da poca, muito poucos, atrapalham-se e se contradizem, acabaram por confundir o que viram 

e ouviram com suas prprias mentiras. 
E as testemunhas esto j to decrpitas, e  to obstinado o seu mutismo, que de nada valeria interrog-las. Em todo caso, 

a primitiva Casa Verde j no existe. 
At h alguns anos, no lugar onde foi levantada - a extenso de deserto limitada por Castilla e Catacaos - encontravam-se 

pedaos de madeira e objetos domsticos 
carbonizados, mas o deserto, e a estrada que construram, e as chcaras que surgiram nos arredores, acabaram por apagar 

todos aqueles restos e agora no h piurano 
capaz de precisar em que parte do areal amarelado foi construda, com suas luzes, sua msica, seus risos, e o resplendor 

dirno de suas paredes que,  distncia 
e de noite, a convertia num quadrado, fosforescente rptil. Nas histrias mangaches conta-se que existiu nas proximidades 

da outra margem do Viejo Puente, que era 
muito grande, a maior das construes de ento, e que tinha tantos lampies de cores suspensos em suas janelas que sua luz 

feria a vista, tingia a areia em derredor 
e at iluminava a ponte. Mas sua principal virtude era a msica que, pontualmente, rompia no seu interior ao comear a tarde, 

durava toda a noite e se ouvia at 
mesmo na catedral. Dom Anselmo, dizem, percorria incansvel as chicheras dos bairros, e ainda as dos povoados vizinhos, 

em busca de artistas, e de todas as partes 
trazia violonistas, tocadores de caixa, raspadores de queixada, flautistas, mestres do bombo e da corneta. Mas nunca harpistas, 

pois ele tocava harpa, e seu instrumento 
presidia, inconfundvel, a msica da Casa Verde.
- Era como se o ar estivesse envenenado - diziam as velhas do Malecn. - A msica entrava por todas as
partes,
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ainda que fechssemos portas e janelas, e a ouvamos enquanto comamos, enquanto rezvamos e enquanto dormamos.
- E precisava ver a cara dos homens quando a ouviam
- diziam as beatas afogadas em vus. - E precisava ver como os arrancava do lar, e os levava  rua e os empurrava para o 

Viejo Puente.
- De nada valia rezar - diziam as mes, as esposas, as noivas -, nem nosso choro, nossas splicas, nem os sermes dos padres, 

nem as novenas, nem mesmo os trisgios.
- Temos o inferno s nossas portas - trovejava Padre Garcia -, qualquer um poderia ver, mas vocs esto cegos. Piura  Sodoma 

e  Gomorra.
- Talvez seja verdade que a Casa Verde trouxe m sorte - diziam os velhos, estalando a lngua. - Mas como a gente se divertia 

na maldita.
Poucas semanas aps Dom Anselmo ter voltado a Piura com a caravana de mulheres, a Casa Verde j impusera seu domnio. No 

princpio, seus visitantes saam da cidade 
s ocultas; esperavam a penumbra, discretamente atravessavam o Viejo Puente e submergiam no areal. Logo as incurses aumentaram 

e os jovens, cada vez mais imprudentes, 
no se importavam mais de ser reconhecidos pelas senhoras postadas atrs das gelosias do Malecn. Em ranchos e sales, nas 

fazendas, no se falava de outra coisa. 
Os sermes multiplicavam advertncias e exortaes, o Padre Garcia estigmatizava o desregramento com referncias bblicas. 

Um Comit de Obras Pias e Bons Costumes 
foi criado e as damas que o compunham visitaram o governador e o prefeito. As autoridades concordavam, cabisbaixas: certamente, 

elas tinham razo, a Casa Verde era 
uma afronta a Piura, mas, que fazer? As leis ditadas nessa podre capital que  Lima amparavam Dom Anselmo, a existncia 

da Casa Verde no violava a Constituio 
nem era proibida pelo Cdigo Penal. As damas cortaram o cumprimento s autoridades, fecharam a elas seus sales. Entretanto, 

os adolescentes, os homens e at os 
pacficos ancios se precipitavam em bandos at o bulioso e refulgente edifcio.
Perderam-se os piuranos mais sbrios, os mais trabalhadores e honestos. Na cidade, antes to silenciosa, instalaram-se como 

pesadelos o rudo, o movimento noturno. 
De madrugada, quando a harpa e os violes da Casa Verde silenciavam, um ritmo indisciplinado e variado elevava-se da cidade 

at o cu: os que voltavam, ss ou em
grupos,
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percorriam as ruas, rindo s gargalhadas e cantando. Os homens mostravam a noite no dormida nos rostos avariados pela mordedura 

da areia, e no La Estrella del Norte
contavam estrambticas anedotas, que corriam de boca em boca, e os menores repetiam.
- Est vindo, est vindo - dizia, trmulo, o Padre Garcia -, s falta chover fogo sobre Piura, todos os males do mundo esto 

caindo sobre ns.
Porque  certo que tudo isso coincidiu com desgraas. No primeiro ano o rio Piura ' cresceu e continuou crescendo, despedaou 

as cercas das chcaras, muitas plantaes 
do vale se inundaram, alguns animais morreram afogados e a umidade manchou extensas reas do deserto de
Sechura': os homens
praguejavam, as crianas faziam castelos 
com a areia molhada. No segundo ano, como em represlia contra as injrias que os donos das terras inundadas proferiram, 

o rio no voltou a seu leito; cobriu-se 
de ervas e abrolhos, que morreram pouco depois de nascer, e s ficou uma extensa fenda ulcerada: os canaviais secaram, o 

algodo brotou prematuramente. No terceiro 
ano, as pragas dizimaram as colheitas.
- So as desgraas do pecado - rugia o Padre Garcia. - Ainda h tempo, o inimigo est em suas veias, matem-no com oraes.
Os feiticeiros dos ranchos regavam as plantaes com sangue de cabritos novos, chafurdavam sobre os sulcos, proferiam esconjuros 

para atrair a gua e afugentar 
os insetos.
- Deus meu,  Deus meu - lamentava-se o  Padre Garcia. - H fome e h misria e, em vez de escarmentar, pecam cada vez mais.
Porque nem a inundao, nem a seca, nem as pragas detiveram a glria crescente da Casa Verde.
O aspecto da cidade mudou. Aquelas tranqilas ruas provincianas povoaram-se de forasteiros que, nos fins de semana, viajavam 

a Piura, de Sullana, Paita, Huancabamba
e, ainda, Tumbes e Chiclayo', seduzidos pela fama da Casa Verde,
' Esse rio atravessa o departamento de Piura e desgua no oceano Pacfico.
' No departamento de Piura.
' Sullana, provncia do departamento de Piura; capital Sullana. Paita, provncia do departamento de Piura, litornea; capital 

Paita. Tumbes, departamento e provncia
litornea; ao norte faz limite com Piura e o Equador. Chiclayo, provncia do departamento de Lambayeque, litornea; capital 

Chiclayo.
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que se havia propagado atravs do deserto. Passavam ali a noite e quando vinham  cidade mostravam-se vis e descomedidos, 

passeavam sua bebedeira pelas ruas
como uma proeza. Os piuranos odiavam essa gente e, s vezes, havia brigas, no de noite e no cenrio dos desafios, o campinho 

que est debaixo da ponte, mas  plena 
luz e na Plaza de Armas, na Avenida Grau e em qualquer outra parte. Rebentaram lutas coletivas. As ruas se tornaram perigosas.
Quando, apesar da proibio das autoridades, alguma das mulheres se aventurava pela cidade, as senhoras arrastavam suas 

filhas para o interior do lar e corriam as 
cortinas. O Padre Garcia saa ao encontro da intrusa, transtornado; os piuranos tinham de segur-lo para impedir uma agresso.
No primeiro ano, a casa abrigou apenas quatro mulheres, mas no ano seguinte, quando aquelas partiram, Dom Anselmo viajou 

e voltou com oito e dizem que em seu apogeu 
a Casa Verde chegou a ter vinte mulheres. Vinham  casa diretamente dos arredores. Do Viejo Puente via-se a sua chegada, 

ouviam-se seus gritos e atrevimentos. Seus 
vestidos coloridos, seus lenos e enfeites cintilavam como crustceos na rida paisagem.
Dom Anselmo, entretanto, freqentava a cidade. Percorria as ruas no seu cavalo negro, ao qual havia ensinado cabriolas: 

sacudir alegremente o rabo quando passava 
uma mulher, dobrar uma pata em sinal de cumprimento, executar passos de dana ao ouvir msica. Engordara, vestia-se de modo 

extravagante: chapu de palha mole, cachecol 
de seda, camisas de linho, cinto com incrustaes, calas ajustadas, botas de salto alto e esporas. Suas mos ferviam de 

anis. s vezes parava para beber uns tragos 
no La Estrella del Norte, e muitos grados no vacilavam em sentar-se  sua mesa, falar com ele e acompanh-lo at os arredores.
A propriedade de Dom Anselmo traduziu-se em ampliaes laterais e verticais da Casa Verde. Esta, como um corpo vivo, foi 

crescendo, amadurecendo. A primeira inovao 
foi um muro de pedra. Coroado de cardos, cascalhes, puas e farpas para desanimar os ladres, envolvia a parte trrea e a 

ocultava. O espao encerrado entre o muro 
e a casa foi primeiro um patiozinho pedregoso, logo um saguo nivelado com vasos de cactos, depois um salo circular com 

cho e teto de esteiras e, por fim, a 
madeira substituiu a palha, o salo foi lajeado e o teto cobriu-se de telhas. Sobre o segundo andar surgiu outro, pequeno 

e cilndrico como um torreo de vigia. 
Cada pedra acrescentada,
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cada telha ou tbua era automaticamente pintada de verde. A cor escolhida por Dom Anselmo acabou por imprimir  paisagem 

uma nota refrescante, vegetal, quase lquida. 
De longe,
os viajantes avistavam a construo de muros verdes, quase diludos na viva luz amarela da areia, e tinham a sensao de 

se aproximar de um osis de palmeiras e 
coqueiros hospitaleiros, de guas cristalinas, e era como se aquela distante presena prometesse todo tipo de recompensas 

para o corpo fatigado, permanentes estmulos 
para o nimo deprimido pelo mormao do deserto.
Dom Anselmo, dizem, ocupava o ltimo andar, aquela fina ponta, e ningum, nem seus melhores clientes - Chpiro Seminrio, 

o prefeito, Dom Eusebio Romero, o Doutor 
Pedro 
Zevallos -, tinha acesso quele lugar. Dali, sem dvida, Dom Anselmo devia observar o desfile dos visitantes pelo areal, 

veria as silhuetas que os torvelinhos de 
areia faziam imprecisas, aqueles animais esfomeados que vagam ao redor da cidade desde que cai o sol.
Alm das mulheres, a Casa Verde hospedou, nos seus bons tempos, Anglica Mercedes, jovem mangache que herdara de sua me 

a sabedoria, a arte dos temperos. com ela, 
Dom Anselmo ia ao mercado, aos armazns, encomendando vveres e bebidas: comerciantes e vendedoras do mercado dobravam-se 

 sua passagem como bambus ao vento. Os 
cabritos, cobaias, porcos e cordeiros que Anglica Mercedes guisava com misteriosas ervas e condimentos chegaram a ser um 

dos atrativos da Casa Verde, e havia velhos 
que juravam: "Vamos s para saborear aquela comida fina".
Os arredores da Casa Verde estavam sempre animados por uma multido de vagabundos, mendigos, vendedores de bugigangas e 

fruteiras que assediavam os clientes que 
chegavam ou saam. As crianas da cidade fugiam de suas casas  noite e, escondidas atrs dos matagais, espiavam os visitantes 

e escutavam a msica, as gargalhadas. 
Alguns, arranhando mos e pernas, escalavam o muro e olhavam cobiosamente o interior. Certo dia (que era santo de guarda), 

o Padre Garcia postou-se no areal, a 
poucos metros da Casa Verde, e, um por um, investia contra os visitantes, e exortava-os a retornar  cidade e a se arrepender. 

Mas eles inventavam desculpas: um 
encontro para negcios, uma desgraa que  preciso afogar porque seno envenena a alma, uma aposta que compromete a honra. 

Alguns gracejavam e convidavam o Padre 
Garcia a acompanh-los e houve quem se ofendesse e puxasse o revlver.
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Novos boatos sobre Dom Anselmo surgiram em Piura. Para alguns, ele fazia viagens secretas a Lima, onde guardava o dinheiro 

acumulado e adquiria propriedades. Para
outros, era o simples testa-de-ferro de uma empresa que contava entre seus scios o governador, o prefeito e fazendeiros. 

Na fantasia popular, o passado de Dom Anselmo 
se enriquecia, e cada dia acrescentavam-se  sua vida feitos sublimes ou sangrentos. Velhos mangaches asseguravam identificar 

nele um adolescente que, anos atrs, 
cometera assaltos no bairro, e outros afirmavam: " um presidirio foragido, um antigo guerrilheiro, um poltico em desgraa". 

S o Padre Garcia  que se atrevia 
a dizer: "Seu corpo cheira a enxofre".
E de madrugada levantam-se para seguir viagem, descem o barranco e a lanchinha desapareceu. Comeam a procur-la, Adrin 

Nieves de um lado, do outro, o Cabo Roberto 
Delgado e o criado e, de repente, gritos, pedras, pelados, e a est o cabo, rodeado d aguarunas, chovem pauladas nele, 

tambm no criado, e agora o viram, e os 
selvagens correm para ele, merda, Adrin Nieves, chegou a sua hora, e se atira  gua: fria, rpida, escura, no tire a 

cabea para fora, mais para o fundo, que 
a corrente o leve, flechas? que o puxe rio abaixo, balas? pedras? merda, os pulmes querem ar, a cabea roda como um pio, 

cuidado com as cibras. Tira a cabea 
e ainda v Urakusa e, no barranco, a farda verde do cabo, os selvagens esto machucando o cabo, era culpa dele, avisara, 

e o criado, escaparia? vo mat-lo? Deixa-se 
ir flutuando guas abaixo, agarrado a um tronco, e depois, quando sobe  margem direita do rio, o corpo est dolorido. Ali 

mesmo dorme, na praia, desperta, ainda 
no lhe voltaram as foras, e um escorpio morde-o  vontade. Tem que acender uma fogueira e pr a mo em cima, assim, que 

transpire um pouco, mesmo que queime tanto, 
chupa a ferida, cospe, enxge a boca, nunca se sabe com essas picadas, escorpio filho da puta. Segue depois, pela selva, 

no h selvagens em parte alguma, mas 
 melhor ir pelo Santiago, e se o pega uma patrulha e o devolve  guarnio de Borja? Tambm no pode voltar ao povoado, 

ali os soldados o descobririam amanh ou 
depois e, sem perder tempo,  preciso fazer uma balsa. Demora muito, ah! se voc tivesse um machete, Adrin Nieves, as mos 

esto cansadas e as foras no chegam 
para derrubar troncos grossos.
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Escolhe trs rvores mortas, brancas e bichadas, que ao primeiro empurro vm abaixo, amarra-as com cips e faz duas varas,

uma para levar como sobressalente. E
agora
nada de ir ao rio grande, procura canais e lagunas para atravessar, e no  difcil, toda a zona  de igaps. S que no 

tem como se orientar, essas terras altas 
no so as suas, as guas subiram muito, chegar assim at o Santiago? uma semanazinha mais, Adrin Nieves, voc era um 

bom prtico, abra o nariz, o cheiro no 
engana, essa  a direo certa, e coragem, homem, muita coragem. Mas onde est agora, o canal parece girar  sua volta e 

navega quase s escuras, a mata  densa, 
o sol e o ar mal entram, cheira a madeira podre, a lama, e depois tanto morcego, doem os braos, tem a garganta rouca de 

espant-los, uma semanazinha mais. Nem para 
trs nem para a frente, nem como voltar ao Maran, nem como chegar ao Santiago, a corrente leva-o  sua vontade, o corpo 

no agenta de fadiga, chove ainda por
cima, dia e noite chove. Mas o canal termina e aparece uma lagoa, uma laguna pequenina com tucuns
espinheiros nas margens,
o cu est escurecendo. Dorme em uma ilha,
ao acordar mastiga umas ervas amargas, segue viagem e s dois dias mais tarde mata a pauladas uma anta novinha, come carne 

meio crua, os msculos no podem mais 
movimentar a vara, os mosquitos picam muito, a pele arde, tem as pernas como as do Capito Quiroga, do jeito que o cabo 

contara, o que seria dele, os urakusas o 
soltariam? estavam furiosos, ser que o matariam? Talvez tivesse sido melhor voltar  guarnio de Borja, prefervel ser 

soldado que cadver, triste morrer de fome 
ou de febre na selva, Adrin Nieves. Est de borco na balsa e assim um monto de dias, e quando acaba o canal e sai em uma 

laguna enorme, o que ser, to grande 
que parece o lago, o que ser, o lago Rimache'? No podia ter subido tanto, impossvel, e no centro est a ilha e no alto 

do barranco h uma parede de lupunas. Empurra
o remo sem se levantar e, at que enfim, entre as rvores cheias de corcovas, silhuetas nuas, merda, sero aguarunas? me 

ajudem, sero civilizados? abana para eles 
com as duas mos, e eles se agitam, guincham, me ajudem, saltam, apontam-no, e ao atracar v o cristo, a crist, esperam-no, 

e diz a ele, quase fico louco, patro, 
no imagine que alegria ver um cristo. Salvara sua vida, patro, pensava que tudo tinha
acabado,
' Lago formado pelo rio Chapuli, prximo ao Pastaza, no departamento de Loreto.
91
e o patro ri e d a ele outro trago, o sabor doce, spero do anis, e atrs do patro est uma crist jovem, bonita sua
cara, bonitos seus cabelos compridos,
e era como se sonhasse, patroa, a senhora tambm me salvou: agradecia em nome do cu. Quando acorda eles ainda esto ali, 

a seu lado, e o patro, que coisa, j era
hora, homem, dormira um dia inteiro, finalmente abria os olhos, sentia-se bem? E Adrin Nieves, sim, muito bem, patro, 

mas no havia soldados por aqui? No, no
havia, por que queria saber, que havia feito? e Adrin Nieves, nada de mau, patro, no matei ningum, s que desertou, 

no podia viver fechado num quartel, para
ele no havia nada como o ar livre, chamava-se Nieves, e antes que os soldados o agarrassem era prtico. Prtico? Ento 

devia conhecer bem a selva, saberia levar
uma lancha a qualquer parte, e com qualquer tempo, e ele, claro que podia, patro, era prtico desde que nascera. Agora 

se perdeu porque se metera nos igaps em
plena cheia, no queria que os soldados o vissem; no poderia ficar, patro? E o patro, sim, poderia ficar na ilha, teria 

trabalho. Aqui estaria seguro, nem soldados
nem guardas viriam nunca: esta era sua mulher, Lalita, e ele, Fusha.
- Que  que h, colega? - perguntou Josefino. No se apavore.
- vou  casa da Chunga - rugiu Lituma. - Vocs vm comigo? No? No fazem falta, vou sozinho.
Mas os Len o seguraram pelos braos e Lituma permaneceu no seu lugar, vermelho, suado, os olhinhos revoluteando angustiadamente 

pelo aposento.
- Para qu, irmo? - perguntou Josefino. - Aqui estamos bem. Fique calmo.
- S para ouvir o harpista dos dedos de prata gemeu Lituma. - S para isso, invencveis. Tomamos um trago e voltamos, palavra.
- Voc sempre foi to macho, colega. No fraqueje agora.
- Sou mais homem que qualquer um - balbuciou Lituma. - Mas tenho um corao deste tamanho.
- Trate de chorar - disse o Mono, carinhosamente.
- Isso desafoga, primo, no tenha vergonha.
Lituma olhava o vazio e seu terno cor de abbora estava cheio de ndoas de terra e de saliva. Ficaram calados um bom tempo, 

bebendo como se no estivessem juntos,
92
sem brindar, e at eles chegavam os sons de tonderos e de valsas, e o ambiente se impregnava com cheiro de chicha e fritura.
O balano do lampio aumentava e diminua,
em ritmo igual, as quatro silhuetas projetadas sobre as esteiras, e a vela do nicho, pequena, desprendia um vaporzinho anelado 

e escuro que envolvia a Virgem de
gesso como uma comprida cabeleira. Lituma levantou-se com grande esforo, sacudiu a roupa, passeou uns olhos perdidos pela 

pea e, de sbito, levou um dedo  boca.
Esteve esgaravatando a garganta sob o atento olhar dos outros, que o viram empalidecer, e afinal vomitou, ruidosamente, 

com nsias que estremeciam todo o corpo.
Em seguida, voltou a sentar-se, limpou o rosto com o leno e, exausto, olheiras fundas, acendeu um cigarro com as mos trmulas.
- J estou melhor, colega. Continue contando.
- Sabemos muito pouco, Lituma. Quer dizer, sobre como aconteceu a coisa. Quando prenderam voc, fomos embora. Como ramos 

testemunhas, podiam complicar a gente,
voc sabe que os Seminrio so gente rica, com tantas influncias. Eu fui para  Sullana e  seus primos para Chulucanas. 

Quando voltamos, ela tinha deixado a casinha
de Castilla e ningum sabia onde estava.
- Ento a coitada ficou sozinha - murmurou Lituma. - Sem um tosto e ainda grvida?
- Por isso no se preocupe, irmo - disse Josefino.
- No teve o filho. Em pouco tempo soubemos que andava pelas chicheras, e certa noite ns a encontramos no Rio Bar com 

um sujeito, e j no estava grvida.
- Que fez ela quando viu vocs?
- Nada, colega. Cumprimentou muito alegre. Depois topamos com ela aqui e ali, e sempre estava acompanhada. At que um dia 

a vimos na Casa Verde.
Lituma passou o leno no rosto, chupou o cigarro com fora e soprou uma grande baforada de fumo espesso.
- Por que no me escreveram? - sua voz era cada vez mais rouca.
- Voc j tinha bastantes problemas, preso, longe da terra. Para que amargurar mais a sua vida, colega? No se do essas 

notcias a quem j anda fodido.
- Chega, primo, parece que voc gosta de sofrer disse Josefino. - Vamos mudar de conversa.
Dos lbios de Lituma corria at o colarinho um fio de saliva brilhante. Sua cabea se mexia lenta, pesada, mecnica, seguindo 

a mesma oscilao das sombras nas esteiras.
93
Josefino encheu os copos. Continuaram bebendo, sem falar, at que a vela do nicho se apagou:
- J faz duas horas que estamos aqui - disse Jos, mostrando o castial. -  o tempo que dura a mecha.
- Estou contente porque voc voltou, primo - disse o Mono. - No faa uma cara assim. Ria, todos os mangaches vo ficar 

felizes por ver voc. Ria, priminho.
Aproximou-se de Lituma, abraou-o e ficou olhando para ele com seus olhos grandes, vivos e ardentes, at que Lituma deu 

um tapinha na sua cabea e sorriu.
- Assim  que eu gosto, primo - disse Jos. - Viva a Mangachera, cantemos o hino.
E subitamente os trs comearam a falar, eram trs crianas e pulavam os muros de tijolos da escola pblica para tomar banho 

no rio ou, montados num burro roubado, 
percorriam caminhos arenosos, entre chcaras e algodoais, em direo s runas de Narihual', e ali estava o bulcio dos 

carnavais, as cascas de ovos e os bales 
choviam sobre os enfurecidos transeuntes, e eles molhavam tambm os tiras, que no se atreviam a ir busc-los nos seus esconderijos 

dos terraos e das rvores, e 
agora, nas manhs quentes, disputavam fogosas partidas de futebol com uma bola de pano no campo infinitamente grande do 

deserto. Josefino escutava mudo, os olhos 
cheios de inveja, os mangaches censuravam Lituma,  verdade que voc se alistou na guarda civil? seu renegado, seu vira-casaca, 

e os Len e Lituma riam. Abriram 
outra garrafa. Sempre calado, Josefino fazia rodelas de fumaa, Jos assobiava, o Mono guardava o pisco na boca, simulava 

mastig-lo, fazia gargarejos, caretas, 
no sinto nuseas nem fogo, s esse calorzinho que no se confunde.
- Calma,  invencvel -  disse Josefino.  -  Aonde vai, agarrem-no.
Os Len alcanaram-no na porta, Jos segurava-o pelos ombros e o Mono abraava-o pela cintura, sacudia-o com fora, mas 

sua voz estava atordoada e chorosa:
- Para qu, primo. No v, seu corao vai sangrar. Voc tem que me ouvir, Lituma, priminho.
Lituma acariciou lentamente o rosto do Mono, revolveu seus cabelos crespos, afastou-o sem grosseria e saiu, cambaleando. 

Eles o seguiram. Do lado de fora,  frente 
de suas casas de cana-brava, os mangaches dormiam sob as estrelas,
' Runas de antiga civilizao.
94
formavam silenciosos cachos humanos na areia. O bulcio das chicheras aumentara, o Mono repetia as toadas entre
dentes e, quando escutava uma harpa, abria 
os braos: como Dom Anselmo no h! Ele e Lituma iam na frente, de braos dados: ziguezagueantes, s vezes da escurido 

subia um protesto, "Cuidado, no pisem em 
mim", e eles, em coro, "Desculpe, dom", "mil perdes, dona".
- Essa histria que voc contou a ele parecia um filme - disse Jos.
- Mas acreditou nela - disse Josefino. - No me lembrei de outra. E vocs no me ajudaram, nem sequer abriram a boca.
- Pena que no estamos em Paita, primo - disse o Mono. - Me jogaria na gua com roupa e tudo. Que bom seria.
- EmYacila' h ondas,  um mar de verdade - disse Lituma. - Paita  um laguinho, o Maran  mais bravo que esse mar. No
domingo iremos a Yacila, primo.
- Levemos Lituma  casa de Felipe - disse Josefino.
- Eu tenho dinheiro. No podemos deixar que v, Jos.
A Avenida Snchez Cerro estava deserta, nos caixilhos de vidro brilhante de cada lampio zumbiam os insetos. O Mono sentara-se 

no cho para amarrar os sapatos. Josefino 
aproximou-se de Lituma:
- Olhe, colega, a casa de Felipe est aberta. Quantas lembranas nessa cantina. Venha, deixe-me convid-lo para um trago.
Lituma livrou-se dos braos de Josefino, falou sem olh-lo:
- Depois, irmo, na volta. Agora, para a Casa Verde. Quantas lembranas de l, mais  que  de qualquer outra parte. No  

verdade, invencveis?
Mais tarde, ao passar diante do Trs Estrellas, Josefino fez uma nova tentativa. Correu em direo  porta iluminada do 

bar, gritando:
- At que enfim, um lugar para afogar a sede! Venham, colegas, eu pago.
Mas Lituma continuou caminhando, inabalvel.
- Que vamos fazer, Jos?
- Que  que podemos fazer, irmo?  Ir  casa da Chunga Chunguita.
' Litoral peruano.
95





SEGUNDA PARTE





Uma lancha pra roncando junto ao cais e Jlio Retegui salta  terra. Sobe at a Plaza de Santa Maria de Nieva
- um guarda civil atira para o ar um pedao de pau, um cachorro captura-o no vo e o traz - e quando chega perto dos troncos 

de capirona um grupo de pessoas sai
da cabana do governo. Levanta a mo e sada: eles o vem, animam-se, correm ao seu encontro, quanto prazer, que surpresa, 

Jlio Retegui aperta as mos de Fbio Cuesta,
por que no avisara que vinha? de Manuel Aguila, no o perdoavam, de Pedro Escabino, teriam se preparado para receb-lo, 

de rvalo Benzas, quantos dias ficaria
desta vez, Dom Jlio? Nenhum, era uma visita relmpago, seguia viagem agora mesmo, sabiam bem que vida levava. Entram na 

sede do governo, Dom Fbio abre umas cervejas,
brindam, iam bem as coisas em Nieva? em Iquitos? problemas com os pagos? Nas portas e janelas da cabana esto aguarunas 

de bocas grandes, olhos frios e pmulos
salientes. Pouco depois, Jlio Retegui e Fbio Cuesta saem, na praa o guarda continua brincando com o cachorro, sobem 

o barranco at a misso, observados de todas
as casas, ah, Dom Fbio, as mulheres, perder um dia por causa deste assunto, chegaria ao acampamento de noite, e Dom Fbio, 

para que servem os amigos, Dom Jlio?
Tivesse escrito umas linhas e ele se encarregava de tudo, mas, Dom Fbio, a carta demoraria um ms, e quem aturava a Senhora 

Retegui enquanto isso? Mal tocam e 
a porta
da residncia se abre, como vai, um avental engordurado, Madre Griselda, um hbito, olhe s quem chegou, uma cara vermelha, 

no o reconhecia? mas, sim, era o Senhor
Retegui, um gritinho, entre, uma mo risonha, entre, Dom Jlio, que
prazer,
97
e ele, no estranhava que no o reconhecessem, com a fachada com que vinha, madre. Mancando, falando sem parar, Madre Griselda 

guia-os por um corredor
escuro, abre uma porta, aponta umas cadeiras de lona, que alegria para a madre superiora, e mesmo que tivesse muita pressa 

devia visitar a capela, Dom Jlio, veria 
quantas modificaes, voltava em seguida. Na escrivaninha est um crucifixo e uma lamparina, no cho uma esteira de fibras 

de tucum e na parede uma imagem da Virgem; 
pelas janelas entram magnficas, atraentes lnguas de sol que lambem as vigas do teto. Toda vez que estava numa igreja ou 

num convento, Jlio Retegui sentia sensaes 
estranhas, Dom Fbio, a alma, a morte,  esses  pensamentos que  preocupam  tanto  a gente quando moo, e ao governador acontecia 

igualzinho, Dom Jlio, visitava 
as madres e saa com a cabea cheia de coisas profundas: e se no fundo os dois fossem um pouco msticos? Isso mesmo pensara 

ele, Dom Fbio acaricia a careca, que 
engraado, um pouco msticos. A Senhora Retegui riria se os ouvisse, ela que sempre dizia, voc ir para o inferno por 

heresia, Jlio, e a propsito, no ano passado 
tinha afinal feito a sua vontade, foram a Lima em outubro,  procisso? sim, do Senhor dos
Milagres'. Dom Fbio vira fotos, mas estar l devia ser muito melhor, 
verdade que todos os negros se vestiam de roxo? E tambm os zambos, e os caboclos e os brancos, meia Lima de roxo, uma coisa 

terrvel, Dom Fbio, trs dias nesse 
aperto, que falta de comodidade e que cheiro, a Senhora Retegui queria tambm que ele pusesse o hbito, mas sua f no 

chegava a tanto. Vozes, risos, corridas invadem 
a pea, e eles olham para as janelas: vozes, risos, corridas. Certamente estavam em recreio, eram muitas agora? pelo rudo 

pareciam cem, e Dom Fbio, umas vinte. 
No domingo houve um desfile e elas cantaram o hino nacional, muito afinadas, Dom Jlio, num espanhol caprichado. No tinha 

dvida, Dom Fbio estava contente em Santa 
Maria de Nieva, com que orgulho contava as coisas daqui, isso era melhor que administrar o hotel? se tivesse continuado 

l, em Iquitos, teria agora uma boa situao, 
Dom Fbio, quer dizer, economicamente. Mas o governador j estava velho e, embora parecesse mentira ao
Senhor Retegui, no era homem de ambies. Ento, quer dizer
que no agentaria nem um ms em Santa Maria de Nieva?
' Procisso realizada durante o ms de outubro. O andor, com a imagem do Senhor dos Milagres, percorre todas as igrejas 

da cidade, pernoitando em cada uma e saindo
em nova procisso no dia seguinte.
98
Dom Jlio, via agora que agentou e, se Deus permitisse, no sairia nunca mais daqui. Por que se empenhou tanto por esta 

nomeao?
Jlio Retegui no entendia, por que quis substitu-lo, Dom Fbio? que desejava? e Dom Fbio ser, que no risse, respeitado, 

seus ltimos anos em Iquitos tinham 
sido to tristes, Dom Jlio, ningum podia calcular as vergonhas, as humilhaes, quando ele o levou para o hotel vivia 

de caridade. Mas que no ficasse triste, 
aqui em Nieva todos o queriam bem, Dom Fbio, no conseguiu o que desejava? Sim, respeitavam-no, o salrio no era grande 

coisa, mas com o que o Senhor Retegui dava 
para ajud-lo bastava para viver tranqilo, tambm isso devia a ele, Dom Jlio, ah, no tinha palavras. Entre risos, as 

vozes, as corridas na horta, escorrem murmuraes, 
tagarelices de papagaios. Jlio Retegui fecha os olhos, Dom Fbio fica pensativo, a mo lenta, carinhosamente, percorre 

a careca: ah,  verdade, Dom Jlio, sabia 
que Madre Asuncin morrera? recebeu sua carta? Tinha recebido, e a Senhora Retegui escreveu s madres dando psames, ele 

juntou umas linhas, aquela freirinha foi 
uma 
boa pessoa, e Dom Fbio, fizera uma coisa que no era muito legal, ps a bandeira da sede do governo a meio-pau, Dom Jlio, 

para se associar de algum modo ao luto, 
e Madre Anglica estava bem? sempre forte como uma rocha aquela velhinha? Ouvem passos, ficam de p, vo ao encontro da 

superiora, Dom Jlio, madre, uma mo branca, 
era uma 'honra para esta casa receber aqui de novo o Senhor Retegui, que contente estava de v-lo, por favor, que sentassem, 

e eles, justamente estavam falando, madre, 
recordando a pobre Madre Asuncin. Pobre? Nada de pobre, estava no cu, e a Senhora Retegui? quando veriam de novo a madrinha 

da capela? A Senhora Retegui sonhava 
em 
vir, mas chegar at aqui, de Iquitos, era to complicado, Santa Maria de Nieva estava fora do mundo, e alm disso no era 

horrvel viajar pela selva? No para Dom 
Jlio Retegui, a superiora sorri, que conhecia a Amaznia como a palma da mo, mas Jlio Retegui no fazia isso por prazer, 

se a gente mesmo no est em cima de 
tudo, madre, as coisas vo para o diabo, que perdoasse essa expresso. No dissera nada de imprprio, Dom Jlio, aqui tambm, 

se algum se descuidava, o Demnio 
fazia das suas, e agora as pupilas cantam em coro. Algum as dirige, em cada silncio Dom Fbio aplaude com as pontas dos 

dedos, sorri, aprova: a madre recebera 
a mensagem da Senhora Retegui? Sim, no ms passado,
99
mas no pensava que Dom Jlio quisesse lev-la to logo. Em geral, preferia que sassem da misso no fim do ano, no em 

pleno curso, mas, j que se deu ao trabalho 
de vir
pessoalmente, fariam uma exceo, por se tratar dele, naturalmente. E ele, na verdade, estava matando dois coelhos de uma 

s cajadada, madre, tinha que dar uma olhada 
ao acampamento do Nieva, os mateiros encontraram pau-de-rosas, parecia, por isso aproveitou para dar um pulinho, e a superiora 

concorda: iam encarreg-la das meninas? 
a Senhora Retegui dissera algo sobre isso. Ah, as meninas, madre, se as visse, estavam uma beleza, Dom Fbio imaginava, 

e a madre, ela as conhecia, a Senhora Retegui 
mandou fotos das menininhas, a maiorzinha, uma boneca, e a pequena, que olhes. Tinham a quem sair, decerto, a Senhora Retegui 

era to bonita, e Dom Fbio dizia 
isso 
com todo o respeito, Dom Jlio. Faz tempo que a ama das meninas tinha casado, madre, e ela no imaginava como a Senhora 

Retegui era apreensiva, fazia restries 
a 
todas as moas, que eram sujas, que iam contagiar as meninas com suas enfermidades, sempre as piores coisas, e ali estava, 

fazendo-se de ama h dois meses. Se fosse 
por isso, Dom Fbio avana na cadeira, a Senhora Retegui podia estar bem tranqila, d uma palmadinha, daqui ningum sai 

doente nem suja, sorri, no  verdade, 
madre? 
faz uma mesura, dava gosto ver como viviam limpinhas, e Retegui, a propsito, madre, a esposa do Doutor Portillo. Tambm 

em dificuldades com a criadagem? Sim, Dom 
Fbio, era cada vez mais difcil encontrar gente capaz em Iquitos, seria possvel levar para ele tambm uma das mocinhas, 

madre? Sim, era possvel, a superiora franze 
ligeiramente os lbios, Dom Jlio, mas que no falasse assim, sua voz fica aguda, a misso no era uma agncia de domsticas, 

e agora Retegui fica imvel, srio, 
a mo nervosa bate no brao da cadeira, no interpretara mal suas palavras, no? quer dizer, a superiora olha o crucifixo, 

Dom Fbio esfrega a careca, balana na 
cadeira, pisca, madre, no interpretara mal as palavras de Dom Jlio, no? Ele sabia de onde vinham essas crianas, como 

viviam antes de entrar na misso, Jlio 
Retegui garantia, madre, tinha havido um engano, no o compreendera, e depois de sair daqui as meninas no tinham para 

onde ir, as aldeias indgenas no estavam 
em paz, mas ainda se pudessem localizar as famlias as crianas j no se acostumariam, como iam viver nuas de novo? a superiora 

faz um gesto amistoso, a adorar 
serpentes? mas seu sorriso  glacial, a comer piolhos? Era culpa dele, madre, expressou-se mal e ela tomava suas palavras 

em outro
sentido,
100
mas tambm as meninas no podiam ficar na misso, Dom Jlio, no seria justo, no era verdade? deviam deixar lugar para 

outras. A idia era que eles ajudassem
as madres a incorporar aquelas meninas ao mundo civilizado, Dom Jlio, que facilitassem o seu ingresso na sociedade. Era 

precisamente nesse sentido que o Senhor Retegui, 
madre, por acaso ela no o conhecia? e na misso recolhiam aquelas crianas e as educavam para ganhar umas almas a Deus, 

no para proporcionar criadas s famlias, 
Dom Jlio, que desculpasse a sua franqueza. Ele sabia de sobra, madre, por isso ele e sua senhora sempre colaboraram com 

a misso, se havia algum inconveniente 
no tinha importncia, madre, no disse nada, por favor que no se preocupasse. A superiora no se preocupava por eles, 

Dom Jlio, sabia que a Senhora Retegui era 
muito piedosa, e que a menina estaria em boas mos. O Doutor Portillo era o melhor advogado de Iquitos, madre, ex-deputado, 

se no se tratasse de uma famlia decente, 
conhecida, Jlio Retegui teria se atrevido a fazer essa gesto? Mas insistia, que no pensasse mais nisso, madre, e a superiora 

sorri de novo: zangara-se com ela? 
No importava, todo mundo precisa de um sermo de quando em quando, e Jlio Retegui acomoda-se na cadeira, puxara suas 

orelhas, madre, fizera-o sentir-se em falta 
e se ele se responsabilizava por aquele senhor, Dom Jlio, tinha confiana nele, no se importava se fizesse algumas perguntas? 

Todas as que quisesse, madre, e ele 
entendia bem essas preocupaes, era natural, mas tinha que confiar nele, o Doutor Portillo e sua esposa eram gente muito 

boa e a moa seria muito bem tratada, roupa, 
comida, at salrio, e a superiora no duvidava, Dom Jlio. Seus lbios finos, furtivos, se franzem de novo: e o resto? 

Preocupar-se-iam com que a menina conserve 
o que recebeu aqui? No destruiriam por negligncia o que lhe tinham dado na misso? Falava disso, Dom Jlio, e era verdade 

que a madre no conhecia os Portillo, 
Angelita organizava todos os anos o Natal dos pobres, ela mesma ia pedir donativos s lojas e distribu-los nas favelas, 

madre: podia estar certa de que Angelita 
levaria a moa a quanta procisso houvesse em Iquitos. A superiora no queria importun-lo mais, tinha, porm, outra coisa, 

ele tomaria a responsabilidade pelas 
duas? Para qualquer reclamao ou o que houver, madre, no faltava mais nada, ele a assumiria e assinaria o que fosse necessrio, 

com muito prazer, em seu nome 
e no do Doutor Portillo. Ento estavam de acordo, Dom Jlio, e a superiora, ia busc-las; e depois,
certamente,
101
Madre Griselda teria preparado uns refrescos, no viriam mal, no  verdade? com o calor que fazia, e Dom Fbio levanta 

as mos alvoroadas: elas eram
sempre to amveis. A superiora sai, as franjas de sol que abraam as vigas no so mais brilhantes mas opacas, na horta 

prxima as pupilas continuam cantando, homem, 
o que significava isso? No tinha o direito, que mau momento a freira me fez passar, Dom Fbio, e ele, Dom Jlio, formalidades, 

as madres queriam muito quela orfzinha, 
sentiam que se fosse, isso era tudo; mas faziam as mesmas perguntas aos oficiais de Borja? e a esses engenheiros que passam 

por aqui, vm com os mesmos conselhos? 
que lhe fizesse o favor, Dom Fbio. O governador tem o rosto desolado, a madre devia estar mal-humorada por alguma coisa, 

que no fizesse caso, Dom Jlio, e a mim, 
no me digam que os milicos vo tratlas melhor que eles, fariam elas trabalhar como animais, certo, e no lhes pagariam 

um tosto, sem dvida, Dom Fbio sabia a 
misria que os milicos ganhavam? E depois, a ele conheciam de sobra, e se recomendava o Portillo era por alguma coisa, Dom 

Fbio, por favor, onde  que j se viu? 
O coro na horta pra de sbito, e o governador, no compreendia, a superiora sempre to gentil, to educada, j passou, 

Dom Jlio, que no ficasse com raiva; e 
ele, no ficava com raiva, mas as injustias o revoltavam, como a qualquer um: acabara o recreio, as juntas dos dedos de 

Dom Fbio tamborilam na cadeira, a ele 
tambm a madre deixara nervoso, Dom Jlio, sentiu-se no confessionrio, eles se voltam e a porta se abre. A superiora traz 

uma travessa, uma pirmide de bolachas 
de lados speros, e Madre Griselda, uma bandeja de barro, copos, uma jarra cheia de um lquido espumoso, as duas pupilas 

permanecem junto  porta, assustadias, 
estranhas em seus aventais creme: suco de mamo, muito bem! Essa Madre Griselda, sempre to gentil, Dom Fbio ficou de p 

e Madre Griselda ri, tapando a boca com 
a mo, ela e a superiora servem os copos, enchem-nos. Da porta, uma contra a outra, as pupilas olham de vis, uma tem a 

boca entreaberta e exibe seus dentes minsculos, 
limados em ponta. Jlio Retegui levanta seu copo, madre, agradecia-o de verdade, estava morto de sede, mas tinham de provar 

as bolachinhas, no adivinhavam de qu, 
hem? vamos ver, hem, Dom Fbio? No sabiam de qu, madre, que coisa to levezinha, de milho? to delicada, de batata? e 

Madre Griselda d uma gargalhada: de mandioca! 
Ela mesma  que inventara, quando trouxesse a Senhora Retegui daria a receita,
102
e Dom Fbio bebe um golinho, girando os olhos: Madre Griselda tinha mos de anjo, s por isso merecia o cu, e ela, cale-se, 

cale-se, Dom Fbio, que se servissem
de mais suco. Bebem, tiram seus lenos, limpam as finas marcas alaranjadas, Retegui tem gotinhas de suor na testa, a careca 

do governador brilha. Finalmente, Madre 
Griselda recolhe a bandeja, a jarra e os copos, da porta sorri para eles travessamente, sai, Retegui e o governador olham 

as pupilas imveis, elas baixam a cabea 
ao mesmo tempo: boa tarde, jovenzinhas. A superiora d um passo para elas, vamos ver, aproximem-se, por que ficavam a? 

A dos dentes limados arrasta os ps e pra 
sem levantar a cabea, a outra no sai do lugar, e Jlio Retegui, voc tambm, filha, no deve ter medo dele, no era a 

velha cuca. A pupila no responde e a superiora 
assume ento uma expresso enigmtica, zombeteira. Olha Retegui, nos olhos dele nasce uma pequena luz inquieta, o governador 

acena com a mo para que a menina 
se aproxime e a superiora, Dom Jlio, no a reconhecia? Aponta para a que est junto  porta e seu sorriso se acentua, um 

sinal afirmativo, e Jlio Retegui volta-se 
para a menina, examina-a piscando, mexe os lbios, estala os dedos, ah, madre, era ela? sim. Que surpresa, nem sequer lhe 

passara pela cabea; tinha mudado muito, 
Dom Jlio? tanto, madre, que se tivesse vindo com ele a Senhora Retegui estaria encantada. Mas se eram velhos amigos, filha, 

por acaso no se lembrava dele? A dos 
dentes limados e o governador olham um para o outro com curiosidade, a pupila da porta levanta um pouco a cabea, seus olhos 

verdes contrastam com a tez escura, 
a superiora suspira, Bonifcia: estavam falando com ela, que modos eram esses. Jlio Retegui no deixa de examin-la, madre,
puxa, quase quatro anos, a vida voava,
filha, como voc cresceu, era um pedacinho de mulher e agora vejam. A superiora concorda, Bonifcia, vamos, cumprimente
o Senhor Retegui, suspira de novo, tinha que
respeit-lo muito, e o mesmo com sua senhora, eles seriam muito bons. E Retegui, que no tivesse vergonha, filha, iam conversar
um pouco, devia falar muito bem
o espanhol, no  verdade? E o governador d um pulinho na sua cadeira, a menina de Urakusa! bate na testa, claro, que bobo,
agora se lembrava. E a superiora, deixe
de bancar a boba, Dom Jlio ia pensar que tinham cortado a lngua de Bonifcia. Mas filha, estava chorando, que  que tinha, 

filha, por que esse choro, e Bonifcia 
tem a cabea levantada, as lgrimas molham suas faces, seus grossos lbios tenazmente
fechados,
103
e Dom Fbio, ora, ora, bobinha, inclinado e bondoso, devia estar contentssima, teria um lar e as crianas do Senhor Retegui 

eram dois primores. A superiora
empalideceu, essa menina! seu rosto agora est branco como suas mos, essa boba! por que chorava? Bonifcia abre os olhos 

verdes, midos, desafiantes, atravessa 
a esteira, filha, cai de joelhos diante da superiora, bobinha, pega uma de suas mos, aproxima-a de seu rosto, a dos dentes 

limados ri por um segundo, e a superiora 
balbucia, olha para Retegui, Bonifcia, acalme-se: tinha prometido, e  Madre Anglica. Sua mo luta por afastar-se do 

rosto que se esfrega nela, Retegui e Dom 
Fbio sorriem confusos e benevolentes, os grossos lbios beijam vorazmente os dedos plidos e rebeldes, e a dos dentes limados 

ri agora sem dissimular: no via que 
era por seu bem? onde podiam trat-la melhor? Bonifcia, no prometera fazia s meia hora? e  Madre Anglica, era assim 

que cumpria? Dom Fbio se pe de p, esfrega 
as mos, assim eram as meninas, sensveis, choravam por tudo, filhinha, que fizesse um esforo, veria logo que bonita era 

Iquitos, que boa, a santa que era a Senhora 
Retegui e a superiora, Dom Jlio, rogava-lhe, sentia muito. Essa menina nunca foi difcil, no a reconhecia assim. Bonifcia, 

acalme-se e Jlio Retegui, no faltava 
mais nada, madre. Afeioara-se  misso, no tinha nada de estranho, e era prefervel que no viesse contrariada, prefervel 

que ficasse com as madres. Levaria 
a outra, e que Portillo buscasse uma ama em Iquitos, mas, sobretudo,-que no se preocupasse, madre.
104
- Olhem - disse o Pesado. - J parou de chover.
Extensas, azuis, umas nesgas dividiam o cu, entre aglomeraes cinzentas ressoava ainda, dissolvida, a tormenta, e tinha 

deixado de chover. Mas  volta do sargento, 
dos guardas e de Nieves, a mata continuava pingando: gotonas quentes rolavam das rvores, das bordas da barraca e das razes 

adventcias at a praia de seixos convertida 
em pntano, e, ao receb-las, a lama se abria em diminutas crateras, parecia ferver. A lancha balanava na margem.
- Esperemos que esvazie um pouco, sargento - disse o prtico Nieves. - com a chuva os pongos devem estar raivosos.
- Sim, claro, Dom Adrin, mas no h razo para que continuemos como sardinhas - disse o sargento. - Vamos armar a outra 

barraca, rapazes. Podemos dormir aqui.
Tinham as camisetas e as calas empapadas, crostas de barro nas perneiras, a pele reluzente. Esfregavam o corpo, torciam 

as roupas. O prtico Nieves caminhou chapinhando 
pela praia e quando chegou  lancha era uma figurinha de piche.
-  melhor pelados - disse o Rubio. - Porque a gente vai se enlamear.
O Pesado estava sem cueca e eles riam de suas ndegas gordas. Saram da barraca, o Chiquito tropeou, caiu sentado, levantou 

praguejando. Atravessaram o lamaal 
de mos dadas. Nieves passava os mosquiteiros, as latas, as garrafas trmicas, eles carregavam os pacotes nos ombros at 

a barraca, voltavam e, de repente, comearam 
as palhaadas: corriam gritando, mergulhavam na lama, atiravam-se bolas de
barro,
105
meu sargento, no ficar uma s bolacha seca, pegue esta, talvez o anis tambm tenha se estragado, e para o Chiquito j
chegava de selva, Oscuro, j estava
de saco cheio. Lavaram a sujeira toda no rio, empilharam a carga sob uma rvore e ali mesmo cravaram as estacas, estenderam 
a lona e amarraram as cordas em razes
que irrompiam da terra, pardas e torcidas. s vezes, sob uma pedra, apareciam larvas rosadas se retorcendo. O prtico Nieves 
preparava a fogueira.
- Fizeram a barraca bem debaixo da rvore - disse o sargento. - Vai chover aranha sobre ns toda a noite
O monto de lenha crepitava, comeava a fazer fumaa e, um pouco depois, nasceu uma chaminha azul, outra
vermelha, uma  labareda.   Sentaram-se  ao  redor  do  fogo.
As bolachas
estavam molhadas, o anis, quente.
- No escapamos, meu sargento - disse o Oscuro. Vamos ter de agentar agora uma boa bronca em Nieva.
- Foi uma coisa de louco sair assim - disse o Rubio.
- O tenente devia ter visto.
- Ele sabia que era intil - encolheu os ombros o sargento. - Mas no viram como estavam as madres e Dom Fbio?   Ele  nos 
 mandou para  fazer  a  vontade delas,
s por isso.
- Eu no sou guarda civil para andar de ama-seca disse o Chiquito. - Essas coisas no o incomodam, meu sargento?
Mas o sargento tinha dez anos de servio, estava curtido, Chiquito, e mais nada o incomodava. Pegara um cigarro e o secava 
junto  chama, fazendo-o girar entre os 
dedos.
- E para que voc entrou na Guarda Civil? - perguntou o Pesado. - Ainda  novinho, est nascendo. Para ns, toda essa agitao 
 caf pequeno, Chiquito. Logo se 
acostumar.
No  bem isso, Chiquito estivera um ano em Juliaca ', e o planalto era mais duro que a selva, Pesado. Os insetos e as chuvaradas 
no incomodavam tanto quanto mand-lo 
procurar crianas na mata. Bem feito que no as encontrassem.
- Vai ver, essas ranhetas voltaram sozinhas - disse o Oscuro. - Talvez at estejam em Santa Maria de Nieva.
- As mais vivas - disse o Rubio - so capazes. Dava uma surra nelas.
O Pesado, ao contrrio, faria uns carinhozinhos nelas, e riu,
' Capital da provncia de San Romn, no departamento de Puno (s margens do lago Titicaca).
106
meu sargento: no  verdade que as maiorzinhas estavam no ponto? Eles j as tinham visto, nos domingos, quando iam tomar 
banho no rio?
- Voc no pensa em outra coisa, Pesado - disse o sargento. - Desde que se levanta at que se deita, sempre as mulheres.
- Mas  verdade, meu sargento. Aqui elas crescem to depressa, aos onze anos esto maduras para qualquer coisa. No me diga 
que no faria uns carinhozinhos nelas 
se tivesse ocasio.
- No me abra o apetite, Pesado - bocejou o Oscuro.
- Olhe que agora tenho de dormir com o Chiquito.
O prtico Nieves alimentava o fogo com raminhos. Escurecia. O sol agonizava longe, adejando entre as rvores como uma ave 
avermelhada, e o rio era uma prancha imvel, 
metlica. Nos matagais da margem coaxavam as rs e no ar havia vapor, umidade, vibraes eltricas. s vezes, um inseto 
era colhido pelas chamas da fogueira, devorado 
num estalido surdo. com as sombras, a mata levava at as barracas cheiros de germinao noturna e msica de grilos.
- No gosto, em Chicais quase adoeo - repetiu o Chiquito, com um trejeito de desagrado. -- No se lembram da velha das 
tetas? Foi malfeito arrancar suas crias 
daquele jeito. Sonhei duas vezes com elas.
- E olhe que no arranharam voc como a mim disse o Rubio, rindo, mas ficou srio e acrescentou: - Foi para o seu bem, Chiquito. 
Para ensin-las a se vestir, a ler 
e a falar como cristos.
- Ou voc prefere que fiquem selvagens? - perguntou o Oscuro.
- E alm disso tm o que comer, so vacinadas e dormem em camas - disse o Pesado. - Em Nieva vivem como no viveram nunca.
- Mas longe de sua gente - disse o Chiquito. Vocs no sofreriam se no vissem mais a famlia?
No era a mesma coisa, Chiquito, e o Pesado sacudiu compassivamente a cabea: eles eram civilizados e as selvagenzinhas 
nem sequer sabiam o que queria dizer famlia. 
O sargento levou o cigarro  boca e acendeu-o, curvando-se at o fogo.
- Afinal, s sofrero no princpio - disse o Rubio.
- Para isso existem as madrezinhas, que so muito boas.
- Quem  que sabe o que acontece dentro da misso?
- resmungou o Chiquito. -- Talvez sejam muito ms.
107
Alto l, Chiquito: que lavasse a boca antes de falar das madres. O Pesado permitia tudo, mas calma, mais respeito com as 
crenas. Chiquito tambm levantou a voz:
claro que era catlico, mas falava mal de quem tivesse vontade, e que  que tinha.
- E se eu me incomodo? - perguntou o Pesado. E se eu lhe desse um murro?
- Nada de brigas - o sargento atirou uma baforada de fumo. - Deixe de bancar o macho, Pesado.
- Eu entendo razes, no ameaas, meu sargento
disse o Chiquito. - Por acaso no tenho o direito de dizer o que penso?
o que penso?
- Tem - disse o sargento. - E em parte estou de acordo com voc.
Chiquito olhou os guardas zombeteiramente, estavam vendo? e  queima-roupa para o Pesado: quem  que tinha razo?
-  uma coisa para discutir - disse o sargento. Eu acho que se as crianas fugiram da misso  porque no se acostumam l.
- Mas, meu sargento, que  que isso tem a ver? protestou o Pesado. - O senhor no fez travessuras quando era pequeno?
- O senhor tambm prefere que elas continuem sendo selvagens, meu sargento? - perguntou o Oscuro.
- Est certo que eduquem as meninas - disse o sargento. - Mas por que  fora?
- Mas o que  que podem fazer as pobres madres, meu sargento? - perguntou o Rubio. - O senhor sabe como so os pagos. Dizem 
sim, sim, mas na hora de mandar suas 
filhas  misso, do uma banana, e desaparecem.
- E se eles no querem se civilizar, que  que a gente tem com isso? - perguntou o Chiquito. - Cada um com seus costumes, 
o resto que v  merda.
- Voc tem pena das criaturas porque no sabe como so tratadas nos povoados - disse o Oscuro. - Abrem furos no nariz, na 
boca das recm-nascidas.
- E quando os selvagens esto embriagados, fodem elas diante de todo mundo - disse o Rubio. - No se importam nem com a 
idade delas, e pegam a primeira que encontram, 
as filhas, as irms.
- E as velhas furam as mocinhas com as mos disse o Oscuro. - E depois comem seus cabaos para ter sorte. No  verdade, 
Pesado?
108
-  verdade, com as mos - disse o Pesado. - Eu que o diga. At agora no me tocou nenhuma virgenzinha. E olhe que j comi 
selvagens.
O sargento sacudiu as mos: estavam todos fazendo carga contra o Chiquito, e isso no valia.
- O senhor, porque est do seu lado, meu sargento disse o Rubio.
- O que acontece  que eu tenho pena daquelas crianas - confessou o sargento. - De todas as que esto na misso, porque 
certamente devem sofrer longe de sua gente. 
E as outras, porque vivem mal em seus povoados.
- Bem se v que o senhor  piurano, meu sargento disse o Oscuro. - Todos os da sua terra so uns sentimentais.
- E com muita honra - disse o sargento. - E ai daquele que falar mal de Piura.
- Sentimentais e tambm bairristas - disse o Oscuro.
- Mas nisso os arequipenses' ganham dos piuranos, meu sargento.
Era noite e a fogueira crepitava, o prtico Nieves continuava jogando nela raminhos, folhas secas. A garrafa trmica de 
anis passava de mo em mo e os guardas tinham 
acendido cigarros. Todos suavam, e em seus olhos se repetiam, minsculas, danantes, as lnguas da fogueira.
- Mas so as mais limpas que existem - disse o Chiquito. - E em compensao, vocs viram as madres tomarem banho alguma 
vez durante a viagem a Chicais?
O Pesado se engasgou: outra vez com as madres? comeou a tossir fortemente, porra, outra vez se metia com as madres?
- Voc me esculhamba mas no responde - disse o Chiquito. -  verdade ou no o que digo?
- Que burro que voc  - disse o Rubio. - Queria que as freirinhas tomassem banho diante de ns?
- Talvez  tenham  tomado  banho  s  escondidas  disse o Oscuro.
- Eu nunca vi - disse o Chiquito. - Nem vocs. - Nem tampouco as viu fazendo necessidades - disse
o Rubio. - Isso no significa que agentassem a caca e as mijadinhas toda a viagem.
Um momento, o Pesado vira: quando estavam deitados,
' Naturais do departamento de Arequipa, no litoral sul do Peru.
109
elas se levantavam sem fazer rudo e iam ao rio como fantasminhas. Os guardas riram, e o sargento, este Pesado, ele as espiava? 
queria v-las peladas?
- Meu sargento, por favor - disse o Pesado, confuso.
- No diga barbaridades, como  que pode pensar nisso.  que eu tenho insnia, foi por isso que vi.
- Mudemos de conversa - disse o Oscuro. - No se deve brincar com as madres. E alm disso no vamos convenc-lo. Voc  
teimoso como uma mula, Chiquito.
- E um bobo - disse o Pesado. - Comparar as selvagens com as freirinhas, voc me d pena, palavra de honra.
- Agora, sim, acabou - disse o sargento, interrompendo o Chiquito, que ia falar. - Vamos dormir para partir cedo.
Ficaram calados, os olhos parados nas chamas. A garrafa trmica de anis ainda deu uma volta. Em seguida levantaram-se, entraram 
nas barracas, mas, um momento depois, 
o sargento voltou para junto do fogo com um cigarro na boca. O prtico deu a ele uma palhinha acesa.
- Sempre to calado, Dom Adrin - disse o sargento.
- Por que no discutiu tambm?
- Estive ouvindo - disse Nieves. - No me agradam as discusses, sargento. E, alm disso, prefiro no me meter com eles.
- com os rapazes? - perguntou o sargento. - Eles fizeram alguma coisa ao senhor? Por que no me avisou, Dom Adrin?
- So orgulhosos, desprezam quem nasceu aqui disse o prtico, em voz baixa. - No viu como me tratam?
- So presunosos como todos os limenhos - disse o sargento. - Mas no deve se importar com eles, Dom Adrin. E se alguma 
vez o desconsiderarem, avise-me e eu os 
ponho no seu lugar.
- Em compensao, o senhor  uma boa pessoa, sargento - disse Nieves. - Faz tempo que estou para dizer isso. O nico que 
me trata com educao.
- Porque o estimo muito, Dom Adrin - disse o sargento. - Sempre disse que gostaria de ser seu amigo. Mas o senhor no se 
liga a ningum,  um solitrio.
- Agora ser meu amigo - sorriu Nieves. - Um dia destes vir comer em minha casa e o apresentarei a Lalita. E quela que 
fez as meninas fugirem.
110
- Como? Bonifcia vive com vocs? - perguntou o sargento. - Pensei que tivesse ido embora do povoado.
- No tinha para onde ir, ns a recolhemos - disse Nieves. - Mas no diga  a ningum, ela no quer que saibam onde est, 
porque  meio freira ainda, morre de medo 
dos homens.
- Voc contou os dias, velho? - perguntou Fusha.
- Eu perdi a noo do tempo.
- Que importa a voc o tempo, para que lhe serve isso? -- perguntou Aquilino.
- Parece que faz mil anos que samos da ilha - disse Fusha. - Alm disso, sei que  por gosto, Aquilino, voc no conhece 
os homens, voc vai ver, em San Pablo' 
vo chamar a polcia e tomar o dinheiro da gente.
- Voc est ficando triste outra vez? - perguntou Aquilino. - Eu sei que a viagem  longa, mas o que quer,  preciso viajar 
com cuidado. No se preocupe com San 
Pablo, Fusha, disse a voc que conheo um cara de l!
-  que estou esgotado, homem, no  brincadeira andar correndo assim, voc tirou a loteria comigo - disse o Doutor Portillo. 
- Olhe a cara de cansao do pobre Dom 
Fbio. Mas ao menos j estamos em condies de inform-lo. Enquanto isso, pegue uma cadeira, voc cair sentado com as notcias.
- As plantaes esto muito bem, muito bonitas, Senhor Retegui - disse Fbio Cuesta. - O engenheiro  amabilssimo e j 
terminou o desmatamento e a semeadura. Todos 
dizem que  uma regio ideal para o caf.
- Por esse lado tudo anda normal - disse o Doutor Portillo. - O que est falhando  o negcio do caucho e dos couros. Uma 
histria de bandidos, compadre.
- Portillo? No me diz nada, Fusha - disse Aquilino. --  um mdico de Iquitos?
- Um advogado - disse Fusha. - O que ganhava todas as causas para Retegui. Um orgulhoso, Aquilino, um vaidoso.
- No  culpa dos patres, Senhor Retegui, posso jurar
- disse Fbio Cuesta. - Eles esto mais furiosos que ningum; no v que so os maiores prejudicados? Parece que os bandidos 
existem de verdade.
' Povoado onde isolam leprosos, s margens do rio Amazonas.
111
O Doutor Portillo tambm pensara, a princpio, que os patres estivessem negociando s ocultas, Jlio, que eles tivessem 
inventado os bandidos para no vender o 
caucho.
Mas no eram eles, a verdade  que d cada vez mais trabalho conseguir a mercadoria, compadre; ele e Dom Fbio foram a todos 
os lugares, investigaram, h bandidos, 
e Dom Fbio se portou como um homem, adoeceu com tanta viagem, mas apesar de tudo continuou com ele, Jlio, e claro que 
foi til ir de brao com a autoridade, 
o governador de Santa Maria de Nieva inspirava respeito por ali.
- Tratando-se do Senhor Retegui, qualquer coisa - disse Fbio Cuesta. - Isso e muito mais, o senhor sabe, Dom Jlio. O 
que mais lamento  o que os bandidos fizeram, 
pois custou muito convencer os patres a no vender ao banco mas ao senhor.
- Voc  tinha  que  ver como  me   tratava - disse Fusha -, com que superioridade. Pensa que me convidou uma s vez para 
ir  sua casa em Iquitos? No sabe que 
dio eu tinha desse advogadinho, Aquilino.
- Sempre cheio de dios, Fusha - disse Aquilino. Acontece alguma coisa e voc j est odiando algum. Deus vai castig-lo 
por isso tambm.
- Mais ainda? - perguntou Fusha. - J est me castigando muito antes de eu lhe fazer qualquer coisa, velho.
- Na guarnio de Borja nos ajudaram muito - disse o Doutor Portillo. - Deram guias, prticos. Voc tem que agradecer ao 
coronel, Jlio, escreva umas linhas a ele.
- O coronel  uma excelente pessoa, Senhor Retegui disse Fbio Cuesta. - Muito prestimoso, muito dinmico.
Eles podiam agir contra os bandidos se recebessem uma ordem de Lima, compadre, o melhor  que Retegui desse um pulo  capital 
e fizesse gestes, se os milicos interviessem, 
tudo se resolveria. Sim, homem, claro que era para tanto.
- No queramos acreditar neles, Senhor Retegui - disse Fbio Cuesta. - Mas todos os patres juraram a mesma coisa. No 
era possvel que estivessem de acordo.
Era muito simples, compadre: quando os patres chegavam s tribos no encontravam nada, nem caucho nem couros, s selvagens 
chorando e esperneando, nos roubaram, 
nos roubaram, bandidos, ladres, etc.
- Subiu pelo Santiago com Dom Fbio, que era governador de Santa Maria de Nieva, e com soldados de Borja 
112
disse Fusha. - Antes, estiveram com os aguarunas, e tambm com os achuales', investigando.
- Sei disso, eu os encontrei no Maran - disse Aquilino. - No contei isso a vocs? Estive dois dias com eles. Era a segunda 
ou terceira viagem que fazia  ilha. 
E Dom Fbio, e aquele outro, como  que voc disse? Portillo? me crivavam de perguntas, e eu pensava, agora voc vai pagar 
tudo, Aquilino. Tinha medo.
- Pena que no chegaram - disse Fusha. - Que cara teria feito o advogadinho se me visse, o que teria contado ao cachorro 
do Retegui. Mas o que  feito de Dom Fbio, 
velho? Morreu?
- No, continua como governador de Santa Maria de Nieva - disse Aquilino.
- No sou to bobo - disse o Doutor Portillo. '- A primeira coisa em que pensei, se no forem os patres so os selvagens, 
esto repetindo a brincadeira de Urakusa, 
aquilo da cooperativa. Por isso fomos at as tribos. Mas tambm no eram os selvagens.
- As mulheres nos recebiam chorando, Senhor Retegui
- disse Fbio Cuesta. - Porque os bandidos no levam s o caucho, o ltex e os couros, mas tambm as mocinhas, claro.
No estava mal pensado como negcio, compadre: Retegui adiantava o dinheiro aos patres, os patres adiantavam o dinheiro 
aos selvagens, e quando os selvagens voltavam
da mata com o caucho e com os couros, os cornos caam em cima deles e ficavam com tudo. Sem ter investido um centavo, compadre, 
no era um negcio garantido?
que fosse a Lima e fizesse gestes, Jlio, quanto mais cedo melhor.
- Por que voc sempre procura negcios sujos e perigosos? - perguntou Aquilino. -  como uma mania sua, Fusha.
- Todos os negcios so sujos, velho - disse Fusha.
- O que acontece  que eu no tive um capitalzinho para comear, se voc tem dinheiro, pode fazer os piores negcios sem 
perigo.
- Se eu no o tivesse ajudado, voc teria de ir para o Equador - disse Aquilino. - No sei por que o ajudei.
' Tribo de ndios nmades do interior do Equador e que, s vezes, penetram no Peru. H muitos achuales nas altas vertentes 
dos rios Pastaza, Tigre e Morona.
113
Voc me fez passar uns anos terrveis. Tenho vivido assustado, Fusha, com o corao na boca.
- Voc me ajudou porque  bom - disse Fusha. O melhor que conheci, Aquilino. Se fosse rico, deixaria para voc todo o meu 
dinheiro, velho.
- Mas voc no , nem ser nunca - disse Aquilino.
- E de que me serviria o seu dinheiro, se morrerei de uma hora para outra. Nisso nos parecemos um pouco, Fusha, estamos 
chegando ao fim to pobres como nascemos.
- J h uma lenda sobre os bandidos - disse o Doutor Portillo. - At nas misses nos falaram deles. Mas nem os frades nem 
as freiras sabem grande coisa.
- Num povoado aguaruna do Cenepa', uma mulher nos contou que os vira - disse Fbio Cuesta. - E que havia huambisas entre 
eles. Mas suas informaes no valem muito.
Os selvagens, o senhor sabe, Senhor Retegui.
- Que h huambisas entre eles  um fato - disse o Doutor  Portillo.  -  Todos  concordam  sobre  isso,  reconheceram os 
huambisas pelo idioma e as vestes. Mas eles 
s esto ali para as violncias, voc sabe como gostam de brigar. S que no h jeito de saber quem so os brancos que os 
dirigem. Dois ou trs, dizem.
- Um deles  serrano, Dom Jlio - disse Fbio Cuesta. - Foi o que os achuales nos disseram, que engrolam um pouco de
quchua'.
- Mas mesmo que voc negue, teve sorte, Fusha disse Aquilino. - Nunca o agarraram. Sem essas desgraas, voc teria podido 
passar a vida na ilha.
- Devo isso aos huambisas - disse Fusha -, depois de voc, foram eles os que mais me ajudaram, velho. E voc viu como eu 
lhes paguei.
- Mas teve motivos de sobra, nem a eles nem a voc convinha que ficasse na ilha - disse Aquilino. - Como voc , Fusha. 
S se lamenta por abandonar o Pantacha e 
os huambisas, no acha que as maldades que cometeu so maldades.
Tambm aquilo estava devidamente comprovado, compadre: as compras de caucho no tinham baixado na regio, tinham inclusive 
aumentado em Bagua, embora eles no
vendessem agora nem a metade.
' Afluente do rio Maran localizado no departamento do Amazonas.
' Lngua prpria do imprio dos incas, originria do departamento de Cuzco, mas que se estendeu pelo norte do Peru at o 
Equador, e ao sul at a Bolvia e a provncia
argentina de Catamarca.
114
Os bandidos eram muito vivos, Senhor Retegui, sabe o que faziam? Vendiam longe seus roubos, na certa atravs de terceiros. 
No tinha
nenhuma importncia vender baratinho o caucho, que para eles saa grtis. No, no, compadre, os administradores do Banco 
Hipotecrio no viram novas caras, os fornecedores 
eram os de sempre. Faziam bem as coisas, os vigaristas, no se arriscavam. Deviam ter conseguido uns dois patres que compravam 
deles os roubos a preos baixos, 
e esses revendiam ao banco; porque eram conhecidos, no havia controle possvel.
- Valia a pena tanto perigo por to pouco lucro? perguntou Aquilino. - Na verdade, no acredito, Fusha.
- Mas no foi por minha culpa - disse Fusha. Eu no podia trabalhar como os demais, a polcia no os perseguia, eu tinha 
que pegar o primeiro negcio que me aparecia.
- Cada vez que me falavam de voc, suava frio disse Aquilino. - Que teriam feito se pegassem voc com as tribos, Fusha. 
Mas talvez fosse pior se os patres o 
pegassem. No sei quem tinha mais raiva de voc.
- Uma coisa, velho, de homem para homem - disse Fusha. - Agora pode ser franco comigo. Voc nunca pegou suas comissezinhas?
- Nem um s centavo - disse Aquilino. - Palavra de honra.
- Isso  uma coisa que contraria a razo, velho disse Fusha. - Sei que no mente, mas no me entra na cabea, palavra. 
Eu no faria isso por voc, sabe?
- Claro que sei - disse Aquilino. - Voc teria roubado at minha alma.
- Registramos queixas em todos os comissariados da regio - disse o Doutor Portillo. - Mas isso  o mesmo que nada. Tome 
o avio para Lima,  preciso que o Exrcito 
intervenha, Jlio. Isso dar um susto neles.
- O coronel disse que ajudaria com muito prazer, Senhor Retegui - disse Fbio Cuesta. - S esperava ordens. E eu, em Santa 
Maria de Nieva, ajudarei tambm, no que 
for possvel. A propsito, Dom Jlio, todos se lembram do senhor com muito carinho.
- Por que voc parou?  - perguntou Fusha. Ainda no  noite.
- Porque estou cansado - disse Aquilino. - Vamos dormir nessa praiazinha. E depois, voc no est vendo o cu? Agorinha 
mesmo comea a chuva.
115
No extremo norte da cidade h uma pequena praa.  muito antiga e, em outros tempos, seus bancos foram de vime polido e 
de metais lustrosos. A sombra de algarobeiras
esbeltas caa sobre eles e, em seu abrigo, os velhos da vizinhana recebiam o calor das manhs e viam as crianas brincando 
 volta do chafariz: uma circunferncia 
de pedra e, no centro, na ponta dos ps, as mos levantadas como que para voar, uma mulher envolta em vus, derramando gua 
pelos cabelos. Agora os bancos esto 
rachados, o chafariz, sem gua, a bela mulher tem o rosto fendido por uma cicatriz e as algarobeiras curvam-se sobre si 
mesmas, moribundas.
Nessa pracinha brincava Antnia quando os Quiroga vinham  cidade. Eles viviam na fazenda de La Huaca, uma das maiores de 
Piura, um mar ao p das montanhas. Duas 
vezes ao ano, por ocasio do Natal e da procisso de junho, os Quiroga viajavam  cidade e instalavam-se no casaro de tijolos 
que faz esquina precisamente com 
essa praa, que agora tem seu nome. Dom Roberto usava grossos bigodes, mordia-os levemente ao falar e tinha modos aristocrticos. 
O agressivo sol da regio preservara 
as feies de Dona Lcia, mulher plida, frgil, muito devota: ela mesma armava as coroas de flores que depositava no andor 
da Virgem, quando a procisso parava 
 porta de sua casa. Os Quiroga celebravam uma festa na noite de Natal, da qual participavam muitos grados. Havia presentes 
para todos os convidados e,  meia-noite, 
das janelas, choviam moedas para os mendigos e vagabundos amontoados na rua. Vestidos de escuro, os Quiroga acompanhavam 
a procisso, quatro lentssimas horas atravs 
de bairros e subrbios. Levavam Antnia pela mo, discretamente ralhavam com ela quando se descuidava das ladainhas. Durante 
sua estada na cidade, Antnia aparecia 
muito cedo na pracinha e, com os meninos da vizinhana, brincava de polcia e ladro, jogava prendas, subia nas algarobeiras, 
atirava bolas de barro na mulher de 
pedra ou tomava banho no chafariz, nua como um peixe.
Quem era esta menina, e por que a protegiam os Quiroga? Eles a trouxeram de La Huaca em um ms de junho, quando ainda no 
sabia falar, e Dom Roberto contou uma histria
que no convenceu muita gente. Os ces da fazenda tinham latido certa noite e quando, assustado, saiu ao ptio, encontrou 
a menina no cho, debaixo de uns cobertores.
Os Quiroga no tinham filhos, e os parentes cobiosos aconselharam o asilo, alguns at se ofereciam para cri-la.
116
Mas Dona Lcia e Dom Roberto no seguiram os conselhos nem aceitaram os oferecimentos e nem pareceram incomodados com os 
falatrios. Certa manh, em meio a uma 
partida
de rocambor, no Centro Piurano, Dom Roberto anunciou distraidamente que decidira adotar Antnia.
Mas isso no aconteceu porque nesse fim de ano os Quiroga no chegaram a Piura. Nunca ocorrera isso: houve preocupao. 
Temendo um acidente, a 25 de dezembro, um 
peloto de cavaleiros saiu pela estrada do norte.
Foram encontrados a cem quilmetros da cidade, ali onde a areia apaga o rastro e destri todo sinal e s imperam a desolao 
e o calor. Os ladres tinham espancado 
selvagemente os Quiroga, roubaram suas roupas, os cavalos, a bagagem, e tambm os dois criados jaziam mortos, com pestilentas 
feridas que ferviam de vermes. O sol 
continuava ulcerando os cadveres nus e os cavaleiros tiveram que afastar a tiros os urubus que bicavam a menina. Ento, 
viram que ela estava viva.
- Por que no morreu? - perguntavam os piuranos.
- Como  que ficou viva se arrancaram sua lngua e seus olhos?
-  difcil saber.- respondia o Doutor Pedro Zevallos, mexendo a cabea perplexo. - Talvez o sol e a areia tenham cicatrizado 
as feridas e evitado a hemorragia.
- A Providncia - afirmava o Padre Garcia. - A misteriosa vontade de Deus.
- Um iguana lambeu a menina - diziam os feiticeiros dos ranchos. - Porque sua baba verde no s evita o aborto, tambm seca 
as feridas.
Os ladres no foram encontrados. Os melhores cavaleiros percorreram o deserto, os mais hbeis rastreadores exploraram os 
matos, as grutas, chegaram at as montanhas 
de Ayabaca l sem encontr-los. Muitas vezes, o prefeito, a Guarda Civil, o Exrcito organizaram expedies para revistar 
as aldeias e casarios mais retirados. Tudo 
em vo.
Os bairros derramaram gente no cortejo que acompanhava o fretro dos Quiroga. Nas sacadas das casas dos grados havia crepom 
negro, e o bispo e as autoridades assistiram 
ao enterro. A desgraa dos Quiroga se espalhou por toda parte, perdurou nas conversas e nas lendas dos mangaches e dos gallinazos.
' Montanhas localizadas na provncia de Ayabaca, que faz limite com o Equador.
117
La Huaca foi dividida em muitas partes e,  frente de cada uma, ficou um parente de Dom Roberto ou de Dona Lcia. Ao sair 
do hospital, Antnia foi recolhida por
uma lavadeira da Gallinacera, Juana Baura, que servira os Quiroga. Quando a menina aparecia na Plaza de Armas, varinha na 
mo para detectar os obstculos, as mulheres 
a acariciavam, davam-lhe doces, os homens punham-na sobre o cavalo e a levavam a passear pelo Malecn. Certa vez esteve 
doente. Chpiro Seminrio e outros fazendeiros 
que bebiam no La Estrella dei Norte obrigaram a banda municipal a ir at a Gallinacera, para tocar a retreta na frente da 
choa de Juana Baura. No dia da procisso, 
Antnia ficava imediatamente atrs do andor, e dois ou trs voluntrios faziam um anel para separ-la do tumulto. A menina 
tinha um ar dcil, taciturno, que comovia 
a todos.
J tinham sido vistos, meu capito, o Cabo Roberto Delgado aponta para o alto do barranco, j tinham ido avisar os outros: 
as lanchas encalham uma aps outra, os 
onze homens pulam para terra, dois soldados amarram as embarcaes a umas pedras, Jlio Retegui bebe um gole do seu cantil, 
o Capito Artemio Quiroga tira a camisa, 
o suor empapa seus ombros, suas costas, e torce-a, Dom Jlio, esse maldito calor assaria os miolos deles. Enxames de mosquitos 
assediam o grupo, no alto ouvem-se 
latidos: vinham a, meu capito, que olhasse para cima. Todos levantam o olhar: nuvens de p e muitas cabeas apareceram 
no alto do barranco. Algumas silhuetas de 
troncos imprecisos j deslizam pela encosta arenosa e, entre as pernas dos urakusas, brincam ces barulhentos, os caninos 
 mostra. Jlio Retegui volta-se para 
os soldados, andem, que saudassem os selvagens, e o senhor, cabo, abaixe a cabea, fique l atrs, que no o reconhecessem, 
e o Cabo Roberto Delgado, sim, senhor, 
governador, j o vira, ali estava Jum, meu capito. Os onze homens agitam as mos e alguns sorriem. Na ladeira h cada vez 
mais urakusas; descem quase de ccoras, 
gesticulando, grunhindo, as mulheres so as mais buliosas, e o capito, iam ao encontro deles, Dom Jlio? porque no se 
fiava nada neles. No, nada disso, capito, 
no estava vendo como desciam contentes? Jlio Retegui conhecia aquela gente, o importante era ganhar sua confiana, deixasse 
para ele, cabo, qual deles era Jum? 
O da frente, senhor, o que tinha a mo levantada, e Jlio Retegui, ateno:
118
iam correr como cabritos, capito, que no escapasse nenhum, e sobretudo muito cuidado com Jum. Amontoados ao p do barranco, 
num estreito aterro, seminus, to 
excitados quanto
os ces que pulam, sacodem os rabos e latem, os urakusas olham os expedicionrios, apontam para eles, cochicham. Misturado 
com os cheiros do rio, da terra e das 
rvores, h agora um cheiro de carne humana, de peles tatuadas com zarco. Os urakusas batem nos braos, nos peitos, ritmadamente 
e, em seguida, um homem atravessa 
a poeirenta barreira, era aquele, meu capito, aquele, e caminha slido e decidido para a margem. Os outros o seguem e Jlio 
Retegui, que era o governador de Santa 
Maria de Nieva, intrprete, que viesse falar com ele. Um soldado se adianta, grunhe e gesticula com desenvoltura, os urakusas 
param. O homem slido concorda, descreve 
com a mo uma linha lenta, circular, indicando aos expedicionrios que se aproximem, eles o fazem, e Jlio Retegui: Jum, 
de Urakusa? O homem slido abre os braos, 
Jum! respira: piuranos! O capito e os soldados se olham. Jlio Retegui concorda, d outro passo em direo a Jum, ambos 
ficam a um metro de distncia. Sem pressa, 
os olhos tranqilamente pousados no urakusa, Jlio Retegui tira a lanterna que leva no cinturo, segura-a com toda a mo, 
ergue-a devagar, Jum estende a mo para 
receb-la, Retegui golpeia: gritos, corridas, p que cobre tudo, a estentrea voz do capito. Entre os uivos e as nuvens 
de p, corpos verdes e ocre circulam, caem, 
levantam-se, como um pssaro prateado, a lanterna golpeia uma vez, duas, trs. Em seguida, o vento limpa a praia, desvanece 
a nuvem de poeira, leva os gritos. Os 
soldados esto postos em crculo, seus fuzis apontam para uma centopia de urakusas ligados, amarrados, tranados uns aos 
outros. Uma menina solua, abraada s 
pernas de Jum, e este cobre o rosto, por entre os dedos seus olhos espiam os soldados, Retegui, o capito, e a ferida de 
sua testa comeou a sangrar. O Capito 
Quiroga faz girar o revlver num dedo, governador, ouvira o que ele gritou? Piuranos queria dizer peruanos, no? E Jlio 
Retegui pensava onde  que este sujeito 
ouviu essa palavrinha, capito: seria melhor lev-los para cima, no povoado estariam melhor que aqui, e o capito, sim, 
haveria menos pernilongos: j ouviu, intrprete, 
ordene, faa com que subam. O soldado grunhe e gesticula, o crculo se abre, a centopia comea a andar, pesada e compacta, 
novamente se levantam as nuvenzinhas 
de p. O Cabo Roberto Delgado se pe a rir: j o reconhecera, meu capito,
119
parecia querer com-lo com os olhos. E o capito, Jum tambm, cabo, que espera para subir. O cabo empurra Jum, que caminha 
muito teso, as mos sempre no rosto.
A menina continua
presa s suas pernas, estorva seus movimentos e o cabo pega-a pelos cabelos, saia, trata de separ-la, solte-se, do cacique, 
e ela resiste, arranha, guincha como 
um sagi, merda, o cabo bate nela com a mo aberta, e Jlio Retegui, que  que h, porra? como  que tratava assim a uma 
menina, porra? com que direito, porra? 
O cabo solta-a, senhor, no queria bater nela, s fazer que soltasse Jum, no se ofenda, senhor, e alm disso ela o arranhara.
- J se ouve a harpa - disse Lituma. - Ou estou sonhando, invencveis?
- Ns todos a ouvimos, primo - disse Jos. - Ou todos estamos sonhando.
O Mono escutava, o rosto torcido, os olhos enormes e admirados.
-  um artista! Quem diz que no  o maior?
- Pena que esteja to velho - disse Jos. - Seus olhos j no lhe valem mais, primo. Nunca anda s, o Joven e o Bolas tm 
de lev-lo pelo brao.
A casa de Chunga fica atrs do estdio, pouco antes do descampado que separa a cidade do Quartel Grau', no longe do matagal 
das curras. Ali, nesse lugar de capim 
calcinado e areia fina, sob os nodosos ramos das algarobeiras, nos amanheceres e crepsculos, postam-se os soldados brios. 
As lavadeiras que voltam do rio, as criadas 
do bairro de Buenos Aires que vo ao mercado, vrios deles agarram-nas, deitam-nas sobre a areia, jogam a saia sobre o rosto 
delas, abrem suas pernas e, um aps 
o outro, fodem-nas e fogem. Os piuranos chamam de atropellada a vtima,  operao, fusilico, e ao rebento resultante de 
filho de atropellada, fusiliquito,
sieteleches'.
- Maldita a hora em que fui para a selva - disse Lituma. - Se tivesse ficado aqui, eu me casaria com Lira e seria um homem 
feliz.
;' Esse quartel tomou o nome do Almirante Miguel Grau, nascido em
Piura.
' Atropellada, vtima de uma agresso sexual do tipo que se conhece
no Brasil por curra (gria); fusilico, a curra propriamente dita; hijo
de atropellada, fusiliquito, sieteleches, correspondam, respectivamente,
a "filho das macegas", "curradinho" e "filho de ningum".
120
- No to feliz, primo - disse Jos. - Se visse como Lira est agora.
- Uma vaca leiteira - disse o Mono. - Uma pana que parece um bombo.
- E parideira como uma coelha - disse Jos. - J tem umas dez crianas.
- Uma  puta, a outra  vaca leiteira - disse Lituma.
- Que olho bom para as mulheres, invencvel.
- Colega, voc me prometeu e est faltando com a palavra - disse Josefino. - O passado passou. Seno, a gente no acompanha 
voc  casa da Chunga. Vai ficar calminho, 
no  verdade?
- Como um operado, palavra de honra - disse Lituma. - S estou brincando.
- No v que voc se iode pela mnima coisa que fizer, irmo? - perguntou Josefino. - Tem antecedentes, Lituma. Prenderiam 
voc de novo, e quem sabe por quanto tempo 
desta vez.
- Como voc se preocupa comigo, Josefino - disse Lituma.
Entre o estdio e o descampado, a meio quilmetro da estrada que sai de Piura e se bifurca, em seguida, em duas retas superfcies 
escuras que atravessam o deserto, 
uma em direo a Paita, a outra para Sullana, h uma aglomerao de choas de adobe, latas e papeles, um subrbio que no 
tem nem os anos nem a extenso da Mangachera, 
mais pobre que esta, mais desprotegido, e  ali onde se ergue, singular e central como uma catedral, a casa da Chunga, tambm 
chamada a Casa Verde. Alta, slida, 
seus muros de tijolos e seu teto de zinco so vistos do estdio. Nos sbados  noite, durante as lutas de boxe, os espectadores 
conseguem ouvir os pratos de Bolas, 
a harpa de Dom Anselmo, a guitarra do Joven Alejandro.
- Juro que a ouvia, Mono - disse Lituma. - Nitidamente, era de partir a alma. Como a ouo agora, Mono.
- Que vida ruim voc levava, priminho - disse o Mono.
- No falo de Lima, mas de Santa Maria de Nieva
- disse Lituma. - Noites como a morte, Mono, quando estava de guarda. Ningum com quem falar. Os rapazes estavam roncando, 
e de repente no ouvia mais os sapos 
nem os grilos, s a harpa. Em Lima, no a ouvi nunca.
A noite estava fresca e clara, na areia se desenhavam, de trecho em trecho, os perfis retorcidos das algarobeiras.
121
Caminhavam numa mesma linha, Josefino esfregando as mos, os Len assobiando, e Lituma, cabisbaixo, as mos nos bolsos, 
levantava o rosto de quando em quando e
examinava o cu com uma espcie de raiva.
- Uma corrida, como quando ramos crianas - disse o Mono. - Um, dois, trs.
Saiu disparado, sua pequena figura simiesca desapareceu nas sombras. Jos ultrapassava obstculos invisveis, empreendia 
uma corrida, ia e voltava, encarava Lituma 
e Josefino:
- A aguardente  nobre, o pisco, traidor - rugia. Quando  que cantamos o hino?
Perto da favela, encontraram o Mono, estendido de costas, resfolegando como um boi. Ajudaram-no a se levantar.
- O corao me sai pela boca, merda, parece mentira.
- Os anos no passam em vo, primo - disse Lituma.
- Ento viva a Mangachera - disse Jos.
A casa da Chunga  cbica e tem duas portas. A principal d para o quadrado, amplo salo de baile cujas paredes esto crivadas 
de nomes e de emblemas: coraes, 
flechas, tetas, sexos femininos como meias-luas, picas que os atravessam. H tambm fotografias de artistas, boxeadores 
e modelos, uma folhinha, uma imagem panormica 
da cidade. A outra, portinha baixa e estreita, d para o bar, separado da pista de danas por um balco de' tbuas grandes, 
atrs do qual est a Chunga, uma cadeira 
de balano de palha e uma mesa coberta de garrafas, copos e talhas. E frente ao bar, a um canto, esto os msicos. Dom Anselmo, 
instalado sobre um banquinho, utiliza 
a parede como espaldar e sustenta a harpa entre as pernas. Usa culos, os cabelos varrem sua testa, entre os botes da camisa, 
no pescoo e nas orelhas aparecem 
mechas cinza. O que toca o violo e tem a voz muito afinada  o estranho, o lacnico Joven Alejandro, que alm de msico 
 compositor. O que ocupa a cadeira de vime 
e manipula um tambor e uns pratinhos, o menos artista, o mais musculoso dos trs,  Bolas, um ex-chofer de caminho.
- No me abracem assim, no tenham medo - disse Lituma. - No estou fazendo nada, esto vendo? S estou procurando por ela. 
Que h de mau em querer v-la? Soltem-me.
- J deve ter ido embora, priminho - disse o Mono.
- Que importncia tem? Pense noutra coisa. Vamos nos divertir, festejar sua volta.
122
- No estou fazendo nada - repetiu Lituma. - S me lembrando.  Por que me abraam assim, invencveis?
Estavam  entrada da pista de danas, sob a espessa luz derramada por trs lmpadas envoltas em celofane azul, verde e violeta, 
diante de uma comprimida massa de 
casais. Grupos imprecisos abarrotavam os cantos e deles vinham vozes, gargalhadas, batidas de copos. Uma fumaa imvel, 
transparente, flutuava entre o teto e as 
cabeas dos danarinos, e cheirava a cerveja, suores e fumo negro. Lituma se balanava sem sair do lugar, Josefino segurava-o 
sempre pelo brao, mas os Len j o 
haviam soltado.
-- Qual foi a mesa, Josefino? Aquela?
- Aquela mesma, irmo. Mas j passou, voc agora comea outra vida, esquea.
- Ande, cumprimente o harpista, primo - disse o Mono. - E ao Joven, ao Bolas, que sempre se lembram de voc com carinho.
- Mas no a vejo - disse Lituma. - Por que se esconde de mim, no vou fazer nada. S vou olhar para ela.
- Eu me encarrego disso, Lituma - disse Josefino.
- Palavra que a trago. Mas voc tem que cumprir sua palavra: o passado passou. Ande, v falar com o velho. Eu vou busc-la.
A orquestra tinha deixado de tocar, os pares da pista eram agora uma massa compacta, imvel e balbuciante. Algum discutia 
aos gritos junto do bar. Lituma caminhou 
para os msicos, tropeando, Dom Anselmo da minha alma, com os braos abertos, velho, harpista, escoltado pelos Len, no 
se lembra mais de mim?
- Ele no o v, primo - disse Jos. - Diga quem  voc. Adivinhe, Dom Anselmo.
- Que  isso? - a Chunga se levantou de um salto e a cadeira de balano continuou se mexendo. - O sargento? Voc o trouxe?
- No teve jeito, Chunga - disse Josefino. - Chegou hoje mesmo e ficou teimando, no pudemos segur-lo. Mas j sabe e no 
deu a menor bola.
Lituma estava nos braos de Dom Anselmo, o Joven e o Bolas davam-lhe tapas nas costas, os trs falavam ao mesmo tempo e 
podia-se ouvi-los do bar, excitados, surpresos, 
comovidos. O Mono sentara-se diante dos pratinhos, fazia-os tilintar, e Jos examinava a harpa.
- Ou chamo a polcia - disse a Chunga. - Leve-o agora mesmo.
123
- Est embriagadssimo, Chunga, mal pode caminhar, no est vendo? - disse Josefino. - Ns cuidamos dele. No haver nenhum 
problema, palavra.
- Vocs so a minha desgraa - disse a Chunga. - Voc sobretudo,
Josefino. Mas hoje no vai se repetir o que houve na ltima vez, juro
que chamo a polcia. - Nenhum problema, Chunguita - disse Josefino. -
Palavra. A selvtica est l em cima? - Onde poderia estar? Disse a
Chunga. - Mas se houver problema, puta que o pariu, voc vai ver.
124




II.




- Aqui me sinto bem, Dom Adrin - disse o sargento. - Assim so as noites da minha terra. Mornas e iluminadas.
-  que no h nada como a selva - disse Nieves.
- O Paredes esteve no ano passado na serra e voltou dizendo que l  triste, nem uma rvore, s pedras e nuvens.
A lua, muito alta, iluminava o terrao, e no cu e no rio havia muitas estrelas; atrs da mata, suave muro de sombras, os 
contrafortes da cordilheira eram uns molhes 
violceos. Ao p da cabana, entre juncos e samambaias, chapinhavam as rs e, dentro, ouvia-se a voz de Lalita, o crepitar 
do fogo. Na chcara, os ces ladravam 
alto: brigavam pelos ratos, sargento, e como os caavam, queria que visse. Ficavam debaixo das bananeiras, fazendo-se de 
adormecidos e, quando um rato se aproximava, 
bum, no cangote. O prtico os ensinara.
- Em Cajamarca', o povo come cobaias - disse o sargento. - Servem com unhas, olhinhos e bigodes. So igualzinhas aos ratos.
- Uma vez, Lalita e eu fizemos uma viagem muito longa, pela mata - disse Nieves. - Tivemos que comer ratos.  carne cheira 
mal, mas  molinha e branca como a do 
peixe. O Aquilino se intoxicou, quase o perdemos.
- Chama-se Aquilino o maiorzinho? - perguntou o sargento. - O que tem olhinhos de chins?
- Esse mesmo, sargento - disse Nieves. - E na sua terra h muitos pratos tpicos?
' Departamento ao norte do Peru.
125
O sargento levantou a cabea, ah, Dom Adrin, ficou uns segundos extasiado, se entrasse em uma picantera mangache e provasse 
um assado de cabrito. Morreria de
prazer, palavra, nada no mundo podia se comparar, e o prtico Nieves concordou: nada como a terra da gente. Sargento, no 
tinha, s vezes, vontade de voltar a Piura?
Sim, todos os dias, mas a gente no faz tudo o que quer quando  pobre, Dom Adrin: e ele, nascera aqui, em Santa Maria 
de Nieva?
- Mais embaixo - disse o prtico. - O Maran  muito largo l, e com a nvoa no se v a outra margem. Mas j me acostumei 
em Nieva.
- J est pronta a comida - disse Lalita, da janela. Seus cabelos soltos caam em cascata sobre o peitoril, e seus braos 
fortes pareciam molhados. - Quer comer 
a fora, sargento?
- Gostaria, se no for incmodo - disse o sargento.
- Em sua casa me sinto como na minha terra, senhora. S que o nosso rio  mais estreitinho e nem sequer tem gua durante 
todo o ano. Em vez de rvores, tem arcais.
- No se parece em nada, ento - riu Lalita. - Mas acredito que Piura  to linda como aqui.
- Quer dizer que tem o mesmo calorzinho, os mesmos rudos - disse Nieves. - A terra no significa nada para as mulheres, 
sargento.
- Foi de brincadeira - disse Lalita. - Mas o senhor no se incomodou, no , sargento?
Que idia, gostava de brincadeiras, faziam com que ganhasse intimidade e, a propsito, a senhora  de Iquitos, no  verdade? 
Lalita olhou Nieves, de Iquitos? e, 
por um instante, mostrou seu rosto: pele metlica, suor, espinhas. Parecera ao sargento pela maneira de falar, senhora.
- Saiu de l faz muitos anos - disse Nieves. - Estranho que notasse o sotaque dela.
-  que tenho um ouvido de seda, como todos os mangaches - disse o sargento. - Eu cantava muito bem quando rapaz, senhora.
Lalita tinha sabido que os do norte tocavam bem violo e que tinham bom corao, verdade? e o sargento, claro: nenhuma mulher 
resistia s canes de sua terra, 
senhora. Em Piura, quando um homem se enamorava, ia buscar os amigos, todos levavam violes e a moa caa  fora de serenatas. 
Havia grandes msicos, senhora, ele 
conhecia muitos, um velho que tocava harpa, uma maravilha, um compositor
de valsas,
126
e Adrin Nieves apontou o interior da cabana para Lalita; e ela, no vai sair? Lalita encolheu os ombros:
- Tem vergonha, no quer sair - disse. - No me ouve. Bonifcia  como um veadinho, sargento, por qualquer coisa levanta 
as orelhas e se assusta.
- Que ao menos venha dar boa-noite ao sargento disse Nieves.
- Deixem-na - disse o sargento. - No deve sair se no tem vontade.
- No se pode mudar de vida to depressa - disse Lalita. -- S esteve entre mulheres, a coitada tem medo dos homens. Diz 
que so como vboras, isso  o que as madrezinhas 
devem ter ensinado a ela. Agora foi se esconder na chcara.
- Tm medo do homem at que o provam - disse Nieves. - Ento mudam, ficam devoradoras.
Lalita se meteu na cabana e, um momento depois, sua voz voltou l de dentro, nada tinha a ver com isso, ligeiramente aborrecida, 
nunca tivera medo dos homens e 
no era devoradora, para quem dizia isso, Adrin? O prtico riu s gargalhadas, e se virou para o sargento: Lalita era uma 
boa mulher, mas,  verdade, tinha o seu 
gnio. Pequeno, muito magro, de pele clara e olhos rasgados e vivos, Aquilino veio ao terrao, boa noite, trazia a lamparina 
porque estava escuro, e colocou-a sobre 
o parapeito. Atrs dele, outros dois meninos, calas curtas, cabelos finos, ps descalos, carregavam uma mesinha. O sargento 
chamou-os e, enquanto fazia cosquinhas 
e ria com eles, Lalita e Nieves trouxeram frutas, peixes defumados, mandioca, que boa cara tinha tudo isso, senhora, umas 
garrafas de anis. O prtico distribuiu 
pores de comida aos trs meninos, que saram em direo  escadinha da chcara: suas crias so muito bonitas, Dom Adrin, 
assim chamavam as crianas em Piura, 
senhora, e as crianas, em geral, agradavam ao sargento.
- Sade, sargento - disse Nieves. - Pelo prazer de t-lo aqui.
- Bonifcia se assusta com tudo, mas  muito trabalhadora - disse Lalita. - Ajuda-me na chcara e sabe cozinhar. E costura 
muito bem. Viu as calcinhas dos meninos? 
Ela  que fez, sargento.
- Mas voc tem que aconselh-la - disse o prtico.
- Assim, to tmida, nunca encontrar marido. O senhor no sabe como  calada, sargento, s abre a boca quando a gente pergunta 
alguma coisa a ela.
127
- Isso me parece bom - disse o sargento. - Eu no gosto das tagarelas.
- Ento vai gostar muito de Bonifcia - disse Lalita.
- Pode passar a vida sem dizer um ai.
- vou contar um segredo ao senhor, sargento - disse Nieves. - Lalita quer cas-lo com Bonifcia.  o que ela vem me dizendo, 
por isso fez-me convid-lo. Cuide-se, 
ainda est em tempo.
O sargento assumiu uma expresso entre risonha e nostlgica, senhora, ele estivera uma vez por se casar. Acabava de entrar 
na Guarda Civil e encontrou uma mulher 
que gostava dele, e ele tambm dela, um pouquinho. Como se chamava? Lira, que houve? nada, senhora, transferiram-no de Piura 
: Lira no quis acompanh-lo, e assim 
acabou o romance.
- Bonifcia iria com seu companheiro a qualquer parte - disse Lalita. - Na selva, as mulheres so assim, ns no impomos 
condies. Tem que se casar com alguma 
daqui, sargento.
- O senhor est vendo, quando Lalita mete uma coisa na cabea no pra at que a consiga - disse Nieves. - As loretanas 
so umas bandidas, sargento.
- Que simpticos so vocs - disse o sargento. Em Santa Maria de Nieva dizem que os Nieves so intratveis, nunca se ligam 
a ningum. E, no entanto, senhora, h 
tanto tempo aqui, vocs so os primeiros que me convidam  sua casa.
-  que ningum gosta de guardas, sargento - disse Lalita. - No v como so abusados? Eles desgraam as moas, embarrigam 
as que se apaixonam e do o fora.
- Ento por que voc quer casar Bonifcia com o sargento? - perguntou Nieves. - Uma coisa no bate com a outra.
- Por acaso voc no disse que o sargento  diferente?
- disse Lalita. - Mas quem sabe se  verdade?
-  verdade, senhora - disse o sargento. - Sou um homem direito, um bom cristo, como dizem aqui. E um amigo como no existem 
dois, vai ver. Estou muito agradecido, 
Dom Adrin, de verdade, porque me sinto muito contente em sua casa.
- Pode voltar quando quiser - disse Nieves. - Venha visitar Bonifcia. Mas no se meta com Lalita, porque sou muito ciumento.
128
- E com razo, Dom Adrin - disse o sargento. - A senhora  to bonitona, que eu tambm seria ciumento.
- Muito gentil de sua parte, sargento - disse Lalita.
- Mas sei que diz por dizer, j no sou bonitona. Antes sim, quando mais moa.
- Mas a senhora  moa ainda - protestou o sargento.
- Eu no confio - disse Nieves. - Ser melhor que no venha quando eu no estiver, sargento.
Na chcara, os ces continuavam ladrando e, de quando em quando, ouviam-se as vozes dos meninos. Os insetos revoavam em 
volta da lamparina de leo, os Nieves e o 
sargento bebiam, conversavam, brincavam; prtico Nieves! os trs viraram a cabea para a ramaria da margem: a noite ocultava 
o atalho que subia at Santa Maria de 
Nieva. Prtico Nieves! E o sargento: era o Pesado, que chato, que  que h, por que vinha incomod-lo a estas horas, Dom 
Adrin. Os trs meninos invadiram o terrao. 
Aquilino caminhou at o prtico e falou em voz baixa: que subisse.
- Parece que temos de viajar, sargento - disse o prtico Nieves.
- Deve estar bbado - disse o sargento. - No faa caso do Pesado, quando bebe, diz coisas estranhas.
A escadinha rangeu, atrs de Aquilino surgiu a grossa silhueta do Pesado, puxa, meu sargento, at que enfim o encontrava, 
o tenente e os rapazes o estavam procurando 
por toda parte, e que tivessem boa noite.
- Estou de folga - grunhiu o sargento. - Que querem comigo?
- Encontraram as pupilas - disse o Pesado. - Um grupo de mateiros, perto de um acampamento, rio acima. Faz umas duas horas 
chegou um prprio  misso. As madres 
acordaram todo mundo, sargento. Parece que uma das crianas est com febre.
O Pesado estava em mangas de camisa, abanava-se com o quepe, e agora Lalita acossava-o com perguntas. O prtico e o sargento 
ficaram de p, sim, que brincadeira, 
senhora, deviam ir busc-las agora mesmo. Eles queriam esperar at amanh, mas as freirinhas convenceram Dom Fbio e o tenente, 
e o sargento, viajar de noite? Sim, 
meu sargento, as madres tinham medo de que os mateiros passassem pelas armas as maiorzinhas.
- As madrezinhas tm razo - disse Lalita. - As coitadas, tantos dias na mata. Apresse-se, Adrin, ande.
- Que vamos fazer? - perguntou o prtico.
129
- Beba um  trago com o sargento, enquanto vou pr gasolina  na lancha.
- Vai me cair bem, obrigado - disse o Pesado. Que vida nos do, no  verdade, sargento? Desculpe ter interrompido no meio 
da comida.
- Encontraram todas? - perguntou uma voz, vinda do tabique. Eles olharam: uma cabeleira curta, um perfil confuso, um busto 
de mulher recortado junto  janela. A 
luz da lamparina chegava fracamente at ali.
- Menos duas. - disse o Pesado, voltando-se para a janela. - Menos aquelas de Chicais.
- Por que no as trouxeram em vez de mandar avisar?
- perguntou Lalita. - Ainda bem que as encontraram, graas a Deus que as encontraram.
Mas no tinham como traz-las, senhora, e o Pesado e o sargento avanavam as cabeas em direo ao tabique, mas a silhueta 
se movera e agora s aparecia um fragmento 
de rosto, uma sombra de cabelos. Do outro lado do parapeito Adrin Nieves dava ordens e ouviam-se os meninos agitando a 
gua, chapinhando, idas e vindas entre as 
samambaias. Lalita serviu anis e eles beberam  sua sade, meu sargento, e o sargento,  sade da senhora, antes, seu mal-educado.
- J sei que o tenente me encarregou do trabalhinho
- disse o sargento. - Imagino que no irei s, no , buscar aquelas crianas? quem me acompanha?
- Chiquito e eu - disse o Pesado. - E vai tambm uma freirinha.
- Madre Anglica? - disse a voz do tabique, e eles voltaram a torcer os pescoos.
-- Certamente, porque Madre Anglica entende de medicina - disse o Pesado. - Para curar a doentinha.
- Dem a ela quinino - disse Lalita. - Mas uma viagem s no chega, no cabem todas na lancha, vo ter que fazer duas ou 
trs.
- Sorte que h lua - disse o prtico Nieves, da escadinha. - Em meia hora estarei pronto.
- V avisar o tenente que j vamos, Pesado - disse o sargento.
O Pesado fez que sim, deu boa-noite e saiu pelo terrao. Ao passar junto  janela, a vaga silhueta recuou, desapareceu e 
reapareceu quando ele j descia a escadinha, 
assobiando.
- Venha, Bonifcia - disse Lalita. - Vou apresentar voc ao sargento.
130
Lalita pegou o sargento pelo brao, levou-o at a porta e, segundos depois, surgiu um contorno de mulher na entrada. O sargento
ficou com a mo estendida, observando,
confuso, umas chispinhas imveis, at que uma pequena forma sombria cortou a penumbra, uns dedos roaram os seus, muito 
prazer, e escaparam: s suas ordens, senhorita. 
Lalita
sorria.
- Pensei que ele era como voc - disse Fusha.
- E est vendo, velho, que terrvel engano.
- A mim ele tambm enganou um pouco - disseAquilino. - No pensava que Adrin Nieves fosse capaz disso. Parecia to despreocupado 
com tudo. Ningum viu como comeou 
a coisa?
- Ningum - disse Fusha -, nem Pantacha, nem Jum, nem os huambisas. Maldita hora em que aqueles cachorros nasceram, velho.
- O dio j est outra vez em sua boca, Fusha disse Aquilino.
E ento Nieves a viu, encurralada entre a jarra de barro e o tabique: grande, felpuda, negrssima. Levantou-se muito devagar 
da esteira, sua mo procurou, roupas, 
uns sapatos de borracha, uma corda, porongos, uma cesta de tucum, nada que servisse. Ela continuava no canto, encolhida, 
sem dvida espiava-o por debaixo de suas 
patas finas e retintas, refletidas como uma trepadeira na superfcie avermelhada da jarra. Deu um passo, desembainhou o 
machete, e ela no tinha fugido, continuava 
espreitando, certamente percebia cada movimento seu com os olhinhos perversos, a pana vermelha latejando. Nas pontas dos 
ps caminhou at o canto, ela se encolheu, 
com sbita angstia, ele golpeou e houve como que estalidos de folhas caindo. Em seguida, o tapete ficou com um risco e 
manchinhas negras, vermelhas; as patas 
estavam intactas, seu plo era negro, comprido, sedoso. Nieves embainhou o machete e, em vez de voltar  esteira, permaneceu 
junto  janela, fumando. Recebia na 
cara o sopro e os rumores da selva, com a brasa do cigarro tentava queimar as asas dos morcegos que rondavam pela tela metlica.
- Nunca ficaram sozinhos na ilha? - perguntou Aquilino.
- Uma vez, porque aquele cachorro adoeceu - disse Fusha.
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- Mas ainda no comeo. Naquele tempo no pde comear a histria, no se atreveriam, tinham medo de mim.
- H alguma coisa que assuste mais que o inferno? perguntou Aquilino. - E, mesmo assim, a gente faz maldades. O medo no 
freia o homem em todas as coisas, Fusha.
- Ningum viu o inferno - disse Fusha. - Mas eles me viam o tempo todo.
- Mesmo assim, quando um cristo e uma crist se querem, no h quem os segure - disse Aquilino. - O corpo queima, como 
se tivesse chamas dentro. Voc, por acaso, 
nunca sentiu isso?
- Nenhuma mulher me fez sentir isso -- disse Fusha.
- Mas agora sim, velho, agora sim.  como se tivesse brasas sob a pele, velho.
 direita, entre as rvores, Nieves via fogueiras, instantneos perfis de huambisas;  esquerda, ao contrrio, onde Jum 
armara sua cabana, tudo era escurido. No 
alto, contra um cu anil, agitavam-se os penachos das lupunas e a lua branqueava o atalho que, depois de descer em uma ladeira 
de arbustos e de samambaias, contornava 
o tanque das tartarugas e continuava at a praiazinha; a laguna devia estar azul, quieta, deserta. As guas do tanque continuavam 
baixando? J estariam no seco as 
estacas, a rede? Logo apareceriam as tartarugas encalhadas na areia, seus rugosos pescoos estirando-se para o cu, os olhos 
cheios de asfixia e remelas, e seria 
preciso fazer saltar suas carapaas com o fio do machete, cortar a carne branca em quatro pedaos e salg-la antes que o 
sol a estragasse, a umidade. Nieves tirou 
o cigarro e ia soprar a lamparina quando bateram na parede. Levantou a tranca da porta e Lalita entrou, enrolada em uma 
tnica huambisa, os cabelos at a cintura, 
descala.
- Se tivesse que escolher um dos dois para me vingar, seria ela, Aquilino - disse Fusha -, aquela cadela. Porque foi ela 
que comeou, quando me viu doente.
- Voc a tratava mal, batia nela, e depois as mulheres tm orgulho, Fusha - disse Aquilino. - Que crist teria agentado? 
A cada viagem voc trazia uma mulher, 
e obrigava-a a engoli-las.
- Voc acha que ela tinha raiva das selvagens? - perguntou Fusha. - Que bobagem, velho. A cadela estava corrida porque 
eu no podia mais com ela.
- Melhor que no fale disso, homem - disse Aquilino. - J sei que voc fica triste.
- Mas comeou assim, porque no podia mais satisfazer Lalita
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- disse Fusha. - Voc v que desgraa, Aquilino, que coisa horrvel.
- No o acordei, no ? - perguntou Lalita, com voz sonolenta.
- No, no me acordou - disse Nieves. - Boa noite. Que  que manda?
Trancou a porta, abotoou as calas e cruzou os braos sobre o torso nu, mas logo descruzou-os e continuou de p, indeciso. 
Por fim, apontou para a jarra de barro: 
uma caranguejeira tinha-se metido ali e acabava de mat-la. Fazia s uma semana que tapara os buracos, Lalita sentou-se 
na esteira, mas a cada dia as caranguejeiras 
abriam outros.
-  porque tm fome - disse Lalita -,  assim nesta poca. Uma vez acordei e no podia mexer a perna, s vendo. Tinha uma 
manchinha, que depois inchou. Os huambisas 
punham minha perna sobre um braseiro para que suasse. Ficou a marca.
Suas mos desceram at a roda da tnica, levantaram-na, apareceram as coxas, lisas, cor de mate, firmes, e uma cicatriz 
como uma pequena cobrinha.
- Por que se assusta? - perguntou Lalita. - Por que se vira, diga?
- No me assusto - disse Nieves. - S que est nua e eu sou homem.
Lalita riu e soltou a tnica; o p direito brincava com um porongo, acariciava-o distraidamente com o peito, os dedinhos, 
o calcanhar.
- Cadela, puta, as piores coisas, o que voc quiser disse Aquilino. - Mas eu tenho amizade por Lalita e no me importa. 
 como minha filha.
- Uma mulher que faz isso porque seu homem est morrendo  pior que cadela, pior que puta - disse Fusha.
- No existe palavra para dizer o que .
- Morrer? Em San Pablo, a maioria morre de velho, no de doena, Fusha - disse Aquilino.
- Voc no diz isso para me consolar,  porque no gosta quando eu a insulto - disse Fusha.
- Ele disse  senhora na minha frente - sussurrou Nieves. - Outra vez sem nada debaixo da tnica e fao voc engolir pelos 
olhos, no se lembra mais?
- Outras vezes voc diz, dou voc aos huambisas, arranco seus olhos - disse Lalita. - Ao Pantacha, diz a toda hora, eu mato 
voc, voc a est espiando.
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Quando ameaa no faz nada, a raiva vai embora com as palavras. O senhor tem pena quando ele bate em mim, no  assim?
- E tambm raiva - Nieves bateu lentamente na tranca da porta -, sobretudo quando a insulta.
Quando estavam sozinhos era ainda pior, porra, voc est perdendo os dentes, porra, tem a cara toda furada, porra, seu corpo 
no  mais como antes, porra, j est 
de regras, logo voc ficar como as velhas huambisas, porra, e tudo o que lhe dava na veneta; tinha pena? e Nieves, cale-se.
- Mas acreditava em voc, e olhe que o conhecia disse Aquilino. - Eu chegava  ilha e Lalita, ele logo me tirar daqui, 
se este ano der muito caucho iremos para 
o Equador e nos casaremos. Seja bonzinho, Dom Aquilino, venda a mercadoria a bom preo. Pobre Lalita.
- No fugiu antes porque esperava que eu ficasse rico
- disse Fusha. - Que burra, velho. No me casei com ela quando era novinha e sem espinhas, e pensava que ia casar quando 
ela no esquentasse mais ningum.
- Ela esquentou Adrin Nieves - disse Aquilino. Seno, no a teria levado.
- E elas, o patro tambm vai lev-las para o Equador? - perguntou Nieves. - Tambm vai se casar com elas?
- Sua mulher sou eu s - disse Lalita. - As outras so criadas.
- Diga o que disser, eu sei que isso di - disse Nieves. - No teria alma se no se importasse com o fato de ele pr outras 
mulheres em sua casa.
- No esto na minha casa - disse Lalita. - Dormem no curral com os animais.
- Mas ele as fode na sua frente - disse Nieves. No se faa de desentendida.
Voltou-se para olh-la e Lalita se aproximara da esteira, tinha os joelhos juntos, os olhos baixos e Nieves no queria ofender, 
gaguejou e olhou de novo pela janela, 
tinha ficado com raiva quando disse que ia com o patro para o Equador, o cu cor de anil, as fogueiras, os pirilampos faiscantes 
entre as samambaias: pedia perdo, 
ele no queria ofender, e Lalita levantou os olhos:
- Por acaso ele no as d a voc e ao Pantacha quando enjoa delas? - perguntou. - Voc faz o mesmo que ele.
- Eu vivo sozinho - balbuciou Nieves. - Um cristo precisa andar com mulheres, por que me compara com o Pantacha, e, depois, 
gosto que me trate por voc.
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- S no comeo, se aproveitando das minhas viagens
- disse Fusha. - Ela as arranhava, deixou sangrando uma das achuales. Depois se acostumou, e eram como suas amigas. Ensinava 
espanhol, distraa-se com elas. No 
 como voc pensa, velho.
- E ainda se queixa - disse Aquilino. - Todos os cristos sonham com isso que voc teve. Quantos voc conhece que trocaram 
assim de mulher, Fusha?
- Mas eram selvagens - disse Fusha -, selvagens, Aquilino, aguarunas, achuales, shapras, puro lixo, homem.
- E, alm disso, so como animaizinhos - disse Lalita -, se apegam a mim. Sinto pena do medo que elas tm dos huambisas. 
Se voc fosse o patro, seria como ele, 
at me insultaria.
- Por acaso me conhece o bastante para dizer isso? perguntou Nieves. - Eu no faria isso  minha companheira. Menos ainda 
se fosse a senhora.
- O corpo delas estraga logo aqui - disse Fusha.
- Foi por minha culpa que Lalita envelheceu? E depois teria sido burrice desperdiar a ocasio.
- Por isso voc as roubava to novas - disse Aquilino. - Para que fossem rijas, no?
- No s por isso - disse Fusha -, eu gosto das virgenzinhas, como qualquer homem. S que esses pagos cachorros no as 
deixam crescer ss, as maiorzinhas, j as 
violaram; a shapra foi a nica inteira que encontrei.
- O que me di  lembrar como eu era em Iquitos disse Lalita. - Os dentes brancos, iguaizinhos, e nenhuma mancha na cara.
- Gosta de imaginar coisas para sofrer - disse Nieves. - Por que  que o patro no deixa que os huambisas se aproximem 
daqui? Porque todos a comem com os olhos
quando a senhora passa.
- Nem o Pantacha, nem voc - disse Lalita. - Mas no  porque seja bonita,  porque sou a nica crist.
- Sempre fui delicado com a senhora - disse Nieves.
- Por que me compara com o Pantacha?
- Voc  melhor que o Pantacha - disse Lalita. Por isso vim visit-lo. J no tem febre?
- Voc no se lembra de que no desci ao cais para receb-lo? - perguntou Fusha. - Que voc veio e me encontrou na cabana 
do caucho? Foi naquela vez, velho.
- Se me lembro - disse Aquilino.
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- Voc parecia estar dormindo acordado. Pensei que o Pantacha lhe tivesse dado um cozimento.
- E no se lembra que me embriaguei com o anis que voc trouxe? - perguntou Fusha.
- Tambm me lembro - disse Aquilino. - Voc queria queimar as cabanas dos huambisas. Parecia o Diabo, tivemos que amarr-lo.
-  que tentei fod-la durante uns dez dias e no podia com a cadela - disse Fusha -, nem Lalita, nem as selvagens, velho, 
coisa de ficar louco, velho. Chorava 
sozinho, velho, queria me matar, qualquer coisa, dez dias seguidos e no podia fod-la, Aquilino.
- No chore, Fusha - disse Aquilino. - Por que voc no me contou o que estava acontecendo? Talvez o tivesse curado, ento. 
Teramos ido a Bagua, o mdico lhe daria 
umas injees.
- E as  pernas  ficavam dormentes, velho - disse Fusha -, pegava nelas e nada, encostava fsforos acesos, e pareciam mortas, 
velho.
No se amargure com essas coisas tristes - disse
Aquilino. - Olhe, aproxime-se da borda, olhe quantos peixinhos voadores, desses que tm eletricidade. Olhe como nos seguem, 
que bonitas aparecem as chispinhas no 
ar e debaixo da gua.
- E depois as equimoses, velho - disse Fusha -, e no podia mais tirar a roupa diante daquela cadela. Ter que me esconder 
todo o dia, toda a noite, e no ter a 
quem contar, Aquilino, engolir aquela desgraa sozinho.
E nisso arranharam o tabique e Lalita se ps de p. Foi at a janela e, o rosto encostado na tela, comeou a grunhir. Do 
lado de fora, algum grunhia tambm suavemente.
O Aquilino est doentinho - disse Lalita -, coitadinho, vomita tudo o que come. vou v-lo. Se amanh o patro ainda no 
tiver voltado, virei fazer sua comida.
- Tomara que no volte - disse Nieves. - No preciso que a senhora cozinhe, fico contente que venha me ver.
Se eu o trato por voc, pode me tratar tambm por
voc - disse Lalita. - Pelo menos quando no houver mais ningum.
Poderia peg-los aos montes se tivesse uma rede,
Fusha - disse Aquilino. - Voc quer que o ajude a se levantar para ver?
E depois os ps - disse Fusha. - Caminhar
mancando, velho, e ento descascar como as serpentes,
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mas nelas sai outra pele, em mim no, velho, eu estava que era pura chaga, Aquilino; no  justo, no  justo.
- J sei que no  justo - disse Aquilino. - Mas venha, homem, olhe que lindos os peixinhos eltricos.
Todos os dias, Juana Baura e Antnia deixavam a Gallinacera  mesma hora, faziam sempre o mesmo caminho. Duas quadras retas, 
poeirentas, e estavam no mercado: as
vendedoras comeavam a estender seus cobertores ao p das algarobeiras, a ordenar suas mercadorias.  altura da loja Ls 
Maravillas - pentes, perfumes, blusas, saias,
cintas e brincos - dobravam  esquerda e, duzentos metros adiante, aparecia a Plaza de Armas, uma compacta ronda de palmeiras 
e de tamarindeiros. Alcanavam-na pela
esquina oposta ao La Estrella del Norte. Durante o trajeto, uma das mos de Juana Baura cumprimentava os conhecidos, a outra 
ia no brao de Antnia. Ao chegar 
praa, Juana examinava os bancos de vime e escolhia o mais sombreado para a jovem. Se a moa permanecia impassvel, a lavadeira 
retornava a casa, caminhando suavemente,
desatava o burro, reunia a roupa por lavar e empreendia a marcha para o rio. Se, pelo contrrio, as mos de Antnia agarravam 
as suas com ansiedade, Juana sentava-se
a seu lado e acalmava-a com carinhos. Repetia sua silenciosa interrogao at que a moa a deixasse partir. Voltava para 
busc-la ao meio-dia, a roupa j lavada,
ento, s vezes, Antnia retornava  Gallinacera montada no burro. No era raro que Juana Baura encontrasse a jovem passeando 
 volta do coreto com uma vizinha
carinhosa, no era raro que um engraxate, um mendigo ou Jacinto lhe dissessem: levaram-na  casa do fulano,  igreja, ao 
Malecn. Ento Juana Baura voltava s 
Gallinacera e Antnia aparecia ao entardecer, pela mo de uma criada, de um guarda caridoso.
Naquele dia saram mais cedo, Juana Baura devia levar um uniforme de parada ao Quartel Grau. O mercado estava deserto, uns 
urubus dormitavam sobre o telhado de Las
Maravillas. Os varredores ainda no tinham passado e o lixo e as poas desprendiam mau cheiro. Na solitria Plaza de Armas 
corria uma brisa tmida e o sol aparecia
em um cu sem nuvens. J no caa areia. Juana Baura limpou o banco com sua saia, achou as mos da moa sossegadas, bateu 
de leve no seu rosto e partiu. No caminho
de volta, encontrou a mulher de Hermgenes Leandro, o do Camal,
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e juntas continuaram andando enquanto o sol crescia no cu, j alanceava os tetos altos da cidade. Juana ia encurvada, esfregando, 
de quando em quando, a cintura, 
e sua amiga,
voc est doente? e ela, tenho cubras h muito tempo, sobretudo de manh. Falavam de enfermidades e remdios, da velhice, 
do quanto  trabalhosa a vida. Em seguida, 
Juana se despediu, entrou em casa, saiu puxando o burro carregado de roupa suja e, debaixo do brao, o uniforme enrolado 
em velhos nmeros de Ecos y Notcias. Foi 
ao Quartel Grau bordeando o areal e a terra estava quente, rpidas e inesperadas lagartixas corriam entre seus ps. Um soldado 
veio ao seu encontro, o tenente ia 
se zangar, por que no trouxera o uniforme mais cedo. Tomou-lhe o pacote, pagou e Juana foi ento para o rio. No at o 
Viejo Puente, onde costumava lavar, mas a 
uma praiazinha redonda, acima do Camal, onde encontrou duas outras lavadeiras. E as trs estiveram toda a manh ajoelhadas 
na gua, esfregando roupa e conversando. 
Juana terminou primeiro, partiu, e as ruas agora, deslumbrantes sob um sol vertical, estavam repletas de moradores e forasteiros. 
No estava na praa, nem os mendigos 
nem Jacinto a tinham visto, e Juana Baura voltou  Gallinacera; suas mos batiam no animal e esfregavam a cintura alternadamente. 
Comeou a estender a roupa, em 
meio ao trabalho foi se deitar no seu colcho de palha. Quando abriu os olhos, j caa areia. Resmungando, saiu para o quintal: 
 algumas peas se haviam sujado. 
Correu o toldo que protegia as cordas, terminou de pendurar a roupa, voltou ao quarto, procurou o remdio sob o colcho. 
Empapou um pano com o lquido, levantou 
a saia, esfregou vigorosamente os quadris e o ventre. O remdio cheirava a mijo e a vmitos, Juana esperou que a pele secasse 
tapando o nariz. Preparou um guisado 
e quando estava comendo bateram  porta. No era Antnia, mas uma criada com uma cesta de roupa. De p,  entrada, conversaram. 
Chovia suavemente, no se viam os 
grozinhos de areia, mas podia-se senti-los no rosto e nos braos como perninhas de aranha. Juana falava de cibras, de 
maus remdios, e a criada protesta, que lhe 
d outro ou devolva o dinheiro. Logo se foi, colada ao muro, sob os beirais. S, sentada no colcho, Juana continuava a 
falar, irei domingo a seu rancho, pensa que 
porque sou velha voc vai me enganar? seu remdio faz tremer minha cintura, ladro. Ento se deitou e, ao despertar, escurecera. 
Acendeu uma vela, Antnia no tinha 
chegado. Saiu ao quintal, o burro endireitou as orelhas, zurrou. Juana apanhou a manta,
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atirou-a sobre os ombros j na rua: estava escuro, pelas janelas da Gallinacera viam-se castiais, lampies, o fogo. Caminhava 
muito rpido, tinha os cabelos revoltos
e perto do mercado, de uma porta, algum lhe gritou: alma do outro mundo! Ela apurava o passo, ou voc me d outro remdio 
para este sono que eu tenho a toda hora 
ou me devolve o dinheiro. Havia pouca gente na praa. Aproximou-se de todos e ningum sabia. A areia descia agora densa, 
visvel, e Juana cobriu a boca e o nariz. 
Percorreu muitas ruas, bateu em muitas portas, repetiu vinte vezes a mesma pergunta, e quando voltou  Plaza de Armas corria 
com dificuldade, apoiava-se nas paredes. 
Dois homens, com chapus de palha, conversavam num banco. Ela perguntou, onde est Antnia, e o Doutor Pedro Zevallos, boa 
noite, Dona Juana, que faz na rua a estas 
horas? E o outro, com voz de forasteiro, h tanta areia que vai nos quebrar a cabea. O Doutor Zevallos tirou o chapu, 
deu-o a Juana e ela o ps; era grande, escondia 
suas orelhas. O doutor disse, o cansao no a deixa falar, sente-se um pouco, Dona Juana, conte-nos, e ela, onde est Antnia. 
Os dois homens se olharam e o outro 
disse que seria bom lev-la para casa, e o doutor, sim, eu sei onde ,  pela Gallinacera. Tomaram-na pelos braos, levaram-na 
quase no ar e, sob o chapu, Juana 
Baura rugia, aquela que  cega, viram-na? e o Doutor Zevallos, fique tranqila, Dona Juana, logo que chegarmos a senhora 
nos conta, e o outro, est cheirando a qu? 
e o Doutor Zevallos, a remdio de curandeiro, pobre velha.
Jlio Retegui limpa a testa, olha o intrprete, desrespeitara-o e isso no se fazia e custava caro: traduza isso para ele. 
A clareira de Urakusa  pequena e triangular, 
a selva abraa-a de perto, ramas e cips balanam sobre as cabanas suspensas por pilares de palmeiras e terminadas em circunferncias 
achatadas como rabos de pato: 
o intrprete ruge e gesticula, Jum escuta atentamente. H umas vinte cabanas, idnticas: tetos de jarina, tabiques de lascas 
de juara ligadas por cips, escadinhas 
toscamente lavradas em troncos. Dois soldados conversam diante da cabana cheia de urakusas prisioneiros, outros levantam 
barracas perto do barranco, o Capito Quiroga 
luta contra os pernilongos e a menina permanece quieta junto ao Cabo Roberto Delgado, de quando em quando olha para Jum, 
tem os olhos claros e em seu torso novo 
j se insinuam duas pequenas corolas escuras.
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Agora fala Jum, seus lbios roxos disparam rudos speros e saliva, Jlio Retegui desvia as pernas para evitar aquela chuva, 
e o intrprete, cabo roubando, quer 
dizer
querendo, que pau, porra, e depois fugindo, fora, nunca mais ficando com canoa, sua canoa mesmo, de Jum, e que o prtico 
fugindo, no vendo, que se atirou na gua, 
dizendo, senhor. E o Cabo Delgado d um passo em direo a Jum: mentira. O Capito Quiroga pra-o com um gesto: mentira, 
senhor, se ele ia ver a famlia em Bagua, 
perderia tempo roubando coisas desses a? e que poderia roubar, mesmo querendo, meu capito, no via que miservel era Urakusa? 
E o capito: ento no era verdade 
que mataram o recruta. Era verdade ou no que se atirou no Maran? Porra, porque se no estava morto era desertor, e o 
cabo cruza os dedos e beija-os: mataram-no, 
meu capito, e sobre o roubo era a maior mentira. S tinham revistado um pouquinho, mas buscando aquele remdio contra os 
pernilongos que ele falara, e esses caras 
o amarraram e espancaram, a ele, ao criado, e mataram o prtico e enterraram para que ningum descobrisse, meu capito. 
Jlio Retegui sorri para a menina e ela 
o olha de vis, assustada? curiosa? Veste a tanga aguaruna e seus cabelos abundantes e empoeirados agitam-se suavemente 
quando mexe a cabea; no tem enfeites no 
rosto nem nos braos, s nos tornozelos: duas cabaas ans. E Jlio Retegui: por que no negociara com Pedro Escabino? 
por que no vendeu caucho este ano como 
das outras vezes? Que traduzisse isso a ele, e o intrprete grunhe e gesticula. Jum escuta, os braos cruzados, e o governador 
faz sinal para que a menina se aproxime, 
ela se vira de costas, e o intrprete, senhor, nunca mais, dizendo: Escabino, diabo, que v embora, fora, nem Urakusa, dizendo, 
nem Chicais, nenhum povoado aguaruna, 
patro sacaneando-os, senhor, e Jlio Retegui, o que iam os aguarunas fazer com o caucho que no queriam vender ao patro 
Escabino? suavemente, olhando sempre 
para a menina, e o que com os couros? traduza isso a ele. O intrprete e Jum grunhem, cospem e gesticulam, e agora Jlio 
Retegui observa-os, um pouco voltado para 
o urakusa, e a menina d um passo, olha a testa de Jum: a ferida inchou mas no sangra mais, o olho direito do cacique est 
muito inflamado, e Jlio Retegui, cooperativa? 
Essa palavra no existia em aguaruna, filho, tinha dito cooperativa? e o intrprete: ele a disse em espanhol, senhor, e 
o Capito Quiroga, sim, ele a ouvira. Que 
embrulhada era essa, Senhor Retegui? Por que no iam mais negociar com Escabino?
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De onde tiraram isso de ir vender em Iquitos o caucho, se nunca souberam o que era Iquitos? Jlio Retegui parece distrado, 
tira o capacete, alisa os cabelos, olha 
o capito: fazia
dez anos que Pedro Escabino trazia para eles fazendas, espingardas, facas, capito, tudo o que necessitaram para entrar 
na selva e extrair borracha. Depois Escabino 
voltava, recebia o caucho reunido e completava o pagamento com fazendas, comida, o que fazia falta, e este ano tambm receberam 
adiantamentos, mas no quiseram 
vender: essa era a histria, capito. Os soldados que levantaram as barracas se aproximaram, um estende a mo e toca na 
menina, que d um pulo, as cabaas se agitam, 
rudo de metal, e o capito: puxa, abuso de confiana, no estava informado, espancavam um militar, roubavam de um civil, 
no era de duvidar que, na verdade, tivessem 
matado o recruta; e o governador, agarrem-na, que no fuja. Trs soldados correm atrs da menina, que  gil, escorregadia. 
Pegam-na no meio da clareira, levam-na 
at o governador, que passa a mo no rosto dela: tinha um olhar esperto, e algo gracioso em suas maneiras, no achava, capito? 
era uma pena que a pobre crescesse 
aqui, e o oficial: efetivamente, Dom Jlio, e seus olhos eram verdinhos. Era sua filha? que perguntasse isso a Jum, e o 
capito: no tinha nem a barriguinha inchada, 
porque isso era horrvel nestas crianas, a quantidade de parasitas que engoliam, e o Cabo Roberto Delgado: no vinha e bem-servida, 
boa para mascote da companhia, 
meu capito, e os soldados riem. Era sua filha? e o intrprete, no sendo, senhor, nem urakusa, mas aguaruna, nascendo em 
Pato Huachana ', senhor, dizendo, e Jlio 
Retegui chama dois soldados: que a levassem s barracas e cuidadinho se bancassem os vivos com ela. Um soldado pega a menina 
pelo brao e ela se deixa levar sem 
resistir. Jlio Retegui volta-se para o capito, que luta de novo contra invisveis, talvez imaginrios inimigos areos: 
aqui estiveram uns caras que se diziam 
professores, capito. Meteram-se pelas tribos com a histria de ensinar espanhol aos pagos e agora estava vendo o resultado, 
davam uma sova num cabo, arruinavam 
o negcio de Pedro Escabino. O capito imaginava o que aconteceria se todos os pagos decidissem lograr os patres que fizeram 
adiantamentos. O capito coa o queixo, 
gravemente: uma catstrofe econmica? O governador concorda: os que vinham de fora  que traziam problemas, capito.
' Povoado aguaruna.
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Da outra vez foram uns estrangeiros, uns ingleses, com a histria da botnica; meteram-se na selva e levaram sementes da 
rvore do caucho, e um dia o mundo se encheu 
de
caucho sado das colnias inglesas, mais barato que o peruano e o brasileiro; essa tinha sido a runa da Amaznia, capito; 
e ele:  verdade, Senhor Retegui, que 
vinham
peras a Iquitos e que os caucheiros acendiam seus charutos com dinheiro? Jlio Retegui sorri, seu pai tinha um cozinheiro 
para os cachorros, imagine, e o capito 
ri, os soldados riem, mas Jum continua srio, braos cruzados, s vezes espia a cabana abarrotada de urakusas prisioneiros, 
e Jlio Retegui suspira: ento se trabalhava 
pouco e se ganhava muito, agora tinham que suar sangue para receber umas misrias, e ainda ter que lidar com essa gente, 
resolver problemas to idiotas. O capito 
agora fica srio, Dom Jlio, acreditava nele, a vida era dura para os homens da Amaznia, e Retegui, a voz bruscamente 
severa, ao intrprete: o aguaruna no podia 
vender em Iquitos, tinha de cumprir seus compromissos, que aqueles caras que estiveram aqui tinham enganado a todos, que 
nada de cooperativas nem de sacanagens. 
Patro Escabino voltaria e negociariam como sempre, traduzindo isso, mas o intrprete, muito rpido, senhor, repetindo melhorzinho; 
e o capito, ele falou devagar, 
nada de brincadeiras. Jlio Retegui no tinha pressa, capito, faria a vontade dele. O intrprete grunhe e gesticula, Jum 
escuta, corre uma brisa ligeira sobre 
Urakusa e a ramagem da mata ronrona fracamente, ouve-se um riso: a menina e o soldado esto brincando diante das barracas. 
O capito perde a pacincia, at quando? 
sacode o ombro de Jum, nem desta vez tinha entendido? queria zombar deles? Jum levanta a cabea, seu olho bom examina o 
governador, sua mo o aponta, sua boca grunhe, 
e Jlio Retegui, o que tinha dito? e o intrprete: insultando, senhor, voc Diabo sendo, dizendo, senhor.
No havia ningum no corredor, s o rudo no salo, o lampio pendurado no teto tinha celofane azul, e uma luz de amanhecer 
banhava o engrouvinhado papel das paredes 
e as portas gmeas. Josefino se aproximou da primeira e escutou, na segunda, na terceira algum respirava, um catre rangia 
levemente, Josefino bateu com os ns 
dos dedos e a voz da Selvtica, que ? e uma desconhecida voz masculina, que ? Correu at o fundo do corredor, e ali no 
estava o amanhecer ms o crepsculo. Permaneceu 
imvel,
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escondido na discreta penumbra e logo uma fechadura rangeu, uma cabeleira negra invadiu a luz azul, uma mo recolheu-a como 
a uma cortina, brilharam uns olhos verdes. 
Josefino
se mostrou, fez um sinal. Minutos depois saiu um homem em mangas de camisa, que se afundou cantarolando na boca da escada. 
Josefino atravessou o corredor e entrou 
no quarto: A Selvtica abotoava uma blusa amarela.
- Lituma chegou esta tarde - disse Josefino, como se desse uma ordem. - Est l embaixo, com os Len.
Um repentino tremor agitou o corpo da Selvtica, suas mos ficaram quietas, encolhidas entre as casas dos botes. Mas no 
se voltou nem falou.
- No tenha medo - disse Josefino. - No far nada a voc. J sabe e no d a menor bola. Vamos descer juntos.
Ela ainda no disse nada e continua abotoando a blusa, mas agora com extrema lentido, torcendo desajeitadamente cada boto 
antes de enfi-lo, como se tivesse os 
dedos rgidos de frio. Entretanto, todo o seu rosto transpirava e umas manchas midas tingiam a blusa nas costas e nas axilas. 
O quarto  minsculo, sem janelas, 
iluminado por uma s lmpada avermelhada, e o ondulante zinco do teto roa a cabea de Josefino. A Selvtica vestiu uma 
saia creme, forou um pouco o fecho antes 
que a obedecesse. Josefino abaixou-se, pegou do cho uns sapatos brancos de salto alto, passou-os  Selvtica.
- Est suando de medo - disse. -- Limpe o rosto. No h por que se assustar.
Voltou-se para fechar a porta e quando se virou de novo ela o olhava nos olhos, sem piscar, os lbios entreabertos, as narinas 
trmulas, como se lhe desse trabalho 
respirar ou sentisse inesperadamente exalaes ftidas.
- Est bbado? - perguntou logo, a voz medrosa e vacilante, enquanto esfregava furiosamente a boca com um lencinho.
- Um pouco - disse Josefino. - Estivemos festejando sua chegada com os Len. Trouxe um bom pisco de Lima.
Saram e, no corredor, a Selvtica andava devagar, a mo apoiada na parede.
- Parece mentira, voc ainda no se acostumou com os saltos - disse Josefino. - Ou  a emoo, Selvtica?
Ela no respondeu. Na tnue luz azul, seus lbios retos e grossos pareciam um punho fechado e suas feies eram
duras e metlicas.
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Desceram a escada e a seu encontro vinham lufadas de ar morno e de lcool, a luz diminua e quando surgiu a seus ps o salo 
de danas, sombrio,
ruidoso e abarrotado, ela parou, ficou quase dobrada sobre o corrimo, e seus olhos tinham crescido e revoavam sobre as 
silhuetas difusas com um brilho selvagem. 
Josefino apontou o bar.
- Junto ao balco, os que esto brindando. No o reconhece porque emagreceu muito. Entre o harpista e os Len, aquele de 
terno brilhante.
Tensa, presa ao corrimo, a Selvtica tinha a cara meio encoberta pelos cabelos, e uma respirao ansiosa e sibilante inchava 
seu peito. Josefino pegou-a pelo brao, 
submergiram entre os pares abraados, e foi como se mergulhassem em guas lodosas ou devessem abrir caminho atravs de uma 
asfixiante muralha de carne suada, mau 
cheiro e rudos irreconhecveis. O tambor e os pratos do Bolas tocavam um corrido e, de quando em quando, intervinha o violo 
do Joven Alejandro, e a msica se animava, 
mas quando as cordas calavam voltava a ser destemperada e de uma lgubre marcialidade. Emergiram da pista de danas diante 
do bar. Josefino soltou-a, a Chunga se 
endireitou na cadeira de balano, quatro cabeas voltaram-se para olh-los e eles pararam. Os Len pareciam muito alegres, 
Dom Anselmo estava despenteado, com os 
culos cados, e a boca de Lituma, cheia de espuma, torcia-se, sua mo procurava o balco para largar o copo, seus olhinhos 
no se afastavam da Selvtica, a outra 
mo comeara a alisar os cabelos, a assent-los, pressurosa e mecanicamente. De sbito, encontrou o balco, a mo livre 
afastou o Mono e todo o seu corpo avanou, 
mas s deu um passo e ficou tremendo como um pio sem foras, no mesmo lugar, os olhinhos aturdidos; os Len o seguravam 
quando j caa. Seu rosto no se alterou, 
continuava olhando para a Selvtica, respirou fundo e s enquanto caminhava para eles, lentssimo, com uma baba de espuma 
e saliva, sustentado pelos Len, um pouco 
emperrado, forado e dolorido, um simulacro de sorriso desprendeu-se de seus lbios e o queixo tremeu. Prazer em v-la, 
chininha, e seu rosto virou uma careta, seus 
olhinhos mostravam agora um mal-estar insuportvel, prazer em v-lo, Lituma, disse a Selvtica, e ele, prazer em v-la, 
chininha, bamboleando. Os Len e Josefino 
cercavam-no, em seus olhinhos bruscamente apareceu um brilho, uma espcie de libertao, e Lituma inclinou-se, apoiou-se 
em Josefino, ol, querido colega, caiu em 
seus braos, que prazer em v-lo, irmo.
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Permaneceu abraado a Josefino, proferindo frases incompreensveis e, de quando em quando, um surdo mugido, mas quando se 
afastou parecia mais sereno, j tinha terminado 
essa
nervosa dana interior em seus olhinhos e tambm a careta, agora sorria de verdade. A Selvtica estava parada, as mos presas 
diante da saia, o rosto emboscado atrs 
dos tufos negros e brilhantes de cabelo.
- Nos encontramos, chininha - disse Lituma, mal podendo falar, o sorriso cada vez mais largo. - Venha por aqui, brindemos, 
temos de festejar o meu regresso, eu sou 
o invencvel nmero quatro.
A Selvtica deu um passo para ele, sua cabea se mexeu, seus cabelos se afastaram, duas chaminhas verdes cintilaram suavemente 
em seus olhos. Lituma estendeu a mo, 
tomou-a pelos ombros, levou-a assim at o balco, e ali estavam os olhos ablicos e impertinentes da Chunga. Dom Anselmo 
acomodara os culos, suas mos buscavam 
no espao, e quando encontraram Lituma e a Selvtica deram neles carinhosos tapinhas, assim  que eu gosto, rapazes, paternalmente.
- A noite dos encontros, velho querido - disse Lituma. - O senhor viu como me portei bem. Encha os copos, Chunga Chunguita, 
e para voc tambm, encha um.
Entornou seu copo de um gole e ficou arquejando, o rosto mido de cerveja, da saliva que gotejava at as lapelas imundas 
do casaco.
- Que corao, primo - disse o Mono. - Grande como um sol!
- Alma, corao e vida - disse Lituma. - Quero ouvir essa valsa, Dom Anselmo. Seja bonzinho, faa a minha vontade.
- Sim, no se descuide da orquestra - disse a Chunga. - L no fundo esto protestando, reclamam.
- Deixe-o um pouco conosco, Chunguita - disse a voz de Jos, pegajosa, melosa, derretida. - Que este grande artista tome 
uns traguinhos com a gente.
Mas Dom Anselmo dera meia-volta e retornava docilmente ao canto dos msicos, tateando na parede, arrastando os ps, e Lituma, 
sempre abraado  Selvtica, bebia 
sem 
olh-la.
- Cantemos o hino - disse o Mono. - Um corao como um sol, primo!
A Chunga tambm estava bebendo. Indolentes e opacos, semimortos, seus olhos observavam uns e outros,
145
os invencveis e a Selvtica, a massa escura de homens e mulheres que oscilava entre murmrios e risos na pista de danas, 
os pares que subiam a escada, e os grupos
esfumados dos cantos. Josefino, com os cotovelos no balco, no bebia, olhava de vis os Len, que batiam os copos. E ento 
soaram a harpa, o violo, o tambor, 
os pratos, um estremecimento percorreu a pista de dana. Os olhinhos de Lituma se entusiasmaram:
- Alma, corao e vida. Ah, essas valsas trazem tantas recordaes. Vamos danar, chininha.
Arrastou a Selvtica sem olh-la, os dois se perderam entre corpos aglomerados e sombras, e os Len acompanhavam o compasso 
com as mos e cantavam. Quieto e desagradvel, 
o olhar da Chunga estava agora posto em Josefino, como se quisesse contagi-lo com sua infinita preguia.
- Que milagre, Chunguita - disse Josefino. - Est bebendo.
- Voc tem mais medo que eu - disse a Chunga e, num instante, um brilho brincalho apareceu em seus olhos. -- Como voc 
se assustou, invencvel.
- No h motivo para susto - disse Josefino. Voc est vendo como eu tenho palavra, no houve nenhum problema.
- Um medo que no fica bem em voc - a Chunga riu sem vontade -, que faz sua voz tremer, Josefino.
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III.



As pernas nuas do sargento pendiam da escadinha do posto e ao redor tudo ondulava, as colinas tomadas pelo mato, as capironas 
da Plaza de Santa Maria de Nieva, at
as cabanas balanavam-se como ondas ao soprar do vento morno e sibilante. O povoado era pura treva e os guardas roncavam, 
nus, debaixo dos mosquiteiros. O sargento 
acendeu um cigarro e dava as ltimas tragadas, quando, de repente, por trs do matinho de juncos, silenciosa, trazida pelas 
guas do Nieva, apareceu a lancha, sua 
choa cnica na popa, umas silhuetas andando pela coberta. No havia bruma e, do posto, o cais aparecia claramente  luz 
da lua. Uma figurinha pulou da lancha, correu 
esquivando-se das estacas da pequena praia, desapareceu nas sombras da praa e, um momento depois, j muito prxima do posto, 
reapareceu, e agora o sargento podia 
reconhecer o rosto de Lalita, seu caminhar resoluto, sua cabeleira, os braos rijos sacudindo-se em torno dos amplos quadris. 
Levantou-se um pouco e esperou que 
ela chegasse ao p da escadinha:
- Boa noite, sargento - disse Lalita. - Que sorte encontr-lo acordado.
- Estou de guarda, senhora - disse ele. - Boa noite. Peo desculpas.
- Por que est de cuecas? - riu Lalita. - No se preocupe, os selvagens no andam pior?
- com este calor, tm razo de andar pelados o sargento, quase de perfil, escudava-se no parapeito. - O pior  que os mosquitos 
se banqueteiam com a gente, meu 
corpo est todo ardendo.
Lalita tinha a cabea atirada para trs e a luz do
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lampio do posto iluminava seu rosto de incontveis e ressequidas espinhas e seus cabelos soltos que ondulavam, s costas, 
como um manto de finssimas fibras de
palma.
- Estamos indo a Pato Huachana - disse Lalita H um aniversrio l e a festa comea de manhzinha. No pudemos sair antes.
- Mas que timo, senhora - disse o sargento. Tomem uns copinhos  minha sade.
- Tambm levamos os filhos - disse Lalita. - Mas Bonifcia no quis vir. No conseguimos tirar o seu medo de gente, sargento.
- Que moa to boba - disse o sargento. - Perder uma oportunidade assim, to raras que so as festinhas por aqui.
- Estaremos l at quarta-feira - disse Lalita. - Se a coitada precisar de alguma coisa, poderia ajud-la?
- com todo o prazer, senhora - disse o sargento.
- S que a senhora j viu, nas trs vezes em que fui  sua casa nem saiu  porta.
- As mulheres so muito manhosas - disse Lalita -, ainda no se deu conta? Agora que est sozinha, no tem outro remdio 
seno atender. D uma voltinha por l, amanh.
- com toda a certeza, senhora - disse o sargento.
- Sabe que quando a lancha apareceu pensei que era o barco fantasma? Aquele dos esqueletos, que carrega os sonmbulos. Eu 
no era supersticioso, mas aprendi a ser 
aqui com vocs.
Lalita se persignou, fez que se calasse com a mo, sargento, no via que iam viajar de noite? como falava dessas coisas. 
At quarta-feira ento, ah, e Adrin mandava 
lembranas. Afastou-se como tinha vindo, correndo, e, antes de entrar no posto para se vestir, o sargento esperou que a 
figurinha se desenhasse outra vez entre as 
estacas e saltasse  lancha: companheiro, estavam lhe preparando a cama. Vestiu a camisa, as calas e os sapatos, devagar, 
cercado pela respirao tranqila dos 
guardas, e a lancha estaria j se afastando em direo ao Maran, entre as canoas e as barcaas e, na popa, Adrin Nieves 
afundando e puxando a vara. Essa gente 
da selva viajava com casa e tudo, como aquele velho, o Aquilino, seria verdade que contava vinte anos nos rios? que costumes. 
Ouviu-se o roncar do motor, um bramido 
poderoso que apagou o bater de asas e os rumores,
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o cricrilar dos grilos, e em seguida foi diminuindo, distanciando-se, e os rudos da mata ressuscitaram, um aps outro, 
reconquistaram a noite: agora, uma
vez mais, reinava s o rumor vegeto-animal. Um cigarro entre os lbios, a camisa arregaada at os cotovelos, o sargento 
desceu a escadinha olhando em todas as direes, 
e foi at a cabana do tenente: uma respirao sufocada, quase trmula, atravessava a tela metlica. Caminhou pelo atalho, 
depressa, entre grasnidos indistinguveis, 
pupilas luminosas de mochos ou corujas, e a mida, exasperada melodia dos grilos, sentindo na pele furtivos roares, picadas 
como de alfinete, esmigalhando o mato 
novo que rangia, folhas secas que sussurravam, desfazendo-se sob seus ps. Ao chegar  frente da cabana do prtico Nieves, 
voltou-se: umas transparncias esbranquiadas 
cobriam o povoado, mas no alto das colinas a residncia das madres luzia nitidamente suas paredes claras, seu zinco brilhante, 
e tambm se notava a fachada da capela 
e sua torre esguia e acinzentada, empinada para o vasto vazio azul. A muralha circular da mata, agitada sempre por um suave 
tremor, proferia, sem trgua, um ronroneio 
idntico, uma espcie de inacabvel bocejo gutural, e no charco onde o sargento tinha os ps afundados, sanguessugas de 
corpos quentes e gelatinosos chocavam-se 
furtivamente contra seus tornozelos. Abaixou-se, molhou a testa, subiu a escadinha. O interior da cabana estava s escuras 
e um cheiro intenso, diferente do da mata, 
subia dos moures como se ali estivessem restos de comida ou algum cadver em decomposio, e ento, na chcara, latiu um 
cachorro. Algum podia estar observando 
o sargento da abertura que separava o tabique do teto, duas dessas ciciantes luzinhas podiam ser olhos de mulher e no vaga-lumes: 
era ou no um mangache? onde se 
metera a sua coragem? Percorria, nas pontas dos ps, o terrao, olhando para todos os lados, o cachorro continuava uivando 
 distncia. A cortina estava corrida 
e a garganta negra da cabana exalava densos odores.
-  o sargento, Dom Adrin - gritou. - Perdoe se o acordo.
Um aturdimento, um instantneo correr ou um gemido e de novo o silncio. O sargento chegou-se  entrada, levantou a lanterna 
e acendeu-a: uma pequena lua amarela 
e redonda vagava nervosamente sobre jarras de barro, maarocas, panelas, um balde d'gua, Dom Adrin: o senhor est a? 
Precisava falar com ele, Dom Adrin,
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e enquanto o sargento balbuciava, a lua escalava o tabique, ligeira e plida, mostrando prateleiras repletas de latas, arrastava-se 
pelas tbuas e avidamente ia 
de um braseiro
apagado a uns remos, de uns cobertores a um rolo de cordas e, logo, uma cabea que se escondia, uns joelhos, dois braos 
se encolhendo: boa noite, Dom Adrin no 
estava? A lua parar sobre o volume que a mulher encolhida formava, sua luz desbotada tremia sobre uns quadris imveis. 
Por que fingia estar dormindo? O sargento 
falava e ela no respondia, por que era assim, deu dois passos e a cabea afundou-se um pouco mais sob os braos, por qu, 
senhorita? a pele era to clara quanto 
o disco que a percorria, uma tnica cor de couro cru cobria seu corpo, dos joelhos aos ombros. O sargento sabia tratar as 
pessoas, por que tinha medo dele, por acaso 
vinha roubar? O sargento passou a mo na testa e a lua vibrou, enlouqueceu, a mulher tinha desaparecido, e agora a aurola 
amarela procurava-a, resgatava uns ps, 
uns tornozelos. Continuava na mesma posio, mas agora o corpo estendido mostrava um calafrio, um movimento que se repetia 
em rajadas brevssimas. Ele no era ladro, 
sargento no era pouca coisa, tinha soldo, casa e comida, no necessitava roubar ningum, e tambm no estava doente. Por 
que era assim, senhorita? Que se levantasse, 
s queria que conversassem um pouco, para se conhecerem melhor, que tal? Deu dois passos e se agachou. Ela deixara de tremer 
e era agora uma forma rgida, parecia 
no respirar, por que tinha medo dele? vamos ver, e o sargento estendeu a mo, vamos ver, cautelosamente, at os cabelos, 
no devia ter medo dele, chininha, o contato 
de uns filamentos speros nos ns dos dedos e, como uma revoluo na sombra, uma coisa dura se levantou, golpeou e o sargento 
caiu sentado, gesticulando s escuras. 
A lua desenhou, por um segundo, uma silhueta que passava pela porta, no terrao rangiam as tbuas sob os ps precipitados 
que fugiam. O sargento saiu correndo e 
ela estava no outro extremo, inclinada sobre o parapeito, sacudindo a cabea como uma louca, chininha, no v se atirar 
no rio. O sargento escorregou, merda, e continuou 
correndo, que foi que voc pensou, venha, chininha, e ela continuava danando, pulando sobre o parapeito, aturdida como 
um inseto prisioneiro no vidro de um lampio. 
No se atirava ao rio, nem respondia, mas, quando o sargento agarrou-a pelos ombros, agitou-se e o enfrentou como um tigrinho, 
chininha, por que o arranhava? o tabique 
e o parapeito comearam a ranger, por que o mordia?
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amortecendo o resfolegar surdo dos dois corpos que lutavam, por que o arranhava, chininha? e a ansiosa, rechinante voz da 
mulher. A pele, a camisa e as calas do 
sargento
estavam midas, o bafo da mata era como uma onda quente que o ia inundando, empapando, chininha. J conseguira segurar suas 
mos, com todo o seu corpo achatava-a 
contra a parede e, logo, calou-a e fez com que casse, e caiu junto com ela, no se machucara, bobinha? No cho, ela mal 
se defendia mas gemia mais forte, e o 
sargento parecia excitado, chininha, chininha, praguejava apertando os dentes, viu? e ia se encarapitando pouco a pouco 
sobre ela, mezinha. Ele s vinha para conversar, 
e ela havia sido, bandida, ela o tinha deixado assim, chininha, e sob o corpo do sargento o corpo dela se mostrava resvaladio 
mas resignado. Mexeu-se levemente 
quando a mo do sargento puxou a tnica e a arrancou, e logo ficou quieta, enquanto ele acariciava seus ombros molhados, 
os seios, a cintura, chininha: deixava-o 
louco, sonhava com ela desde o primeiro dia, por que fugira? tolinha, no estava tambm com vontade? Ela s vezes soluava, 
mas no lutava mais, e permanecia dura 
e inerte, ou mole e inerte, mas juntava as coxas com obstinao, boba, chininha, por que fazia isso, hem? que o abraasse 
um pouquinho, e a boca do sargento lutava 
para separar esses lbios soldados, e todo o seu corpo se pusera a ondular, a bater contra o outro, chininha, que ruim que 
era, que importncia tinha, por que no 
queria e abria sua boquinha, suas pernas, mezinha: sonhava com ela desde o primeiro dia. Logo, o sargento sossegou e sua 
boca afastou-se dos lbios fechados, o 
corpo de lado, ficou estendido de costas sobre as tbuas, respirando com fadiga. Quando abriu os olhos, ela estava de p, 
olhando-o, e seus olhos fosforesciam na 
penumbra, sem hostilidade, com uma espcie de assombro tranqilo. O sargento se ergueu, apoiando-se no parapeito, estendeu 
a mo e ela se deixou tocar nos cabelos, 
no rosto, chininha, olhe s como ficara, que tolinha era, tirando o corpo, ela o deixara na mo, e abraou-a e beijou-a 
agressivamente. Ela no resistiu e, aps 
um momento, com timidez, suas mos pousaram nas costas do sargento, sem fora, como descansando, chininha: voc no conheceu 
homem at agora, diga? Ela se endireitou, 
ficou nas pontas dos ps, juntou a boca ao ouvido do sargento: no tinha conhecido at agora, patrozinho, no.
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- Estvamos no rio Apaga', e os huambisas encontraram uns rastros - disse Fusha. - Deixei que aqueles cachorros me enganassem: 
 preciso segui-los, patro, devem
estar carregados de caucho, vo entregar o que extraram durante o ano. Eu acreditei, e seguimos os rastros, mas aqueles 
cachorros no iam atrs do caucho, iam atrs 
de briga.
- So huambisas - disse Aquilino. - Voc j devia conhec-los, Fusha. Foi assim que encontraram os shapras?
- Sim, nas margens do Pushaga - disse Fusha. No tinham uma s bola de caucho e mataram um huambisa antes de desembarcar. 
Os outros se enfureceram e no podamos 
segur-los. Voc no imagina, Aquilino.
- Claro que imagino, seria uma carnificina terrvel disse Aquilino. - So os mais vingativos dos pagos. Mataram muitos?
- No, quase todos os shapras tiveram tempo de fugir para a selva - disse Fusha. - S havia duas mulheres quando entramos. 
Cortaram a cabea de uma, a outra  a 
que voc conhece. Mas no foi fcil lev-la para a ilha. Tive que puxar o revlver, queriam matar aquela tambm. Assim  
que comeou o assunto da shapra, velho.
Tinham chegado dois huambisas? Lalita correu ao povoado, Aquilino agarrado  sua saia, e umas mulheres choravam gritando: 
mataram um deles no Pushaga, patroa, os 
shapras o mataram com uma seta envenenada. E o patro e os outros? No acontecera nada a eles, chegariam mais tarde, vinham 
devagar, traziam muita carga, que tinham 
recolhido em um povoado aguaruna do Apaga. Lalita no voltou  cabana, ficou junto s lupunas, olhando a laguna, a boca 
do canal, esperando que aparecessem. Mas 
se cansou de esperar e esteve andando pela ilha. Aquilino sempre agarrado  sua saia: o tanque das tartarugas, as trs cabanas 
dos cristos, o povoado huambisa. 
Os pagos j no tinham medo das lupunas, viviam entre elas, tocavam nelas, e as parentas do morto continuavam chorando, 
revirando-se no cho. Aquilino correu at 
onde umas velhas tranavam folhas de mutambo.  preciso trocar os tetos, diziam, ou vir a chuva, entrar e nos molhar.
- Quantos anos tinha a shapra quando voc a levou para a ilha? - disse Aquilino.
- Era uma menina,  teria uns doze  anos - disse Fusha. - E era virgem, Aquilino, ningum tocara nela.
' Afluente do Maran, no alto Amazonas, departamento de Loreto.
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E no se portava como um animal, velho, correspondia ao carinho, era mimosa como um cozinho.
- Pobre Lalita - disse Aquilino. - Que cara fazia ao ver voc chegar com a shapra, Fusha.
- No tenha pena daquela cadela - disse Fusha. O que eu sinto  no ter feito com que aquela cadela ingrata sofresse bastante.
Eram ferozes, brigadores? Talvez, mas bons para o Aquilino. Eles o ensinaram a fazer flechas, arpes, deixavam-no brincar 
com as estacas que aplainavam para fazer 
suas zarabatanas, e podiam ser incapazes para certas coisas, mas no fizeram eles as cabanas, a semeadura e os cobertores? 
no traziam comida quando acabavam as 
conservas de Dom Aquilino? E Fusha, sorte que sejam pagos e se contentem com brigas e vinganas, se tivesse que repartir 
os lucros com eles ficaramos pobres, 
e Lalita, se ficassem ricos, Fusha, algum dia, deveriam isso aos huambisas.
- Quando rapaz, em Moyobamba, amos todos espiar as mulheres dos lamistas - disse Aquilino. - s vezes uma se afastava e 
caamos sobre ela, sem ver se era jovem 
ou velha, bonita ou feia. Mas nunca  a mesma coisa, uma selvagem no  uma crist.
-   que  com   aquela  houve  uma  coisa  diferente, velho - disse Fusha. - Eu no gostava s de fod-la, mas tambm de 
ficar deitado com ela na rede e faz-la 
rir. E dizia, pena no ser shapra para a gente conversar.
- Puxa, Fusha, voc est sorrindo - disse Aquilino. - Voc se lembra dela e fica contente. Que coisas voc tinha vontade 
de dizer a ela?
- Qualquer coisa - disse Fusha -, como  seu nome, fique de costas, ria outra vez. Ou que ela fizesse perguntas sobre a 
minha vida, e eu respondesse.
- Puxa, homem - disse Aquilino. - Voc se apaixonou pela selvagenzinha.
No comeo era como se no a vissem ou ela no existisse. Lalita passava e eles continuavam amassando o tucum, extraindo 
as fibras, e no levantavam a cabea. Depois, 
as mulheres comearam a virar o rosto, a rir dela, mas no respondiam, e ela, ser que no a entendiam? Fusha teria proibido 
que falassem com ela? Mas brincavam 
com o Aquilino e, certa vez, uma huambisa correu, alcanou-os, ps em Aquilino um colar de sementes e conchas, aquela huambisa 
que partiu sem se despedir e no 
voltou nunca mais. E Fusha, isso era o pior de tudo, vinham quando
queriam,
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iam quando tinham vontade, voltavam depois de meses como se nada tivesse acontecido: era uma desgraa lidar com pagos, 
Lalita.
- A coitada tinha muito medo deles, via um buambisa e se atirava aos meus ps, me abraava tremendo disse Fusha. - Tinha 
mais medo dos huambisas que do Diabo, velho.
- Talvez a mulher que mataram no Pushaga fosse sua me - disse Aquilino. - Alm disso, no  verdade que todos os pagos 
odeiam os huambisas? Porque so orgulhosos, 
desprezam a todos, e so mais malvados que os de qualquer outra tribo.
- Eu prefiro os huambisas aos outros - disse Fusha.
- No porque me ajudaram. Gosto de sua maneira de ser. Voc j viu um huambisa como criado ou peo? No se deixam explorar 
pelos cristos. S gostam de caar e de 
lutar.
- Por isso todos vo desaparecer, no ficar um como amostra - disse Aquilino. - Mas voc os explorou  vontade, Fusha. 
Todo o prejuzo que causaram no Morona', 
no Pastaza e no Santiago era para que voc ganhasse dinheiro.
- Eu  que conseguia espingardas para eles e os levava at seus inimigos - disse Fusha. -- No me viam como patro, mas 
como aliado. Que vo fazer com a shapra 
agora? Na certa j a tomaram do Pantacha.
As parentas do morto continuavam chorando e se afligiam com espinhos at que brotasse sangue, patroa, para descansar, com 
o sangue ruim iam-se as penas e os sofrimentos, 
e Lalita, talvez desse certo, no dia em que sofresse se afligiria assim e saberia. E de imediato homens e mulheres levantaram-se 
e correram para o barranco. Trepavam 
nas lupunas, apontavam para a laguna, chegavam por ali? Sim, da boca do canal saiu uma canoa, um ponteiro, Fusha, muita 
carga, outra canoa, Pantacha, Jum, mais 
carga, huambisas e o prtico Nieves. E Lalita, olhe, Aquilino, quanto caucho, nunca vira tanto antes. Deus ajudava, ficariam 
ricos logo e iriam para o Equador, e 
Aquilino berrava, ser que j entendia? mas coitado do huambisa que mataram.
- Ficou sem mulher e sem patro - disse Fusha. Coitado, deve ter-me procurado por toda parte, chorando e gritando de dor.
- Voc no pode ter pena do Pantacha - disse Aquilino.
' Afluente do Maran, departamento de Loreto, no alto Amazonas.
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-  um cristo perdido, os cozimentos o deixaram louco. No deve ter notado que voc foi embora. Quando cheguei  ilha, 
nesta ltima vez, nem me reconheceu.
- Quem voc pensa que me deu de comer desde que aqueles desgraados foram embora? - perguntou Fusha. Cozinhava, ia caar 
e pescar para mim. Eu no podia me levantar, 
velho, e ele todo dia junto da minha cama, como um cachorro. Chorou, velho, garanto a voc.
- At eu tomei cozimento, uma vez - disse Aquilino. - Mas Pantacha ficou viciado e vai morrer logo.
Os huambisas descarregavam as bolas negras, couros, chapinhavam entre as canoas, Lalita abanava do barranco, e ento ela 
apareceu: no era huambisa nem aguaruna, 
e parecia vestida para uma festa: colares verdes, amarelos, vermelhos, um diadema de plumas, aros nas orelhas, e uma tnica 
comprida com desenhos pretos. As huambisas 
do barranco tambm a olhavam, shapra? shapra, murmuravam, e Lalita pegou Aquilino, correu at a cabana e sentou-se na escadinha. 
Demoravam, longe se viam os huambisas 
passarem com o caucho no ombro, e Pantacha, que os mandava estender os couros ao sol. Por ltimo, apareceu o prtico Nieves, 
chapu de palha na mo: tinha ido longe, 
patroa, e encontraram muitos redemoinhos, por isso demorou tanto a viagem, e ela, mais de um ms. Mataram um huambisa, no 
Pushaga, e ela, j sabia, os que chegaram 
de manh contaram. O prtico ps o chapu e entrou em sua cabana. Mais tarde chegou Fusha, e a shapra o seguia. Tambm 
sua cara era de festa, muito pintada, e ao 
caminhar soavam os aros, os colares, Lalita: trouxera esta criada para ela, uma shapra do Pushaga. Andava assustada com 
os huambisas, no entendia nada, teria que 
ensinar um pouco de cristo a ela.
- Voc sempre fala mal do Pantacha - disse Fusha.
- Voc tem um bom corao para todos, velho, menos para ele.
- Eu o recolhi e o levei  ilha - disse Aquilino. Se no fosse por mim, estaria morto h muito tempo. Mas me d nojo. Parece 
um -animal, Fusha. Pior que isso, olha 
sem olhar, ouve sem ouvir.
- Eu no tenho nojo dele porque conheo sua histria - disse Fusha. - Pantacha no  valente, mas quando sonha se sente 
forte, e esquece umas desgraas que lhe 
aconteceram e um amigo que morreu no Ucayali. Onde  que voc o encontrou, velho? Por aqui, mais ou menos?
- Mais abaixo, numa praiazinha - disse Aquilino.
155
- Estava sonhando, meio nu e morto de fome. Fiquei sabendo que andava fugindo. Dei a ele de comer e me lambeu as mos, como 
um cachorro, como voc dizia antes.
- Me serve um traguinho - disse Fusha. - E agora vou dormir vinte e quatro horas. Fizemos uma pssima viagem, a canoa do 
Pantacha virou antes de entrar no canal. 
E no Pushaga tivemos um choque com os shapras.
- Voc deve d-la ao Pantacha ou ao prtico - disse Lalita. - J tenho criadas, no preciso desta. Para que  que voc a 
trouxe?
- Para que ajude voc - disse Fusha. -  porque esses cachorros queriam mat-la.
Mas Lalita se pusera a choramingar, ser que no tinha sido uma boa mulher? No o tinha acompanhado sempre? pensava que 
era boba? no tinha feito o que ele queria? 
e Fusha se despia, tranqilo, atirando as peas para o alto, quem  que manda aqui? desde quando discutia suas decises? 
E por ltimo, que merda: o homem no era 
como a mulher, tinha que variar um pouco, e no gostava de choradeiras e, alm disso, por que se queixava se a shapra no 
ia tirar nada dela, j dissera, seria criada.
- Voc a deixou desmaiada, deu um banho de sangue nela - disse Aquilino. - Eu cheguei um ms depois e Lalita ainda estava 
cheia de equimoses.
- Contou a voc que bati nela, mas no que ela queria matar a shapra - disse Fusha. - Quando eu estava dormindo, vi que 
agarrava o revlver e me deu raiva. Depois 
a cadela se vingou bem das vezes em que bati nela.
- Lalita tem um corao de ouro - disse Aquilino.
- Se fugiu com Nieves, no o fez para se vingar de voc, mas por amor. E se quis matar a shapra, foi por cimes, no por 
dio. Tambm ficou amiga dela, depois?
- Mais que das achuales - disse Fusha. - Voc no viu? No queria que eu a desse ao Nieves, e dizia  melhor que fique, 
 s ela que me ajuda. E quando Nieves passou-a 
ao Pantacha, ela e a shapra choraram juntas. Ensinou-a a falar como cristo e tudo.
- As mulheres so estranhas, s vezes  difcil entend-las - disse Aquilino. - Agora vamos comer um pouco. S que se molharam 
os fsforos, no sei como vou acender 
esse fogareiro.
156
J era uma velha, vivia s e seu nico companheiro era o animal, aquele burro de pelagem amarelenta e andar lento e pomposo, 
no qual, todas as manhs, carregava
cestas com a roupa recolhida na vspera nas casas dos grados. Mal parava a chuva de areia, Juana Baura saa da Gallinacera, 
uma vara de algarobeira na mo, com 
a qual, de quando em quando, espicaava o animal. Virava onde se interrompe a amurada do Malecn, descia aos pulinhos a 
costa poeirenta, passava debaixo dos suportes 
metlicos do Viejo Puente e instalava-se ali onde o Piura gastou a margem e forma um pequeno remanso. Sentada numa pedra 
do rio, a gua at os joelhos, comeava 
a esfregar a roupa, e o burro, enquanto isso, como faria um homem ocioso ou muito cansado, deixava-se cair na fofa praia, 
dormia, banhava-se de sol. s vezes havia 
outras lavadeiras com quem conversar. Se estava s, Juana Baura torcia uma toalha, cantarolava, umas anguas, curandeiro 
ladro, quase me mata, ensaboava um lenol, 
amanh  a primeira sexta-feira do ms, Padre Garcia, me arrependo dos meus pecados. O rio embranquecera seus tornozelos 
e suas mos, conservava-os lisos, frescos 
e jovens, mas o tempo enrugava e escurecia cada vez mais o resto do seu corpo. Ao entrar no rio, seus ps costumavam afundar 
em um fofo leito de areia; s vezes, 
em lugar da dbil resistncia habitual, encontravam uma matria slida, ou alguma coisa viscosa e resvaladia como um peixe 
preso ao lodo: s essas minsculas diferenas 
alteravam a idntica rotina das manhs. Mas naquele sbado ouviu logo um soluo s suas costas, lacerante e muito prximo: 
perdeu o equilbrio, caiu sentada na gua, 
a cesta que levava na cabea virou, as peas saram flutuando. Resmungando, batendo com as mos na gua, Juana recuperou 
a cesta, as camisas, as cuecas e os vestidos, 
e ento viu Dom Anselmo: tinha a cabea cada entre as mos e a gua da margem molhava suas botas. A cesta caiu de novo 
no rio e, antes que a corrente a enchesse 
e a fizesse submergir, Juana estava na praia, junto dele. Confusa, balbuciou algumas palavras de surpresa e de consolo, 
e Dom Anselmo continuava a chorar sem levantar 
a cabea. "No chore", dizia Juana, e o rio se apoderava das peas, afastava-as silenciosamente. "Por Deus, acalme-se, Dom 
Anselmo, que aconteceu, est doente? O 
Doutor Zevallos mora a em frente, quer que o chame? no sabe que susto me deu". O burro abrira os olhos, olhava para eles 
obliquamente. Dom Anselmo devia estar 
ali 
h bastante tempo, suas calas,
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sua camisa e seus cabelos estavam salpicados de areia e o chapu, cado junto a seus ps, estava quase coberto pela terra. 
"Pelo que mais queira, Dom Anselmo", dizia 
Juana, "que  que tem, deve
ser uma coisa muito triste para que chore como as mulheres." E Juana se persignou quando ele levantou a cabea: plpebras 
inchadas, grandes olheiras, a barba crescida 
e suja. E Juana, "Dom Anselmo, Dom Anselmo, me diga se posso ajud-lo", e ele, "senhora, eu a estava esperando", e sua voz 
se interrompeu. "A mim, Dom Anselmo?", 
disse Juana, os olhos muito abertos. E ele concordou, devolveu a cabea aos braos, soluou, e ela, "mas, Dom Anselmo", 
e ele gritou, "Toninha morreu, Dona Juana", 
e ela, "que est dizendo, meu Deus, que est dizendo?", e ele, "vivia comigo, no me odeie", e a sua voz se interrompeu. 
Estendeu ento, com grande esforo, um 
de seus braos e apontou para o areai: a verde construo relampejava sob o cu azul. Mas Juana Baura no a via. Aos tropees 
chegava ao Malecn, corria e gritava 
espavorida,  sua passagem abriam-se janelas e apareciam rostos surpresos.
Jlio Retegui levanta a mo: j chega, que fosse embora. O Cabo Roberto Delgado endireita-se, solta a correia, limpa o 
rosto vermelho e suado, e o Capito Quiroga, 
voc se excedeu,  surdo ou no entende as ordens? Aproxima-se do urakusa estendido no cho, mexe nele com o p, o homem 
se queixa fracamente. Estava fingindo, 
meu capito, queria dar uma de vivo, j ia ver. O cabo pragueja, esfrega as mos, toma impulso, chuta e, ao segundo pontap, 
como um felino o aguaruna pula, puxa, 
o cabo tinha razo-, que sujeito resistente, e corre veloz, acobreado, agachado, o capito pensava que tinham se excedido. 
S sobrava um, Senhor Retegui, e, alm 
disso, 
Jum, ele tambm? No, levariam para Santa Maria de Nieva esse cabea dura, capito. Jlio Retegui bebe um gole do seu cantil 
e cospe: que trouxessem o outro e acabassem 
logo, capito, no estava cansado? queria um golinho? O Cabo Roberto Delgado e dois soldados vo at a cabana dos prisioneiros, 
pelo centro da clareira. Um soluo 
quebra o silncio do povoado e todos olham para as barracas: a menina e um soldado lutam perto do barranco, apagados contra 
um cu que escurece. Jlio Retegui fica 
de p, faz uma concha com as mos: que foi que lhe dissera, soldado? No entendia, por que no a metia na barraca, e o capito, 
seu porra! o punho no alto: que 
brincasse com ela,
158
que a distrasse. Uma chuva mida cai sobre as cabanas de Urakusa e do barranco sobem nuvenzinhas de vapor, a mata envia 
para a clareira baforadas de ar quente,
o cu j est cheio de estrelas. O soldado e a menina desaparecem numa barraca, e o Cabo Roberto Delgado e dois soldados 
vm arrastando um urakusa, param diante 
do capito e ele resmunga algo. Jlio Retegui faz um sinal para o intrprete: castigo por desrespeitar a autoridade, nunca 
mais bater num soldado, nunca enganando 
patro Escabino, seno voltariam e o castigo seria pior. O intrprete ruge e gesticula e, enquanto isso, o cabo respira 
fundo, esfrega as mos, pega a correia, senhor. 
Traduzindo? sim, entendendo? sim, e o urakusa, baixinho, barrigudo, anda de um lado para outro, pula como um grilo, olha 
de vis, trata de furar o crculo, e os 
soldados se balanam, so um redemoinho, pegam-no, levam-no. Por fim, o homem fica quieto, tapa o rosto e se encolhe. Agenta 
firme um bom tempo, rugindo a cada 
correada, logo desaba, e o governador levanta a mo: que fosse embora, j estavam prontos os mosquiteiros? Sim, Dom Jlio, 
tudo pronto, mas com mosquiteiros ou 
no, tinham comido o rosto do capito durante toda a viagem, ardia-lhe, e o governador, cuidado com Jum, capito, que no 
o deixassem s. O Cabo Delgado ri: no 
fugiria nem que fosse bruxo, senhor, estava amarrado, e depois teria guarda durante toda a noite. Sentado no cho, o urakusa 
olha de vis para uns e outros. J no 
chove, os soldados trazem lenha seca, acendem uma fogueira, brotam chamas altas junto ao aguaruna, que esfrega levemente 
o peito e as costas. Que estava esperando, 
mais aoites? H risos entre os soldados, e o governador e o capito olham para eles. Esto acocorados diante do fogo, a 
faiscao avermelha e deforma seus rostos. 
Por que esses risinhos? Ei, voc, e o intrprete se aproxima: maredo ficando. Meu capito. O oficial no entendia, que falasse 
mais claro, e Jlio Retegui sorri: 
era o marido de uma das mulheres da cabana, e o capito, ah, por isso o bandido no ia embora, agora entendia.  verdade, 
Jlio Retegui tambm esquecera daquelas 
damas, capito. Sigilosos, simultneos, os soldados levantam-se e se aproximam, amontoados, do governador: olhos parados, 
bocas tensas, olhares ardentes. Mas o governador 
era a autoridade, Dom Jlio, a ele cabiam as decises, o capito era um simples executor. Jlio Retegui examina os soldados 
encaixados uns nos outros; sobre os 
corpos indiferenciveis, as cabeas avanaram para ele,
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o fogo da fogueira reluz em suas faces e testas. No sorriem nem baixam os olhos, esperam imveis, as bocas entreabertas: 
bah, o governador encolhe os ombros, j 
que insistiam
tanto. Impreciso, annimo, um murmrio vibra sobre as cabeas, a roda de soldados rompe-se em silhuetas, sombras que atravessam 
a clareira, rudos de passos, o capito 
tosse e Jlio Retegui 'faz uma careta desanimada: estes j eram meio civilizados, capito, e como ficavam por causa de 
uns espantalhos cheios de piolhos, jamais 
conseguiria entender os homens. O capito tem um acesso de tosse, e, por acaso, no passavam tantas privaes na selva, 
Dom Jlio? abana frentico  volta da cabea, 
na selva no havia mulheres, agarra-se o que se encontra, d uma palmada na testa, e afinal ri nervoso: as jovenzinhas tinham 
tetas de negras. Jlio Retegui levanta 
o rosto, busca os olhos do capito, que est srio: naturalmente, capito, isso tambm  verdade, talvez estivesse ficando 
velho, talvez, se fosse mais moo teria 
ido com os soldados at onde estavam aquelas damas. O capito golpeia agora o rosto, os braos, Dom Jlio, ia dormir, os 
bichos o estavam comendo, pensava at ter 
engolido um, s vezes tinha pesadelos, Dom Jlio, em sonhos, nuvens de mosquitos caam em cima dele, Jlio Retegui d um 
tapinha no brao do capito: em Nieva conseguiria 
algum remdio, era pior que estivesse do lado de fora, de noite havia tantos, que dormisse bem. O Capito Quiroga afasta-se 
a passos largos at as barracas, sua 
tosse perde-se entre as gargalhadas, os palavres e os prantos que explodem na noite de Urakusa como ecos de uma distante 
bacanal. Jlio Retegui acende um cigarro: 
o urakusa continua sentado  sua frente, observando-o de vis. Retegui joga a fumaa para cima, h muitas estrelas e o 
cu  um mar de tinta, a fumaa sobe, se 
estende, se desvanece, e a seus ps a fogueira j est bocejando como um cachorro velho. Agora o urakusa se mexe, vai se 
afastando de rastros, tomando impulso com 
os ps, parece nadar sob a gua. Mais tarde, quando a fogueira est apagada, ouve-se um grito, do lado da cabana? brevssimo, 
no, das barracas, e Jlio Retegui 
sai correndo, a mo segurando o chapu, atira a guimba para cima, sem se deter, entra na barraca, e os gemidos param, range 
um catre, e na escurido h uma respirao 
espantada: quem est a? o senhor, capito? A menina estava assustada, Dom Jlio, e ele viera ver, parece que o soldado 
assustou-a, mas o capito j o tinha xingado. 
Saem da barraca,
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o capito oferece um cigarro ao governador, que recusa: ele se encarregaria dela, capito, no devia se preocupar, que fosse 
dormir logo. O capito entra na barraca 
vizinha e Jlio
Retegui, s apalpadelas, volta ao catre de campanha, senta-se  sua beira. Sua mo toca suavemente num pequeno corpo rgido, 
percorre umas costas nuas, uns cabelos 
ressequidos: pronto, pronto, no devia ter medo daquele bruto, aquele bruto j fora embora, felizmente tinha gritado, em 
Santa Maria de Nieva ficaria muito contente, 
iria ver, as freirinhas seriam muito boas, cuidariam dela, a Senhora Retegui tambm cuidaria muito dela. Sua mo acariciava 
os cabelos, as costas, at que o corpo 
da menina se solta e sua respirao se tranqiliza. Na clareira continuam os gritos, os palavres, mais excitados e grotescos, 
e h correrias e bruscos silncios: 
pronto, pronto, pobre criana, que dormisse agora, ele vigiaria.
A msica terminara, os Len aplaudiam, Lituma e a Selvtica voltaram ao balco, a Chunga enchia os copos, Josefino continuava 
bebendo, sozinho. Sob os andinos esguichos 
de luz azul, verde e violeta, uns poucos pares continuavam na pista, evoluindo com ar maquinal e letrgico, ao compasso 
dos murmrios e dos dilogos ao redor. Tambm 
nas mesas dos cantos permanecia pouca gente; o grosso de homens e mulheres e toda a euforia da noite concentraram-se no 
bar. Amontoados e ruidosos, tomavam cerveja, 
as gargalhadas da mulata Sandra pareciam alaridos, e um gordo de bigode e culos empinava o copo amarelo como uma bandeira, 
participara da campanha do Equador
como soldado raso, sim, senhor, e no se esquecia da fome, dos piolhos, do herosmo dos caboclos, nem dos bichos-de-p que 
se metiam debaixo das unhas e no queriam 
sair nem a tiro de canho, sim, senhor, e o Mono, subitamente, em altos brados: viva o Equador! Homens e mulheres emudeceram, 
os risonhos olhes do Mono distribuam 
piscadas marotas  direita e  esquerda e, depois de uns segundos de indeciso e de assombro, o gordo afastou Jos, pegou 
o Mono pela gola, sacudiu-o como a um trapo, 
por que se metia com ele? que repetisse aquilo se usava calas, que fosse macho, e o Mono, um sorriso enorme: viva o Peru! 
Todos riam agora, Sandra como se fosse 
uma pantera,
' Conflito entre o Peru e o Equador por questes de fronteira, em
1941, no qual se destacou o General Eloy Ureta.
161
o gordo mordiscando o bigode, Josefino e Jos estavam misturados ao grupo e o Mono ajeitava a roupa.
- No admito brincadeiras com o patriotismo, amigo - o gordo dava tapinhas amistosos no Mono. - Voc me enganou, vamos 
tomar um trago.
- Como eu gosto da vida! - disse Jos. - Cantemos o hino.
Reuniram-se todos em um s grupinho e, esmagados contra o balco, reclamaram mais cervejas. Assim, exultantes e gregrios, 
os olhos brios, a voz esganiada, molhados 
de suor, beberam, fumaram, discutiram, e um jovem vesgo, de cabelos esticados como uma escova, abraava a mulata Sandra, 
apresento-lhe a minha futura, companheiro, 
e ela abria a boca, mostrava as gengivas vermelhas e vorazes, os dentes de ouro, estremecida de riso. Logo, caiu sobre o 
jovem como um grande felino, beijou-o avidamente 
na boca, e ele se debatia entre os braos negros, era uma mosca na teia de aranha, protestava. Os invencveis trocaram olhares 
cmplices, zombeteiros, pegaram o 
vesgo, imobilizaramno, a est, Sandra, tome-o de presente, coma-o cru, ela o beijava, mordia e uma espcie de entusiasmo 
convulsivo apossou-se do grupo, novos pares 
se juntavam e at os msicos abandonaram seu lugar. De longe, o Joven Alejandro sorria languidamente e Dom Anselmo, seguido 
do Bolas, ia de um lado para outro, excitado, 
farejando o bulcio, o que h, o que est acontecendo, me conte. Sandra soltou sua presa, ao passar o leno na cara o vesgo 
ficou borrado de ruge como um palhao, 
deram-lhe um copo de cerveja, que ele virou de uma vez, aplaudiram-no, e, de repente, Josefino comeou a procurar algo no 
tumulto. Levantava-se, agachava-se, terminou 
por sair do grupo e ficou procurando por todo o salo, virando cadeiras, desaparecendo e voltando a aparecer no ambiente 
viciado e fumarento. Voltou correndo ao 
balco.
- Eu tinha razo, invencvel - disse a boca sem lbios da Chunga. - Voc est apavorado.
- Onde esto, Chunguita? Subiram?
- Que  que voc tem com isso? - os olhos hirtos da Chunga o esquadrinhavam como se fosse um inseto. Est com cimes?
- Ele a est matando - disse Jos, parecendo um fantasma,   puxando   Josefino   por   um  brao.  -  Venha, voando.
Romperam o grupo a empurres, o Mono estava na porta,
162
com a mo estendida, apontando a escurido, em direo ao Quartel Grau. Saram correndo desabaladamente por entre as choas 
da favela, que pareciam desertas,
e logo entraram no areal, e Josefino tropeou, caiu, levantou-se, continuou correndo, e agora seus ps afundavam-se na terra, 
havia vento contra e escuros redemoinhos 
de areia, e era preciso correr com os olhos fechados, contendo a respirao para que o peito no rebentasse. "A culpa  
de vocs, seus merdas", rugiu Josefino, 
"vocs se descuidaram", e, um momento depois, com a voz entrecortada, "mas at onde, porra", quando j surgia  sua frente 
uma silhueta intermediria entre a areia 
e as estrelas, uma sombra macia e vingativa.
- S at aqui, desgraado, cachorro, mau amigo.
- Mono! - gritou Josefino. - Jos!
Mas os Lon tambm tinham se lanado contra Josefino e, tal como Lituma, descarregavam punhos e ps e cabeas contra ele. 
Estava de joelhos,  sua volta tudo era 
cego e feroz, e quando queria se levantar e escapar da vertiginosa ronda de impactos, um novo pontap o derrubava, um soco 
o encolhia, uma mo puxava seus cabelos 
e tinha que levantar o rosto e oferec-lo aos golpes e s picadas da areia, que parecia entrar s torrentes por seu nariz 
e sua boca. Depois foi como se uma matilha 
rosnante e extenuada estivesse ali, rondando em torno de um animal vencido, quente ainda, farejando-o, exasperando-se por 
momentos, mordendo-o sem vontade.
- Est se mexendo - disse Lituma. - Seja homem, Josefino, quero ver sua cara, levante-se.
- Deve estar vendo as Trs-Marias de perto, primo - disse o Mono.
- Chega, deixe-o, Lituma - disse Jos. - Voc j fez o que queria. No h maior vingana que esta. No v que pode morrer?
- Mandariam voc de novo  cadeia, primo - disse o Mono. - Chega, no seja teimoso.
- Bata nele, bata nele - a Selvtica se aproximara, sua voz no era forte mas abafada. - Bata nele, Lituma.
Em vez de atend-la, Lituma voltou-se contra ela, derrubou-a na areia com um empurro e ficou chutando-a, puta, miservel, 
filha da puta, insultando-a at que perdeu 
a voz e as foras. Ento se deixou cair na areia e comeou a soluar como uma criana.
- Primo, pelo que voc mais quer, acalme-se.
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- Vocs  tambm  tm culpa - gemia Lituma.  Todos me enganaram. Desgraados, traidores, deveriam morrer de arrependimento.
- Por acaso no o tiramos da Casa Verde para voc, Lituma? Por acaso no o ajudamos a bater nele? Sozinho voc no teria 
podido.
- Ns o vingamos, priminho. E at a Selvtica, no v como ela o arranha?
- Falo de antes - dizia Lituma, entre   soluos e amuos. - Todos estavam de acordo e eu l, sem saber nada, como um babaca.
- Primo, os homens no choram. No fique assim. Ns sempre gostamos de voc.
- O que passou, passou, irmo.  Seja homem, seja mangache, no chore.
A Selvtica afastara-se de Josefino, que, encolhido no cho, queixava-se fracamente, e ela e os Len conformavam Lituma, 
que tivesse foras, os homens crescem diante 
das desgraas, abraavam-no, limpavam sua roupa, tudo esquecido? para comear de novo? irmo, primo, Lituma. Ele balbuciava, 
meio consolado, s vezes se enfurecia 
e chutava o estendido, logo sorria, se entristecia.
- Vamos, Lituma - disse Jos. - Acho que nos viram da favela. Se chamam os tiras, teremos problemas.
- Vamos  Mangachera, priminho - disse o Mono.
- Acabaremos o pisco que voc trouxe, vai levantar o seu nimo.
- No - disse Lituma. - Voltemos  casa da Chunga.
Foi-se pelo areai, a largas e resolutas passadas. Quando a Selvtica e os Len o alcanaram, entre as choas da favela, 
Lituma comeara a assobiar desesperadamente, 
e Josefino aparecia  distncia, mancando, queixando-se e vociferando.
- Isto ainda est pegando fogo. - O Mono segurou a porta para que os outros passassem primeiro. - S faltava a gente.
O gordo de bigode e culos veio receb-los:
- Sade, saudinha, companheiros. Por que desapareceram? Venham, a noite est comeando.
- Msica, harpista - exclamou Lituma. - Valsas, tonderos, marineras.
Aos trambolhes chegou at a orquestra, caiu nos braos do Bolas e do Joven Alejandro,
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enquanto o gordo e o vesgo arrastavam os Len at o bar e lhes ofereciam copos de cerveja. Sandra ajeitava os cabelos da 
Selvtica, Rita e Maribel enchiam-na de 
perguntas, e as quatro
cochichavam como vespas. A orquestra comeou a tocar, o balco ficou livre, meia dzia de pares danavam na pista entre 
aurolas de luz azul, verde e violeta. Lituma 
chegou ao balco morrendo de rir:
- Chunga, Chunguita, a vingana  doce. Est me ouvindo? Ele est berrando como um danado e no se atreve a entrar. Ns 
o deixamos meio morto.
- No me interesso pelos assuntos de ningum disse a Chunga. - Mas vocs so a minha desgraa. Por causa de vocs me multaram 
na ltima vez. Ainda bem que a encrenca 
agora no foi na minha casa. Que  que lhe sirvo? Aqui, quem no consome vai embora.
- Que grosseira para responder, Chunguita - disse Lituma. - Mas estou contente, sirva o que quiser, para voc tambm, eu 
convido.
E agora o gordo queria levar a Selvtica  pista de danas, mas ela resistia, mostrava os dentes.
- Que  que h com esta mulher, Chunga? - perguntou o gordo, bufando.
- Que  que voc tem? - perguntou a Chunga. Esto convidando voc para danar, no seja malcriada, por que no aceita este 
senhor?
Mas a Selvtica continuava resistindo:
- Lituma, diga a ele que me solte.
- No a solte, companheiro - disse Lituma. - E a senhora faa o seu trabalho, puta.
165





TERCEIRA PARTE





O tenente pra de dar adeus quando a embarcao  s uma luzinha branca sobre o rio. Os guardas atiram as maletas ao ombro, 
chegam ao cais, param na praa de Santa 
Maria de Nieva, e o sargento aponta para as colinas: entre as dunas cobertas de mato reverberam uns muros brancos, e o zinco, 
aquela era a misso, meu tenente, a 
ladeirinha pedregosa estava vazia, chamavam isso de residncia, ali viviam as freirinhas, meu tenente, e  esquerda, a capela. 
Silhuetas de ndios circulam pelo 
povoado, os tetos das cabanas so de fibra de palmeira e parecem grandes capuzes. Mulheres de corpos enlameados e olhos 
indolentes moem algo ao p de dois troncos 
pelados. Continuam caminhando e o oficial volta-se para o sargento: quase no pudera falar com o Tenente Cipriano, por que 
no ficou s at inform-lo de tudo? 
Se no aproveitava a lancha, teria que esperar um ms, meu tenente, e o Tenente Cipriano estava louco para ir embora. Mas 
que no se preocupasse, o sargento o poria 
a par de tudo num segundo, e o Rubio pe a maleta no cho e mostra a cabana: a estava, meu tenente, o comissariado mais 
pobre do Peru, e o Pesado, essa da frente 
seria a sua casa, meu tenente, e o Chiquito, mais tarde conseguiriam umas duas criadas aguarunas, e o Oscuro, as criadas 
eram a nica coisa que sobrava neste povoado 
perdido. O tenente bate na placa que est pendurada em uma viga e dela brota um som metlico. A escadinha da cabana no 
tem corrimo, as tbuas do cho e da parede 
so grossas, desiguais, e na primeira pea h cadeiras de palha, uma escrivaninha, uma bandeirinha descolorida. Uma porta 
est aberta ao fundo: quatro redes, uns
fuzis, um forno, uma lixeira, que misria.
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O tenente tomava uma cervejinha? Deviam estar frescas, eles as puseram num balde d'gua desde a manh. O oficial concorda, 
o Chiquito e o Oscuro saem
da cabana - o governador se chama Fbio Cuesta? sim, um velhinho simptico, mas que fosse cumpriment-lo mais tarde, meu 
tenente, a estas horas dormia a sesta - 
e voltam com copos e garrafas. Bebem, o sargento brinda pelo tenente, os guardas perguntam por Lima, o oficial quer saber 
como  a gente de Santa Maria de Nieva, 
quem  quem, as freirinhas da misso so boa gente? e se os selvagens do dores de cabea. bom, continuariam conversando 
 noite, o tenente queria descansar um 
pouco. Eles tinham encomendado uma comidinha especial ao Paredes, meu tenente, para comemorar sua chegada, e o Rubio era 
o dono da cantina, meu tenente, onde comiam 
todos, e o Oscuro, era carpinteiro tambm, e o Pesado, ainda por cima, meio feiticeiro, j o apresentariam a ele, boa gente 
o Paredes. Os guardas levam as maletas 
 cabana da frente, o oficial segue-os bocejando, entra e atira-se no catre que ocupa o centro do quarto. com voz sonolenta 
despede o sargento. Sem se levantar, 
tira o quepe, os sapatos. Cheira a p e a fumo negro. No h muitos mveis: uma cmoda, dois banquinhos, uma mesa, uma lamparina 
que pende do teto. As janelas tm 
telas metlicas: as mulheres continuam moendo na praa. O tenente se levanta, o outro cmodo est vazio e tem uma pequena 
porta. Abre-a: a terra est dois metros 
mais abaixo, oculta pelo capim, e a uns passos da cabana j h mato cerrado. Desabotoa as calas, mija, e quando volta ao 
primeiro quarto, o sargento est ali de 
novo: outra vez aquele sacana, meu tenente, um aguaruna que se chama Jum. E o intrprete: diabo dizendo, aguaruna, soldado 
mentindo, e cartilhalima e limagoverno', 
senhor. Arvalo Benzas olha para cima, protegendo os olhos com as mos, no era nenhum bobo, Dom Jlio, o pago queria que 
pensasse que estava louco, mas Jlio 
Retegui nega com a cabea: no era isso, Arvalo, repetia a mesma cantilena todo o tempo, e ele j a sabia de cor. Alguma 
coisa meteram na sua cabea com essa
histria de cartilha, mas quem diabo podia entender. O sol avermelhado e ardente abrasa Santa Maria de
Nieva,
' Os selvagens, sem poder expressar coisas ou instituies que lhes so estranhas, juntam as palavras em espanhol e as proferem, 
muitas vezes, sem nexo. O autor
registra exemplos disso com cartilhalima, limagoverno, caboelgado, Escabinodiabo, etc., algumas delas ofensivas, eqivalendo 
a palavres.
168
e os soldados, indgenas e patres, aglomerados ao redor das capironas, piscam, suam e murmuram. Manuel Aguila abana-se 
com um leque de palha: estava muito
cansado, Dom Jlio? Deram-lhe muito trabalho em Urakusa? Um pouco, j contaria com vagar, agora Retegui tinha que subir 
 misso um instante, j voltava, e eles 
concordam: vo esper-lo na cabana do governo, o Capito Quiroga e Escabino j estavam l. E o intrprete: indo e vindo, 
prtico escapando, urakusaptria, porra, 
bandeiragoverno. Manuel Aguila utiliza o leque como um escudo contra o sol, mas mesmo assim lacrimeja: que no se cansasse, 
era por prazer, aqui se faz, aqui se 
paga, intrprete, traduzindo isso a ele. O tenente abotoa as calas calmamente, e o sargento passeia pelo quarto, as mos 
nos bolsos: no era a primeira vez que 
vinha, meu tenente. Um monto de vezes j, at que uma vez o Tenente Cipriano se esquentou, dera um susto nele e assim o 
pago deixou de vir. Que sabido, certamente 
soube que o Tenente Cipriano saa de Santa Maria de Nieva e veio correndo ver se com o novo tenente conseguia alguma coisa. 
O oficial acaba de amarrar os sapatos, 
levanta-se. Pelo menos era tratvel? O sargento faz um gesto vago: no ficava furioso, mas, l isso era, a teimosia ambulante, 
uma mula, ningum lhe tirava o que 
tinha na cachola. Quando  que aconteceu esse problema? Quando era governador o Senhor Jlio Retegui, antes que Nieva tivesse 
um comissariado, e o tenente fecha 
a 
porta da cabana com raiva, era o mximo, no chegara h duas horas e j tinha trabalho, o selvagem podia ter esperado at 
amanh, no? E o intrprete: caboelgado 
diabo! Diabo capit-artmio! Meu cabo. Mas o Cabo Roberto Delgado no se incomoda, ri como os soldados e alguns ndios tambm 
riem: que fosse bancando o louco, insultando, 
a ele e ao capito, que continuasse, ia ver quem ri por ltimo. E o intrprete: esfomeado, meu cabo, tonto, porra, barriga 
danando, meu cabo, sede dizendo, davam 
gua a ele? No, primeiro o cabo, e levanta a voz: se algum desse gua ou comida ao selvagem, se entenderia com ele, que 
traduzisse isso a todos os pagos de Santa 
Maria de Nieva, porque podiam se fazer de loucos e de sabidos, mas no fundo estavam com raiva. E o intrprete: a putasuame, 
meu cabo, Escabinodiabo, insultando. 
Agora os soldados mal sorriem, olham para o cabo disfaradamente, e ele, muito bem, que puteasse a sua me outra vez, que 
ele veria s quando o descessem da capirona. 
Um homem magro e bronzeado vem ao encontro deles, tira o chapu de
palha,
169
e o sargento faz as apresentaes: Adrin Nieves, meu tenente. Sabia aguaruna e s vezes servia de intrprete, era o melhor 
prtico da regio e h dois
meses trabalhava para o comissariado. O tenente e Nieves cumprimentam-se e o Oscuro, o Chiquito e o Rubio afastam-se da 
escrivaninha, a estava, meu tenente, este 
era o pago - assim chamavam aqui os selvagens -, e o oficial sorri: ele pensava que essa gente deixava crescer a cabeleira 
at os ps, no esperava encontrar um 
carequinha. Uma mida penugem cobre a cabea de Jum e uma cicatriz reta e roscea secciona sua testa minscula.  de estatura 
mediana, retaco, veste uma tnica puda 
que lhe cai da cintura at os joelhos. No peito pelado, um tringulo roxo envolve trs riscos paralelos que atravessam suas 
faces. Tem tatuagens tambm em ambos 
os lados da boca: duas aspas pretas, pequeninas. Sua expresso  tranqila mas nos olhos amarelos h vibraes indceis, 
meio fanticas. Desde que lhe pelaram a 
cabea, continua se pelando sozinho, meu tenente, e era estranhssimo, porque nada doa mais a eles que tocar na sua cabeleira. 
O prtico Nieves podia explicar isso, 
meu tenente: era coisa de orgulho deles, justamente disso tinham estado falando enquanto esperavam que viesse. E o sargento, 
vamos ver se com Dom Adrin se entendiam 
melhor com o pago, porque da ltima vez, com o feiticeiro Paredes de intrprete, ningum entendia nada; e o Pesado,  que 
o cantineiro faz que sabe aguaruna, 
mas no era verdade, mal o arranhava. Nieves e Jum rugem e gesticulam, tenente, ele no podia retornar a Urakusa at que 
devolvessem tudo o que tiraram dele, mas, 
porque sentia vontade de voltar, cortava a cabeleira para no poder voltar nem querendo; e o Rubio, no era uma coisa de 
louco? Sim, e agora que explicasse logo 
o que queria que lhe devolvessem. O prtico Nieves aproxima-se do aguaruna, grunhe para ele apontando o oficial, gesticula, 
e Jum, que escuta imvel, concorda e 
cospe: espere a! isto no  um chiqueiro, que no cuspisse. Adrin Nieves volta a pr o chapu, era para que o tenente 
visse que dizia verdade, e o sargento, um 
costume dos selvagens, quem no cuspia ao falar mentia, e o oficial, no faltava mais nada, ia lav-los com saliva. Acreditavam 
nele, Nieves, que no cuspisse. 
Jum cruza os braos e os crculos do seu peito se deformam, o tringulo se enruga. Comea a falar vigorosamente, quase sem 
pausas, e continua cuspindo  sua volta. 
No afasta os olhos do tenente, que bate o p e observa com desagrado a trajetria de cada cusparada.
170
Jum agita as mos, sua voz  muito enrgica. E o intrprete: roubando porra, urakusacaucho, menina, soldadomiretegui, meu 
cabo. Cabea quente! Para proteger os 
olhos
do sol, o Cabo Roberto Delgado tirou o casquete e o mantm levantado junto  testa: que continuasse bancando o melindrado, 
que chiasse, que se matava de rir. E que 
perguntasse a ele onde aprendeu tantos palavres. E o intrprete: contra tocontra to, pronto, patro Escabino, entende, 
pronto, descendo, meu cabo. Os soldados 
esto se despindo e alguns j esto correndo para o rio, mas o Cabo Delgado continua ao p das capironas: descendo? Uma 
porra, ia ficar ali e que agradecesse, porque 
o Capito Artemio Quiroga era boa gente, que, se dependesse dele, se lembraria toda a vida. Por que no puteava a sua me 
de novo? Que se atrevesse, que se fizesse 
de macho diante de seus companheiros, que o estavam olhando, e o intrprete: bom, a putasuame. Meu cabo, outra vez, que 
a puteasse de novo, que para isso ficara 
ali; e o tenente cruza as pernas e atira a cabea para trs: histria absurda, sem p sem cabea, de que cartilhas falava 
esse bendito? Uns livros com figuras; 
meu tenente, para ensinar o patriotismo aos selvagens; na casa do governo ainda sobravam alguns, comidos por traa, Dom 
Fbio podia mostr-los. O tenente olha indeciso 
para os guardas e, enquanto isso, o aguaruna e Adrin Nieves continuam grunhindo a meia voz. O oficial se dirige ao sargento, 
era verdade o que dizia sobre a menina? 
e Jum, menina! violentssimo, porra! e o Pesado, pissst, que estava dizendo o tenente? e o sargento, pissst, quem  que 
sabia, aqui se roubam meninas todos os dias, 
podia ser verdade, no diziam que aqueles bandidos do Santiago tinham feito um harm? Mas o pago confundia tudo, e a gente 
no sabia o que as cartilhas tinham que 
ver com o caucho que reclamava, e com aquilo da menina, o compadre tinha um enredo dos mil diabos na cachola. E o Chiquito, 
se haviam sido os soldados, eles no 
tinham nada que ver, por que no se queixava na guarnio de Borja? rugem e gesticulam, e o prtico Nieves: j tinha ido 
duas vezes l e ningum dera bola, tenente. 
E o Rubio tinha que ser muito rancoroso para continuar com esse assunto depois de tanto tempo, meu tenente, j podia ter 
esquecido. Rugem e gesticulam, e Nieves: 
que em seu povoado ele  o culpado e no queria voltar a Urakusa sem o caucho, os couros, as cartilhas e a menina, para 
que vissem que Jum tinha razo. Jum fala 
de novo, devagar agora, sem levantar as mos.
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As duas aspas minsculas mexem-se com seus lbios, como duas hlices que no podem arrancar de vez, comeam a girar e retrocedem 
e outra vez giram e retrocedem. 
De
que falava agora, Dom Adrin?  e o prtico: estava se lembrando, e tambm insultando os que o penduraram na capirona, e 
o tenente deixa de bater com o p: fora 
pendurado? Chiquito aponta vagamente para a Plaza de Santa Maria de Nieva: daquelas capironas, meu tenente. Paredes podia 
contar, ele estava l, parecia um pirarucu, 
assim  que os penduravam para secar. Jum despeja um monte de grunhidos. Dessa vez no cospe, mas faz gestos frenticos: 
s porque lhes dizamos verdades  que o 
penduraram da capirona, tenente, e o sargento, tome que tome com a mesma histria, e o oficial, verdades? e o intrprete: 
piruanos! piruanos, porra! Meu cabo! Mas 
o Cabo Delgado j sabia, no precisava que traduzissem isso, podia no falar pago mas tinha ouvidos, pensava que era um 
pobre coitado? Meu Deus, o tenente bate 
na escrivaninha, que droga, no acabariam nunca desse jeito, piruanos queria dizer peruanos, no? essas eram as verdades? 
E o intrprete: pior que sangrando, pior 
que morrendo, meu cabo. E boninoprez e tefilocanas, no entende. Meu cabo. Mas o Cabo Delgado, sim, entendia: assim se 
chamavam aqueles subversivos. Que no adiantava 
nada cham-los, que estavam muito longe, e que se tambm aqueles dois viessem, tambm os pendurariam. O Oscuro est sentado 
numa ponta da escrivaninha, os outros 
guardas continuam de p, meu tenente, tinha sido um castigo, diziam. E que todos os patres e os soldados estavam furiosos, 
queriam se encarregar deles, mas que 
o governador de ento, o Senhor Jlio Retegui, no deixou. Mas quem era essa gente? no tinham voltado aqui? Uns agitadores, 
parecia, que se fizeram passar por 
professores, 
meu tenente, e convenceram essa gente de Urakusa e os pagos ficaram valentes e lograram o patro que comprava caucho; e 
o Pesado, um tal de Escabino, e Jum. Escabino! 
ruge, porra, e o oficial, silncio, Nieves, faa com que se cale. Onde est esse cara? Podia falar com ele? Muito difcil, 
meu tenente, Escabino morreu, mas Dom 
Fbio o conheceu, e o melhor  que falasse com ele: contaria a ele os detalhes, e alm disso o governador era amigo de Dom 
Jlio Retegui. Nieves tambm no estava 
aqui quando aconteceram esses incidentes? Tambm no, tenente, ele s tinha uns dois meses em Santa Maria de Nieva, vivia 
longe antes, pelo Ucayali, e o Oscuro: 
no lograram s o patro, tinha tambm o assunto do cabo de Borja,
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juntaram as duas coisas. E o intrprete: caboelgado diabo! porra! O Cabo Delgado desdobra todos os dedos das mos e mostra: 
dez puteadas  me, estavam contadinhas.
Que podia continuar gozando quanto quisesse, aqui ficava para que continuasse puteando sua me.  verdade, um cabo que ia 
a Bagua de licena, e com ele um prtico 
e um criado, os aguarunas assaltaram em Urakusa, espancaram o cabo e o criado, o prtico desapareceu, e uns diziam que o 
mataram e outros que desertou, meu tenente, 
aproveitando a ocasio. E por isso haviam organizado uma expedio, soldados de Borja e o governador daqui, e por isso o 
trouxeram, e o castigaram na capirona. No 
tinha sido assim, mais ou menos, Dom Adrin? O prtico concorda, sargento, era o que ouvira, mas como ele no estava aqui, 
como podia saber? com que ento, o tenente 
olha para Jum e Jum para Nieves, no era to santinho como parecia. O prtico grunhe e o urakusa replica, spero e gesticulante, 
cuspindo e esperneando: o que ele 
contava era muito diferente, tenente, e o tenente, lgico, qual era a verso do meu compadre? Que o cabo estava roubando 
coisas e que eles o obrigaram a devolver, 
o prtico fugiu nadando, e que o patro era vigarista com o caucho, e que por isso no quiseram vender. Mas o tenente parece 
no escutar, seus olhos examinam o 
aguaruna dos ps  cabea, com curiosidade e certo assombro: quanto tempo ficou pendurado, sargento? Um dia, e depois levou 
uns aoites, segundo o feiticeiro Paredes, 
e o Oscuro, aquele mesmo cabo de Borja  que os havia aplicado, e o Rubio, de vingana pelos que os pagos de Urakusa teriam 
dado nele, meu tenente. Jum avana um 
passo, fica diante do oficial, cospe. A expresso de seu rosto  quase risonha agora e seus olhos amarelos mexem-se maliciosamente, 
uma careta brincalhona rasga 
seus lbios. Toca na cicatriz da testa e, lento, cerimonioso como um mgico, gira sobre os calcanhares, mostra as costas: 
dos ombros descem at a cintura uns sulcos 
pintados de zarco, retilneos, paralelos e brilhantes. Essa era outra de suas loucuras, meu tenente, sempre que aparecia 
vinha lambuzado assim, e o Chiquito, coisa 
dele, porque os aguarunas no costumam pintar as costas, e o Rubio, os horas sim, meu tenente, as costas, a barriga, os 
ps, o traseiro, pintavam o corpo todinho, 
e o prtico Nieves, para no esquecer os aoites que levou, essa era a explicao que dava, e Arvalo Benzas seca os olhos: 
seus miolos ficaram assados l em cima, 
o que estava gritando? Piruanos, Arvalo,
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Jlio Retegui est apoiado de costas na capirona, passara toda a viagem gritando piruanos. E o Cabo Roberto Delgado concorda, 
senhor, no parava de insultar
todo mundo, o capito, o governador, ele mesmo, no conseguia baixar sua crista por nada. Jlio Retegui lana um olhar 
rpido para cima, j veria, e quando inclina 
a cabea tem os olhos molhados, um pouco de pacincia, cabo, que sol fazia, cegava qualquer um. E o intrprete: seu cabelo, 
dizendo, cartilha, menina. Senhor. Sacaneando 
diz, e Manuel Aguila: parecia bbado, assim deliravam quando estavam dopados, mas era melhor que fossem logo, que as madres 
estavam esperando, queria que ele o acompanhasse? 
No, as madres no podiam se meter, meu tenente, no via que eram estrangeiras? Mas o feiticeiro Paredes dizia que a Madre 
Anglica
- a mais velhinha da misso, meu tenente, agora que tinha morrido a Madre Asuncin - viera de noite  praa para pedir que 
baixassem Jum, e que inclusive brigou 
com os soldados. A velhinha devia estar penalizada, era a mais renegada de todas, pura ruga, e o Oscuro: para completar, 
queimaram as axilas dele com ovos quentes, 
o cabo, aquele, queriam que sasse voando at o cu, e Jum, porra! piruanos! O tenente bate o p de novo, aquilo no eram 
modos, puxa, e com os ns dos dedos bate 
na escrivaninha, tinham cometido excessos, mas que  que eles podiam fazer agora, tudo isso terminara. O que dizia agora? 
Queria s que devolvessem o que tiraram 
dele, tenente, e voltaria para Urakusa, e o sargento, no disse que era teimoso? Aquele caucho at j virar sola de sapatos, 
e os couros, bolsas, malas, e quem 
sabe onde andava a menina: tinham explicado a ele umas cem vezes, meu tenente. O oficial pensa, o queixo sobre o punho: 
sempre podia se dirigir a Lima, reclamar 
ao ministrio, talvez a Diretoria de Assuntos Indgenas o indenizasse, vamos ver, que Nieves sugerisse isso a ele. Grunhem 
e, logo, Jum concorda muitas vezes, limagoverno! 
os guardas sorriem, s o prtico e o tenente permanecem srios: cartilbalima! O sargento descruza os braos: no via que 
era um selvagem, meu tenente? Como podiam 
meter na sua cabea semelhantes coisas, o que queria dizer para ele Lima, o ministrio, entretanto Adrin Nieves e Jum grunhem 
com vivacidade, trocam cusparadas 
e gestos, o aguaruna se cala por instantes e fecha os olhos, como meditando, logo pronuncia cautelosamente umas frases, 
apontando o oficial: que o acompanhasse? 
Homem, imagine como gostaria de dar um pulinho at Lima, mas no era
possvel,
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e agora Jum aponta para o sargento. No, no, nem o tenente, nem o sargento, nem os guardas, Nieves, no podiam fazer nada, 
que procurasse esse Retegui,
voltasse a Borja ou o que fosse, o comissariado no estava ali para desenterrar os mortos, no? resolvendo os problemas 
do passado, no? Ele estava morrendo de cansao, 
no tinha dormido, sargento, que acabassem logo com aquilo. Alm disso, se os que o tinham aoitado eram soldados da guarnio, 
e autoridades daqui, quem daria 
razo a ele? Adrin Nieves interroga com os olhos o sargento, que  que dizia a ele, afinal? e ao tenente: tudo isso? O 
oficial boceja, entreabre preguiosamente 
a boca desalentada e o sargento se inclina para ele: melhor dizer que est bem, meu tenente. Que lhe devolveriam o caucho, 
os couros, as cartilhas, a menina, tudo 
o que quisesse, e o Pesado, em que estava pensando, meu sargento, quem devolveria aquilo se Escabino j era defunto, e o 
Chiquito, no seria dos seus soldos, no? 
e o sargento, para maior segurana, dariam a ele um papelzinho assinado. J tinham feito isso outra vez, com o Tenente Cipriano, 
meu tenente, dava resultado. Poriam 
um selo de papel e pronto: agora, com isso, v buscar o Senhor Retegui e o Escabinodiabo, para que devolvam tudo a voc. 
E o Oscuro, uma sacanagem em regra, meu 
sargento? 
Mas essas coisas no agradavam ao tenente, ele no podia assinar nenhum papel sobre um assunto to velho, e alm disso, 
mas o sargento, s um papel de jornal, uma 
assinatura de mentirinha, e assim iria tranqilo. Eram teimosos mas acreditavam no que a gente dizia, ele passaria meses 
e anos procurando Escabino e o Senhor Retegui. 
Bem, e que agora dessem a ele alguma coisa de comer e que fosse embora sem que ningum pusesse um dedo em cima dele, capito, 
por favor, que ele mesmo desse essa 
ordem. E o capito, com muito prazer, Dom Jlio, chama o cabo: entendido? O castigo se acabara, nem um dedo nele, e Jlio 
Retegui: o importante era que voltasse 
a Urakusa. Nunca mais batendo em soldados, nunca mais enganando patro, se os urakusas se portam bem, os cristos se portam 
bem, se os urakusas se portam mal, os 
cristos se portam mal: que traduzisse isso, e o sargento d uma gargalhada que alegra todo o seu rosto redondo: no disse, 
meu tenente? Sim, tinha se livrado dele, 
mas o oficial no gostava daquilo, no estava acostumado com esses procedimentos, e o Pesado, a selva no era Lima, meu 
tenente, aqui tinha que lidar com selvagens. 
O tenente fica de p, sargento, este problema deixara sua cabea zonza,
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que no o acordassem ainda que casse o mundo. No queria outra cervejinha antes de dormir? no, que lhe levassem uma talha 
com gua? mais tarde.
O tenente faz uma continncia para os guardas e sai. A Plaza de Santa Maria de Nieva est cheia de ndios, as mulheres que 
moem, sentadas no cho, formam uma grande 
roda, algumas levam crianas presas s mamas. O tenente pra no meio do atalho e, atacando o sol com a mo, contempla as 
capironas por um momento: robustas, altas, 
masculinas. Um cachorro magro passa perto e o oficial o segue com o olhar, e ento v o prtico Adrin Nieves, que se aproxima 
dele e lhe mostra, na mo, os pedacinhos
pretos e brancos do papel de jornal, tenente: no era to babaca como pensava o sargento,
tinha feito em tiras o papel, e o atirara na praa, ele acabava de encontr-lo.
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- Um segredo com que o senhor nem sonha, meu sargento - disse o Pesado, baixando a voz. - Mas que os outros no ouam.
O Oscuro, o Chiquito e o Rubio conversavam no balco com Paredes, que servia umas doses de anis. Um menino saiu da cantina 
com trs panelinhas de barro, atravessou 
a deserta Plaza de Santa Maria de Nieva e desapareceu na direo do comissariado. Um sol forte dourava as capironas, os 
tetos e as paredes das cabanas, mas no chegava 
 terra porque uma bruma esbranquiada, flutuante, que parecia vir do rio Nieva, continha-o ao rs-do-cho e o enfraquecia.
- No esto ouvindo - disse o sargento. - Qual  o segredo?
- J sei quem  a que est na casa dos Nieves - o Pesado cuspiu umas sementes pretas de mamo e limpou, com o leno, a cara 
suada -, aquela que nos deixou to curiosos 
na outra noite.
- Ah, sim? - disse o sargento. - E quem ?
- A que tirava o lixo da misso - sussurrou o Pesado olhando de vis para o balco -, a que mandaram embora porque ajudou 
as pupilas a fugir.
O sargento revistou os bolsos, mas seus cigarros estavam sobre a mesa. Acendeu um e tragou fundo, atirou uma baforada de 
fumaa: uma mosca revoou angustiada dentro 
da nuvem e escapou zumbindo.
-- Como foi que voc soube? - perguntou o sargento. - Os Nieves apresentaram voc a ela?
Como quem no quer nada, meu sargento,
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o Pesado foi dar umas voltinhas pela cabana do prtico, e esta manh ele a tinha visto, trabalhando na chcara com a mulher 
de Nieves: Bonifcia, assim  que se 
chamava. No
se enganara, Pesado? Por que ela estaria com os Nieves, por acaso rio era meio freira? No, desde que a mandaram embora 
j no era mais, no vestia o hbito, e 
o Pesado a reconhecera logo. Um pouco retaca, meu sargento, embora tivesse formas. E devia ser virgenzinha, mas, por favor, 
que no dissesse nada aos outros.
- Voc pensa que sou xereta? - disse o sargento. Pare com essas recomendaes bobas.
Paredes trouxe copinhos de anis e ficou junto  mesa, enquanto o sargento e o Pesado bebiam. Em seguida, limpou a mesa com 
um pano e voltou ao balco. O Oscuro, 
o Rubio e o Chiquito saram da cantina e, na porta, uma soalheira vermelha acendeu seus rostos, seus pescoos. A bruma havia 
crescido e, de longe, os guardas pareciam 
agora mutilados, ou cristos vadeando um rio de espuma.
- No se meta em problemas com os Nieves, que so meus amigos - disse o sargento.
E quem  que se meteria com eles? Mas seriam loucos se no aproveitassem a ocasio, meu sargento. S eles sabiam, de modo 
que, como bons companheiros, no? o Pesado 
se encarregava do trabalhinho, meio a meio, est bem? depois a passava, de acordo? Mas o sargento comeou a tossir, no 
gostava dessas divises, soltava fumaa pelo 
nariz e pela boca, que merda, por que  que as sobras tocariam a ele?
- E por acaso no fui eu que a vi primeiro, meu sargento? - perguntou o Pesado. - E verifiquei quem era e tudo. Mas olhe, 
o que  que o tenente faz por aqui?
Apontou para a praa, por ali vinha o tenente, meio corpo fora da mancha gasosa, piscando sob o sol, com a camisa limpa. 
Quando emergiu da bruma, a metade inferior 
de suas calas e as botas estavam midas.
- Venha comigo, sargento - ordenou da escadinha.
- Dom Fbio quer nos ver.
- No se esquea do que eu disse, meu sargento murmurou o Pesado.
O tenente e o sargento afundaram-se na bruma at a cintura. O cais e as cabanas baixas dos arredores j tinham sido devorados 
pelas ondas de nvoa, que arremetiam 
agora, altas e ondulantes, contra os telhados e os terraos. Em contrapartida, uma luz difana cingia as colinas,
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os prdios da misso resplandeciam intactos, e as rvores de troncos diludos pela nvoa luziam suas copas limpas e as suas 
folhas, seus ramos, e suas prateadas 
teias de aranha
faiscavam.
- Foi  casa das madrezinhas, meu tenente? - perguntou o sargento. - Devem  ter dado uma surra nas crianas, no ?
- J as perdoaram - disse o tenente. - Esta manh foram ao rio. A superiora me disse que a doentinha estava melhor.
Na escadinha da cabana do governador, sacudiram as calas molhadas e esfregaram as solas cheias de barro contra os degraus. 
O quadrado de tela metlica que protegia 
a porta era to diminuto que ocultava o interior. Uma aguaruna velha e descala abriu a porta, entraram, e, l dentro, estava 
fresco e cheirava a verde. As janelas 
estavam fechadas, o quarto permanecia na penumbra; distinguiam-se confusamente os arcos, fotografias, zarabatanas e flechas 
presas s paredes. Cadeiras de balano 
floreadas circundavam o tapete de chamia e Dom Fbio aparecera na entrada do quarto contguo, tenente, sargento, risonho 
e enxuto sob a careca luminosa, a mo estendida: 
chegara a ordem, imaginem! Deu um tapinha no ombro do oficial, como estavam? fazia gestos amveis, que achavam da notcia? 
mas antes, um refresco? umas cervejinhas, 
no parecia mentira? Deu uma ordem em aguaruna e a velha trouxe duas garrafas de cerveja. O sargento virou o copo de um 
gole, o tenente passava o seu de uma mo 
para a outra e tinha os olhos errantes e preocupados, Dom Fbio bebia, como um passarinho, aos golinhos.
- Comunicaram a ordem por rdio s madres? disse o tenente.
Sim, nesta manh, e elas tinham avisado Dom Fbio imediatamente. Dom Jlio dizia sempre, aquele ministro est torpedeando 
a coisa,  o meu pior inimigo, no sair 
nunca. E era a pura verdade, agora viam, mudou o ministrio e a ordem veio voando.
- Depois de tanto tempo - disse o sargento. - Eu tinha at me esquecido dos bandidos, governador.
Dom Fbio Cuesta sorria sempre: deviam partir o quanto antes para estar de volta antes das chuvas, no aconselhava as cheias 
do Santiago, as barreiras e os redemoinhos 
do Santiago, quantos cristos aquelas cheias j tinham sacrificado?
- S temos quatro homens no posto e isso no  suficiente
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- disse o tenente. - E depois, um guarda tem que ficar aqui, cuidando do comissariado.
Dom Fbio piscou um olho velhacamente, mas se o novo ministro era amigo de Dom Jlio, amigo. Tinha dado todas as facilidades, 
e no iriam sozinhos, mas com soldados 
da guarnio de Borja. E eles tambm j haviam recebido a ordem, tenente. O oficial bebeu um gole, ah, e concordou sem entusiasmo: 
bom, essa era outra conversa. 
Mas no entendia, e mexia a cabea perplexamente, esse assunto agora era como a ressurreio de Lzaro, Dom Fbio. Assim 
andavam as coisas em nossa ptria, tenente, 
mas em que estava pensando ele, aquele ministro demorava, pensando que s prejudicava Dom Jlio, sem perceber o terrvel 
dano que causava a todos. Mas, antes tarde 
do que nunca, no ?
- Mas j no h mais denncias contra aqueles ladres, Dom Fbio - disse o tenente. - A ltima foi quando eu mal tinha chegado 
a Santa Maria de Nieva, veja s quanto 
tempo passou.
E que importncia tinha isso, tenente? No havia denncias aqui, mas do outro lado, sim, e depois aqueles criminosos tinham 
que pagar sua dvida, aceitava mais uma 
cervejinha? O sargento aceitou e, novamente, esvaziou seu copo de um gole: no era por isso, governador, mas talvez fizessem 
uma viagem intil, os ladres no estariam 
mais l. E se as chuvas chegassem antes, quanto tempo podiam ficar enterrados na mata. Nada, nada, sargento, deveriam estar 
na guarnio de Borja dentro de quatro 
dias, e outra coisa que o tenente precisava saber: esse era um assunto que Dom Jlio tomava muito a peito. Os criminosos 
fizeram com que perdesse muito tempo e 
pacincia, uma coisa que Dom Jlio no perdoava. O tenente no dizia que sonhava sair daqui? Dom Jlio o ajudaria se tudo 
corresse bem, a amizade daquele homem valia 
ouro, tenente, Dom Fbio sabia por experincia prpria.
- Ah, Dom Fbio - sorriu o oficial -, como o senhor me conhece bem. Ps o dedo na ferida.
- E tambm o sargento sair beneficiado - replicou o governador, batendo palmas, feliz. - Claro! No estou dizendo a vocs 
que Dom Jlio e o novo ministro so amigos?
Muito bem, Dom Fbio, fariam o que fosse possvel. Mas que os convidasse a tomar outro copo, para reagir, a notcia os deixara 
meio estonteados. Acabaram as cervejas 
e falaram e brincaram na fresca e cheirosa penumbra, em seguida o governador acompanhou-os at a escadinha e dali
acenou para eles.
180
A bruma cobria tudo agora e, entre seus vus e danas ambguas, as cabanas e as rvores flutuavam suavemente, escureciam 
e iluminavam-se, e havia
fugazes silhuetas circulando pela praa. Uma voz mida e tristonha cantarolava ao longe.
- Primeiro, correr atrs das crianas, e agora isto disse o sargento. - Eu no acho graa navegar no Santiago nesta poca, 
vai ser uma canseira horrvel, meu tenente. 
Quem  que vai ficar no posto?
- O Pesado, que se cansa por tudo - disse o tenente. - Voc gostaria de ficar, no ?
- Mas o Pesado tem muitos anos de selva - disse o sargento -, isto d experincia, meu tenente. Por que no deixa o Chiquito, 
que  to dado a doenas?
- O Pesado - disse o tenente. - E no fique com essa cara. Eu tambm no gosto desta droga, mas voc ouviu o governador, 
de repente, depois desta viagenzinha, muda 
a sorte e samos daqui. Ande, v chamar o Nieves e traga os outros a minha casa, para fazer o plano de trabalho.
O sargento ficou um momento imvel na bruma, as mos nos bolsos. Logo, cabisbaixo, atravessou a praa, passou junto ao cais, 
debaixo de uma densa capa de nvoa, 
internou-se pelo atalho e caminhou por uma paisagem enfumaada e escorregadia, carregada de eletricidade e de grasnidos. 
Quando chegou  frente da cabana do prtico, 
falava s, as mos espremiam o quepe e as perneiras, as calas e a camisa estavam salpicadas de barro.
- Que milagre a estas horas, sargento - Lalita escorria os cabelos, inclinada sobre o parapeito; o rosto, os braos e o 
vestido pingavam. - Mas, entre, suba, sargento.
Indeciso, pensativo, sempre mexendo os lbios, o sargento subiu a escadinha, no terrao deu a mo a Lalita e, quando se 
voltou, Bonifcia estava junto dele, tambm 
empapada. O vestido cor de couro cru aderia a seu corpo, os cabelos midos cingiam seu rosto como uma touca, e os olhos 
verdes olhavam o sargento contentes, sem 
embarao. Lalita torcia a bainha de sua saia, tinha vindo visitar sua hspede, sargento? e gotinhas transparentes rolavam 
sobre seus ps: a a tinha. Estiveram pescando 
e se meteram no rio com aquela nvoa, imagine, no viam nada, mas a gua estava morninha, gostosa, e Bonifcia aproximou-se: 
comida? anis? Em vez de responder, 
Lalita deu uma gargalhada e entrou na cabana.
- Voc deixou que o Pesado a visse esta manh - disse o sargento.
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- Por qu? No disse a voc que no queria?
- L vem o senhor com cime dela, sargento - disse Lalita, da janela, entre risos. - Que importncia tem que a vejam. No 
est querendo que a coitada passe a vida 
se escondendo, no?
Bonifcia examinava o rosto do sargento, muito sria, e em sua atitude havia algo de assustado e confuso. Ele deu um passo 
at ela e os olhos de Bonifcia se alarmaram, 
mas no se mexeu, e o sargento levantou um brao, tomou-a pelo ombro, Chininha, no queria que falasse com o Pesado, e nem 
tampouco com qualquer cristo, Senhora 
Lalita.
-- Eu no posso proibir - disse Lalita, e Aquilino, que aparecera na janela, riu. - E o senhor tambm, sargento, por acaso 
 seu irmo? S sendo marido poderia.
- Eu no o vi - gaguejou Bonifcia. -  mentira, no me viu, eu contaria.
- No se humilhe, no seja boba - disse Lalita.
- Em vez disso, faa com que ele tenha cime, Bonifcia.
O sargento trouxe Bonifcia para junto do seu corpo, era melhor que ele nunca a visse com o Pesado, e com dois dedos levantou 
seu queixo, que nunca a visse com 
nenhum homem, senhora, e Lalita deu outra gargalhada, e junto ao rosto do Aquilino apareceram outros dois. Os trs meninos 
comiam o sargento com os olhos, e com 
ningum ele a haveria de ver, Bonifcia agarrou a camisa do sargento, e seus lbios tremiam: prometia.
- Voc  uma boba - disse Lalita. - Logo se v que no conhece os cristos, ainda mais os fardados.
- Tenho de sair de viagem - disse o sargento, abraando Bonifcia. - No voltaremos antes de trs semanas, talvez um ms.
- Comigo, sargento? - Adrin Nieves, de cuecas, estava na escadinha, esfregando com a mo o corpo brilhante e ossudo. - 
No me diga que as pupilas fugiram outra 
vez.
E quando voltasse se casariam, Chininha, e sua voz se cortou, e ele se ps a rir como um idiota, enquanto Lalita gritava 
e irrompia no terrao, resplandecente, os 
braos abertos, e Bonifcia saa a seu encontro e se abraavam. O prtico Nieves apertou a mo do sargento, que falava gaguejando, 
Dom Adrin,  que se emocionara 
um pouco: queria que eles fossem padrinhos, claro. Estava vendo, Senhora Lalita, cara na sua armadilha, e Lalita, sabia 
desde o princpio que o sargento era um 
cristo 
correto, que a deixasse abra-lo.
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Fariam uma grande festa, ia ver como festejariam. Bonifcia, aturdida, abraava o sargento, Lalita, beijava a mo do prtico, 
levantava os meninos, e eles, com
muito prazer seriam padrinhos, sargento, que ficasse para comer esta noite. Os olhos verdes relampejavam, e Lalita, construiriam 
sua casa aqui mesmo ao lado, entristeciam-se, 
eles os ajudariam, alegravam-se, e o sargento, tinha que cuidar muito dela, senhora, no queria que ela visse ningum enquanto 
ele estivesse de viagem, e Lalita, 
 claro, nem  porta sairia, eles a amarrariam.
- E agora, para onde vamos? - perguntou o prtico. - Outra vez por causa das madrezinhas?
- Quem me dera que fosse por isso - disse o sargento. - Vo nos tirar o couro, Dom Adrin. Imagine que chegou a ordem. Vamos 
pelo Santiago, para procurar aqueles 
bandidos.
- Pelo Santiago? - disse Lalita. Desfigurara-se, estava rgida e boquiaberta, e o prtico Nieves, apoiado no parapeito, 
examinava o rio, a bruma, as rvores. Os 
meninos continuavam correndo  volta de Bonifcia.
- com gente da guarnio de Borja - disse o sargento. - Mas por que ficaram assim? No h perigo, seremos muitos. E talvez 
aqueles ladres j tenham at morrido 
de velhos.
- O Pintado vive ali embaixo - disse Adrin Nieves, apontando o rio oculto pela nvoa. - Conhece bem a regio e  um prtico 
dos bons.  preciso avis-lo agorinha 
mesmo, s vezes sai para pescar a estas horas.
- Mas como? - disse o sargento. - O senhor no quer vir conosco, Dom Adrin? So mais de trs semanas, ganhar um bom dinheiro.
-  que estou doente, com as febres - disse o prtico. - Vomito tudo, e a cabea est rodando.
- Mas, Dom Adrin - disse o sargento. - No me diga isso, ento o senhor est doente? Por que no quer ir?
- Est com as febres, vai se deitar agora mesmo disse Lalita. - V rpido  casa do Pintado, sargento, antes que saia para 
pescar.
E ao anoitecer ela fugiu como ele ensinara, desceu o barranco, e Fusha, por que voc se demorou tanto, depressa, para a 
lanchinha. Afastaram-se de Uchamala com 
o motor desligado, quase s escuras, e ele, todo o tempo,
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no tero visto voc, Lalita? pobre de voc se a viram, estou arriscando o pescoo, no sei por que fao isso, e ela que 
fosse na frente, cuidado, um redemoinho, 
e  esquerda
pedras. Afinal, refugiaram-se em uma praia, esconderam a lancha, atiraram-se na areia. E ele, estou ciumento, Lalita, no 
me fale do cachorro do Retegui, mas necessitava 
de uma lancha e comida, dias amargos nos esperam, mas voc h de ver, eu me sairei bem, e ela, sair, ajudarei voc, Fusha. 
E ele falava da fronteira, todos vo 
dizer, foi para o Brasil, cansaro de me procurar, Lalita, quem vai pensar que vim para este lado, se chegamos ao Equador 
no h problema. E de repente, tire a roupa, 
Lalita, e ela, as formigas vo me morder, Fusha, e ele, mesmo que mordam. Depois choveu toda a noite e o vento arrebatou 
o abrigo que os protegia e eles se revezavam 
para espantar os pernilongos e os morcegos. Embarcaram ao amanhecer e at que apareceram os rpidos a viagem foi boa: um 
barquinho e se escondiam, um povoado, um 
quartel, um avio e se escondiam. Passou uma semana sem chuvas; viajavam desde que saa o sol at que se ia e, para economizar 
as conservas, pescavam anchovas, bagres. 
Durante as tardes procuravam uma ilha, um banco de areia, uma praia, e dormiam protegidos por uma fogueira. Passavam pelos 
povoados de noite, sem ligar o motor, 
e ele, fora, Lalita, e ela, meus braos no agentam, h muita corrente, e ele, fora, porra, que j falta pouco. Perto 
de
Barranca' deram de cara com um pescador 
e comeram juntos, e eles, estamos fugindo, e o outro, posso ajudar? e Fusha, queremos comprar gasolina, que est acabando, 
e o outro, me d o dinheiro, vou ao povoado 
e trago. Demoraram duas semanas para ultrapassar os pongos, em seguida internaram-se por canais, lagunas e igaps, perderam-se, 
a lancha virou duas vezes, acabou-se 
a gasolina, e certa madrugada, Lalita, no chore, j chegamos, olhe, so huambisas. Lembravam-se dele, pensavam que vinha, 
como de outras vezes, comprar caucho. 
Deram uma cabana para eles, duas esteiras, e assim passaram muitos dias. E ele, voc est vendo o que lhe acontece por estar 
grudada em mim? era melhor que tivesse 
ficado em Iquitos com sua me, e ela, se um dia o matam, Fusha, e ele, ento voc ser mulher de huambisa, andar com as 
tetas de fora e se pintar com anil, 
rpia e zarco, vo botar voc a amassar mandioca para fazer masato, imagine s o que a espera. Ela chorava,
' Povoado, s margens do Maran, departamento de Loreto.
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os huambisas riam, e ele, boba, era de brincadeira, talvez voc seja a primeira crist que esta gente viu, h um monto 
de tempo cheguei aqui com um cara de Moyobamba 
e
nos mostraram a cabea de um cristo que entrou no Santiago procurando ouro; est com medo? e ela, sim, Fusha. Os huambisas 
serviam pedaos de cabritos, pacas, 
bagres, mandioca e, certa vez, uns bichos verdes, e eles vomitaram, de quando em quando um veado, um tambaqui ou um pacu. 
Fusha conversava com eles da manh  
noite, e ela, conte-me, que est perguntando a eles, que  que eles dizem, e ele, coisas, no se preocupe, a primeira vez 
que chegamos aqui com Aquilino, ns os 
conquistamos com bebida e vivemos seis meses com eles, trazamos facas, fazendas, espingardas, anis e eles nos davam caucho, 
couros e at hoje no posso me queixar, 
eram meus clientes, so meus amigos, sem eles j estaria morto, e ela, sim, mas vamos embora, Fusha, a fronteira no est 
perto? E ele, so melhores que os caucheiros, 
Lalita, comeando por aquele cachorro do Retegui, e, se no acredita, veja como ele se portou comigo, fiz ele ganhar tanto 
dinheiro e no queria me ajudar,  a 
segunda vez que os huambisas me salvam. E ela, mas quando  que vamos para o Equador, Fusha, agorinha mesmo comeam as 
chuvas e ento no poderemos. E ele deixou 
de falar da fronteira e passava as noites sem dormir, sentado na esteira, caminhava, falava sozinho, e ela, que  que voc 
tem, Fusha, deixe que eu o aconselhe, 
para isso sou sua mulher, e ele, silncio, estava pensando. E certa manh ele se levantou, desceu aos pulos o barranco e 
ela, l de cima, no faa isso, eu imploro 
pelo Cristo de Bagazn', santo, santo, e ele continuou batendo com o machete na lancha at esburac-la e afund-la, e quando 
subiu o barranco de volta trazia os 
olhos contentes. Ir ao Equador sem roupas, sem dinheiro e sem documentos? Uma loucura, Lalita, as polcias se comunicam 
de um pas para outro, s ficaremos mais 
um tempinho, aqui posso ficar rico, tudo depende dessa gente e de que encontre Aquilino,  o homem que nos faz falta, venha, 
vou explicar, e ela, que foi que voc 
fez, Fusha, Santo Deus. E ele, ningum passa por aqui e quando sarmos j tero se esquecido de mim, e alm disso teremos 
dinheiro para tapar a boca de qualquer 
um. E ela, Fusha, Fusha, e ele, tenho que encontrar Aquilino, e ela, por que voc a afundou, no quero morrer na selva, 
e ele, sua louca, precisava apagar os rastros.
' Imagem de Cristo muito venerada pelos peruanos.
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E um dia partiram numa canoa, com dois remadores huambisas, em direo ao Santiago. Escoltavam-nos os mosquitos, chuvas 
de pernilongos, o canto rouco dos trombeteiros,
e durante as noites, apesar do fogo e dos cobertores, os morcegos planavam sobre seus corpos e os mordiam em lugares macios: 
nos dedos dos ps, no nariz, na base 
do crnio. E ele, longe do rio, por aqui h soldados. Sulcavam canais estreitos, escuros, sob abbadas de folhagem hirsuta, 
igaps ptridos, s vezes lagoas eriadas 
de sapinhos, e tambm atalhos que os huambisas abriram a machete, levando a canoa ao ombro. Comiam o que encontravam,- razes, 
talos de suco cido, ervas cozidas, 
e um dia caaram uma anta, carne para uma semana. E ela, no chegarei, Fusha, no tenho mais pernas, arranhei meu rosto, 
e ele, falta pouco. E ento o Santiago 
apareceu, foi quando comeram cascudos, que capturavam debaixo das pedras do rio e defumavam, e um tatu caado pelos huambisas, 
e ele, viu como chegamos, Lalita? 
esta terra  boa, tem comida e tudo est saindo como queramos, e ela, o rosto me arde, Fusha, juro que no posso mais. 
Acamparam por um dia e depois continuaram, 
Santiago acima, parando para dormir e comer em povoados huambisas de duas, trs famlias. Uma semana mais tarde abandonaram 
o rio e durante horas navegaram por um 
canal estreito onde o sol no entrava, e to baixo que suas cabeas tocavam a mata. Saram, e ele, Lalita, a ilha, olhe, 
o melhor lugar que h, entre a mata e os 
pntanos, e antes de desembarcar fez com que os huambisas dessem voltas por todo o contorno, e ela, vamos viver aqui? e 
ele, est escondida, em todas as margens 
h mato alto, aquela ponta est boa para o cais. Desembarcaram e os huambisas reviravam os olhos, mostravam os punhos, grunhiam, 
e Lalita, o que h com eles, Fusha, 
por que esto raivosos, e ele, medrosos de merda, querem voltar, assustaram-se com as lupunas. Porque no alto do barranco 
e  volta de toda a ilha, como um compacto 
e altssimo muro, havia lupunas de troncos speros, inchados de corcovas e grandes asas rugosas, que lhes serviam de base. 
E ela, no grite tanto com eles, Fusha, 
vo ficar bravos. Estiveram discutindo, grunhindo e gesticulando, e por fim convenceu-os a entrar atrs dele na mata que 
cobria a ilha. E ele, voc ouve, Lalita? 
est cheia de pssaros, tem araras, no ouve? e quando encontraram um carcar comendo uma cobrinha preta os huambisas chiaram, 
e ele, cachorros medrosos, e ela, 
voc est louco, isso tudo  selva, Fusha, como  que vamos viver aqui, e ele,
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voc pensa que eu no calculo tudo? aqui vivi com Aquilino e aqui viverei de novo e aqui ficarei rico, voc ver como consigo. 
Regressaram ao barranco, ela voltou 

canoa, e ele e os huambisas internaram-se na mata novamente e, de repente, por cima das lupunas, subiu uma coluna de fumaa 
cor de chumbo, e comeou a cheirar a 
queimado. Ele e os huambisas voltaram correndo, pularam para a canoa, atravessaram a laguna e acamparam na outra margem, 
junto  boca do canal. E ele, quando acabar 
a queimada ficar uma clareira grande, Lalita, que no chova, e ela, que no haja vento, Fusha, que o fogo no venha at 
aqui e pegue na mata. No choveu e o fogo 
durou quase dois dias, e eles permaneceram no mesmo lugar, recebendo a fumaa espessa, fedorenta, das lupunas e catahuas, 
as cinzas que iam e vinham pelo ar, olhando 
as chamas azuis, pontiagudas, as chispas que se estilhaavam crepitando na laguna, ouvindo como rangia a ilha. E ele, est 
pronto, queimaram-se os diabos, e ela, 
no os provoque, so suas crenas, e ele, no me entendem, e alm disso esto rindo, curei-os para sempre do medo de lupunas. 
O fogo ia limpando a ilha, despovoando-a: 
de dentro da fumaceira saam bandos de pssaros e nas margens apareciam barrigudos, micos, sagis, preguias que chiando 
saltavam para os troncos de rvores e ramos 
flutuantes; os huambisas entravam na gua, pegavam-nos aos montes, abriam suas cabeas a machete, e ele, que banquete esto 
tendo, Lalita, j passou a raiva deles, 
e ela, eu tambm quero comer, mesmo que seja carne de macaco, estou com fome. E quando voltaram  ilha havia muitas clareiras, 
mas o barranco continuava intacto 
e em muitos lugares sobreviveram redutos de mato cerrado. Comearam o desmatamento, todo dia lanavam  laguna troncos mortos, 
aves carbonizadas, cobras, e ele, 
me diga se est contente, e ela, estou, Fusha, e ele, voc acredita em mim? e ela, sim. E logo ficou um setor de terra 
plana e os huambisas cortaram rvores e uniram 
as lascas de madeira com cips, e ele, olhe, Lalita,  como uma casa, e ela, nem tanto, mas melhor que dormir na mata. E 
na manh seguinte, quando despertaram, 
um xexu fazia seu ninho diante da cabana, suas plumas negras e amarelas reluziam entre a folhagem, e ele, bom sinal, Lalita, 
esse pssaro  socivel, se veio  
porque sabe que aqui ficaremos.

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E nesse mesmo sbado uns vizinhos recuperaram o cadver e, envolto em um lenol, levaram-no ao rancho da lavadeira. O velrio 
reuniu muitos homens e mulheres da
Gallinacera na casa de Juana Baura, e ela chorou toda a noite, beijou muitas vezes as mos, os olhos, os ps da morta. Ao 
amanhecer, umas mulheres tiraram Juana 
do quarto, e o Padre Garcia ajudou a instalar o corpo no caixo comprado graas a uma coleta popular. Naquele domingo, o 
Padre Garcia oficiou a missa na capela 
do mercado, e encabeou o cortejo fnebre, e do cemitrio voltou  Gallinacera com Juana Baura: os moradores viram quando 
ele atravessou a Plaza de Armas rodeado 
de mulheres, plido, os olhos fulminantes, os punhos crispados. Mendigos, engraxates, vagabundos somaram-se ao cortejo, 
que, ao chegar ao mercado, ocupava toda a 
largura da rua. L, trepado em um caixote, o Padre Garcia comeou a vociferar e, pelos arredores, abriam-se portas, as vendedoras 
do mercado abandonavam suas bancas 
para ouvi-lo, e insultaram e apedrejaram dois guardas municipais que tentavam evacuar o lugar. Os gritos do Padre Garcia 
eram ouvidos no Camal e, no La Estrella 
del Norte, os forasteiros ficaram calados, surpresos: de onde vinha aquele rumor, para onde iam tantas mulheres? Secreto, 
feminino, pertinaz, corria um rumor pela 
cidade, e, enquanto isso, sob um cu de turvos urubus, o Padre Garcia continuava falando. A cada vez que se interrompia, 
ouvia-se Juana Baura gritar, ajoelhada a 
seus ps. Ento, as mulheres comearam a se agitar surdamente, a murmurar. E quando chegaram os guardas com seus paus da 
lei, um mar encapelado saiu ao seu encontro, 
o Padre Garcia  frente, iracundo, um crucifixo na mo direita, e quando quiseram fechar o caminho s mulheres, houve uma 
chuva de pedras, ameaas: os guardas retrocediam, 
refugiavam-se nas casas, outros caam, e o mar investia contra eles, afundava-os, deixava-os para trs. Assim entraram as 
enfurecidas ondas na Plaza de Armas, rugidoras, 
enfurecidas, armadas de paus e de pedras e,  sua passagem, caam as trancas das portas, fechavam-se os postigos, os grados 
precipitavam-se para a catedral e os 
forasteiros, abrigados nos prticos, presenciavam atnitos o avano da torrente. O Padre Garcia tinha lutado com os guardas? 
Eles o tinham agredido? Sua batina 
rasgada mostrava um peito magro e leitoso, uns braos compridos e ossudos. Levava o crucifixo sempre no alto e falava com 
voz rouca. Assim passou a torrente por
La Estrella del Norte, jogou pedras e os vidros da cantina voaram em
pedaos,
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e quando as mulheres entraram no Viejo Puente seu esqueleto rangeu, bamboleou como um bbado e, ao franquear o Rio Bar e 
pisar Castilla, muitas mulheres
j tinham tochas nas mos, corriam, e das bocas das chichertas saa mais gente, mais rugidos, mais tochas. Chegaram ao areal, 
e cresceu uma poeirada, um gigantesco 
pio, sutil e dourado, e no corao da espiral viam-se rostos de mulheres, punhos, chamas.
Encolhida sob a nvea, ofuscante claridade do meio-dia, portas e janelas fechadas, a Casa Verde parecia uma manso deserta. 
Os muros vegetais cintilavam docemente 
na soalheira, desvaneciam-se nas esquinas com uma espcie de timidez e como um veado ferido, na mansido do local havia 
algo de indefeso, dcil, temeroso, diante 
da multido que se aproximava. Padre Garcia e as mulheres aproximaram-se das portas, a gritaria parou e houve uma sbita 
imobilidade. Mas ento escutaram-se os gritos 
e, assim como as formigas abandonam seus labirintos quando o rio os inunda, surgiram as mulheres, empurrando-se e uivando, 
mal pintadas, seminuas, e a palavra do 
padre elevou-se, troou sobre o mar e, entre as ondas e os balanos, incontveis tentculos alargavam-se, agarravam as mulheres, 
derrubavam-nas e, no cho, batiam 
nelas. Em seguida o Padre Garcia e as mulheres inundaram a Casa Verde, encheram-na em alguns segundos, e do seu interior 
provinha um estrondo de destruio: estalavam 
copos, garrafas, quebravam-se mesas, rasgavam-se lenis, cortinas. Do primeiro andar, do segundo e do torreo, comeou 
um minucioso dilvio domstico. Pelo ar calcinado 
voavam vasos, peniquinhos, pias lascadas e bandejas, pratos, colches estripados, cosmticos e uma salva de vivas saudava 
cada projtil que descrevia uma parbola 
e se cravava no areal. Muitos curiosos, e tambm mulheres, disputavam os objetos e as peas de roupas, e havia encontres, 
disputas, violentssimos dilogos. Em 
meio  desordem, machucadas, sem voz, tremendo ainda, as mulheres levantavam-se, caam umas nos braos das outras, choravam 
e se consolavam. A Casa Verde ardia: 
purpreas, agudas, deslocadas, viam-se as chamas dentro da fumaa cinzenta que ascendia at o cu piurano em lentos redemoinhos. 
A multido comeou a retroceder, 
os gritos foram amainando; pelas portas da Casa Verde, as invasoras e o Padre Garcia abandonaram o local correndo, sacudidos 
pela tosse, chorando por causa da fumaa.
Do parapeito do Viejo Puente, do Malecn, das torres das igrejas,
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dos tetos e sacadas, grupos de pessoas contemplavam o incndio: uma hidra de cabeas encarnadas e celestes crepitando sob 
um toldo enegrecido. S quando
o esbelto torreo desabou, e fazia pouco que, impelidos por uma brisa leve, choviam sobre o rio carves, lascas e cinzas, 
apareceram os guardas e vigilantes municipais. 
Misturaram-se com as mulheres, impotentes e atrasados, confusos e fascinados, como os demais, pelo espetculo do fogo. E 
de repente houve cotoveladas, movimentao, 
mulheres e mendigos sussurravam, e diziam, "Est chegando, vem a".
Vinha pelo Viejo Puente: gallinazas e curiosos voltavam-se para olh-lo, afastavam-se do seu caminho, e ningum o detinha 
e ele avanava, tenso, os cabelos desarrumados, 
a cara suja, incrivelmente espantados os olhos, a boca trmula. Fora visto na vspera, bebendo em um bar mangache, onde 
apareceu ao entardecer, a harpa debaixo do 
brao, choroso e lvido. E l passou a noite cantarolando entre soluos. Os mangaches aproximavam-se dele, "Como foi, Dom 
Anselmo? que aconteceu?  verdade que o 
senhor vivia com Antnia? que a mantinha na Casa Verde? verdade que morreu?" Ele gemia, queixava-se e, por fim, rolou ao 
cho, bbado. Dormiu, e ao acordar pediu 
mais um trago, continuou bebendo, beliscando a harpa, e assim estava quando uma criana entrou no bar: "A Casa Verde, Dom 
Anselmo! Eles a esto queimando! As gallinazas 
e o Padre Garcia, Dom Anselmo!"
No Malecn alguns homens e mulheres saram ao seu encontro, "voc roubou Antnia, voc a matou", e rasgaram sua roupa, e 
quando fugia atiraram pedras nele. S no 
Viejo Puente  que comeou a gritar e a implorar, e toda a gente,  conversa, tem medo de que o linchem, mas ele continuava 
clamando e as assustadas mulheres, com 
a cabea, que sim, que era verdade, que talvez estivesse l dentro. Ele se ajoelhara no areai, suplicava, dava o cu por 
testemunho e, ento, brotou uma espcie 
de mal-estar entre todos, os guardas e os vigilantes interrogavam as gallinazas, surgiam vozes contraditrias, e se fosse 
verdade? que fossem ver, que se mexessem, 
que chamassem o Doutor Zevallos. Enrolados em couros molhados, uns mangaches mergulharam na fumaa e emergiram, instantes 
depois, sufocados, derrotados, no se podia 
entrar, era o inferno l dentro. Homens, mulheres, fustigavam o Padre Garcia, e se fosse verdade? Padre, padre, Deus o castigaria. 
Ele olhava para uns e outros distrado, 
Dom Anselmo debatia-se entre os guardas, queria um couro, ele entraria, que tivessem piedade.
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E quando Anglica Mercedes apareceu e todos comprovaram que era verdade, que estava ali, ilesa, nos braos da cozinheira, 
e viram como o harpista se emocionava, 
agradecia ao
cu, e beijava as mos de Anglica Mercedes, muitas mulheres se enterneceram. Em voz alta lastimavam a criana, consolavam 
o harpista, ou se encolerizavam com o 
Padre Garcia e o censuravam. Estupefata, aliviada, comovida, a multido cercava Dom Anselmo, e ningum, nem as mulheres, 
nem as gallinazas, nem os mangaches olhavam 
mais para a Casa Verde, para a fogueira que a consumia e que agora a pontual chuva de areia comeava a apagar, a devolver 
ao deserto, onde havia, fugazmente, existido.
Os invencveis entraram como sempre: abrindo a porta com um pontap e cantando o hino: eram os invencveis, no sabiam trabalhar, 
s mamar, s jogar, eram os invencveis 
e agora iam foder.
- S posso contar o que ouvi naquela noite, moa disse o harpista -, voc j notou que eu quase no enxergo? Isso me livrou 
da polcia, eles me deixaram tranqilo.
- O leite j est quente - disse a Chunga, do balco. - Me ajude, Selvtica.
A Selvtica levantou-se da mesa dos msicos, foi at o bar e ela e a Chunga trouxeram uma jarra de leite, po, caf em p 
e acar. As luzes do salo ainda estavam 
acesas, mas agora o dia entrava pela janelas, quente, claro.
- A moa no sabe como foi, Chunga - disse o harpista, bebendo o leite aos golinhos. - Josefino no contou a ela.
- Pergunto e muda de conversa - disse a Selvtica.
- Por que  que voc se interessa tanto, ele me diz, no insista que fico com cime.
- Alm de sem-vergonha, hipcrita e cnico - disse a Chunga.
- S havia dois clientes quando eles entraram - disse o Bolas. - Naquela mesa. Um deles era Seminrio.
Os Len e Josefino tinham se instalado no bar e gritavam e brincavam, faziam muitas palhaadas: ns amamos voc, Chunga, 
Chunguita, voc  a nossa rainha, a nossa 
mezinha, Chunga, Chunguita.
- Parem com essas babaquices e consumam, ou vo embora - disse a Chunga. E para a orquestra: - Por que no tocam?
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- No podamos - disse o Bolas. - Os invencveis faziam um barulho dos diabos. A gente via que estavam contentssimos.
-  que naquela noite eles estavam forrados de dinheiro - disse a Chunga.
- Olhe, olhe - o Mono mostrava um leque de notas e lambia os lbios. - Quanto calcula?
- Que avarenta que voc , Chunga, que olhares voc ps no dinheiro - disse Josefino.
- Vai ver que  roubado - replicou a Chunga. Que  que lhes sirvo?
- Deviam estar embriagados - disse a Selvtica. Sempre ficam fazendo bobagens e cantam.
Atradas pelo rudo, trs mulheres apareceram na escada: Sandra, Rita, Maribel. Quando viram os invencveis, porm, pareceram 
desiludidas, abandonaram suas poses 
presumidas e ouviu-se a gigantesca gargalhada da Sandra, eram eles, que logro, mas o Mono abriu os braos para elas, que 
viessem, que pedissem qualquer coisa, e 
mostrou-lhes o dinheiro.
- Sirva alguma coisa tambm para os msicos, Chunga - disse Josefino.
- Rapazes amveis - sorriu o harpista. - Esto sempre nos convidando a beber. Eu conheci o pai de Josefino, moa. Era barqueiro 
e atravessava as reses que vinham 
de Catacaos. Carlos Rojas, um cara muito simptico.
A Selvtica encheu de novo a xcara do harpista e ps acar. Os invencveis sentaram-se  mesa com Sandra, Rita e Maribel 
e recordavam uma partida de pquer que 
jogaram no Reina. O Joven Alejandro tomava seu caf com ar lnguido: eram os invencveis, no sabiam trabalhar, s mamar, 
s jogar, eram os invencveis e agora 
iam foder.
- Ganhamos deles limpamente, Sandra, palavra. A sorte nos ajudava.
- Seqncia real trs vezes seguidas, algum j viu coisa igual?
- Ensinavam a letra para as moas - disse o harpista, com voz risonha e benvola. - E depois vieram para c conosco, para 
que tocssemos seu hino. Eu por mim tocaria, 
mas peam primeiro permisso  Chunga.
- E voc fez sinais concordando, Chunga -- disse o Bolas.
- Estavam consumindo como nunca
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- a Chunga explicou  Selvtica. - Por que no devia fazer a vontade deles?
-  assim que as desgraas comeam s vezes - disse o Joven, com um gesto melanclico. - com uma cano.
- Cantem, para pescarmos a melodia - disse o harpista. - Vamos ver, Joven, Bolas, abram bem os ouvidos.
Enquanto os invencveis cantavam em coro o hino, a Chunga balanava-se em sua cadeira como uma tranqila dona-de-casa, e 
os msicos seguiam o compasso com o p 
e repetiam a letra entre dentes. Depois, todos cantaram em voz alta, com acompanhamento de violo, harpa e pratos.
- Agora acabou - disse Seminrio. - Chega de cantorias e de desrespeitos.
- At ento no se importara com o barulho e estava muito calmo, tranqilo, conversando com um amigo - disse o Bolas.
- Eu vi quando ele se levantou - disse o Joven.
- Estava furioso, pensei que ia se atirar sobre ns.
- No tinha voz de bbado - disse o harpista. Ns o atendemos, calamos, mas ele no se acalmava. Desde que hora estava aqui, 
Chunga?
- Desde cedo. Veio de perto, de sua fazenda, com botas, calas de montar e armado.
- Um touro de homem aquele Seminrio - disse o Joven. - E um olhar cruel. Mas voc  mais forte, mais homem que ele.
- Obrigado, irmo - disse o Bolas.
- Voc  uma exceo, Bolas - disse o Joven. Corpo de boxeador e alminha de ovelha, como diz o maestro.
- No fique assim, Senhor Seminrio - disse o Mono.
- S estamos cantando o nosso hino. Permita que a gente o convide a uma cerveja.
- Mas ele estava com raiva - disse o Bolas. - Tinha sido mordido por alguma coisa e queria briga.
- Ento vocs so os galinhos que criam problemas pelas ruas e praas? - disse Seminrio. - Por que no se metem comigo?
Rita, Sandra e Maribel afastaram-se nas pontas dos ps at o bar. O Joven e o Bolas protegiam com seus corpos o harpista, 
que, sentado no seu banquinho, a expresso 
tranqila, ajustava as claves da harpa. Seminrio continuava, ele tambm era um bomio, bamboleando, e sabia se divertir, 
batendo no peito, mas trabalhava, dobrava 
o lombo na terra, no gostava de vagabundos, corpulento e loquaz debaixo da
lmpada violeta,

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os mortos de fome. os que se fazem de loucos.
- Somos jovens, senhor. No estamos fazendo nada de errado.
-- J sabemos que o senhor  muito forte, mas isso no  razo para insultar a gente.
-  verdade que uma vez levantou um burro'  fora e o atirou sobre o teto de uma casa?  verdade, Senhor Seminrio?
- Eles se rebaixavam tanto?  - disse a Selvtica.
- No pensava isso deles.
- Que medo eles tm de mim - ria Seminrio, aplacado. - Como me puxam o saco.
- Na hora da verdade, os homens sempre se cagam
- disse a Chunga.
- Nem todos, Chunga - protestou o Bolas. - Se ele se metesse comigo, ia ver.
- Estava armado, os invencveis tinham razo de se assustar - sentenciou o Joven, suavemente: - O medo  como o amor, Chunga, 
coisa humana.
- Voc pensa que  um sbio - disse a Chunga. Mas comigo suas filosofias no pegam, se  que ainda no sabe.
- Pena que os rapazes no foram embora naquele momento - disse o harpista.
Seminrio voltara  mesa, e tambm os invencveis, sem as marcas da alegria de um momento atrs: que se embriagasse e veria, 
mas no, andava com revlver, melhor 
agentar a raiva at outro dia, mas por que no queimar sua camioneta? estava ali fora, junto ao Clube Grau.
- Ser melhor sair, deix-lo fechado aqui e meter fogo na Casa Verde - disse Josefino. - Umas duas latas de querosene e 
um fosforozinho chegariam. Como o Padre Garcia 
fez.
- Queimaria como palha seca - disse Jos. - E tambm a favela e at o estdio.
-  melhor queimar toda Piura - disse o Mono.
- Uma fogueira grandssima, que se veja de Chiclayo. Todo o areal ficaria muito escuro.
- E cairiam cinzas at em Lima - disse Jos. - Mas teramos que salvar a Mangachera.
' No original, catacaos: os peruanos costumam chamar o burro, animal, de catacaos, que , tambm, o natural de Catacaos, 
em Piura.
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- Claro, no faltava mais nada - disse o Mono. Encontraramos o jeito.
- Eu tinha uns cinco anos quando houve o incndio
- disse Josefino. - Vocs se lembram de alguma coisa dele?
- No do comeo - disse o Mono. - Fomos no dia seguinte, com umas crianas do bairro, mas os tiras nos correram daqui. Parece 
que os que chegaram primeiro roubaram 
muitas coisas.
- Eu s me lembro do cheiro de queimado - disse Josefino. - E que ainda se via fumaa, e que muitas algarobeiras tinham 
virado carvo.
- Vamos pedir ao velho que nos conte - disse o Mono. - A gente o convida para umas cervejas.
- Mas no era de brincadeira? - disse a Selvtica.
- Ou estavam falando de outro incndio?
- Coisas de piuranos, moa - disse o harpista. No acredite quando eles falarem disso.  pura inveno.
- No est cansado, maestro? - disse o Joven. So quase sete horas, poderamos ir embora.
- No tenho sono ainda - disse Dom Anselmo. Espere at digerir o caf.
Acotovelados no balco, os invencveis tentavam convencer a Chunga: que o deixasse parar um instantinho, que  que custava, 
para conversar um pouco, que a Chunga 
Chunguita no fosse mazinha.
- Todos gostam muito do senhor, Dom Anselmo disse a Selvtica. - Eu tambm, me faz recordar um velhinho da minha terra, 
que se chamava Aquilino.
- To generosos, to simpticos - disse o harpista.
- Me levaram  sua mesa e ofereceram uma cervejinha.
Estava suando. Josefino ps um copo na sua mo, ele o tomou de uma virada e ficou bocejando. Logo, com seu leno colorido, 
secou a testa, as densas sobrancelhas 
brancas
e se assoou.
- Um favor de amigos, velho - disse o Mono. Conte como foi o incndio.
A mo do harpista procurou o copo e, em vez do seu, agarrou o do Mono; esvaziou-o de um gole. De que falavam, qual incndio, 
e voltou a assoar-se.
- Eu era criana e vi as chamas do Malecn. E toda gente correndo com couros e baldes de gua - disse Josefino. - Por que 
no nos conta, harpista? Que  que sente, 
depois de tanto tempo?
195
- No houve nenhum incndio, nenhuma Casa Verde
- afirmava o harpista. - Invenes do povo, rapazes.
- Por que nos goza? - perguntou o Mono. - Coragem, harpista, conte, mesmo que no seja tudo.
Dom Anselmo levou dois dedos  boca e simulou fumar. O Joven deu a ele um cigarro e o Bolas o acendeu. A Chunga apagara 
as luzes do salo e o sol entrava ali abundantemente, 
pelas janelas e fendas. Havia marcas amarelas nas paredes e no cho, o zinco do teto reverberava. Os invencveis insistiam, 
 verdade que umas mulheres se queimaram? 
 verdade que foram as gallinazas que a incendiaram? ele estava l dentro? o Padre Garcia fez aquilo por pura maldade ou 
por causa da religio?  verdade que Dona 
Anglica salvou a Chunguita de morrer queimada?
- Puro boato - assegurava o harpista -, conversas do povo s para fazer o Padre Garcia ficar com raiva. Deveriam deix-lo 
em paz, pobre velho. E agora tenho que 
trabalhar, rapazes, com licena.
Levantou-se e, a passos curtos, as mos adiante, voltou ao lugar da orquestra.
- Esto vendo? Ele se faz de babaca como sempre -- disse Josefino. - Eu sabia que era de propsito.
- Nessa idade o crebro amolece - disse o Mono -, talvez tenha esquecido tudo. Temos que perguntar ao Padre Garcia. Mas 
quem se atreve?
E nisso abriu-se a porta e entrou a ronda.
- Esses sacanas - murmurou a Chunga. - Vinham filar um trago.
- A ronda, quer dizer, o Lituma e mais dois tiras, Selvtica - disse o Bolas. - Apareciam aqui todas as noites.
196



II.



Sob a curva sombra das bananeiras, Bonifcia endireitou-se e olhou para o povoado: homens e mulheres atravessavam correndo 
a Plaza de Santa Maria de Nieva, agitando
as mos muito excitadas em direo ao cais. Inclinou-se de novo sobre os sulcos retilneos da terra, mas, um momento depois, 
voltou a erguer-se: flua gente sem 
cessar, alvoroada. Espiou a cabana dos Nieves; Lalita continuava cantarolando l dentro, uma serpentina de fumaa cinzenta 
escapava por entre as fendas da parede, 
ainda no aparecera no horizonte a lancha do prtico. Bonifcia contornou a cabana, invadiu os matagais da margem, e, com 
gua at os tornozelos, avanou em direo 
ao povoado. As copas das rvores confundiam-se com as nuvens, os troncos, com as lnguas ocre das ribeiras. Tinha comeado 
a cheia, o rio arrastava correntes parasitas, 
de guas mais avermelhadas ou mais escuras, e tambm arbustos, flores decepadas, algas e .formas que podiam ser pedregulho, 
excremento ou ratos mortos. Olhando para 
todos os lados, devagar, cautelosamente, como um rastreador, percorreu um bosquezinho de juncos e, ao passar um cotovelo, 
viu o cais: todos estavam imveis entre 
as estacas e as canoas e havia uma balsa parada a alguns metros do molhe flutuante. O crepsculo azulava as tnicas e os 
rostos dos aguarunas, e tambm havia homens, 
as calas levantadas at os joelhos, o torso nu. Podia ver a corda que cedia ou se esticava com o vaivm da balsa do recm-chegado, 
a estaca da proa e, muito ntida, 
a choa armada na popa. Uma revoada de garas sobrevoou o bosquezinho, e Bonifcia ouviu, muito prximo, o bater de asas, 
levantou a cabea e viu os pescoos finos,
alvos,
197
os corpos rosados afastando-se. Ento, continuou caminhando, mas muito abaixada e agora no pela margem mas metida no mato, 
arranhando os braos, o rosto
e as pernas com o fio das folhas, os espinhos e os speros cips, entre zumbidos, sentindo viscosas carcias nos ps. Quase 
onde terminava o mato, a pouca distncia 
da gente aglomerada, parou e se ps de ccoras: a vegetao fechou-se sobre ela e agora podia v-lo atravs de uma complicada 
geometria verde de losangos, cubos 
e ngulos inverossmeis. O velho no tinha nenhuma pressa; ia e vinha pela balsa calmamente, acomodando com minuciosa exatido 
os caixotes e a mercadoria diante 
dos espectadores que cochichavam e faziam gestos de impacincia. O velho entrava na choa e voltava com uma mercadoria, 
uns sapatos, uma enfiada de colares e miangas 
e, srio, cuidadoso, cheio de manias, ordenava-as sobre os caixotes. Era muito magro, quando o vento alargava sua camisa 
parecia um corcunda; em seguida, porm, 
o peito e as costas afundavam quase at se tocar e revelavam sua verdadeira silhueta, fina, estreitssima. Vestia umas calas 
curtas e Bonifcia viu suas pernas, 
magras como os braos, seu rosto de pele queimada, quase preta, e a fantstica, sedosa cabeleira branca, ondulada sobre 
os ombros. O velho ainda ficou por um bom 
tempo trazendo utenslios domsticos e enfeites multicoloridos, empilhando cerimoniosamente fazendas estampadas. O cochichar 
crescia cada vez que o velho tirava 
alguma coisa da choa, e Bonifcia podia ver a admirao das pags e das crists, seus fascinados, cobiosos olhares s 
bugigangas, travessas, espelhinhos, pulseiras 
e talcos, e os olhos dos homens fixos nas garrafas alinhadas no canto da balsa, junto a latas de conservas, cintures e 
machetes. O velho avaliou seu trabalho por 
um instante, voltou-se para aquela gente e todos correram, em tumulto, chapinhando  volta da embarcao. Ele sacudiu a 
melena branca e os conteve com as mos. 
Brandindo sua vara como uma lana, obrigou-os a retroceder, a subir em ordem. A primeira foi a mulher do Paredes. Gorda, 
desajeitada, no conseguia subir a bordo, 
o velho teve de ajud-la e ela esteve mexendo em tudo, cheirando os frascos, manuseando nervosamente as fazendas e sabonetes, 
e toda a gente murmurou e protestou 
at que ela regressou ao cais, gua pela cintura, segurando no alto um vestido estampado, um colar, uns sapatos brancos. 
Assim foram subindo  balsa, uma aps outra, 
as mulheres. Algumas eram lentas e desconfiadas ao escolher, outras discutiam o preo interminavelmente
198
e havia quem chorasse e ameaasse pedindo abatimento. Todas, entretanto, voltavam da balsa com alguma coisa nas mos, alguns 
cristos com sacas repletas de provises,
e algumas pags com apenas uma bolsinha de contas. Quando o cais ficou deserto, anoitecia: Bonifcia levantou-se. O Nieva 
estava em plena cheia, ondinhas crespas 
e espumosas corriam sob a ramagem e morriam junto a seus joelhos. Tinha o corpo manchado de lama, folhas presas aos cabelos 
e ao vestido. O velho guardava a mercadoria, 
metdico e preciso dispunha os caixotes na proa e, sobre Santa Maria de Nieva, o cu era uma constelao de alcatro e olhos 
de mocho, mas do outro lado do Maran, 
sobre a cidadela sombria do horizonte, uma franja azul ainda resistia  noite e a lua despontava atrs dos prdios da misso. 
O corpo do velho era uma esqulida 
mancha, na penumbra, sua cabeleira prateada brilhava como um peixe. Bonifcia olhou para o povoado: havia luz na cabana 
do governo, na casa de Paredes, e umas lamparinas 
tremeluziam sobre as colinas, nas janelas da residncia. A escurido engolia a lentos bocados as cabanas da praa, as capironas, 
o caminho escarpado. Bonifcia abandonou 
seu refgio e correu agachada at o cais. A lama da margem estava macia e quente, a gua do remanso parecia imvel, e ela 
sentiu-a subir pelo corpo, e s a uns metros 
da ribeira comeava a corrente, uma moderada fora obstinada que a obrigou a bracejar para no se desviar. A gua chegava 
ao seu queixo, quando tocou a balsa, viu 
as calas brancas do velho, a roda de sua cabeleira: era tarde, que voltasse amanh. Bonifcia alou-se um pouco sobre a 
borda, apoiou nela os cotovelos, e o velho, 
inclinado para o rio, examinou-a: falava cristo? entendia?
- Sim, Dom Aquilino - disse Bonifcia. - Boa noite.
-  hora de dormir -- disse o velho. - J fechou a loja, volte amanh.
- Seja bonzinho - disse Bonifcia. - Me deixa subir um pouquinho?
- Voc tirou dinheiro do seu marido e por isso vem a estas horas - disse o velho. - E se ele reclama amanh?
Cuspiu na gua e riu. Estava de ccoras, seus cabelos caam espumosos e livres em volta do rosto, e Bonifcia via sua testa 
escura, limpa de rugas, seus olhos parecendo 
dois animaizinhos ardentes.
- Que me importa - disse o velho -, eu s fao meu negcio. Ande, suba.
199
Estendeu a mo; Bonifcia, porm, j subira, elasticamente, e sobre a coberta torcia o vestido e esfregava os braos. Colares? 
Sapatos? Quanto dinheiro tinha? Bonifcia
comeou a sorrir com timidez, no precisava de um trabalhinho, Dom Aquilino? e seus olhos vigiavam a boca do velho com ansiedade, 
que lhe fizessem a comida enquanto 
ficava em Santa Maria de Nieva? que fossem colher frutas para ele? no precisava que limpassem sua balsa? O velho se aproximou 
dela, de onde a conhecia? e a examinou 
de cima a baixo: j a vira antes, no  verdade?
- Gostaria de uma fazendinha - disse Bonifcia, e mordeu os lbios. Apontou para a choa e, por um instante, seus olhos 
se iluminaram. - Aquela amarela que guardou 
por ltimo. Pago-a com um trabalhinho, o senhor me diz qual, e eu fao.
- Nada de trabalhinhos - disse o velho. - No tem dinheiro?
-  para um vestido - sussurrou Bonifcia, suave e tenaz. - Quer frutas? Prefere que lhe salgue um peixe? E rezarei para 
que no acontea nada em suas viagens, Dom 
Aquilino.
- No preciso de rezas - disse o velho; olhou para ela muito de perto e logo estalou os dedos. - Ah, j a reconheci.
- vou me casar, no seja ruim - disse Bonifcia. com essa fazendinha farei um vestido, eu sei costurar.
- Por que no est vestida de freira? - disse Dom Aquilino.
- J no vivo com as madres - disse Bonifcia. Me mandaram embora da misso e agora vou me casar. Me d aquela fazendinha; 
eu lhe fao um trabalhinho e, na prxima 
vez que vier, eu lhe pago com dinheiro, Dom Aquilino.
O velho ps a mo no ombro de Bonifcia, fez com que retrocedesse para que o claro da lua batesse no seu rosto, examinou 
minuciosamente os seus ardentes olhos 
verdes, o mido corpo que pingava: j era mulher. As madres a mandaram embora porque se complicou com algum cristo? com 
esse  que ia se casar? No, Dom Aquilino, 
tinha se complicado depois, e ningum sabia no povoado onde estava, e onde estava? Os Nieves a receberam; afinal, podia 
fazer um trabalhinho para ele?
- Voc est vivendo com Adrin e Lalita? - perguntou Dom Aquilino.
200
- Eles me apresentaram ao homem que vai ser meu marido - disse Bonifcia. - Tm sido muito bons para mim, como se fossem 
meus pais.
- Eu vou agora  casa dos Nieves - disse o velho.
- Venha comigo.
- E a fazendinha? - disse Bonifcia. -- No se faa de rogado, Dom Aquilino.
O velho desceu  gua sem rudo, Bonifcia viu a cabeleira flutuar at o cais, viu-a voltar. Dom Aquilino subiu com a corda 
ao ombro, enrolou-a e com a vara levou 
a balsa rio acima, pegado  margem. Bonifcia levantou a outra vara e, de p na borda oposta, imitou o velho, que afundava 
e puxava a sua com destreza, sem esforo. 
 altura do matinho de juncos a corrente era mais forte e Dom Aquilino teve de manobrar para que a embarcao no se afastasse 
da margem.
- Dom Adrin saiu cedo para pescar, mas deve ter voltado - disse Bonifcia. - Eu o convidarei para o casamento, Dom Aquilino, 
mas me dar a fazendinha, no? vou 
me casar com o sargento, o senhor o conhece?
- com um tira? Ento no dou - disse o velho.
- No fale assim, ele  um cristo de bom corao disse Bonifcia. - Pergunte aos Nieves, eles so amigos do sargento.
Lamparinas brilhavam na cabana do prtico e percebiam-se silhuetas junto ao parapeito. A balsa atracou diante da escadinha, 
vieram vozes de boas-vindas, e Adrin 
Nieves entrou na gua para pegar a corda e amarr-la a um mouro. Subiu logo na balsa e ele e Dom Aquilino abraaram-se, 
e depois o velho subiu ao terrao e Bonifcia 
viu-o pegar Lalita pela cintura e oferecer-lhe o rosto, e viu que ela o beijava muitas vezes na testa, fizera boa viagem? 
nas faces, e os trs meninos prenderam-se 
s pernas do velho, gritando, e ele acariciava suas cabeas: algumas chuvinhas, sim, vieram antes do tempo as bandidas.
- Ento voc andava por a? - perguntou Lalita. Ns procuramos voc por toda parte, Bonifcia. Direi ao sargento que voc 
foi ao povoado e viu homens.
- Ningum me viu - disse Bonifcia. - S Dom Aquilino.
- No importa, ns diremos para que ele fique com cimes - riu Lalita.
- Foi ver as mercadorias - disse o velho; tinha posto no colo o menor dos meninos e agora os dois se
despenteavam os cabelos.
201
- Estou cansado, fizeram-me trabalhar o dia todo.
- vou lhe servir um traguinho, enquanto fica pronta a comida - disse o prtico.
Lalita trouxe uma cadeira para Dom Aquilino, voltou ao interior da cabana, ouviu-se o crepitar do braseiro e comeou a cheirar 
a fritura. Os meninos subiam aos joelhos 
do velho, que fazia carinhos neles enquanto brindava com Adrin Nieves. Tinham acabado a garrafa quando chegou Lalita, secando 
as mos na saia.
- Sua cabea  to linda - disse, acariciando os cabelos de Dom Aquilino. - Cada vez mais branca, mais suavezinha.
- Quer fazer cime a seu marido tambm? - perguntou o velho.
A comida logo ficaria pronta, Dom Aquilino, preparara coisas que lhe agradariam, e o velho sacudia a cabea tratando de 
se livrar das mos de Lalita: se no o deixasse 
em paz, cortaria os cabelos. Os meninos estavam perfilados diante dele, olhavam para ele agora mudos e com os olhos inquietos.
- J sei o que esperam - disse o velho. - No me esqueo, h presentes para todos. Para voc, uma roupa de homem, Aquilino.
Os olhos rasgados do maiorzinho brilharam, e Bonifcia estava apoiada no parapeito. Dali viu o velho levantar-se, descer 
a escadinha, retornar ao terrao com pacotes, 
que os meninos arrebataram de suas mos, e o viu, em seguida, aproximar-se de Adrin Nieves. Ficaram conversando em voz 
baixa e, de quando em quando, Dom Aquilino 
olhava de vis para ela.
- Voc tinha razo - disse o velho. - Adrin diz que o sargento  um bom cristo. Ande, pegue a fazendinha,  presente de 
casamento.
Bonifcia quis beijar a mo de Dom Aquilino, que a retirou com um gesto de aborrecimento. E enquanto voltava  balsa, remexia 
entre os caixotes e tirava a fazenda, 
ouvia o velho e o prtico sussurrando misteriosamente, e via as duas caras juntas, falando e falando. Subiu ao terrao e 
eles se calaram. Agora a noite cheirava 
a peixe frito e uma brisa veloz estremecia a mata.
- Amanh vai chover - disse o velho, cheirando o ar. - Pssimo para o negcio.
- J devem estar na ilha - disse Lalita mais tarde,
202
enquanto comiam. - Partiram faz mais de dez dias. Adrin lhe contou?
- Dom Aquilino encontrou-os no caminho -- disse o prtico Nieves. -- Alm dos guardas, iam alguns soldados de Borja. Era 
verdade o que o sargento dissera.
Bonifcia viu que o velho olhava para ela de vis, sem deixar de mastigar, parecendo intranqilo. Um momento depois, sorria 
de novo e contava histrias de suas viagens.
Da primeira vez que saram em expedio, regressaram aps quinze dias. Ela estava no barranco, o sol avermelhava a laguna 
e, de repente, apareceram  sada do canal: 
uma, duas, trs canoas. Lalita levantou-se de um pulo, era preciso esconder-se, mas os reconheceu: na primeira, Fusha, 
na segunda, Pantacha, na terceira, huambisas. 
Por que voltaram to depressa, se ele falou um ms? Desceu correndo at o cais, e Fusha, Aquilino chegou, Lalita? e ela, 
ainda no, e ele, que o velho v  puta 
que o pariu. S traziam uns poucos couros de lagarto, Fusha estava furioso, vamos morrer de fome, Lalita. Os huambisas 
riam enquanto descarregavam, suas mulheres 
revoluteavam entre eles, loquazes, grunhidoras, e Fusha, olhe como esto contentes, esses cachorros, chegamos ao povoado 
e os shapras no estavam, e esses caras 
queimaram tudo deles, cortaram a cabea de um cachorro, nada, pura perda, viagem intil, nenhuma bola de caucho, s esses 
couros que no valem nada, e estes caras 
felizes. Pantacha estava de cuecas, coando as axilas,  preciso ir mais para dentro, patro, a selva  grande e est cheia 
de riquezas, e Fusha, burro, para ir 
mais longe precisamos de um prtico. Foram at a cabana, comeram bananas e mandioca frita. Fusha falava o tempo todo de 
Dom Aquilino, que ter acontecido ao velho, 
nunca me falhou at agora, e Lalita, choveu muito estes dias, deve ter-se abrigado em algum lugar para no molhar o que 
encomendamos. Pantacha, deitado na rede, 
coava a cabea, as pernas, o peito, e se sua lancha afundou nos pongos, patro? e Fusha, ento estamos fodidos, no sei 
o que faremos. E Lalita, no se assuste 
tanto, os huambisas semearam toda a ilha, fizeram at cercados, e Fusha, pura merda, isso no d para nada, e depois, os 
selvagens podem viver de mandioca, no 
um cristo, esperaremos dois dias, e se Aquilino no chegar terei de fazer alguma coisa. Um instante depois Pantacha fechou 
os olhos e comeou a roncar, e Fusha
sacudiu-o,
203
que os huambisas estendam os couros antes que se embriaguem, e Pantacha, primeiro uma sestinha, patro, ando modo de tanto 
remar, e Fusha, burro, voc
no entende? me deixe s com minha mulher. Pantacha, a boca aberta, quem me dera fosse como o senhor, que tem mulher de 
verdade, patro, os olhos desconsolados, 
faz anos que no sei o que  uma branca, e Fusha, fora, ande, v embora. Pantacha se foi resmungando e Fusha, pronto, 
agora, vai sonhar, tire logo a roupa, Lalita, 
que est esperando, ela, estou de regras, e ele, que importncia tem isso? E ao entardecer, quando Fusha acordou, foram 
ao povoado, que cheirava a masato, os huambisas 
caam de bbados e Pantacha no estava em parte alguma. Encontraram-no no outro extremo da ilha, levara sua esteira para 
a margem da laguna, e Fusha, eu no disse? 
est sonhando tranqilo. Falava entre dentes, a cara escondida nas mos, o fogo continuava ardendo sob a panelinha repleta 
de ervas. Uns besouros caminhavam por 
suas pernas, e Lalita, ele nem sente. Fusha apagou o fogo, com um pontap atirou a panelinha na gua, vamos ver se o acordamos, 
e os dois o sacudiram, beliscaram, 
esmurraram, e ele, entre dentes, era cusquenho' por casualidade, sua alma nasceu no Ucayali, patro, e Fusha, voc est 
ouvindo? Ela, estou ouvindo, parece louco, 
e Pantacha, o corao estava triste. Fusha sacudia-o, chutava-o, serrano de merda, isso no  hora de sonhar, ele est 
no outro mundo, Fusha. E ele, entre dentes, 
vinte anos no Ucayali, patro, se encheu de peixe, tinha o corpo duro como a juara, nem os mosquitos furam. Ele esperava 
as bolhinhas, os paiches esto saindo para 
tomar ar, passe o arpo, Andrs, duro, faa fora, fure-o, eu o amarro, patro, adormecia os paiches com a primeira pazada, 
e a canoa virou no Tamaya, ele escapou 
e Andrs no escapou, voc se afogou, irmo, as sereias arrastaram voc para o fundo, agora voc ser marido delas, por 
que  que voc morreu,
charapita' Andrs?
Sentaram-se para esperar que despertasse de todo, e Fusha, tenho tempo, no quero perder este caboclo,  sonhador mas serve, 
e Lalita, por que anda sempre com 
essas infuses? e Fusha, para no se sentir s. Baratas e besouros passeavam pela esteira e por seu corpo; e ele, por que 
virar mateiro, patro, coisa ruim a vida 
na mata,
' Natural de Cuzco, departamento ao sul do Peru.
' Tartaruguinha. Aplicado a, em tom carinhoso, ao nascido no
departamento de Loreto.
204
eram preferveis a gua e os paiches. Eu sei o que so as teras, Pantacha, essa tremedeira, voc vem comigo, eu pago mais, 
tem cigarros, convido voc a um trago,
voc
 meu homem, me leve at os cedros, pau-rosa, me arranje habilitados', madeira de balsa, e ele ia com eles, patro, quanto 
me adianta, e queria ter uma mulher, 
filhos, viver em Iquitos como os cristos. E de repente Fusha, Pantachita, que aconteceu no Aguayta? conte-me que sou 
seu amigo. E Pantacha abriu os olhos e fechou-os, 
estavam vermelhos como traseiro de macaco e, entre dentes, aquele rio levava sangue, patro, e Fusha, sangue de quem, caboclo? 
e ele, quente, espesso ocmo borracha 
espirrando da seringueira, e tambm os canais, as lagunas dali, uma verdadeira ferida, patro, acredite se quiser, e Fusha, 
claro que acredito, caboclo, mas de 
quem era tanto sangue quente? e Lalita, deixe-o, Fusha, no lhe pergunte nada, est sofrendo, e Fusha, cale-se, puta, 
ande, Pantachita, quem sangrava, e ele entre 
dentes, o vigarista do Bkovic, aquele iugoslavo que os enganou, pior que o Diabo, patro, e Fusha, por que voc o matou, 
Pantacha? e como, caboclo, com qu? e 
ele, no queria pagar, no h bastante cedro, vamos mais para dentro, e puxava a winchester, e tambm surrou um carregador 
que lhe roubou uma garrafa. E Fusha, 
voc deu um tiro nele, caboclo? e ele, com meu machete, patro, seu brao ficara dormente de tanto dar nele, e comeou a 
espernear e chorar, e Lalita, veja como 
ficou, Fusha, est furioso, e Fusha, arranquei dele um segredo, agora j sei do que andava fugindo quando Aquilino o encontrou. 
Voltaram a sentar-se junto  esteira, 
esperaram, ele se acalmou e acabou por acordar. Levantou tropeando, coando-se com fora, patro, no se zangue, e Fusha, 
os cozidinhos vo pr voc louco, e 
um dia o mandava embora a pontaps, e Pantacha, no tinha ningum, sua vida era triste, patro, o senhor tem a sua mulher, 
e os huambisas tambm, e at os animais, 
mas ele estava s, que no se zangasse, patro, a senhora tambm, patroa.
Esperaram mais dois dias, Aquilino no chegava, os huambisas foram at o Santiago para ver e voltaram sem notcias. Ento 
buscaram um lugar para o tanque, e
Pantacha,
' Habilitado , especialmente, o peo rural, ao qual se adiantou dinheiro por conta de trabalho ou produo; no Peru ,
tambm, o homem habilitado a comprar a produo
dos selvagens; um intermedirio entre o patro e o selvagem.
205
do outro lado do cais, patro, o barranco  mais inclinado e assim a gua das lupunas jorrar em cima, as cabeas dos huambisas
fazem que sim, e Fusha, est
bem, vamos faz-lo a. Os homens derrubaram as rvores, as mulheres capinavam, e quando surgiu a clareira os huambisas fizeram 
estacas, apontaram-nas e as cravaram
em crculo. A terra era negra na superfcie, vermelha embaixo, e as mulheres recolhiam-na em suas tnicas, atiravam-na na 
laguna, enquanto os homens cavavam o poo.
Logo choveu e em poucos dias o tanque ficou cheio, pronto para as tartarugas. Saram ao amanhecer, o canal andava cheio, 
as razes e os cips vinham ao encontro
deles para arranh-los, e no Santiago Lalita tremeu, teve febres. Viajaram dois dias, Fusha, at quando, e os huambisas 
apontavam para a frente com os dedos. Por
fim, um banco de areia, e Fusha, dizem que  ali, tomara, e atracaram, esconderam-se entre as rvores, e Fusha, no se 
mexa, no respire, se a vem no viro,
e Lalita, tenho enjos, acho que estou grvida, Fusha, e ele, porra, cale-se. Os huambisas tinham-se convertido em plantas, 
imveis entre as ramas brilhavam seus
olhos, e assim escureceu, comearam a cantar os grilos, a coaxar as rs e um sapo gordssimo subiu ao p de Lalita, que 
vontade de esmag-lo, suas remelas, sua pana
esbranquiada, e ele, no se mexa, j saiu a lua, e ela, no posso continuar como morta, Fusha, tenho vontade de chorar 
e gritar, A noite estava clara, tbia, corria
uma brisa leve e Fusha, eles nos enganaram, no se v nenhuma, esses cachorros, e Pantacha, no fale, patro, no est 
vendo? esto saindo. com as ondinhas do
rio chegavam como rodelas, escuras, grandes, ficavam paradas, e logo andavam, avanavam devagarzinho e suas carapaas acendiam-se 
com luzes douradas, duas, quatro,
seis, aproximando-se, arrastando-se sobre a areia, as cabeotas para fora, rugosas, balanando-se, estaro nos vendo, farejando? 
e algumas j escavavam para fazer
seus ninhos, outras saam da gua. E ento, silenciosamente, surgiram de entre as rvores rpidas silhuetas bronzeadas, 
e Fusha, vamos, corra, Lalita, e quando
chegaram  praia, Pantacha, veja, patro, mordem, quase me tiram um dedo, as fmeas so as mais ferozes. Os huambisas tinham 
virado muitas e grunhiam, contentes.
Tombadas, a cabea recolhida, as tartarugas mexiam as patas, e Fusha, conte, ela, so oito, e os homens abriam buracos 
nas suas carapaas, enfiavam-nas em cips,
e Pantacha, vamos comer uma, patro, a espera lhe dera fome. A dormiram e no dia seguinte viajaram de novo e,  noite, 
outra
praiazinha,
206
cinco tartarugas, outro colar, e dormiram, viajaram, e Fusha ainda bem que  poca da desova, e Pantacha, o que fazemos 
 proibido, patro? e Fusha, passava
a vida fazendo coisas proibidas, caboclo. A volta foi muito lenta, as canoas iam de sulcada rebocando os colares, e as tartarugas 
resistiam, freavam e Fusha, que 
esto fazendo, cachorros? no batam nelas, vo mat-las, e Lalita, voc me ouviu? olhe, estou com nsia de vmito, Fusha, 
estou esperando um filho, e ele, voc 
sempre se lembra das piores coisas. No canal, as tartarugas enganchavam-se nas razes do fundo e a cada momento tinham de 
parar. Os huambisas saltavam  gua, eram 
mordidos pelas tartarugas e subiam  canoa rugindo. Ao entrar na laguna viram a lancha e Dom Aquilino no cais, saudando 
com o leno. Trazia conservas, panelas, 
machetes, anis, e Fusha, velho querido, pensei que tinha se afogado, e ele, encontrara uma lancha cheia de soldados e os 
acompanhara para despistar. E Fusha, soldados? 
e Aquilino, houve um problema em Urakusa, os aguarunas bateram num cabo, parecia, e assassinaram um prtico, o governador 
de Santa Maria de Nieva ia com eles para 
tomar uma satisfao, arrancariam suas almas se no fugissem. Os huambisas puseram as tartarugas no tanque e as alimentaram 
com ervas, cascas, formigas, e Fusha, 
quer dizer que o cachorro do Retegui anda por aqui? e Aquilino, os soldados queriam que ele lhes vendesse as conservas, 
teve que engan-los, e Fusha, no diziam 
que esse cachorro do Retegui voltava a Iquitos e deixava o governo? e Aquilino, sim, diz que depois de resolver esse problema 
vai embora, e Lalita, que bom que 
chegou, Dom Aquilino, no me agradava nada isso de comer tartaruga o inverno todinho.
E assim Dom Anselmo virou mangache. Mas no da noite para o dia, como um homem que escolhe um lugar, faz sua casa e se instala; 
foi lento, imperceptvel. No comeo, 
aparecia nas chicheras, a harpa debaixo do brao e os msicos (quase todos tinham tocado para ele alguma vez) aceitavam-no 
como acompanhante. O povo gostava de 
ouvi-lo, aplaudia-o. E as donas das chicheras, que o estimavam, ofereciam-lhe comida e bebida e, quando estava bbado, 
uma esteira, um cobertor e um canto para 
dormir. Nunca era visto por Castilla, nem atravessava o Viejo Puente, como se estivesse decidido a viver distante das lembranas 
do areal. Nem sequer freqentava
os bairros prximos ao rio,
207
a Gallinacera, o Camal, s a Mangachera: entre seu passado e ele se interpunha a cidade. E os mangaches o adotaram, a ele, 
e  hermtica Chunga, que,
encolhida em uma esquina, o queixo nos joelhos, olhava estranhamente o vazio enquanto Dom Anselmo tocava ou dormia. Os mangaches 
falavam de Dom Anselmo, pessoalmente, 
porm, tratavam-no de harpista, de velho. Porque desde o incndio havia envelhecido: seus ombros desmoronaram, afundou-se 
o peito, brotaram gretas em sua pele, inchou-lhe 
o ventre, as pernas se curvaram e ele ficou sujo, descuidado. Ainda arrastava as botas do seu bom tempo, poeirentas, muito 
usadas, as calas em fiapos, a camisa 
sem um boto, tinha o chapu esburacado e as unhas compridas, negras, os olhos cheios de estrias e de remelas. Sua voz enrouqueceu, 
suas maneiras se tornaram relaxadas. 
Logo no incio, alguns grados o contrataram para tocar em seus aniversrios, batizados e casamentos; com o dinheiro ganho 
assim, convenceu Patrocnio Naya a que 
os alojasse em sua casa e lhes desse de comer uma vez por dia, a ele e  Chunga, que comeava a falar. Mas andava sempre 
to maltrapilho e to embriagado que os 
brancos deixaram de cham-lo, e passou a ganhar a vida de qualquer maneira, ajudando numa mudana, carregando volumes ou 
limpando portas. Aparecia nas chicheras 
ao escurecer, de repente, arrastando a Chunga pela mo, na outra, a harpa. Era uma personagem popular na Mangachera, amigo 
de todos e de ningum, um solitrio que 
tirava o chapu para cumprimentar meio mundo, mas mal trocava palavras com os outros, e a harpa, a filha e o lcool pareciam 
ocupar toda a sua vida. De seus antigos 
costumes, s o dio aos urubus perdurou: via um e buscava pedras, apedrejava-o e o insultava. Bebia muito, mas era um bbado 
discreto, jamais brigo, nada barulhento. 
Via-se que estava bbado por seu andar, no ziguezagueante nem desajeitado, mas cerimonioso: as pernas abertas, os braos 
tesos, o rosto grave, os olhos fixos no 
horizonte.
Seu sistema de vida era simples. Ao meio-dia abandonava a choa de Patrocnio Naya e, s vezes levando a Chunga pela mo, 
s vezes s, saa  rua parecendo ter pressa. 
Percorria o labirinto mangache a passo rpido, ia e vinha pelos tortuosos, oblquos caminhos, e assim subia at a fronteira 
sul, o areal que se prolonga at Sullana, 
ou descia at os umbrais da cidade, aquela fileira de algarobeiras que guarnece um canal. Ia, retornava, voltava, fazendo 
breves paradas nas chicheras. Sem o menor 
constrangimento entrava
208
e, quieto, mudo, srio, esperava que algum o convidasse a uma chicha clarinha, um copo de pisco: agradecia com a cabea 
e logo saa, e prosseguia em sua caminhada
ou passeio ou penitncia, sempre no mesmo ritmo febril at que os mangaches o viam parar em algum lugar, deixar-se cair 
 sombra de um beiral, acomodar-se na areia, 
tapar a cara com o chapu, e permanecer assim horas, impvido diante das galinhas e cabras, que farejavam seu corpo, roavam 
suas penas e barbas, cagavam nele. 
E no estranhavam quando ele parava gente na rua para pedir um cigarro, e quando negavam, no se enfurecia: continuava seu 
caminho, altivo, solene.  noite, regressava 
 casa de Patrocnio Naya em busca da harpa, e voltava s chicheras, mas dessa vez para tocar. Demorava horas afinando 
as cordas, repassando-as com delicadeza 
e, quando estava muito bbado, as mos no obedeciam e a harpa desafinava, resmungava, seus olhos se entristeciam.
s vezes ia ao cemitrio e ali foi visto furioso, pela ltima vez, num 2 de novembro, quando os guardas municipais o atacaram 
na porta. Insultou-os, lutou com eles, 
atirou pedras e, afinal, uns vizinhos convenceram os guardas a que o deixassem entrar. E foi no cemitrio, em outro 2 de 
novembro, que Juana Baura viu a Chunga, 
que estaria por fazer seis anos, suja, em farrapos, brincando entre os tmulos. Chamou-a, fez carinhos nela. Desde ento, 
a lavadeira vinha, de quando em quando, 
 Mangachera, tocando o burro carregado de roupa, e perguntava pelo harpista e pela Chunga. Para ela, trazia comida, um 
vestido, sapatos, para ele, cigarros e umas 
moedas que o velho corria a gastar na chichera mais prxima. E um dia no viram mais a menina nos becos mangaches, e Patrocnio 
Naya contou que Juana Baura levara-a, 
para sempre,  Gallinacera. O harpista continuava sua vida, suas caminhadas. Ficava mais velho a cada dia, mais ensebado 
e esfarrapado, mas todos se habituaram a 
v-lo assim, ningum lhe virava o rosto quando passava, calmo e duro, ou quando tinham que se desviar para no pisar em 
seu corpo cado na areia, sob o sol.
S anos depois o harpista comeou a se aventurar para fora dos limites da Mangachera. As ruas da cidade cresciam, transformavam-se, 
endureciam-se com paraleleppedos 
e caladas altas, engalanavam-se com novas casas e ficavam ruidosas, as crianas corriam atrs dos automveis. Havia bares, 
hotis e rostos forasteiros, uma nova
estrada para
209
Chiclayo e uma estrada de ferro de trilhos lustrosos unia Piura a Paita, passando por Sullana. Tudo mudava, os piuranos 
tambm. J no eram vistos pelas ruas com
botas e calas de montar, mas com ternos e at gravatas, e as mulheres, que tinham renunciado s saias escuras at os tornozelos, 
vestiam-se com cores claras, 
no eram mais escoltadas por criadas nem ocultas em vus e mantas, e andavam sozinhas, o rosto descoberto, os cabelos soltos. 
Cada vez havia mais ruas, casas mais 
altas, a cidade dilatava-se, retrocedia o deserto. A Gallinacera desapareceu e em seu lugar surgiu um bairro de ricaos. 
Uma madrugada, as choas superlotadas atrs 
do Camal pegaram fogo; chegaram os guardas municipais, policiais, o governador e o prefeito  frente; com caminhes e paus 
expulsaram todo mundo e no dia seguinte 
comearam a traar ruas retas, quarteires, a construir casas de dois andares, e em pouco tempo ningum imaginaria que naquele 
asseado lugar residencial, habitado 
por brancos, tinham vivido pees. Tambm Castilla cresceu, converteu-se numa pequena cidade. Pavimentaram suas ruas, chegou 
o cinema, abriram colgios, avenidas 
e os velhos se sentiam transportados a outro mundo, protestavam incomodidades, indecncias, abusos.
Um dia, a harpa debaixo do brao, o velho caminhou por aquela cidade renovada, chegou  Plaza de Armas, instalou-se sob 
um tamarindeiro, comeou a tocar. Voltou 
na tarde seguinte, e em muitas outras, sobretudo nas quintasfeiras, e nos sbados, dias de retreta. Os piuranos acudiam 
s dezenas  Plaza de Armas, para escutar 
a banda do Quartel Grau, e ele se adiantava, oferecia sua prpria retreta uma hora antes, passava o chapu e apenas reunia 
alguns soles, voltava  Mangachera. Esta 
no mudara, nem os mangaches. Ali continuavam as choas de barro e cana-brava, as velas de sebo, as cabras e, apesar do 
progresso, nenhuma patrulha da guarda-civil 
se aventurava, de noite, por suas speras ruas. E, sem dvida, o harpista se sentia mangache de corao, porque o dinheiro 
ganho nos concertos da Plaza de Armas 
ele gastava no bairro. Noite adentro continuava tocando na casa da Tula, de Gertrudes ou de Anglica Mercedes, sua ex-cozinheira, 
agora dona de uma chichera. Ningum 
podia mais imaginar a Mangachera sem ele, nem os mangaches pensariam que, na manh seguinte, no estaria rondando hieraticamente 
pelos becos, apedrejando urubus, 
saindo das choas de bandeira vermelha, dormindo ao sol,
210
ou que no escutariam mais sua harpa,  distncia, na escurido. At em sua maneira de falar, nas poucas vezes em que falava, 
qualquer piurano reconhecia nele um
mangache.
- Os invencveis convidaram-no  sua mesa - disse a Chunga. - Mas o sargento fazia que no via.
- Sempre to educado - disse o harpista. - Veio me cumprimentar e abraar.
- com suas brincadeiras, estes sacanas vo fazer com que meus subordinados percam o respeito por mim, velho disse Lituma.
Os dois guardas tinham permanecido no bar, enquanto o sargento conversava com Dom Anselmo; a Chunga serviu cerveja e os 
Len e Josefino falavam sem parar.
-  melhor que no continuem, a Selvtica est ficando triste - disse o Joven. - E alm disso  tarde, maestro.
- No fique triste, moa - a mo de Dom Anselmo esvoaou sobre a mesa, derrubou uma xcara, tocou no ombro da Selvtica. 
- A vida  assim, e no  culpa de ningum.
Esses traidores, quando se fardavam, no se sentiam mais mangaches, nem cumprimentavam, nem olhavam mais para a gente.
- Os guardas no sabiam que era pelo sargento disse a Chunga. - Tomavam sua cerveja bem tranqilos, conversando comigo. 
Mas ele, sim, sabia e os fuzilava com o
olhar, e com a mo, parem com isso, calem-se.
- Quem convidou esses fardados? - perguntou Seminrio. - Vamos ver, j esto se despedindo. Chunga, faa o favor de mand-los 
embora.
-  o Senhor Seminrio, o fazendeiro - disse a Chunga.
- No se importem com ele.
- J o reconheci - disse o sargento. - No olhem ele, rapazes, deve estar bbado.
- Agora se mete com os tiras - disse o Mono. - Est se fazendo de macho.
- Nosso primo poderia se encarregar dele, que a sua farda sirva para alguma coisa - disse Jos.
O Joven Alejandro tomou um golinho de caf:
- Chegava aqui calmo, mas no segundo copo se enfurecia. Devia ter algum desgosto terrvel no corao, e desabafava assim, 
com palavres e murros.
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- No fique assim, senhor - disse o sargento. Estamos fazendo nosso trabalho, para isso  que nos pagam.
- J inspecionaram bastante, j viram que tudo est em ordem - disse Seminrio. - Agora andem e deixem esta gente decente 
festejar em paz.
- No se incomode com a gente - disse o sargento.
- Continue festejando, senhor.
O rosto da Selvtica estava cada vez mais aflito e, em sua mesa, Seminrio se retorcia de clera, tambm o tira enchia o 
seu saco, j no havia machos em Piura, 
que foi que fizeram a esta terra, que desgraa, no era justo. E ento, Hortnsia e Amapola aproximaram-se dele e com agradinhbs 
e brincadeiras o acalmaram um pouco.
- Hortnsia, Amapola - disse Dom Anselmo. Cada nome que voc pe nelas, Chunguita.
- E eles, que  que faziam? - perguntou a Selvtica.
- Devem ter ficado furiosos com aquilo que disse de Piura.
- Botavam blis pelos olhos - disse o Bolas. Mas que  que podiam fazer? Morriam de medo.
Eles no pensavam que Lituma fosse to maricas, estava armado e devia prend-lo, Seminrio se fazia de vivo, imaginem, procurar 
trs pernas no gato sabendo que tem 
quatro, e Rita, mais devagar, agorinha mesmo ia ouvir, e Maribel, vai haver problema, e Sandra com suas gargalhadas. E, 
em pouco tempo, a ronda saiu, o sargento 
acompanhou os dois guardas at a porta e voltou s. Sentou-se  mesa dos invencveis.
- Teria sido melhor que ele fosse embora tambm disse o Bolas. - Coitado.
- Coitado por qu? - protestou a Selvtica, com veemncia. -  um homem, no precisa que tenham pena dele.
- Mas voc sempre o chama de coitadinho, Selvtica
- disse o Bolas.
- Mas eu sou sua mulher - explicou a Selvtica, e o Joven esboou um vago sorriso.
Lituma fazia sermes, por que mexiam com ele diante de sua gente? e eles, voc tem duas caras, faz-se de srio diante deles 
e depois os despede para farrear  vontade. 
com a farda, tinham pena dele, era outra pessoa, e ele, vocs me do mais pena e, um pouquinho depois, reconciliaram-se 
e cantaram: eram os invencveis, no sabiam 
trabalhar, s mamar, s jogar, eram os invencveis e agora iam foder.
212
- Compor um hino s para eles - disse o harpista. -- Ah, esses mangaches no tm igual.
- Mas voc no  mais invencvel, primo - disse o Mono. - Voc se deixou vencer.
- No sei como no caiu a sua cara, primo - disse Jos. - Nunca se viu um mangache virar tira.
- Deviam  estar  contando   anedotas  ou  falando  de suas bebedeiras - disse a Chunga. - De que  que voc queria que falassem, 
seno disso?
- Dez anos, coleguinha - suspirou Lituma. -  terrvel como a vida passa.
- Sade, pela vida que passa - props Jos, o copo no alto.
- Os mangaches so um pouco filsofos quando esto tocados. Aprenderam com o Joven - disse o harpista.
- Acho que falavam da morte.
-- Dez anos, parece mentira - disse o Mono. Voc se lembra do velrio de Domitila Yara, primo?
- Um dia depois que cheguei da selva, encontrei o Padre Garcia e ele no respondeu ao meu cumprimento disse Lituma. - No 
perdoou a gente.
- Nada de filsofo, maestro - disse o Joven, ruborizando-se. - Um modesto artista, s isso.
- Na certa, estavam se lembrando de coisas - disse a Selvtica. - Sempre que se juntavam, ficavam contando o que faziam 
quando crianas.
- Voc est falando como uma piurana, Selvtica disse a Chunga.
-- Nunca se arrependeu, primo? - perguntou Jos.
- Tira ou qualquer coisa, tanto faz - Lituma encolheu os ombros. - Como invencvel, muita farra e muito jogo, e tambm muita 
fome, colegas. Agora, pelo menos, como 
bem, de manh e de tarde. J  alguma coisa.
- Se fosse possvel, tomaria um pouquinho mais de leite - disse o harpista.
A Selvtica levantou-se, Dom Anselmo: ela o preparava para ele.
- A nica coisa que invejo  que voc correu mundo, Lituma - disse Josefino. - Ns vamos morrer sem sair de Piura.
- Fale s por si - disse o Mono. - A mim no enterram sem eu conhecer Lima.
- Boa moa - disse Anselmo.
213
- Est sempre se oferecendo para tudo. Que servial, que simptica.  bonita?
- No muito,  retaca - disse o Bolas. - E quando est de salto alto,  engraado como anda.
- Mas tem lindos  olhos - afirmou  o Joven. Verdes,  grandalhes,  misteriosos.  Agradariam  ao  senhor, maestro.
-- Verdes? - disse o harpista. - Claro que me agradariam.
- Quem teria acreditado que voc ia acabar casado e tira? - disse Josefino. - E logo, logo depois pai de famlia, Lituma.
-  verdade que na selva as mulheres andam atiradas? - perguntou o Mono. - So to sensuais como dizem?
- Muito mais do que dizem -- afirmou Lituma.  preciso a gente andar se defendendo. Se a gente se descuida, elas nos sugam 
at o bagao, no sei como no sa de
l com os pulmes furados.
- Ento a gente pode comer quantas tenha vontade?
- perguntou Jos.
- Principalmente se  da costa - disse Lituma. O pessoal daqui as deixa loucas.
- Pode ser moa, mas  preciso ver que sentimentos
- disse o Bolas. - Faz a vida para sustentar o amigo do marido, e o pobre Lituma na cadeia.
- No se deve julgar to depressa, Bolas - disse o Joven penalizado. -  preciso saber o que foi que houve. E no  fcil 
conhecer o que h por trs das coisas.
No atire a primeira pedra, irmo.
- E depois diz que no  filsofo - disse o harpista.
- Escute-o s, Chunguita.
- Em Santa Maria de Nieva  tinha muitas fmeas, primo? - insistia o Mono.
- A gente podia trocar todo dia - disse Lituma. - Muitas, e quentes como qu. De todo tipo
e por atacado, brancas, pretinhas, bastava esticar a mo.
- E se eram to bonitonas, por que voc se casou com
aquela? - riu Josefino. - No me diga que no, Lituma,
ela  s olho, o resto no vale nada.
- Deu um murro na mesa que se ouviu na catedral
- disse o Bolas. - Discutiram por alguma coisa, parecia que Josefino e Lituma iam brigar.
- So chispinhas, fosforozinhos, acendem-se e se apagam,
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a raiva deles nunca dura - disse o harpista. - Todos os piuranos tm bom corao.
- Voc no sabe mais agentar brincadeiras? - perguntava o Mono. - Como voc mudou, primo.
- Mas se ela  minha irm, Lituma - exclamava Josefino. - Voc pensa que eu falava de verdade? Sente-se, colega, brinde 
comigo.
- O que h  que eu gosto dela - disse Lituma. E no  pecado.
- No h nada de mais que voc goste dela - disse
o Mono. - Desa mais cerveja, Chunga.
- A coitada no se acostuma, anda assustada entre tanta gente - dizia Lituma. - Isso  muito diferente de sua terra, vocs 
tm de compreend-la.
- Claro que compreendemos - disse o Mono. Vamos ver, um brinde pela nossa prima.
-  incrvel com que bondade nos trata, que comidonas nos prepara - disse Jos. - Sim, ns trs a queremos muito, primo.
- Est bom assim, Dom Anselmo? - perguntou a Selvtica. - No ficou muito quente?
- Muito bem, muito bom - disse o harpista, saboreando. -  verdade que voc tem olhos verdes, moa?
Seminrio voltara-se para eles com cadeira e tudo, que baguna era aquela, no se podia mais conversar tranqilo? e o sargento, 
com todo o respeito, que estava
acontecendo, ningum se metia na sua vida, que no se metesse com eles, senhor. Seminrio levantou a voz, quem era ele para 
responder, e claro que se metia com
eles, com os quatro, e tambm com a puta que os havia parido, ouviram?
- Ofendeu a me deles? - perguntou a Selvtica, piscando.
- Vrias vezes naquela noite,  aquela foi a primeira
- disse o Bolas. - Esses ricos, s porque tn terras, pensam
que podem ofender a me de qualquer um. Hortnsia e Amapola saram voando,
e, do balco, Sandra, Rita e Maribel espichavam as cabeas. O sargento
ficou com a voz cortada de raiva, a famlia no tinha nada que ver com
isso, senhor.
- Se voc no gostou, venha e conversemos, caboclinho
- disse Seminrio.
- Mas Lituma no foi - disse a Chunga. - Ns o seguramos, com a Sandra.
- Por que ofender a me quando a discusso  entre homens?
215
- perguntou o Joven. - A me  a coisa mais sagrada que existe.
Hortnsia e Amapola tinham voltado  mesa de Seminrio.
- Ento no os ouvi mais rir nem voltaram a cantar
o hino - disse o harpista. - Os rapazes ficaram desmoralizados com aquela ofensa.
- Eles se consolaram bebendo - disse a Chunga. No cabiam mais garrafas na mesa deles.
- Por isso eu acredito que os desgostos que a gente tem dentro explicam tudo - disse o Joven. - Por isso uns acabam bbados, 
outros padres, outros assassinos.
- vou molhar a cabea - disse Lituma. - Esse cara me estragou a noite.
- Teve razo de se aborrecer, Josefino - disse o Mono. - Ningum gostaria que lhe dissessem que sua mulher  feia.
- Me enche com tanta prosa - disse Josefino. Comi cem fmeas, conheo meio Peru, tenho levado uma grande vida. Passa o dia 
nos chateando com suas viagens.
- No fundo, voc tem tanto dio dele porque no consegue nada com a mulher - disse Jos.
- Se sabe que voc a persegue, ele o mata - disse o Mono. - Est enamorado de sua fmea como um bezerro,
- A culpa  dele - disse Josefino. - Por que  to convencido? Na cama  puro fogo, se mexe assim, assado. Que se foda, 
quero ver se essas maravilhas so verdadeiras.
- Apostamos um par de libras' que ela no liga para voc, irmo? - perguntou o Mono.
- Logo a gente v - disse Josefino. - Na primeira vez, quis me esbofetear, na segunda s me insultou, e na
terceira nem sequer se fez de aborrecida, e
at pude bolin-la um pouco.
J est afrouxando, eu conheo a minha gente.
- Se se entrega, j sabe - disse Jos. - Onde passa um invencvel,
passam os trs, Josefino.
- No sei por que tenho tanto teso por ela - disse Josefino.
Na verdade, no vale nada. - Porque  de fora - disse o Mono. - a gente
sempre gosta de descobrir
que segredos, que costumes trazem de suas terras. - Parece um
animalzinho - disse Jos. - No entende nada, passa a vida perguntando
por que isto, por que aquilo.
' o equivalente a vinte soles.
216
Eu no teria me atrevido a provar primeiro. E se contasse a Lituma, Josefino?
-  das assustadias - disse Josefino. - Eu senti na hora. No tem personalidade, morreria de vergonha, mas no contaria 
a ele. Pena  que ele a emprenhou. Agora 
 preciso esperar que d  luz para fazer o trabalhinho.
- Depois ficaram danando como se no tivesse acontecido nada - disse a Chunga. - Parecia que tudo estava terminado.
- As desgraas vm de repente, quando a gente menos espera - disse o Joven.
- com quem   que ele danava?  - perguntou  a Selvtica.
- com Sandra - a Chunga olhava para ela com seus olhos apagados e falava devagar: - grudadinhos. E se beijavam. Voc tem 
cimes?
- Foi s por perguntar - disse a Selvtica. - Eu no sou ciumenta.
E Seminrio, de repente, forte, que se fossem, destemperado, ou os botava para fora a pontaps, rugindo, os quatro juntos.
217
- Nenhum rudo durante toda a noite, nenhuma luz
- disse o sargento. - No parece estranho, meu tenente?
- Devem estar do outro lado - disse o Sargento Roberto Delgado. - A ilha parece grande.
- J est clareando - disse o tenente. - Tragam as lanchas, mas no faam barulho.
Entre as rvores e a gua, as fardas tinham uma aparncia vegetal. Apinhados no estreito reduto, molhados at os ossos, 
os olhos brios de fadiga, guardas e soldados
endireitavam calas e perneiras. Envolvia-os uma claridade esverdeada que se filtrava pela labirntica ramagem e, entre 
as folhas, ramos e cips, muitos rostos mostravam
picadas, arranhes violeta. O tenente avanou at a beira da lagoa, afastou a folhagem com uma das mos, com a outra levou 
o binculo aos olhos e esquadrinhou
a ilha:  um barranco alto, ladeiras cinzentas, rvores de troncos robustos e copas frondosas. A gua reverberava, j ouviam 
os pssaros. O sargento chegou at o
tenente, agachado sob seus ps o mato rangia e estalava. Atrs deles, as silhuetas
difusas de guardas e soldados mal se mexiam no matagal, silenciosamente
abriam cantis e acendiam cigarros.
- No discutem mais - disse o tenente. - Ningum diria que passaram a
viagem brigando.
- A noite ruim fez com que ficassem amigos - disse o sargento. - o
cansao, a falta de conforto. Nada como isso para que os homens se
entendem bem, meu tenente. - Vamos preparar um bom cerco antes que seja
dia - disse o tenente. -  preciso colocar um grupo na margem da frente.
218
- Sim, mas para isso temos de atravessar a laguna
- disse o sargento, apontando a ilha com um dedo. - So uns trezentos metros, meu tenente. Vo nos caar como pombinhas.
O Sargento Roberto Delgado e os outros tinham se aproximado. O barro e a chuva tornavam iguais as fardas e s os casquetes 
e os quepes distinguiam os guardas dos 
soldados.
- Mandemos  um prprio,  meu  tenente - disse o Sargento Roberto Delgado. - No tm outro remdio seno se render.
-  difcil que no tenham visto a gente - disse o sargento. - Os huambisas tm o ouvido apurado, como todos os selvagens. 
Pode ser que agora mesmo estejam apontando 
para ns das lupunas.
- Vejo e no acredito - disse o Sargento Delgado.
- Pagos vivendo entre lupunas, com o medo que tm delas.
Soldados e guardas escutavam: peles lvidas, pequenos abscessos de sangue coagulado, olheiras, pupilas inquietas. O tenente 
coou a bochecha, era preciso ver, junto 
a sua fronte trs espinhas formavam um tringulo arroxeado, os dois sargentos se cagavam de medo? e uma mecha de cabelos 
sujos caa na testa semi-oculta sob a pala 
do quepe. O qu? Talvez seus guardas estejam com medo, meu tenente, o Sargento Roberto Delgado no sabia como engolir isso. 
Brotou um murmrio e, num nico movimento, 
que agitou a folhagem, o Chiquito, o Oscuro e o Rubio afastaram-se dos soldados: era ofensa, meu tenente, no permitiam, 
com que direito? e o tenente tocou no coldre: 
isso podia custar caro, se no estivessem em misso veria.
- Foi s de brincadeira, meu tenente - tartamudeou o Sargento Roberto Delgado. - No exrcito logramos os oficiais e eles 
nunca se embravecem. Pensei que na polcia 
era a mesma coisa.
Um rumor de gua invadida abafou suas vozes e ouviu-se um cuidadoso bater de remos, um deslizar. Sob a cascata de cips 
e de juncos, apareceram as lanchas. O prtico 
Pintado e o soldado, que as conduziam, estavam sorridentes e nem seus gestos, nem seus movimentos revelavam fadiga.
- Depois de tudo, talvez seja melhor pedir que se rendam - disse o tenente.
- Claro, meu tenente - disse o Sargento Roberto
219
Delgado. - No aconselhei no por medo, mas por estratgia. E se querem fugir, daqui faremos tiro ao alvo neles.
- Por outro lado, se vamos at l, podem fazer sopa da gente, mal atravessemos a laguna - disse o sargento.
- Ns somos s dez e eles quem sabe quantos so. E que armas tm.
O tenente se voltou, guardas e soldados ficaram tensos: quem  o mais antigo? Ansiedade em todos os rostos, rictos nas bocas, 
piscar de olhos cheios de susto, e 
o Sargento Roberto Delgado apontou para um soldado baixinho e acobreado, que deu um passo  frente: Soldado Hinojosa, meu 
tenente. Muito bem, que o Soldado Hinojosa 
levasse os homens de Borja para o outro lado da lagoa e os colocasse em frente  ilha, sargento. O tenente ficaria aqui 
com os guardas, vigiando a boca do canal. 
Para que  que tinha vindo o Sargento Roberto Delgado, meu tenente? o oficial tirou o quepe, para qu? alisou os cabelos 
com a mo, ia dizer e, ao pr de novo o 
quepe, a mechinha de sua testa desaparecera: os dois sargentos vo pedir a rendio. Que tirassem as armas e formassem no 
barranco, as mos na cabea, sargento, 
Pintado os levaria. Os sargentos se olharam, sem falar, soldados e guardas, misturados outra vez, sussurravam, e em seus 
olhos no havia mais temor mas alvio, chispas 
zombeteiras. Precedidos por Hinojosa, os soldados subiram a uma das lanchas, que balanou e afundou um pouco. O prtico 
levantou a vara e, de novo, um delicado estalido, 
a vibrao da ramagem, os casquetes desapareceram sob as samambaias e os cips, e o tenente examinou as camisas dos guardas, 
Chiquito, tire a sua: era a mais branca. 
O sargento amarraria a camisa no fuzil e, j sabia, se ficassem enraivecidos, bala, sem contemplaes. Os sargentos j estavam 
na lancha e quando o Chiquito deu 
a eles a camisa, Pintado impulsionou a embarcao com o remo. Deixou-a flutuar lentamente entre a folhagem mas, mal ingressaram 
na lagoa, ligou o motor e, com 
o rudo montono, o ar se povoou de aves que fugiam das rvores, buliosamente. Um resplendor alaranjado crescia atrs das 
lupunas, tambm na frondosa mata dos arredores 
refletiam-se as primeiras lanas de sol, e as guas da laguna apareciam lmpidas e quietas.
- Ah, companheiro, eu estava para me casar - disse o sargento.
- Est bem, mas levante mais esse fuzil - disse o Sargento Delgado -, para que eles vejam bem a camisa.
Atravessaram a lagoa sem tirar os olhos do barranco e das lupunas.
220
Pintado mantinha o rumo com uma das mos e com a outra coava a cabea, o rosto, os braos, atormentado por uma repentina 
e generalizada comicho.
J viam uma praiazinha estreita, lodosa, com arbustos pelados e uns troncos flutuantes, que deviam servir de cais. Na margem 
oposta, atracava a lancha dos soldados, 
e eles desciam correndo, ocupavam lugar a descoberto, apontavam para a ilha com seus fuzis. Hinojosa tinha boa voz, bonitos 
aqueles huaynitos que cantara em quchua 
na noite passada, no? Sim, mas que  que estava acontecendo que no podiam vlos, por que no saam? O Santiago estava 
cheio de huambisas, companheiro, aqueles 
que os viram chegar avisariam os outros, que teriam tido tempo de sobra para fugir pelos canais. A lancha embicou para o 
cais. Amarrados com grossos cips, os troncos 
flutuantes estavam cobertos de musgo, fungos e algas. Os trs contemplavam o barranco quase vertical, as lupunas curvas 
e corcundas: no havia ningum, meus sargentos, 
mas que susto passaram. Os sargentos saltaram, chapinharam no barro, comearam a subir, os corpos aplastados contra a ladeira. 
O sargento levava o fuzil no alto, 
um vento quente fazia ondular a camisa do Chiquito e, quando pisaram o cume, um sol agressivo fez com que fechassem e esfregassem 
os olhos. Trancas de cips cobriam 
os espaos entre as lupunas, um denso bafo putrefato banhava seus rostos cada vez que espiavam entre a ramagem. Finalmente, 
encontraram uma abertura, avanaram enterrados 
at a cintura em mato selvagem e rumoroso, logo seguiram por um atalho que se estirava, perdia-se e reaparecia junto a um 
matagal ou a um penacho de samambaias. 
O Sargento Delgado ficava nervoso, porra, que levantasse bem esse fuzil e para que vissem que iam com bandeira branca. As 
copas das rvores formavam uma compacta 
abbada que s filamentos de sol perfuravam de quando em quando, franjas douradas que eram como vibraes, e havia vozes 
de invisveis pssaros por toda parte. Os 
sargentos protegiam o rosto com as mos, mas recebiam sempre espetadas, arranhes ardidos. O atalho terminou logo, em uma 
clareira de superfcie lisa e arenosa, 
limpa de mato, e eles viram as cabanas: ah, companheiro, olhe isso. Altas, slidas, estavam, entretanto, meio devoradas 
pela mata. Uma delas tinha perdido o teto 
e um buraco, como uma chaga redonda, tisnava sua fachada; da outra emergia uma rvore, que disparava impetuosamente seus 
braos peludos pelas janelas, e os tabiques 
de ambas desapareciam sob crostas de hera.
221
Nos arredores havia mato alto; as escadinhas desmoronadas, prisioneiras de trepadeiras, serviam de assento a troncos e razes, 
e nos degraus e estacas viam-se tambm
ninhos, grandes formigueiros. Os sargentos andavam  volta das cabanas, esticavam os pescoos para ver o interior.
- No foram embora esta noite, foram h muito tempo - disse o Sargento Delgado. - A mata quase as engoliu.
- No so choas de huambisas, mas de cristos disse o sargento. - As dos pagos no so to grandes e, alm disso, quando 
se mudam, levam as casas nas costas.
- Aqui havia uma clareira - disse o Sargento Delgado. - As rvores so novinhas. Aqui vivia muita gente, compadre.
- O tenente vai ficar furioso - disse o sargento. Estava certo de agarrar uns quantos.
- Vamos cham-lo - disse o Sargento Delgado; apontou com seu fuzil para uma cabana, disparou duas vezes e o eco repetiu 
os disparos,  distncia. - Vo pensar que 
os ladres esto nos cozinhando.
- Para dizer a verdade, prefiro mesmo que no haja ningum - disse o sargento. - vou me casar, no estou a para que me 
arranquem a cabea na minha idade.
- Vamos revistar isso antes que os outros cheguem
- disse o Sargento Delgado. - Talvez tenha ficado algo que valha a pena.
S encontraram pedaos de objetos enferrujados, convertidos em aposentos de aranhas, e as madeiras rodas, minadas pelas 
formigas, rachavam sob seus ps, afundava-mnos 
suavemente. Saram das cabanas, percorreram a ilha e, aqui e ali, abaixavam-se sobre troncos carbonizados, latas enferrujadas, 
pedaos de cntaros. Num declive havia 
uma poa de gua estagnada e, entre cheiros ftidos, planavam nuvens de mosquitos. Duas fileiras de estacas cercavam-na 
como uma afiada rede, e isso o que era, o 
Sargento Delgado nunca tinha visto. O que seria? coisas de selvagens, mas era melhor que se fossem daqui, cheirava mal e 
tinha tanta vespa. Voltaram s cabanas e 
o tenente, os guardas e os soldados caminhavam como sonmbulos na clareira, apontavam para as rvores, inquietos e perplexos.
- Dez dias de viagem! - gritou o tenente. - Tanta esperteza para isso! Quando calculam que eles se foram?
- Para mim, h meses, meu tenente - disse o sargento. - Talvez mais de um ano.
222
- No eram duas, mas trs cabanas, meu tenente disse o Oscuro. - Aqui havia outra, uma ventania arrancou-a pela raz. Ainda 
se podem ver os moures, olhe.
- Para mim, faz muitos anos, meu tenente - disse o Sargento Delgado. - Por aquela rvore que cresceu l dentro.
Depois de tudo, que importncia tinha, o tenente sorriu desencantado, um ms ou dez anos, fatigado: afinal, eles foram logrados. 
E o Sargento Delgado, vamos ver, 
Hinojosa, uma boa revista e que empacotassem o comvel, o bebvel e o vestvel, e os soldados se derramaram pela clareira 
e se perderam entre as rvores, e que o 
Rubio fizesse um pouco de caf para tirar o gosto ruim da boca. O tenente agachou-se, ficou a escavar o cho com um galhinho. 
Os sargentos acenderam cigarros; enxames 
zumbidores passavam sobre suas cabeas enquanto conversavam. O prtico Pintado partiu galhos secos, fez uma fogueira e, 
enquanto isso, das cabanas, dois soldados 
jogavam para cima garrafas, jarras de barro, cobertores desfiados. O Rubio encheu uma garrafa trmica, serviu caf fumegante 
em copinhos de lato, e o tenente e 
os sargentos estavam acabando de beber quando ouviram gritos, qu? e apareceram dois soldados correndo, um sujeito? o oficial 
levantara-se de um salto, que foi que 
disse? e o soldado Hinojosa: um morto, meu tenente, que encontraram numa praiazinha ali embaixo. Huambisa? Cristo? Seguido 
de guardas e soldados, o tenente corria 
e, durante uns momentos, s se ouviu o crepitar da folharada pisoteada, o suave rumor do mato agredido pelos corpos. Velozes 
e em grupo contornaram as estacas, lanaram-se 
pelo declive, pularam um buraco salpicado de pedregulhos e, ao chegar  praiazinha, pararam de chofre, em torno do estendido. 
Estava de boca para cima, suas calas 
rasgadas mal ocultavam os membros ensebados e dbeis, a pele escura. Suas axilas eram duas matas escuras, compactas, e tinha 
as unhas das mos e dos ps muito compridas. 
Crostas e feridas secas cortavam seu torso, seus ombros, um pedao de lngua esbranquiada pendia-lhe dos lbios gretados. 
Guardas e soldados o examinavam e, logo, 
o Sargento Roberto Delgado sorriu, agachou-se e aspirou, seu nariz junto  boca do estendido. Ento sorriu, levantou-se 
e deu um pontap nas costelas do homem: oua, 
estpido, que no chutasse assim o morto, e o Sargento Delgado, chutando outra vez, qual morto qual nada, ento no estava 
vendo, meu tenente?

223
Todos se inclinaram, cheiraram o corpo rgido e impassvel. Nada de morto, meu tenente, meu compadre estava sonhando. com 
uma espcie de crescente, enfurecida
alegria, descarregou mais pontaps e o estendido se contraiu, algo rouco e fundo escapou de sua boca, puxa: era verdade. 
O tenente empunhou os cabelos do homem, 
sacudiu-o e, de novo, debilmente, aquele rudo interior. Esse sacana estava sonhando, e o sargento, sim, olhem, ali tinha 
o seu cozimento. Junto s cinzas prateadas 
e aos pedacinhos de lenha de uma extinta fogueira, estava uma panela de barro, chamuscada, repleta de ervas. Dezenas de 
savas de antenas compridas e barriga negrssima 
a escalavam, enquanto outras, formadas em crculo, protegiam o assalto. Se estivesse morto, os bichos j o teriam comido, 
meu tenente, no ficariam seno os ossos, 
e o Rubio, mas j tinham comeado, pelas pernas. Algumas savas subiam pelas curtidas plantas de seus ps e outras inspecionavam 
o peito dos ps, os dedos, os tornozelos, 
tocavam na pele com suas finas antenas e, em sua passagem, deixavam um rastro de pontos arroxeados. O Sargento Roberto Delgado 
chutou-o de novo, no mesmo lugar. 
Uma inchao tinha brotado nas costelas do estendido, um montinho oblongo de cume escuro. Continuava imvel mas, de quando 
em quando, soltava uma ronqueira oca e 
sua lngua se levantava, lambia os lbios com dificuldade. O maldito estava no paraso, no sentia nada, e o tenente, gua, 
rpido, e que limpasse os ps dele, 
porra, as formigas o estavam comendo. O Chiquito e o Rubio livraram-no das savas, dois soldados trouxeram gua da lagoa 
em seus casquetes e borrifaram a cara do 
homem. Ele agora tentava mexer os membros, o rosto estava encolhido, crispado, a cabea caa  direita e  esquerda. De 
repente, arrotou e um dos seus braos se 
dobrou lenta, vagarosamente, a mo esfregou o corpo, apalpou a inchao, acariciou-a. Agora respirava com ansiedade, tinha 
o peito crescido, sumido o ventre, e 
a lngua se estirava, branca, com cogulos de saliva verde. Seus olhos continuavam selados, e o tenente, para os soldados, 
mais gua: estava vai no vai, rapazes, 
era preciso despert-lo. Soldados e guardas iam  lagoa, voltavam e vertiam sobre o homem pequenos jorros de gua e ele 
abria a boca para receb-los, afanosamente, 
ruidosamente, sua lngua sorvia as gotinhas. Seu gemido j era mais natural e contnuo, e tambm as contraes do corpo, 
que parecia liberado de invisveis ataduras.
- Dem a ele um pouco de caf, reanimem esse cara de qualquer jeito
224
- disse o tenente. - E continuem jogando gua.
- No acredito que chegue at Santa Maria de Nieva como est, meu tenente - disse o sargento. - Morre pelo caminho.
- Eu o levo a Borja, que fica mais perto - disse o tenente. - Volte agora mesmo com os rapazes a Nieva e diga a Dom Fbio 
que pegamos um. Que os outros cairo logo. 
Eu vou com os soldados  guarnio e l farei com que o mdico o veja. No deixo este sujeito morrer nem amarrado.
Afastados uns metros do grupo, o tenente e o sargento fumavam. Guardas e soldados movimentavam-se em torno do estendido, 
molhavam-no, sacudiam-no e ele parecia exercitar 
com desconfiana a lngua, sua voz, ensaiava teimosamente novos movimentos e sons.
- E se no  do bando, meu tenente? - disse o sargento.
- Por isso vou lev-lo a Borja - disse o tenente. L h aguarunas de povoados que foram saqueados pelos bandidos, veremos 
se o reconhecem. Diga a Dom Fbio que avise 
Retegui.
- O sujeito j est falando, meu tenente - gritou o Chiquito. - Venha ouvi-lo.
- Entenderam o que disse? - perguntou o tenente.
- De um rio que sangra, de um cristo que morreu
- disse o Oscuro. - Coisas assim, meu tenente.
- S me falta agora que esteja louco, tenho uma sorte de merda - disse o tenente.
- Sempre soltam um pouco a lngua quando esto sonhando - disse o Sargento Roberto Delgado. - Depois passa, meu tenente.
Anoitecia, Fusha e Dom Aquilino comiam mandioca cozida, tomavam aguardente no bico da garrafa, e Fusha, j escurece, Lalita, 
segure a lamparina, ela se agachava 
e ai ai ai, a primeira dor, no podia endireitar-se, caiu ao cho chorando. Levantaram-na, foi para a rede, Fusha acendeu 
a lamparina, e ela, acho que chegou a 
hora, tenho medo. E Fusha, nunca vi uma mulher morrer parindo, e Aquilino, eu tambm no, no se assuste, Lalita, era o 
melhor parteiro da selva, podia peg-la, 
Fusha? no tinha cime? e Fusha, voc est velho para que eu tenha cime, ande,
pegue-a.
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Dom Aquilino tinha levantado a saia dela, ajoelhava-se para ver quando Pantacha entrou correndo, patro, estavam brigando, 
e Fusha, quem? e Pantacha, os
huambisas com o aguaruna que Dom Aquilino trouxe, Dom Aquilino, com Jum? Pantacha abria muito os olhos, e Fusha esmurrou-o, 
cachorro, olhando a mulher dos outros. 
Ele esfregava o nariz, perdozinho, patro, s viera avisar, os huambisas querem que Jum v embora, o senhor sabe que eles 
odeiam os aguarunas, estavam com raiva, 
e ele e Nieves no podiam segur-los, a patroa estava doente? E Dom Aquilino,  melhor que voc v ver, Fusha, que no 
o matem, com o trabalho que me custou convenc-lo 
a vir  ilha, e Fusha, puta merda,  preciso embriag-los, que se embriaguem juntos, matam-se ou ficam amigos. Saram e 
Dom Aquilino aproximou-se de Lalita, massageou 
suas pernas para relaxar os msculos, a barriga, e a criana saa suavemente, voc vai ver, e ela, rindo, chorando, ia contar 
a Fusha que ele estava se aproveitando 
para bolinar, ele ria, e ai ai ai, outra vez, nos ossos das costas, ai ai ai, estavam se quebrando, e Dom Aquilino, tome 
um golinho para acalmar, ela tomou, vomitou, 
sujou Dom Aquilino, que estava embalando a rede, nana Lalita, mocinha bonita, e a dor ia passando. Umas luzes vermelhas 
bailavam  volta da lamparina, veja, Lalita, 
os vaga-lumes, as mariposas, a gente morre e o esprito vira vaga-lume, sabia? e anda  noite iluminando a mata, os rios, 
as lagunas, quando eu morrer, Lalita, voc 
ter sempre a seu lado um vaga-lume, servirei de lamparina para voc. E ela, tenho medo, Dom Aquilino, no fale da morte, 
e ele, no se assuste, balanava a rede 
para distra-la, com um pedao de pano molhado refrescava a testa dela, no acontecer nada, nascer antes do amanhecer, 
quando toquei em voc vi que era homem. 
A cabana se impregnara de cheiro de baunilha e o vento mido trazia tambm murmrios de mata, o cantar das cigarras, latidos, 
e as vozes de uma briga generalizada. 
E ela, o senhor tem mos suaves, Dom Aquilino, isso me descansa um pouco, e como cheira bem, mas no est ouvindo os huambisas? 
v ver, Dom Aquilino, e se matam 
Fusha? e ele, era a nica coisa que no podia acontecer, Lalita, voc no sabe que ele  como o Diabo? E Lalita, h quanto 
tempo se conhecem, Dom Aquilino? e ele, 
l se vo dez anos, nunca se saiu mal apesar de buscar as piores confuses, Lalita, coisas fessimas, escapole de seus inimigos 
como cobra de rio. E ela, ficaram 
amigos em Moyobamba? e Dom Aquilino, eu era aguadeiro,
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ele me fez comerciante, e ela, aguadeiro? e Dom Aquilino, de casa em casa com seu burro e suas moringas, Moyobamba  pobre, 
o pouco lucro se ia em comprar metileno 
para
melhorar a gua, e seno, multas, e uma manh chegou Fusha, foi viver num rachinho junto ao meu, e assim se fizeram amigos. 
E ela, como era ele ento, Dom Aquilino? 
e ele, de onde viria, perguntavam, e ele, puro mistrio e mentira, mal falava cristo, Lalita, fazia umas misturanas com 
o brasileiro. E Fusha, anime-se, homem, 
voc vive como um cachorro, no est cheio? vamos fazer comrcio, e ele,  verdade, como cachorro. E Lalita, que fizeram, 
Dom Aquilino? e ele, uma grande balsa e 
Fusha comprava sacas de arroz, fazendas de algodo, percais e sapatos, a balsa afundava com tanto peso, e se nos roubam, 
Fusha? e Fusha, cale-se, puto, comprei 
tambm um revlver. E Lalita, foi assim que comearam, Dom Aquilino? e ele, amos pelos acampamentos, e os caucheiros, os 
mateiros e os garimpeiros, tragam-nos isto 
e aquilo na prxima viagem, e levavam, e depois foram at as tribos. bom comrcio, o melhor, miangas por bolas de caucho, 
espelhinhos e facas por couros, e assim 
conheceram os huambisas, Lalita, e se fizeram grandes amigos de Fusha, voc j viu como o ajudam,  um deus para eles. 
E Lalita, ento a coisa ia muito bem? e ele, 
teria sado melhor se Fusha no fosse o Diabo, roubava de todos e, ento, eles eram corridos dos acampamentos, e os guardas 
os buscavam, precisaram separar-se e 
ele teve de ficar com os huambisas algum tempo, e depois foi para Iquitos, e l comeou a trabalhar com Retegui, foi l 
que voc o conheceu, Lalita? E ela, que 
fez o senhor, Dom Aquilino? e ele, entrara no seu sangue o gosto pela vida livre, Lalita, aquilo de andar com a casa nas 
costas como uma tartaruga, sem lugar fixo, 
e continuou fazendo comrcio sozinho, mas de maneira honrada. E Lalita, esteve por toda parte, no  verdade, Dom Aquilino? 
e ele, no Ucayali, no Marann e no Huallaga, 
e, no princpio, no ia ao Amazonas pela m fama que Fusha deixou l, mas depois de uns meses voltou e, um dia, num acampamento 
do Itaya, no podia acreditar, ainda 
que estivesse vendo, encontrei Fusha, Lalita, transformado em negociante, com habilitados, e ele me contou seu negcio 
com Retegui. E Lalita, que contentes teriam 
ficado ao se verem de novo, Dom Aquilino, e ele, choramos, nos embriagamos recordando, Fusha, a sorte sorri para voc, 
agora assente a cabea, seja limpo, no se 
meta em mais encrencas, e Fusha, fique comigo, Aquilino, voc  como uma loteria,
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tomara que dure a guerra, e ele, quer dizer que o negcio  caucho para contrabando? e Fusha, por atacado, homem, eles 
vm a Iquitos busc-lo, levam-no escondido 
em caixotes
que passam por tabaco, Retegui ficar milionrio e eu tambm, no deixo voc ir, Aquilino, contrato voc; e ela, por que 
no ficou com ele? e ele, j estava ficando 
velho, Fusha, no queria sustos nem ir para a cadeia, e ai ai ai, estou morrendo, as costas, agora sim est vindo, que 
no se assustasse, onde tinha uma faca, e 
a esquentava na lamparina quando Fusha entrou. Dom Aquilino, no fizeram nada ao Jum? e Fusha, agora esto mamando juntos, 
com o Pantacha e o Nieves tambm. No 
deixaria que o matassem, precisava dele, seria um bom contato com os aguarunas, mas em que estado o deixaram, quem queimou 
suas axilas? esguicham pus, velho, e 
as feridas nas costas,  pena se infeccionam e morre de ttano, e Dom Aquilino, em Santa Maria de Nieva, os soldados e os 
patres de l, e quem lhe quebrou a testa 
foi seu amigo Retegui, voc sabia que ele se mudou para Iquitos? E Fusha, rasparam tambm sua cabea e estava mais feio 
que um girino, e ai ai ai, os ossos, muito, 
muito, e Dom Aquilino, bancou o vivo e disse no ao patro que lhe comprava o caucho, ns mesmos vamos vend-lo em Iquitos, 
um tal Escabino, parece, e para cmulo 
espancaram um cabo que chegou a Urakusa e mataram seu prtico, e Fusha, sacanagens, ele est vivinho e sacudindo o rabo, 
por a,  o Adrin Nieves, este que eu 
recolhi no ms passado, e Dom Aquilino, j sei, mas  o que dizem, e ela, se quebrava em dois, me d alguma coisa, Fusha, 
pelo que voc mais quer. E Fusha, odeia 
os cristos? muito melhor, ento que convena os aguarunas a me darem caucho, grandes projetos, velho, antes de dois anos 
voltaria a Iquitos, rico, voc ver como 
me recebem os que me voltaram as costas, e Dom Aquilino, ferva gua, Fusha, ajude, nem parece que voc  o pai. Fusha 
encheu a tina, acendeu o fogo, e ela, cada 
vez mais fortes, seguidinhas, respirava se asfixiando, tinha o rosto inchado e olhos de peixe morto. Dom Aquilino ajoelhou-se, 
massageou-a, j se abria um pouquinho, 
Lalita, estava vindo, no se impaciente. E Fusha, aprenda com as huambisas, que vo  mata sozinhas e voltam depois de 
parir. Dom Aquilino fervia a faca e as vozes 
de fora se perdiam entre estalidos e silvos, Fusha, esto vendo? j no brigam, esto ntimos, e o velho, seria homem, 
Lalita, que foi que lhe disse, oua, as capironas 
estavam cantando, no se enganava nunca. E Fusha,  um pouco calado,
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e Dom Aquilino, mas prudente, ele o ajudou durante toda a viagem, dizia que dois cristos desgraaram Urakusa com seus logros, 
e Fusha, velho, na prxima viagem
voc ganhar horrores, Dom Aquilino, quando  que voc deixar de sonhar, e ele, no progredira desde a primeira vez? E 
Aquilino, no voltaria  ilha se no fosse 
por voc, Lalita, simpatizara com ela; e ela, quando o senhor chegou ns morramos de fome, Dom Aquilino, lembra-se como 
chorei ao ver as conservas e as massas? 
e Fusha, que banquete, velho, at adoeceram por falta de costume, e como tive que implorar, por que no queria ajud-lo? 
se alm disso voc ganhar dinheiro. E 
o velho, mas so roubados, Fusha, vo me prender, no venderei aquele caucho nem queles couros, e Fusha, todo mundo sabe 
que voc  honrado, por acaso os caucheiros, 
os mateiros e os selvagens no pagam a voc em couros, em caucho e em pepitas de ouro? Se perguntassem, diria, so meus 
lucros, e o velho, nunca tive tantos, e Fusha, 
voc no levar tudo numa viagem, aos pouquinhos, e ai ai ai, de novo, Dom Aquilino, as pernas, as costas, Fusha, ai ai 
ai. E Dom Aquilino, no quero, os selvagens 
se queixariam, cedo ou tarde, viria a polcia, e os patres no ficariam coando o saco enquanto ele atravessava o seu negcio, 
e Fusha, shapras, aguarunas e huambisas 
se matam uns aos outros, no se odiavam? ningum pensaria em cristos metidos nisso, e o velho, no, de jeito nenhum, e 
Fusha, levaria para longe a mercadoria, 
bem escondida, Aquilino, voc a vender para os mesmos caucheiros mais barato, e ficaro felizes. E o velho, por fim, aceitou, 
e Fusha, pela primeira vez lhe acontecia 
isso, Lalita, depender da honradez de um cristo, se o velho quer, ele me logra, vendia tudo e embolsava o dinheiro, sabe 
que estou preso aqui, e pode at arrematar 
dizendo  polcia esse que procuram est numa ilhazinha, Santiago acima. Demorou perto de dois meses e Fusha mandava remadores 
at o Marann e os huambisas voltavam, 
no h, no est, no vem, aquele cachorro, e uma tarde apareceu, sob um aguaceiro, na boca do canal, e trazia roupa, comida, 
machetes e quinhentos soles. E Lalita, 
podia abra-lo? beij-lo como a seu pai? e Fusha, nunca vira isso, velho, como era honrado, no esqueceria, Aquilino, 
como voc se porta comigo, ele em seu lugar 
fugia com o dinheiro, e o velho, voc no tem alma, para ele valia mais a amizade que o negcio, o agradecimento, Fusha, 
por sua causa deixei de ser o cachorro 
de Moyobamba, o corao no esquecia, ai ai ai, ai ai ai,
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e Dom Aquilino, comeara de verdade, Lalita, fora, fora para que no se sufoque saindo, fora com todinha a sua alma, 
grite. Tinha a faca na mo, e ela, reze, 
ai ai
ai, Fusha, e Dom Aquilino, ia massage-la, mais fora, fora. Fusha aproximou a lamparina e olhava, o velho, console-a 
um pouco, agarre sua mo, homem, e ela, 
queria gua, estava se rasgando, que a Virgem a ajudasse, que o Cristo de Bagazn a ajudasse, santo, santo, que lhe prometia, 
e Fusha, aqui est a gua, no grite 
tanto, e quando Lalita abriu os olhos Fusha olhava para a esteira, e Dom Aquilino, estou secando suas pernas, Lalita, j 
terminou, voc viu que rpido? E Fusha, 
sim, velho,  macho, mas est vivo? no se mexe nem respira. Dom Aquilino agachou-se, levantou-o da esteira, e era escuro 
e engordurado como um macaquinho, e sacudiu-o 
e ele gritou, Lalita, olhe-o, quanto medo por nada, e que dormisse agora, e ela, sem o senhor teria morrido, queria que 
o filho se chamasse Aquilino, e Fusha, que 
seja pela amizade, mas que nome to feio, Dom Aquilino, e Fusha? E ele, que estranho ser pai, velho, temos que festejar 
um pouco, e Dom Aquilino, descanse, moa, 
queria peg-lo? tome-o, estava sujo, limpe-o um pouco. Dom Aquilino e Fusha sentaram-se no cho, tomavam aguardente no 
bico da garrafa, e fora continuavam os rudos, 
os huambisas, o aguaruna, Pantacha, o prtico Nieves deviam estar vomitando e o quarto ardia de mariposinhas, os vaga-lumes 
ricocheteavam nas paredes, quem diria 
que ia nascer to longe de Iquitos, na mata, como os selvagenzinhos.
A orquestra nasceu na casa de Patrocnio Naya. O Joven Alejandro e o chofer de caminho Bolas iam almoar l, encontravam 
Dom Anselmo, que estava acordando e, enquanto 
Patrocnio cozinhava, os trs se punham a conversar. Dizem que o Joven foi o primeiro a se fazer seu amigo; ele, que era 
to solitrio como Dom Anselmo, tambm msico 
e triste, viu no velho uma alma gmea. Teria lhe contado sua vida, seus desgostos. Depois de comer, Dom Anselmo pegava a 
harpa, o Joven o violo, e tocavam: o Bolas 
e Patrocnio ouviam, emocionavam-se, aplaudiam. s vezes, o chofer de caminho acompanhava-os tocando num caixote. Dom Anselmo 
aprendeu as canes do Joven e comeou 
a dizer: " um artista, o melhor compositor mangache", e Alejandro, "no h harpista como o velho, ningum o supera", e 
o chamava de maestro. Os trs ficaram inseparveis.
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Logo correu, na Mangachera, notcia sobre a nova orquestra e, por volta do meio-dia, as moas vinham em grupos passear 
 frente da choa de Patrocnio Naya, para
escutar a msica. Todas olhavam para o Joven com olhos lnguidos. E um belo dia soube-se que o Bolas deixaria a Empresa 
Feij, onde trabalhou de chofer dez anos, 
para ser artista, como seus dois companheiros.
Naquele tempo, Alejandro era jovem de verdade, tinha o cabelo retinto, muito comprido, crespo, a pele plida, os olhos fundos 
e desconsolados. Era magro como um 
bambu e os mangaches diziam "no esbarrem nele, morre ao primeiro encontro". Falava pouco e devagar, no era mangache de 
nascimento, mas por escolha, como Dom Anselmo, 
o Bolas e tantos outros. Era de famlia de grados, nascido no Malecn, educado no Salesiano, e estava para ir a Lima e 
entrar na universidade quando uma moa, de 
boa famlia, fugiu com um forasteiro que passou por Piura. O Joven cortou os pulsos e esteve muitos dias no hospital, entre 
a vida e a morte. Saiu decepcionado 
com o mundo e bomio: passava as noites em claro, bebendo, jogando cartas com gente da pior espcie. At que a famlia se 
cansou dele, mandou-o embora e, como 
tantos desesperados, naufragou na Mangachera e aqui ficou. Comeou a ganhar a vida com o violo no bar de Anglica Mercedes, 
parente do Bolas. Assim conheceu o 
chofer de caminho, assim se fizeram irmos. O Joven Alejandro bebia muito, mas o lcool no o incitava a brigar nem a se 
apaixonar, s a compor canes e versos 
que contavam sempre uma decepo e chamavam as mulheres de ingratas, traidoras, insinceras, ambiciosas e cruis.
Desde que se fez amigo do Bolas e do Joven Alejandro, o harpista mudou de hbitos. Tornou-se um homem agradvel e sua vida 
pareceu ordenar-se. J no perambulava 
como uma alma penada todo santo dia.  noite ia  casa de Anglica Mercedes, o Joven exigia que tocasse e faziam duetos. 
O Bolas entretinha os fregueses com histrias 
de suas viagens e, entre uma msica e outra, o velho e o violonista juntavam-se ao Bolas em uma mesa, bebiam um pouco, conversavam. 
E quando o Bolas estava tocado, 
os olhos cheios de estrelas, sentava-se diante de um caixote, ou pegava uma tbua e marcava o compasso, chegava a cantar 
com eles e sua voz, embora rouca, no soava 
mal. Era um homenzarro: costas de boxeador, mos enormes, testa estreita, a boca como um funil. Na choa de Patrocnio 
Naya, Dom Anselmo e o violonista ensinaram-no
a tocar,
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afinaram seu ouvido e suas mos. Os mangaches espiavam por entre os bambus, viam o harpista enfurecer-se quando o Bolas 
perdia o compasso, esquecia a letra ou desafinava,
e escutavam o Joven Alejandro instruir melancolicamente o chofer de caminho sobre as misteriosas frases de suas canes: 
olhos de rosicler, vermelhas nuvens do 
amanhecer, veneno que voc espalhou um dia, malvada mulher, com seu amor, no meu dorido corao.
Era como se a proximidade daqueles dois jovens tivesse devolvido a Dom Anselmo o gosto pela vida. Ningum mais o encontrava 
dormindo atirado na areia, no andava 
mais com os sonmbulos, e at seu dio pelos gallinazos diminuiu. Os trs andavam sempre juntos, o velho entre o Joven e 
o Bolas, abraados como crianas. Dom Anselmo 
parecia menos sujo, menos esfarrapado. Um dia, os mangaches viram-no estrear umas calas brancas e pensaram que era presente 
de Juana Baura, ou de algum daqueles 
velhos ricaos que, ao encontr-lo num bar, o abraavam e convidavam para beber, mas tinha sido um presente do Bolas e do 
Joven, no Natal.
Foi por aquela poca que Anglica Mercedes contratou a orquestra de maneira formal. O Bolas conseguira um tambor e uns pratos, 
manejava-os com habilidade e era 
incansvel: quando o Joven e o harpista abandonavam seus lugares para molhar a garganta e endireitar o corpo, o Bolas continuava, 
executava solos. Talvez fosse o 
menos inspirado dos trs, mas era o mais alegre, o nico que se aventurava, de quando em quando, a uma cano humorstica.
 noite tocavam na casa de Anglica Mercedes, pela manh dormiam, almoavam juntos na casa de Patrocnio Naya e l ensaiavam 
 tarde. No ardente vero iam rio acima, 
at Chipe *, nadavam e discutiam as novas composies do Joven. Tinham conquistado o corao de todos, os mangaches tratavam-nos 
por voc e eles tratavam por voc 
a grandes e pequenos. E quando a Santos, parteira e aborteira, se casou com um guarda municipal, a orquestra foi  festa, 
tocou de graa, e o Joven Alejandro estreou 
uma valsa pessimista sobre o casamento, que ofende o amor, seca-o e o consome. E desde ento, em cada batizado, crisma, 
velrio ou noivado mangache, a orquestra 
tocava infalivelmente e de graa. Os mangaches, ento, retribuam com presentinhos, convites e algumas mulheres chamaram 
seus filhos de
Anselmo,
' Povoado s margens do rio Piura.
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Alejandro, at de Bolas. A fama da orquestra se consolidou e aqueles que se chamavam invencveis popularizaram-na pela cidade. 
 casa de Anglica Mercedes
acudiam grados, forasteiros e, certa tarde, os invencveis trouxeram  Mangachera um branco, vestido de linho, que queria 
oferecer uma serenata. Veio buscar a 
orquestra de noite numa camioneta que levantou p. Mas, passada meia hora, os invencveis voltaram sozinhos: "O pai da moa 
embraveceu, se esquentou, chamou os tiras, 
foram todos para o comissariado". Ficaram presos durante uma noite e, na manh seguinte, Dom Anselmo, o Joven e o Bolas 
voltaram contentes; tinham tocado para os 
guardas e tomaram caf e ganharam cigarros. Pouco tempo depois, aquele mesmo branco raptou a moa da serenata, e, quando 
voltou com ela para o casamento, contratou 
a orquestra para tocar na festa. De todas as choas saram mangaches, foram  casa de Patrocnio Naya para que Dom Anselmo, 
o Joven e o Bolas pudessem ir bem-vestidos. 
Uns emprestavam sapatos, outros camisas, os invencveis ofereceram roupas e gravatas. Desde ento virou costume os brancos 
contratarem a orquestra para suas festas 
e serenatas. Muitos conjuntos mangaches se desfaziam e logo se refaziam com novos integrantes, mas esse continuou sendo 
o mesmo, no cresceu nem diminuiu, e Dom 
Anselmo tinha os cabelos brancos, as costas curvas, arrastava os ps, e o Joven deixara de ser jovem, mas sua amizade e 
sua sociedade conservavam-se intactas.
Anos depois morreu Domitila Yara, a santeira que vivia em frente  chichera de Anglica Mercedes, Domitila Yara, a beata 
sempre vestida de negro, rosto velado e 
meias escuras, a nica santeira que nasceu no bairro. Domitila Yara passava e os mangaches, ajoelhados, lhe pediam a bno: 
ela murmurava umas rezas, benzia-os 
na testa. Tinha uma imagem da Virgem com fitas vermelhas, azuis e amarelas que faziam de cabeleira, forrada em papel celofane. 
Pendiam da imagem umas flores de 
arame e serpentina e, sob o seu corao lacerado, via-se uma orao manuscrita, apertada numa plaquinha de lata. A imagem 
balanava na ponta de um cabo de vassoura, 
que Domitila Yara levava sempre, no alto, como um estandarte. Onde havia partos, mortes, doenas, desgraas, acudia a santeira 
com sua imagem e suas rezas. De seus 
dedos apergaminhados caa at o cho um rosrio de contas enormes como baratas. Diziam que Domitila Yara fizera milagres, 
que falava com santos e,
de noite, se aoitava.
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Era amiga do Padre Garcia e, s vezes, passeavam juntos, lentos e sombrios, pela Plazuela Merino e a Avenida Snchez Cerro.
Padre Garcia
foi ao velrio da santeira. No podia entrar, a empurres afastava os mangaches, amontoados em frente  choa, e j desistia 
quando conseguiu chegar  entrada. Viu 
ento a orquestra, tocando tristes junto  morta. Ficou furioso: furou o tambor do Bolas com um pontap e quis tambm arrebentar 
a harpa e arrancar as cordas do 
violo, e, enquanto isso, gritava para Dom Anselmo, "peste de Piura", "pecador", "fora daqui". "Mas, padre", balbuciava 
o harpista, "tocvamos em sua homenagem", 
e o Padre Garcia, "profanam uma casa limpa", "deixem em paz a defunta". E os mangaches se irritaram, no era justo, insultava 
o velho sem motivo, no permitiam. 
E por fim entraram os invencveis, suspenderam o Padre Garcia, e as mulheres, pecado, pecado, todos os mangaches seriam 
condenados. Levaram-no at a avenida, debatendo-se 
no ar, como uma tarntula, e as crianas gritando incendirio, incendirio, incendirio. Padre Garcia no voltou a pisar 
na Mangachera, e desde ento, do plpito, 
fala dos mangaches como modelos de maus exemplos.
A orquestra continuou por muito tempo na casa de Anglica Mercedes. Ningum teria acreditado que um dia iriam tocar na cidade. 
Mas assim foi e, no princpio, os 
mangaches censuraram a desero. Depois, compreenderam que a vida no era como a Mangachera, mudava. Desde que comearam 
a abrir prostbulos, choviam propostas 
sobre a orquestra, e h tentaes a que no se resiste. Alm disso, ainda que tivessem ido tocar em Piura, Dom Anselmo, 
o Joven e o Bolas continuaram vivendo no 
bairro e tocando de graa em todas as festas mangaches.
Desta vez ficou feio de verdade: a orquestra deixou de tocar, os invencveis ficaram imveis na pista, sem soltar seus pares, 
olhando para Seminrio, e o Joven Alejandro 
disse:
- A comeou verdadeiramente a desgraa, porque ento brilharam os revlveres.
- Bbado! - gritou a Selvtica. -- Provocava-os todo o tempo. Bem feito que morresse. Abusado!
O sargento soltou Sandra, deu um passo, pensa que est falando com seus criados, senhor, e Seminrio, engasgando, quer dizer 
que voc  respondozinho, deu tambm
um passo,
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seu pedao de! outro, sua formidvel silhueta ondulou nas tbuas banhadas de luz azul, verde e violeta e parou de sbito, 
o rosto cheio de assombro. A
gargalhada de Sandra virou grito.
- Lituma apontava para ele o revlver - disse a Chunga. - Puxou-o  to rpido que ningum percebeu, como um mocinho nas 
fitas de cowboys.
- Tinha direito - balbuciou a Selvtica. - No podia se rebaixar mais.
Invencveis e mulheres tinham corrido para o bar, o sargento e Seminrio mediam-se com os olhos. Lituma no gostava de briges, 
senhor, no estavam fazendo nada 
a ele e eram tratados como criados. Sentia muito, mas  fora  que no levava, senhor.
- No me jogue fumaa na cara, Bolas - disse a Chunga.
- E ele tambm puxou o revlver? - perguntou a Selvtica.
- S passava a mo pelo coldre - disse o Joven. Fazia carinhos nele como se fosse um cachorrinho.
- Tinha medo! - exclamou a Selvtica. - Lituma baixou a crista dele.
- Pensei que no havia mais homens na minha terra
- disse Seminrio. - Que todos os piuranos ficaram afeminados ou maricas. Mas ainda resta este caboclo. Agora s falta voc 
ver quem  Seminrio.
- Por que tm sempre que brigar, por que no podem viver em paz e aproveitar a vida juntos? - perguntou Dom Anselmo. - Que 
linda seria a vida.
- Mas quem  que sabe, maestro? - perguntou o Joven. - Talvez fosse aborrecidssima e mais triste que agora.
- Voc acabou com a pose dele de um golpe s, primo - disse o Mono. - Muito bem.
- Mas no se fie, coleguinha - disse Josefino. -  s voc se descuidar que ele puxa o revlver.
- No sabe quem sou eu - repetia Seminrio. Por isso  que voc teima, caboclinho.
- O senhor tambm no sabe quem sou eu - disse o sargento -, Senhor Seminrio.
- Se voc no tivesse esse revlver, no seria to teimoso, caboclinho - disse Seminrio.
- Acontece que o tenho - disse o sargento. - E a mim ningum faz de criado, Senhor Seminrio.
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- E ento a Chunga veio correndo e ficou entre eles. Voc era mais valente! - disse o Bolas.
- E vocs, por que no impediram? - a mo do harpista fez uma tentativa para tocar na Chunga, mas ela afastou-se no assento 
e os dedos do velho s roaram nela.
- Estavam armados, Chunguita, era perigoso.
- J no era, porque tinham comeado a discutir disse a Chunga. - A gente vem aqui para se divertir, nada de brigas. Faam 
as pazes, venham ao balco, tomem uma 
cerveja,  por conta da casa.
Obrigou Lituma a guardar o revlver, fez com que se apertassem as mos e levou-os ao bar, pelo brao, deviam ter vergonha, 
portavam-se como crianas, sabiam o que 
eram? dois babacas, andem, vamos, que no puxassem suas pistolinhas, podiam mat-la, e eles riram. Chunga, Chunguita, mamezinha, 
rainhazinha, cantavam os invencveis.
- Ficaram bebendo juntos, apesar dos insultos? perguntou a Selvtica, espantada.
- Voc estranha por que eles no se balearam logo?
- pergunta o Bolas. - Como so as mulheres, como gostam de sangue.
- Mas foi a Chunga que convidou - disse o harpista. - No podiam fazer desfeita, moa.
Bebiam apoiados no balco, muito amigos, e Seminrio beliscava as bochechas de Lituma, era o ltimo macho da sua terra, 
caboclinho, e todos os demais uns veados, 
covardes, a orquestra iniciou uma valsa e o cacho humano do bar desmanchou-se, invencveis e mulheres invadiram a pista 
de danas, Seminrio tirara o quepe do sargento 
e o experimentava, que tal ficava, Chunga? no to horrvel como este caboclo, claro, mas no se zangue.
- Pode ser um pouco gordo, mas no  horrvel disse a Selvtica.
- Quando moo era magrinho como o Joven - recordou o harpista. - E um verdadeiro Diabo, pior que seus primos.
- Pegaram trs mesas e sentaram-se juntos - disse o Bolas. - Os invencveis, o Senhor Seminrio, seu amigo e as mulheres. 
Parecia que tudo estava resolvido.
- Mas notava-se que aquilo era coisa forada e que no ia durar - disse o Joven.
- Forada coisa nenhuma - disse o Bolas. - Estavam contentssimos e o Senhor Seminrio at cantou o hino dos invencveis. 
Depois danaram e fizeram brincadeiras.
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- Lituma continuava danando com a Sandra?  perguntou a Selvtica.
- No me lembro mais, porque comearam a discutir de novo - disse a Chunga.
- Por essas coisas de machismo - disse o Bolas. Seminrio no parava de falar no assunto, que j no havia homens em Piura, 
e tudo para elogiar seu tio.
- No fale mal de Chpiro Seminrio, que era um grande homem, Bolas - disse o harpista.
- Em Narihual encarregou-se de trs ladres, a mo limpa, e os trouxe a Piura, amarrados pelo pescoo - disse Seminrio.
- Apostou com os amigos que ainda podia foder, e veio aqui, e ganhou a aposta - disse a Chunga. - Pelo menos, foi o que 
Amapola nos contou.
- No estou falando mal dele, maestro - disse o Bolas. - Mas j estava ficando chato.
- Um piurano to grande como o Almirante Grau disse Seminrio. - Vo a Huancabamba, Ayabaca, Chulucanas, de toda parte saem 
caboclas orgulhosas de haverem dormido 
com meu tio Chpiro. Teve pelo menos mil bastardos.
- No era mangache? - perguntou o Mono. - No bairro h muita gente assim.
Ento Seminrio ficou srio, sua me  que  mangache, e o Mono, claro e com muita honra, e Seminrio, furibundo, Chpiro 
era um senhor, s raramente ia  Mangachera, 
para tomar chicha e trepar com uma mulatinha, e o Mono deu um murro na mesa: j estava ofendendo de novo, senhor. Tudo ia 
muito bem, como entre amigos, e de repente 
ele comeava a insultar, senhor, os mangaches no gostavam que se falasse mal da Mangachera.
- O velhinho sempre vinha direto at onde o senhor estivesse, maestro - disse o Joven. - com que sentimento ele o abraava. 
Parecia o encontro de dois irmos.
- Nos conhecemos faz muitssimo tempo - disse o harpista. - Eu gostava de Chpiro, tive muita pena quando morreu.
Seminrio levantou-se, eufrico: que a Chunga fechasse a porta, essa noite seriam os donos, seus roados estavam carregados 
de algodo, que o harpista falasse de 
Chpiro, o que esperavam? carregados de algodo, que trancassem a porta, ele pagava.
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- E se os clientes batessem na porta, o sargento despachava - disse o Bolas.
- Aquele foi o erro, no deveriam ficar sozinhos disse o harpista.
- No sou adivinha - disse a Chunga. - Quando os clientes pagam, a gente faz a vontade.
- Claro, Chunguita - desculpou-se o harpista. No falei por voc, mas por todos ns. Claro que ningum podia adivinhar.
- Nove horas, maestro - disse o Joven. - Vai fazer mal ao senhor, vou logo buscar um txi.
-  verdade que o senhor e meu tio se tratavam por voc? - perguntou Seminrio. - Conte a esta gente alguma coisa daquele 
grande piurano, velho, daquele homem como 
no haver outro.
- Os nicos homens que restam esto na Guarda Civil
- afirmou o sargento.
- J se enchera de Seminrio, com tanta bebida disse o Bolas. - E era um tal de falar de machismo, ele tambm.
O harpista pigarreou, tinha a garganta seca, queria um golinho. Josefino encheu um copo e Dom Anselmo soprou a espuma antes 
de beber. A boca aberta, respirando forte: 
o que mais chamava a ateno da gente era a resistncia de Chpiro. E que fosse to honrado. Seminrio ficou contente, abraava 
o harpista, que vissem, que ouvissem, 
no foi isso mesmo que dissera a eles?
- Era um brigo e um pobre-diabo, mas tinha o orgulho da famlia - reconheceu o Joven.
Vinha do campo em seu cavalo, as moas subiam  torre para v-lo, e isso era proibido, mas Chpiro deixava-as meio loucas, 
e Dom Anselmo bebeu outro golinho, e em 
Santa Maria de Nieva, o Tenente Cipriano tambm deixava as selvagens meio loucas, e tambm o sargento bebeu um golinho.
- Quando a cerveja subia, s falava naquele tenente
- disse a Selvtica. - Ele o admirava.
Muito fanfarro, vinha levantando p, freava o cavalo e o fazia ajoelhar-se diante das moas. com Chpiro entrava a vida, 
as que estavam tristes alegravam-se, as 
contentes ficavam mais, e que resistncia, subia, descia, mais jogo, mais bebida, subia de novo, com uma, com duas, e assim 
a noite inteira, e ao amanhecer voltava
 sua chcara, para trabalhar, sem haver pregado olho, era um homem de ferro;
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e Dom Anselmo pediu mais cerveja, e certa vez fez roleta-russa, diante dele, o sargento bateu no peito e olhou  sua volta, 
como esperando aplausos. O nico, alm
disso,
que correspondia sempre  confiana, o nico que o pagou at o ltimo centavo, o dinheiro foi feito para gastar, dizia, 
era o que mais convidava e, por ruas e praas,
o mesmo sermo: foi Anselmo que trouxe a civilizao a Piura. Mas no foi por aposta, foi porque se aborrecia, a selva desesperava 
o Tenente Cipriano.
- Parece que foi de mentira - disse a Selvtica -, que seu revlver no tinha balas e que s o fez para que os guardas o 
respeitassem mais.
E o melhor dos amigos topou com ele na porta do Reina, abraou-o, soubera muito tarde, irmo, se tivesse estado em Piura 
no a queimariam, Anselmo, ele poria o
padre e as gallinazas no seu lugar.
- De que desgraa falava Chpiro, artista? - perguntou Seminrio. - Por que o confortava?
Estava chovendo a cntaros, e ele, aqui a gente j no  mais humano, no havia mulheres nem cinema, se algum ficava dormindo 
na mata crescia uma rvore na barriga,
ele era da costa, que metessem a selva na bunda, ele a dava de presente, no agentava mais e puxou o revlver, deu duas 
voltas no tambor e disparou na cabea, o
Pesado dizia, no tem balas,  truque, mas tinha, constava a ele: o sargento bateu de novo no peito.
- Uma  desgraa, Dom  Anselmo?   -  perguntou  a Selvtica. - Alguma coisa que aconteceu ao senhor?
- Estvamos recordando um grande homem, moa - disse Dom Anselmo. - Chpiro Seminrio, um velho que
morreu h trs anos.
Ah, harpista, o senhor  um grande mentiroso - disse o Mono. - No quis nos contar sobre a Casa Verde,
mas agora, sim. Ande, como foi o incndio?
- Ora, rapazes - disse Dom Anselmo. - Que disparates, que bobagens.
- Est teimando outra vez, velho - disse Jos. - Se agorinha mesmo falou da Casa Verde. Aonde era ento
que Chpiro chegava com seu cavalo? Que moas eram essas que saam para v-lo?
- Chegava  sua chcara - disse Dom Anselmo. E as que saam para v-lo eram as apanhadoras de algodo.
Bateu na mesa, pararam os risos, a Chunga trazia outra bandeja de cervejas, e o Tenente Cipriano, tranqilo,
239
soprou o cano de sua arma, eles riam e no acreditavam, e Seminrio quebrou um copo contra a parede: o Tenente Cipriano 
era um filho da puta, no podia tolerar que 
esse
caboclo o interrompesse tanto.
- Ofendeu a me dele de novo? - perguntou a Selvtica, piscando muito depressa.
- No a dele, mas a daquele tenente - disse o Joven.
- O senhor em nome do tal Chpiro, eu no do Tenente Cipriano - props o sargento com toda a calma. Uma roleta-russa, vamos 
ver quem  mais homem, Senhor Seminrio.
240


IV



- O senhor pensa que o prtico fugiu, meu tenente?
- perguntou o Sargento Roberto Delgado.
- Claro, mesmo que fosse bobo - disse o tenente. Agora j sei por que se fez de doente e no veio conosco. Deve ter fugido 
mal nos viu sair de Santa Maria de Nieva.
- Mas cedo ou tarde cair - disse o Sargento Delgado. - Grande sabido, nem sequer mudou de nome.
- O que me interessa  o outro - disse o tenente.
- O peixe grande. Como se chama mesmo? Tusha? Fusha?
- Talvez no saiba onde est - disse o Sargento Delgado. - Talvez seja verdade que foi devorado por uma jibia.
- Bem, vamos continuar- disse o tenente. - Ande, Hinojosa, traga aquele sujeito.
O soldado, que dormitava de ccoras, encostado  parede, levantou-se como um autmato, sem pestanejar nem responder, e saiu. 
Mal passou a porta, a chuva o empapou, 
levantou as mos, caminhou pela lama, tropeando. O aguaceiro fustigava selvagemente o lugar e, entre as trombasd'gua e 
as rajadas de vento sibilante, as choas 
aguarunas pareciam animais xucros, sargento. Na selva, o tenente se tornava fatalista, esperava todos os dias que uma surucucu 
o mordesse, ou que as febres o derrubassem. 
Agora se lembrava de que a maldita chuva continuaria, e que ficariam aqui um ms, como ratos na toca. Ah, tudo estava indo 
para o diabo por causa dessa espera, e 
quando sua voz azeda parou, ouviu-se de novo o estalido do aguaceiro na mata, o minucioso gotejar das rvores e das cabanas.

241
A clareira era um grande charco cinzento, dezenas de mananciais corriam at o barranco, o ar e mata estavam nublados, fediam 
e a vinha Hinojosa, puxando por uma 
corda
um vulto que tropeava e grunhia. O soldado subiu aos saltos a escadinha da cabana, o prisioneiro caiu de bruos diante 
do tenente. Tinha as mos atadas s costas 
e ergueu-se, apoiando-se nos cotovelos. O oficial e o Sargento Delgado, sentados numa prancha, apoiada em dois cavaletes, 
ainda continuaram conversando, sem olh-lo, 
e logo o tenente fez um sinal para o soldado: caf e bebida, ficavam? sim, e que fosse para onde estavam os outros, apenas 
eles o interrogariam. Hinojosa voltou 
a sair. O prisioneiro gotejava como as rvores,  volta de seus ps j havia uma pocinha. O cabelo cobria suas orelhas e 
a testa, umas olheiras de raposa circundavam 
seus olhos, dois carves desconfiados e saltados. Fiapos de pele lvida e arranhada apareciam entre as dobras de sua camisa 
e as calas, tambm em pedaos, deixavam 
nua uma ndega. Um tremor sacudia seu corpo, Pantachita, e seus dentes batiam: no podia se queixar, cuidaram dele como 
de um nenm de peito. Primeiro o haviam curado, 
no era verdade? depois, o defenderam dos aguarunas, que queriam fazer papinha dele. Vamos ver se hoje se entendiam melhor. 
O tenente tivera muita pacincia com 
voc, Pantachita, mas tambm no devia abusar. A corda abraava o pescoo do prisioneiro como um colar. O Sargento Delgado 
abaixou-se, recolheu a ponta da corda 
e obrigou Pantacha a dar um passo at a prancha.
- No Sepa' voc estar bem alimentado e ter onde dormir - disse o Sargento Delgado. - No  uma cadeia como as outras, 
no tem paredes. Talvez voc at possa fugir.
- Isso no  melhor que um balao? - perguntou o tenente. - No  melhor que lhe mande ao Sepa do que dizer aos aguarunas, 
dou o Pantachita de presente para vocs, 
vinguem-se nele de todos os ladres? J viu a gana que eles tm de voc. Por isso, no se faa de louco hoje.
Pantacha, o olhar evasivo e quente, tremia muito, seus dentes batiam com fora, e ele encolhia, escondia e inchava o estmago. 
O Sargento Delgado sorriu para ele,
Pantachita, no seria to bobo de se responsabilizar por tanto roubo e tanta morte de selvagens, no? E o tenente sorriu:
' Colnia penal localizada na confluncia dos rios Marann e Ucayali;  chamada de Inferno Verde.
242
era melhor que acabassem rpido, Pantachita. Depois lhe dariam as ervas de que gostava e ele mesmo faria o seu cozimento, 
que tal? Hinojosa entrou na cabana, deixou
sobre a prancha uma trmica de caf e uma garrafa, saiu correndo. O tenente desarrolhou a garrafa e a estendeu para o prisioneiro, 
que aproximou o rosto dela, murmurando. 
O sargento deu um forte puxo na corda, sacana, e o Pantacha caiu entre as pernas do tenente: ainda no, primeiro falar, 
depois beber. O oficial pegou a corda, fez 
girar em sua direo a cabea do prisioneiro. O emaranhado de cabelos agitou-se, os carves continuavam presos na garrafa. 
Fedia como o tenente nunca sentira antes, 
Pantachita, seu cheiro o deixava tonto, e agora abria a boca, um golinho? e respirava roncando, senhor, para o frio, estava 
gelando por dentro, senhor? s queria 
unzinho, e o tenente, certo, mas que fossem por partes, onde se escondera aquele Tusha? tudo no seu devido tempo, ou Fusha? 
onde estava? Mas ele j contara, senhor, 
tremendo da cabea aos ps, fugiu ao escurecer e no o viram, e parecia que seus dentes iam se quebrar, senhor: que perguntassem 
aos huambisas, a me-d'gua teria 
vindo de noite, diziam, e entrara e o levara para o fundo da laguna. Por causa de suas maldades, devia ser, senhor.
O tenente olhava o prisioneiro, a testa enrugada, os olhos deprimidos. Em seguida, afastou-se, sua bota golpeou a ndega 
descoberta, e Pantacha caiu com um grunhido. 
Mas do cho continuou olhando obliquamente a garrafa. O tenente puxou a corda, a cabea desgrenhada chocou-se contra o cho 
duas vezes, Pantachita, j chegava de 
espertezas, no? Onde se metera? e por sua prpria iniciativa Pantacha, ao escurecer, senhor, rugiu, bateu com a cabea 
no cho outra vez: devagarzinho viria e 
subiria pelo barranco, e entraria na sua cabana, com seu rabo, taparia a boca dele, senhor, e assim o levaria, pobrezinho, 
e que lhe desse um golinho que fosse, 
senhor. Assim era a me-d'gua, caladinha, e a laguna, certo que se abriria, e os huambisas diziam voltar e nos engolir, 
e por isso eles tambm tinham ido embora, 
senhor, e o tenente o chutou. Pantacha se calou, se ps de joelhos: ficara sozinho, senhor. O oficial bebeu um gole da garrafa 
trmica e passou a lngua pelos lbios. 
O Sargento Roberto Delgado brincava com a garrafa, e o Pantachita queria que o mandasse ao Ucayali, senhor, rugiu de novo 
e as caretas afundavam suas bochechas, 
onde tinha morrido seu amigo Andrs. Ali ele tambm queria morrer.
- Quer dizer que  seu  patro foi levado  pela  me-d'gua
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- disse o tenente, com voz pausada. - Quer dizer que o tenente  um babaca e o Pantachita pode engan-lo  vontade. Ah, 
Pantachita.
Incansveis, quentes, os olhos de Pantacha contemplavam a garrafa e, l fora, o aguaceiro embravecera,  distncia retumbavam 
os troves e os relmpagos iluminavam, 
de quando em quando, os tetos flagelados pela gua, as rvores, o barro do lugar.
- Me deixou s, senhor - gritou Pantacha, e sua voz se enfureceu, mas seu olhar era sempre quieto e arrebatado -, eu dei 
de comer a ele, que no saa de sua rede, 
pobrezinho, e ele me deixou, e os outros tambm se foram. Por que no acredita, senhor?
- Talvez esteja mentindo sobre o nome - disse o Sargento Delgado. - No conheo ningum na selva que se chame Fusha. Este 
cara no o deixa nervoso com seus delrios? 
Eu daria logo um balao nele, meu tenente.
- E o aguaruna? - disse o tenente. - A me-d'gua tambm levou Jum?
- Foi embora, senhor - roncou Pantacha -, j no disse? Ou tambm levou, senhor, quem sabe.
- Esse Jum de Urakusa esteve na minha frente toda uma tarde - disse o tenente -, e o outro espertalho servia de intrprete, 
e eu ouvia e engolia suas histrias. 
Ah, se tivesse adivinhado. Aquele foi o primeiro selvagem que conheci, sargento.
-- A culpa  daquele que foi governador de Nieva, meu tenente, o Retegui - disse o Sargento Delgado. Ns no queramos 
soltar o aguaruna. Mas ele ordenou, e o senhor 
j viu.
- O patro se foi, Jum se foi, se foram os huambisas
- soluou Pantacha. - S com minha tristeza, senhor, e um frio terrvel que estou sentindo.
- Mas juro que agarro o Adrin Nieves -- disse o tenente. - Tem gozado debaixo de nossas barbas, tem vivido com o nosso 
dinheiro.
E todos tinham suas mulheres, l. As lgrimas corriam entre seus cabelos e suspirava fundo, senhor, com muito sentimento, 
e s tinha querido uma crist, ainda que
fosse s para falar com ela, umazinha, e at a shapra eles levaram tambm, senhor, e a bota subiu, chutou, e Pantacha ficou 
encolhido, rugindo. Fechou os olhos
por uns segundos, abriu-os e, mansamente agora, olhou a garrafa: s unzinho, senhor, para o frio, estava gelando por dentro.
244
- Voc conhece bem esta regio, Pantachita - disse o tenente. - Quanto tempo ainda vai durar esta maldita chuva, quando 
poderemos partir?
- Amanh clareia, senhor - balbuciou Pantacha. Pea a Deus e ver. Mas tenha pena, me d unzinho. Para o frio, senhor.
No havia quem agentasse, maldita seja, no havia quem agentasse, e o tenente levantou a bota, mas desta vez no chutou, 
apoiou-a no rosto do prisioneiro at que
a face de Pantacha tocou o cho. O Sargento Delgado bebeu um golinho da garrafa, e um golinho da trmica. Pantacha separara 
os lbios e sua lngua, pontiaguda e
avermelhada, lambia, senhor, delicadamente, unzinho s, a sola da bota, para o frio, a biqueira, senhor, e alguma coisa 
ardente, marota e servil bulia nos carves
esbugalhados, unzinho? enquanto sua lngua molhava o couro sujo, senhor? para o frio, e beijou a bota.
- Voc conhece todas - disse o Sargento Delgado.
- Quando voc no  trabalha o  nosso moral,  se faz de louco, Pantachita.
- Diga onde est Fusha e dou a voc a garrafa disse o tenente. - E alm disso o deixo livre. E ainda por cima, dou dinheiro. 
Responda logo ou desisto.
Mas Pantacha se pusera a choramingar de novo e todo o seu corpo aderia ao cho de areia, buscando calor, e era percorrido 
por breves espasmos.
- Leve-o - disse o tenente. - Est me deixando nervoso com suas loucuras, est me dando vontade de vomitar, j estou vendo 
at a me-d'gua, e a chuva continua 
linda, filha da puta.
O Sargento Roberto Delgado pegou a corda e correu, Pantacha ia atrs dele, de quatro ps, como um cachorro bailarino. Na 
escadinha, o sargento gritou e apareceu 
Hinojosa. E ele levou Pantacha, brincando, entre jorros de gua.
- E se sairmos apesar da chuva? - perguntou o tenente. - Afinal, a guarnio no est to longe.
- Viramos em dois minutos, meu tenente - disse o Sargento Delgado. - No viu como est o rio?
- Quero dizer, a p, pela mata - disse o tenente.
- Chegaremos em trs ou quatro dias.
- No se desespere, meu tenente - disse o Sargento Delgado. - Vai parar de chover logo. No tem outro jeito, convena-se, 
no podemos nos mexer com este tempo. 
Assim  a selva,  preciso ter pacincia.
245
- J vo duas semanas, porra! - disse o tenente. Estou perdendo uma transferncia, uma promoo, voc no percebe?
- No fique bravo comigo - disse o Sargento Delgado. - No  por minha culpa que chove, meu tenente.
Ela estava sozinha, sempre esperando, para que contar os dias, chover, no chover, voltaro hoje? ainda  muito cedo. 
Traro mercadoria? Que tragam, Cristo de 
Bagazn, santo, santo, muita, caucho, couros, que Dom Aquilino chegue com roupa e comida, quanto vendeu? e ele, bastante, 
Lalita, a bom preo. E Fusha, velho 
querido. Que ficassem ricos, Virgenzinha, santa, santa, porque ento sairiam da ilha, voltariam para onde vivem os cristos 
e se casariam, no , Fusha? certo, 
Lalita. E que ele mudasse e a quisesse de novo, e de noite, na sua rede? sim, nua? sim, para chup-la? sim, gostava dela? 
sim, mas e as achuales? sim, e a shapra? 
sim, sim, Lalita, e que tivessem outro filho. Olhe, Dom Aquilino, no se parece comigo? olhe como cresceu, fala huambisa 
melhor que cristo. E o velho, voc sofre, 
Lalita? e ela, um pouco, porque ele j no a queria, e ele,  muito ruim para voc? as achuales, a shapra, voc tem cime 
delas? e ela, raiva, Dom Aquilino, mas 
eram sua companhia, na falta de amigas, sabia? e tinha pena que ele as desse ao Pantacha, a Nieves ou aos huambisas; voltaro 
hoje? Mas nessa tarde eles no chegaram, 
s o Jum, e era hora da sesta quando a shapra entrou na cabana gritando, sacudiu a rede e suas pulseiras danavam, seus 
espelhinhos e seus guizos, e Lalita, j chegaram? 
e ela, no, chegou o aguaruna que fugiu. Lalita foi procur-lo e a estava, no tanque das tartarugas, salgando uns bagres, 
e ela, Jum, aonde voc foi, por qu, que 
tinha feito todo esse tempo? e ele calado, pensavam que voc no voltaria, e ele respeitoso, Jum, deu a ela os bagres, isto 
eu te trouxe. Vinha como quando se foi, 
a cabea pelada, riscos de zarco imitando chicotadas nas costas, e ela, saram em expedio, precisavam tanto dele, rio 
acima, por que voc no se despediu? para 
o lago Rimachi, conhecia os muratos'? so xucros? lutariam com o patro ou lhe dariam o caucho sem
problemas? Jum.
' Muratos ou muratas, tribo de jvaros que habita a regio de Pastaza (Loreto). H muratos que vivem nas bacias do alto 
Napo e do Tigre, em Oriente (Equador).
246
Os huambisas foram procurar voc, e Pantacha, talvez o tenham matado, patro, eles o odeiam, e o prtico Nieves, no acredito, 
j so amigos, e Fusha,
aqueles cachorros so capazes, e Jum, no me mataram, fui por a e voltei agora; ia ficar? sim. O patro brigar com voc, 
mas no se v, Jum, ele se acalmava logo,
e alm disso, no fundo, no o estimaria? E Fusha, um pouco louco, Lalita, mas til, um conversador. Verdade, diabos cristos, 
aguaruna aj? discursava para eles?
Jum, patro sacaneando, mentindo, aj? Lalita, se voc visse como trabalha com eles, grita com eles, pede, engana, e eles, 
sim, sim, aguaruna aj, com as mos e
as cabeas, aj, e sempre lhe davam caucho por bem. Que  que voc diz a eles, Jum, me conte como voc os convence, e Fusha, 
mas um dia o matariam e quem, merda,
ia substitu-lo. E ela, verdade que no quer voltar a Urakusa? voc odeia tanto assim os cristos, ? tambm a ns? e Pantacha, 
sim, patroa, porque bateram nele,
e Nieves, ento por que no nos mata dormindo? e Fusha, somos a sua vingana, e ela, era verdade que o penduraram de uma 
capirona? e ele,  louco, Lalita, no burro,
voc gritou quando o queimaram? e sabidssimo para trapacear, ningum ganhava dele caando e pescando, tinha mulher? mataram? 
e se no tem comida Jum se mete na
selva e traz mutuns, cotias, perdizes; voc se pinta para lembrar-se das chicotadas? e certa vez o viram matar uma jararaca 
com sua zarabatana, Lalita, ele sabe
que seus inimigos so aqueles, no , Jum? os que Fusha deixa sem mercadoria, no pense que ele me ajuda pela minha linda 
cara. E Pantacha, hoje eu o vi junto ao 
barranco, tocou na cicatriz da testa, falava para ningum, e Fusha, melhor para mim que trabalhe assim, a vingana no 
custa nada, e ele, em aguaruna, no entendi. 
Porque, quando chegava a lancha de Dom Aquilino, os huambisas caam das lupunas no cais como uma chuva de bugios, e gritando 
e brincando recebiam suas raes de 
sal e de anis, e os machados e os machetes que Fusha repartia entre eles, mostravam olhos embriagados de alegria, e Jum 
se foi, para onde? por a, j voltei, no 
queria? no, uma camisa? no, aguardente? no, machete, no, sal? no, e Lalita, o prtico ficar contente porque voc voltou, 
Jum, ele, sim,  seu amigo, no? e 
ele, sim, e ela, obrigado pelos peixinhos, pena que voc os salgou. E o prtico Nieves no sabia seus nomes, patroa, no 
havia dito, s dois cristos fizeram Jum 
ter dio dos patres e dizia que o desgraaram, e ela, enganaram voc? roubaram? e ele, me aconselharam,
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e ela, gostaria de falar com voc, Jum, por que virava as costas quando o chamava? e ele, calado, tinha vergonha? e ele, 
trouxe para ti, e as huambisas estavam
limpando o sangue, e ela, um veadinho? e ele, um veadinho, respeitoso, sim, e Lalita, vamos, eles o comeriam, que cortasse 
lenha, e Jum, tens fome? e ela, muita 
muita, desde que se foram no comia carne, Jum, e depois voltaram, e ela entra na cabana, olha para quilino, no cresceu, 
Jum? e ele, sim, e falava pago melhor 
que cristo, e ele, sim, e Jum tinha filhos? e ele, tinha mas no tem mais, e ela, muitos? e ele, poucos, e ento comeou 
a chover. Nuvens espessas e escuras, imveis 
sobre as lupunas, derrubaram uma gua escura dois dias seguidos, e toda a ilha se transformou num charco lodoso, a laguna 
numa nvoa turva, e muitos pssaros caam 
mortos  porta da cabana, e Lalita, coitados, estaro viajando, que cubram os couros, o caucho, e Fusha, depressa, porra, 
cachorros, despedia todos, naquela praiazinha, 
procurem um refgio, uma gruta para fazer fogo, e Pantacha, cozinhando suas ervas, e o prtico Nieves, mascando tabaco como 
os huambisas. E Lalita, desta vez tambm 
ganharia colares? pulseiras? plumas? flores? gostava dela? e ela, se o patro soubesse, e ele, mesmo que soubesse, pensaria 
nela de noite? e ele, no  por mal, 
 s um presentinho, porque a senhora foi boa quando estive doente; e ela,  limpo, educado, tira o chapu para me cumprimentar, 
e que Fusha no me insulte tanto, 
era espinhenta? podia vingar-se, Fusha, os olhos do prtico pegam fogo quando passo perto, sonhava com ela? queria peg-la? 
abra-la? dispa-se, venha para minha 
rede, que ela o beijasse? na boca? nas costas? santo, santo, que voltem hoje mesmo.
Aconteceu naquele ano milionrio: os agricultores comemoravam, manh e tarde, suas doze cargas de algodo, e no Centro Piurano 
e no Clube Grau brindava-se com champanha 
francs. Em junho, para comemorar o aniversrio da cidade e nos feriados nacionais, houve corso, bailes populares, meia 
dezena de circos levantaram suas barracas 
no areal. Os ricaos traziam orquestras limenhas para seus bailes. Foi tambm ano de acontecimentos: a Chunga comeou a 
trabalhar no barzinho de Doroteu, morreram 
Juana Baura e Patrocnio Naya, o Piura entrou caudaloso, no houve pragas. Vorazes, em enxames, caam sobre a cidade os 
caixeiros viajantes, os corretores de algodo, 
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as colheitas mudavam de dono nas cantinas. Apareciam lojas, hotis, bairros residenciais. E um dia correu a notcia: "Perto 
do rio, atrs do Camal, h uma casa 
de mulheres".
No era uma casa, mas um imundo beco, fechado ao exterior por um porto de garagem com quartinhos de adobe nas caladas; 
uma lmpada vermelha iluminava a fachada. 
Ao fundo, em tabues estendidos sobre barris, estava o bar; e as mulheres eram seis: velhas, moles, estranhas. "Voltaram", 
diziam os brincalhes, "so as que se 
salvaram do incndio!" Desde o princpio, a Casa do Camal teve muita concorrncia. Seus arredores tornaram-se masculinos 
e alcolicos, e em Ecos y Notcias, El 
Tiempo e La Indstria apareceram tpicos alusivos, cartas de protesto, exortaes s autoridades. E ento surgiu, inesperadamente, 
uma segunda casa de mulheres, 
em plena Castilla, no um beco, mas um chal, com jardins e sacadas. Desmoralizados, os procos e as senhoras que recolhiam 
assinaturas pedindo o fechamento da 
Casa do Camal desistiram. S o Padre Garcia, do plpito da igreja da Plaza Merino, destemperado e persistente, continuava 
reclamando sanes e prevendo catstrofes: 
"Deus lhes deu um bom ano, agora viro tempos de vacas magras para os piuranos". Mas no aconteceu assim, e no ano seguinte 
a colheita de algodo foi to boa como 
a anterior. Em vez de dois, havia ento quatro prostbulos; um deles a poucas quadras da catedral, luxuoso, mais ou menos 
discreto, com mulheres brancas, no de 
todo maduras e, ao que parece, da capital.
E nesse mesmo ano, a Chunga e Doroteu brigaram a garrafadas e, na polcia, documentos na mo, ela demonstrou que era a nica 
dona do barzinho. Que histria havia 
por trs disso, que misteriosos negcios? Em todo caso, desde ento, ela ficou sendo a proprietria. Dirigia o negcio, 
amvel e firmemente, sabia se fazer respeitar 
pelos bbados. Era uma jovem sem formas, de escasso humor, de pele mais para o escuro e corao metalizado. Era vista atrs 
do balco, os cabelos negros lutando 
para escapar de uma redinha, a boca sem lbios, olhos olhando tudo com uma indolncia que desanimava a alegria. Usava sapatos 
sem salto, meias curtas, uma blusa 
que tambm parecia de homem, e nunca pintava os lbios nem as unhas, nem punha ruge nas faces, mas, apesar dos vestidos 
e modos, tinha algo muito feminino na voz, 
mesmo quando dizia palavres. As mos grandes e quadradas levantavam mesas, cadeiras, desarrolhavam garrafas ou esmurravam 
os atrevidos com igual facilidade.
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Diziam que era spera e de alma dura por causa dos conselhos de Juana Baura, que lhe havia ensinado a desconfiar dos homens, 
o amor ao dinheiro e o costume da solido. 
Quando
a lavadeira morreu, Chunga fez um velrio suntuoso: licor fino, caldo de galinha, caf, toda a noite e  vontade. E quando 
a orquestra chegou, o harpista  frente, 
os que velavam Juana Baura espiaram, tensos, os olhos cheios de malcia. Mas Dom Anselmo e a Chunga no se abraaram, ela 
lhe deu a mo, como ao Bolas e ao Joven. 
Mandou-os entrar, atendeu-os com a mesma cortesia distante que dispensava aos demais, escutou com ateno quando tocaram 
tristes. Via-se que era dona de si mesma 
e sua expresso era austera mas muito tranqila. O harpista, em compensao, parecia melanclico e confuso, cantava como 
se rezasse, quando uma criana veio dizer 
que na Casa do Camal impacientavam-sex a orquestra devia comear s oito e passava das dez. Morta Juana Baura, diziam os 
mangaches, a Chunga ir viver com o velho 
na Mangachera. Mas ela se mudou para o barzinho, contam que dormia num colcho de palha sob o balco. Na poca em que a 
Chunga e Doroteo se separaram, e ela ficou 
sendo a nica proprietria, a orquestra de Dom Anselmo no tocava mais na Casa do Camal, mas em Castilla.
O barzinho da Chunga fez rpidos progressos. Ela mesma pintou as paredes, decorou-as com fotografias e cartazes, cobriu 
as mesas com oleados de florzinhas multicoloridas 
e contratou uma cozinheira. Virou restaurante de operrios, motoristas, sorveteiros e guardas municipais. Doroteo, depois 
da briga, foi viver em Huancabamba. Anos 
depois voltou a Piura e, "coisas da vida", dizia a gente, acabou como fregus do barzinho. Devia sofrer vendo os progressos 
da casa que fora sua.
Mas um dia o bar-restaurante fechou suas portas e a Chunga desapareceu. Uma semana depois, voltou  favela, capitaneando 
um grupo de operrios, que puseram abaixo 
as paredes de adobe e levantaram outras de tijolos, puseram zinco no teto e abriram janelas. Ativa, sorridente, ela estava 
todo dia na obra, ajudava os trabalhadores, 
e os velhos, muito excitados, trocavam olhares loquazes, retrospectivos, "Ela a est ressuscitando, irmo", "Tal pai tal 
filho", "Quem sai aos seus no degenera". 
Nesse tempo a orquestra no tocava mais na Casa de Castilla, mas no bairro de Buenos Aires, e, a caminho de l, o harpista 
pedia ao Bolas e ao Joven Alejandro que 
parassem na favela. Subiam pelo areal e,
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diante da obra, o velho, j quase cego, como vai o trabalho? puseram as portas? fica bonita de perto? com que se parece? 
Sua ansiedade e suas perguntas denotavam 
certo
orgulho, que os mangaches estimulavam com brincadeiras: "Que tal a Chunguita, harpista, est ficando rica, viu a casa que 
ela est construindo?" Ele sorria com 
gosto mas, por outro lado, quando os velhos sensuais vinham ao seu encontro, "Anselmo, ela a est ressuscitando para ns", 
o harpista se fazia de perplexo, misterioso, 
desentendido, no sei de nada, tenho que ir, o que esto dizendo, qual Casa Verde?
O ar decidido e prspero, os passos firmes, a Chunga apareceu, certa manh, na Mangachera e caminhou pelas ruazinhas poeirentas 
perguntando pelo harpista. Encontrou-o 
dormindo, na choa que fora de Patrocnio Naya. Estendido sobre o catre, o brao atravessado sobre o rosto, o velho roncava 
e tinha os plos brancos do peito molhados 
de suor. A Chunga entrou, fechou a porta e, mesmo assim, o rumor da visita se espalhou. Os mangaches vieram passear pela 
vizinhana, olhavam entre os bambus, colavam 
as orelhas na porta, comunicavam-se as descobertas. Um momento depois, o harpista saiu  rua com o rosto pensativo, melanclico, 
e pediu s crianas que chamassem 
o Bolas e o Joven; a Chunga sentara-se no catre e estava risonha. Logo chegaram os amigos do velho, a porta foi fechada 
outra vez, "No  uma visita ao pai, mas 
ao msico", murmuravam os mangaches, "a Chunga quer algo da orquestra". Permaneceram na choa por mais de uma hora e, quando 
saram, muitos mangaches j tinham ido 
embora, aborrecidos de esperar. Mas viram-nos das choas. O harpista caminhava outra vez como sonmbulo, tropeando, fazendo 
esses, boquiaberto. O Joven parecia 
conformado e a Chunga dava o brao ao Bolas, e via-se que estava contente e tagarela. Foram  casa de Anglica Mercedes, 
comeram tira-gostos, e depois o Joven e 
o Bolas tocaram e cantaram algumas composies. O harpista olhava o teto, cocava as orelhas, a cara mudava a cada momento, 
sorria, entristecia-se. E quando a Chunga 
saiu, os mangaches rodearam-nos, vidos de explicaes. Dom Anselmo continuava distrado, abobalhado, o Joven encolhia os 
ombros, s o Bolas respondia s perguntas. 
"No pode se queixar, velho", diziam os mangaches, " um bom contrato, e depois ter todas as vantagens trabalhando para 
a Chunguita, ela tambm pintar a casa 
de verde?"
251
- Estava bbado e no o levamos a srio - disse o Bolas. - O Senhor Seminrio riu, zombando.
Mas o sargento puxara o revlver outra vez, agarrava-o pela coronha e pelo cano e fazia fora para abri-lo. A seu redor 
todos comearam a se olhar e a rir sem vontade, 
a se mexer em seus assentos, subitamente incmodos. S o harpista continuava bebendo, uma roletinha-russa? de golinhos, 
que era isso, rapazes?
- Uma coisa para provar se os homens so homens disse o sargento; - j vai ver, velho.
- Fiquei sabendo que era de verdade pela tranqilidade do Lituma - disse o Joven.
Olhar fincado na mesa, Seminrio estava mudo e tenso, e seus olhos, sempre provocadores, agora pareciam tambm desconcertados. 
O sargento abrira finalmente o revlver 
e tirava os cartuchos, ordenava-os, verticais, paralelos, entre copos, garrafas e cinzeiros, atopetados de guimbas. A Selvtica 
soluou.
- A mim, pelo contrrio, ele enganou com sua tranqilidade - disse a Chunga; - seno eu teria arrancado o revlver dele 
quando o descarregava.
- Que h com voc, tira - perguntou Seminrio -, que graas so essas?
Tinha a voz entrecortada, e o Joven concordou, sim, desta vez baixaram sua crista. O harpista ps o copo na mesa, cheirou 
o ar, inquieto, estavam brigando de verdade, 
rapazes? Que no fossem assim, que continuassem conversando amigavelmente sobre Chpiro Seminrio. Mas as mulheres fugiam 
da mesa, Rita, Sandra, Maribel, pulando, 
Amapola, Hortnsia, gritando como passarinhos e, emboladas junto  escada, ciciavam, arregalavam os olhos, assustadssimas. 
O Bolas e o Joven pegaram o harpista 
pelos braos, levaram-no quase no ar at o lugar da orquestra.
- Por que no falaram com ele? - balbuciou a Selvtica. - Se dizem as coisas de boas maneiras, ele entende. Por que nem 
ao menos tentaram?
A Chunga tentou, que guardasse o revlver, a quem queria meter medo?
- Voc ouviu como me puteou a me antes, Chunguita - disse Lituma -, e tambm ao Tenente Cipriano, que nem sequer conhece. 
Vamos ver se os que puteiam a me tm 
sangue-frio e bom pulso.
- Que h com voc, tira - uivou Seminrio -, para que tanta palhaada?
252
Ento Josefino interrompeu-o: era intil disfarar, Senhor Seminrio, para que se fazer de bbado? que confessasse que tinha 
medo, e o dizia com todo o respeito.
- E tambm o amigo tentou cont-los - disse o Bolas. - Vamos embora daqui, irmo, no se meta em problemas. Mas Seminrio 
j se encorajara e lhe deu um empurro.
- E em mim outro - protestou a Chunga. - Me largue, que atrevimento, puta que o pariu, me largue!
- Machorra de merda - disse Seminrio. - Fora, ou eu fao um furo em voc tambm.
Lituma tinha agarrado o revlver com as pontas dos dedos, o panudo tambor de cinco orifcios diante de seus olhos, a voz 
era parcimoniosa, didtica: primeiro a 
gente v se est vazio, quer dizer, se no ficou nenhuma bala dentro.
- No falava para ns, mas para o revlver - disse o Joven. - Dava essa impresso, Selvtica.
E ento a Chunga se levantou, atravessou a pista de danas correndo e saiu, batendo a porta com fora.
- Quando a gente precisa deles nunca aparecem disse; - tive de ir at o Monumento Grau para encontrar dois tiras.
O sargento pegou uma bala, levantou-a com delicadeza, exibiu-a  luz da lmpada azul. Tinha que pegar o projtil e introduzi-lo 
na arma, e o Mono perdeu o controle, 
primo, j chegava, que fossem logo  Mangachera, primo, a mesma coisa fez Jos, quase chorando, que no brincasse com esse 
revlver, que fizessem o que o Mono 
disse, primo, que fossem embora.
- No perdo vocs porque no me contaram o que estava acontecendo - disse o harpista. - Os gritos de Len e das moas me 
deixavam aflito, mas nunca imaginei, pensei 
que estivessem se esmurrando.
- Quem  que tinha a cabea fria, maestro? - perguntou o Bolas. - Seminrio tambm tinha puxado seu revlver, quase o esfregava 
na cara de Lituma, estvamos esperando 
que, a qualquer momento, escapasse um tiro.
Lituma, sempre to tranqilo, e o Mono, no deixem, impeam, haveria uma desgraa, o senhor, Dom Anselmo, eles atenderiam. 
A Selvtica, Rita e Maribel estavam chorando, 
e Sandra disse a ele que pensasse em sua mulher, e Jos, no filho que estava esperando, primo, no seja teimoso, vamos  
Mangachera. com um golpe seco, o sargento 
juntou a coronha e o cano: fechava-se a arma: calma,
253
tranqilamente, e tudo est pronto, Senhor Seminrio, que esperava para se preparar?
- Como esses apaixonados a quem a gente fala e fala, mas  intil, porque andam no mundo da lua - suspirou o Joven. - O 
revlver enfeitiara Lituma.
- E ele nos enfeitiara a todos - disse o Bolas -, e Seminrio obedecia-lhe como se fosse o seu caboclinho. Mal Lituma ordenou, 
abriu o revlver e tirou todas as 
balas, menos uma. Os dedos do coitado tremiam.
- Talvez o corao lhe dissesse que ia morrer disse o Joven.
- Est pronto, agora apoie a mo no tambor, sem olhar, e d voltas nele at no saber onde est a bala, voltas rpidas, 
como numa roleta - disse o sargento. - Por 
isso se chama assim, harpista, entende?
- Chega de conversa fiada - disse Seminrio. Comecemos, caboclo de merda.
- Esta  a quarta vez que me insulta, Senhor Seminrio
- disse Lituma.
- Dava calafrios a maneira como faziam girar o tambor - disse o Bolas. - Pareciam duas crianas enrolando um pio.
- Est vendo como so os piuranos, moa - disse o harpista. - Jogar a vida por puro orgulho.
- Orgulho coisa nenhuma - disse a Chunga. De bbados e para me estragar a vida.
Lituma soltou o tambor, era preciso sortear para ver quem comeava, mas que importa, ele o convidou logo que puxou o revlver, 
cabia-lhe a vez, ps a boca do cano 
na fronte; fecha-se os olhos e fechou os olhos, e se dispara, e apertou o gatilho: tac, e um bater de dentes. Ficou plido, 
todos ficaram plidos, e abriu a boca, 
e todos abriram a boca.
- Cale-se, Bolas - disse o Joven. - No v que est chorando?
Dom Anselmo acariciou os cabelos da Selvtica, deu a ela o leno colorido, moa, que no chorasse, eram coisas passadas, 
j no importavam, e o Joven acendeu um 
cigarro e ofereceu. O sargento colocara o revlver na mesa e estava bebendo, devagar, de um copo vazio, sem que ningum 
risse. Sua cara parecia sada da gua.
- Nada, no fique nervoso - suplicava o Joven. Vai lhe fazer mal, maestro, juro que no houve nada.
- Voc me fez sentir o que nunca senti
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- tartamudeou o Mono. - Agora estou lhe pedindo, primo, vamos.
E Jos, como despertando, isso seria lembrado, que grande se fizera, da escada se levantou o zumbido das mulheres, Sandra 
ululou, o Joven e o Bolas, acalme-se, maestro, 
fique tranqilo, e Seminrio sacudiu a mesa, silncio, iracundo, porra,  minha vez, calem-se. Levantou o revlver, chegou-o 
 fronte, no fechou os olhos, o peito 
inchou.
- Ouvimos o tiro ao entrar na favela com os tiras
- disse a Chunga. - E a gritaria. Chutvamos a porta, os guardas quase a puseram abaixo com seus fuzis, e vocs no abriam.
- Acabava de morrer um sujeito, Chunga - disse o Joven. - Quem podia pensar em abrir a porta?
- Caiu de bruos sobre Lituma - disse o Bolas -, e com o choque foram os dois ao cho. O amigo ficou gritando, chamem o 
Doutor Zevallos, mas ningum podia se mexer 
com o susto. E alm disso, tudo era intil.
- E ele? - perguntou a Selvtica muito baixinho. Ele olhava o sangue que salpicara, e examinava todo
o corpo, pensando certamente que era seu o sangue, e no se lembrava de se levantar, e ainda estava sentado, apalpando-se, 
quando entraram os tiras, fuzis na mo, 
apontando para todo mundo, ningum se mexa, vocs nos pagam se aconteceu alguma coisa ao sargento. Mas ningum se importava 
com eles e os invencveis e as mulheres 
corriam atropelando-se entre as cadeiras, o harpista ia e voltava, pegava um, quem foi, sacudia outro, quem morreu, e um 
tira ficou diante da escada e obrigou a 
retroceder os que queriam fugir. A Chunga, o Joven e o Bolas inclinaram-se sobre Seminrio: de bruos, ainda conservava 
o revlver na mo e uma viscosa mancha crescia 
entre seus cabelos. O amigo, de joelhos, escondia a cara, Lituma continuava se apalpando.
- Os guardas, que houve, sargento? ele o desrespeitou e teve que despach-lo? - contou o Bolas. - E ele, tonto, dizendo 
que sim a tudo.
- Este senhor se suicidou - disse o Mono -, ns no temos nada com isso, deixem a gente sair, nossas famlias esto esperando.
Mas os guardas tinham trancado a porta e a guardavam, o dedo no gatilho do fuzil, e atiravam cobras e lagartos pela boca 
e pelos olhos.
- Sejam humanos, sejam cristos, deixem a gente sair
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- repetia Jos. - A gente s estava se divertindo, no nos metemos em nada. Por que querem que juremos?
- Traga um cobertor l de cima, Maribel - disse a Chunga. - Para cobri-lo.
- Voc no perdeu  a cabea, Chunga - disse o Joven.
- Depois tive de jog-lo fora, as manchas no saam com coisa alguma - disse a Chunga.
- As coisas mais estranhas acontecem a eles - disse o harpista. - Vivem diferente, morrem diferente.
- De quem est falando, maestro? - perguntou o Joven.
- Do Seminrio - disse o harpista. Tinha a boca aberta, como se ainda fosse dizer alguma coisa, mas no disse mais nada.
- Acho que o Josefino no vem mais me buscar disse a Selvtica. -  tardssimo.
A porta estava aberta e por ela entrava o sol como um incndio voraz, todos os cantos do salo brilhavam. Sobre os tetos 
da favela, o cu aparecia altssimo, sem 
nuvens, muito azul, e se via tambm a lombada dourada do areal e as achatadas e ralas algarobeiras.
- Ns levamos voc, moa - disse o harpista. Assim economiza o txi.
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QUARTA PARTE




Silenciosas, impelidas pelas varas, as canoas aproximam-se da margem e Fusha, Pantacha e Nieves saltam  terra. Internam-se 
uns metros na mata, acocoram-se, falam 
em voz baixa. Enquanto isso, os huambisas fundeiam as canoas, ocultam-nas sob a folhagem, apagam as pisadas na lama da margem, 
e, por sua vez, entram na mata. Levam 
zarabatanas, machados, arcos, hastes e virotes pendurados no pescoo e, na cintura, facas e canudos alcatroados de curare. 
Seus rostos, torsos, braos e pernas desaparecem 
sob tatuagens e, como nas grandes festas, eles pintaram tambm os dentes e as unhas. Pantacha e Nieves levam espingardas, 
Fusha, um revlver. Um huambisa fala com 
eles, logo se agacha e, elasticamente, afunda-se no mato. O patro estava melhor? O patro nunca estivera mal, quem inventava 
isso. Que o patro no levantasse a 
voz: os homens ficariam nervosos. Silhuetas mudas, esparramadas sob as rvores, os huambisas exploram  direita e  esquerda, 
seus movimentos so lentos e s o brilho 
de suas pupilas e as furtivas contraes de seus lbios revelam o anis e os cozimentos que estiveram bebendo toda a noite, 
 volta do fogo, no baixio onde acamparam. 
Alguns molham no curare os vrtices forrados de algodo dos virotes, outros sopram as zarabatanas para expulsar as sobras. 
Quietos, sem se olhar uns aos outros, 
esperam um longo tempo. Quando o huambisa que se afastou surge como um suavssimo felino entre as rvores, o sol j est 
alto e suas lnguas amarelas derretem os 
riscos de porongo e de zarco dos corpos nus. H uma complicada geografia de luzes e de sombras, acentuou-se a cor dos matagais,
257
as cascas parecem mais duras, mais enrugadas, e vem de cima um ensurdecedor vozerio de pssaros. Fusha levanta-se, fala 
com o recm-chegado, volta at Pantacha 
e Nieves:
os muratos esto caando na mata, s h mulheres e crianas, no se v caucho nem couros. Valer a pena ir assim mesmo? 
O patro pensa que sim, nunca se sabe, talvez 
esses cachorros tenham escondido tudo. Os huambisas falam agora, reunidos em torno do recm-chegado. Interrogam-no sem pressa, 
com monosslabos, e ele responde 
a meia voz, apoiando suas palavras com gestos e ligeiros movimentos de cabea. Dividem-se em trs grupos, o patro e os 
cristos se pem  frente e assim caminham, 
sem pressa, paralelos, precedidos pelos huambisas, que vo abrindo a folhagem com machetes. A terra murmura  sua passagem 
e, ao contato de seus corpos, o mato 
mais alto e os ramos afastam-se com um nico estalido, e logo aps eles se endireitam e se juntam. Continuam a marcha por 
longo tempo e, de repente, a luz  mais 
selvagem e prxima, os raios atravessam obliquamente a vegetao que rareia e  mais baixa, menos montona, mais clara. 
Param e,  distncia, j se v o fim da selva, 
uma grande clareira, umas cabanas e as guas quietas do lago. O patro e os cristos ainda do alguns passos e olham. As 
cabanas se aglomeram sobre uma elevao 
de terra nua e acinzentada, a pouca distncia do lago, e atrs do povoado, que parecia deserto, estende-se uma praia plana, 
de cor ocre. Pelo flanco direito, um 
brao de mata se estira e chega quase at as cabanas; por ali, que Pantacha se fizesse ver e os muratos viriam por este 
lado. Pantacha d meia-volta, explica, faz 
gestos, rodeado de huambisas, que o escutam concordando. Saem em fila indiana, agachados, afastam os cips com as mos e 
o patro, Nieves e os outros voltam os 
olhos uma vez mais para o povoado. Agora h indcios de vida: entre as cabanas adivinham silhuetas, movimentos e umas figuras 
que vo lentamente para o lago, em 
grupo, com embrulhos na cabea, que devem ser rodilhas ou cntaros, escoltadas por sombras minsculas, talvez cachorros, 
talvez crianas. Nieves v alguma coisa? 
No v caucho, patro, mas aquelas coisas estendidas sobre os moures podem ser couros secando ao sol. O patro no entende, 
na regio h seringais, os patres j 
no tero vindo para recolher o caucho? Esses muratos, sempre to vagabundos,  difcil que morram de trabalho. Os dilogos 
dos huambisas so cada vez mais roucos, 
mais enrgicos. De ccoras ou de p, ou encarapitados nos arbustos,
258
olham fixamente as cabanas, as silhuetas esfumadas na praia, as sombras mais baixas, e agora seus olhos no so dceis mas 
indomveis, e h neles alguma coisa
da cobiosa temeridade que dilata as pupilas do puma esfaimado, e at suas peles tensas ganharam o lustroso brilho do jaguar. 
Suas mos denotam exasperao, apertam 
as zarabatanas, apalpam os arcos, as facas, batem nas coxas, e os dentes lambuzados de porongo, limados como pregos, batem 
ou mordem cips, pedaos de tabaco. Fusha 
se aproxima, fala e eles grunhem, cospem, e suas caretas so ao mesmo tempo risonhas, beligerantes, exaltadas. Perto de 
Nieves, um joelho no cho, Fusha observa. 
As figuras voltam do lago, caminham sem nimo, pesadas, entre as cabanas, e em algum lugar acenderam uma fogueira: um arvorezinha 
cinza sobe at o cu brilhante. 
Late um cachorro, Fusha e Nieves se olham, os huambisas aproximam as zarabatanas dos lbios e, nos umbrais da mata, seus 
olhos buscam, mas o cachorro no aparece. 
Late de quando em quando, invisvel, a salvo. E se um dia entrassem e nas cabanas estivessem os soldados, esperando-os? 
O patro nunca pensara nisso? Nunca pensara. 
Mas, em vez disso, e a cada viagem, pensava que quando voltassem  ilha os soldados estariam apontando para eles do barranco. 
Encontrariam tudo queimado, mortas 
as mulheres dos huambisas e a patroa roubada pelos soldados. No princpio, tinha um pouco de medo, agora no, s ficava 
nervoso. O patro nunca teve medo? Nunca 
teve, porque os pobres que tm medo ficam pobres toda a vida. Mas isso no era com ele, patro, Nieves sempre fora pobre 
e a pobreza no lhe tirava o medo.  que 
Nieves se conformava, e o patro, no. Tinha tido m sorte, mas passaria, cedo ou tarde passaria para o lado dos ricaos. 
Quem duvidava, patro, ele conseguia sempre 
o que queria. E uma exploso de vozes sacode a manh: uivantes, inesperados, nus, emergem da lngua da mata e correm at 
o povoado, gesticulando sobem a ladeira, 
e entre os velozes corpos distantes se vem as cuecas brancas do Pantacha, se ouvem seus gritos, que recordam a sarcstica 
gargalhada da gralha, e agora latem muitos 
cachorros e as cabanas expulsam sombras, gritos e uma constante agitao, uma espcie de ebulio abala a ladeira por onde 
fogem tropeando, pulando, esbarrando
uma na outra, figuras que vm para a mata e se destacam, afinal, nitidamente: so mulheres. Os primeiros corpos pintados 
chegaram ao cume. Atrs de
Nieves e Fusha,
os huambisas soltam alaridos, pulam,
259
toda a folhagem vibra, e no escutam mais os pssaros. O patro se volta, aponta o descampado e as mulheres fugitivas: podem 
ir. Mas eles permanecem no mesmo lugar 
ainda
uns segundos, estimulando-se  com rugidos, ofegando e esperneando, e logo um deles levanta a zarabatana, comea a correr, 
atravessa a mata pouco densa que os  separa 
da clareira e, quando chega ao terreno descoberto, os demais tambm correm, pescoos inchados pelos gritos. O prtico e 
Fusha seguem-nos, e, no descampado, as mulheres 
levantam os braos, olham para o cu, misturam-se, dispersam-se em grupos e os grupos em solitrias silhuetas que pulam, 
vo e vm, caem ao cho e depois desaparecem, 
uma aps outra, submersas pelas peles de brilhos negros e avermelhados. Fusha e Nieves caminham, e os gritos os seguem 
e os precedem, parecem vir do p luminoso 
que os cerca enquanto sobem a ladeira. No povoado murato, os huambisas revoluteiam entre as cabanas, pulverizam a pontaps 
os frgeis tabiques, derrubam a machete 
os tetos de jarina, um deles apedreja o vazio, outro  apaga o fogo e todos cambaleiam, brios? estonteados? mortos de cansao? 
Fusha vai atrs deles, sacode-os, 
interroga-os, d ordens, e Pantacha, sentado sobre um cntaro, suarento, os olhos esbugalhados, boquiaberto, aponta uma 
cabana inclume ainda: l estava um velho. 
Sim, por mais que ele falasse, patro, cortaram-na. Alguns huambisas acalmaram-se e esgaravatam, aqui e ali, passam carregados 
de couros, bolas de caucho, cobertores 
que amontoam na clareira. A gritaria se concentrou agora, brota das mulheres encurraladas entre um esqueleto de bambus e 
trs huambisas que as vigiam, inexpressivos, 
a uns passos de  distncia. O patro e Nieves entram na cabana e, no cho, entre dois homens ajoelhados, h umas pernas 
curtas e enrugadas, um sexo oculto por um 
estojo de madeira, um ventre, um torso magro e sem plos, de costeletas que marcam a pele terrosa. Um dos huambisas volta-se, 
mostra a cabea que s agora goteja 
pontos vermelhos. Mas o buraco aberto entre  os ombros ossudos verte  sempre,  esses  cachorros,  golfadas  intermitentes 
de sangue grosso, que visse bem suas caras. 
Mas Nieves saiu da cabana, pulando para trs como um caranguejo, e os dois huambisas no mostram entusiasmo algum e tm 
os olhos como que intumescidos. Escutam mudos, 
impassveis, Fusha, que grita e faz gestos e segura o revlver, e quando ele se cala saem da cabana e ali est Nieves, 
apoiado na parede, vomitando. Era mentira, 
no perdera o medo ainda,
260
mas que no o envergonhasse, qualquer um ficava com o estmago embrulhado, esses cachorros. Para que servia o Pantacha? 
Que adiantava que o patro desse ordens? 
Nunca aprenderiam, porra, qualquer dia seria a cabea deles que cortariam. Mas ainda que fosse a tiros, porra, a pontaps, 
porra, esses porras lhe obedeceriam. Voltam 
 clareira e os huambisas afastam-se e tudo foi colocado no cho: couros de lagarto, veado, serpente e javali, cabaas, 
colares, caucho, feixes de barbasco. Sempre 
emboladas e ruidosas, as mulheres mexem os olhos, os cachorros latem, e Fusha examina os couros  contraluz, calcula o 
peso do caucho, e Nieves recua, senta-se 
em um tronco cado, e Pantacha vem para seu lado. Seria o feiticeiro? Quem podia saber? mas, na verdade, no tentou fugir, 
e quando entraram estava sentadinho, queimando 
umas ervas. Gritou? Quem podia dizer, ele no o ouviu e primeiro quis impedi-los e depois quis ir embora e se foi e tremiam 
suas pernas e se cagou e no sentiu que 
se cagava. De fato, o patro estava furioso, no tanto porque o mataram, por que no o obedeceram? Sim. E quase no havia 
nada, aqueles couros estavam avariados, 
e o caucho era da pior qualidade, ficaria furioso. Mas por que se fazia de indiferente? No estava doente tambm? Eram cristos, 
na ilha a gente esquecia que os 
selvagens eram selvagens, mas agora compreendia, no podia viver assim, se tivesse masato se embriagaria. E veja, preste 
ateno, discutiam com o patro, ficaria 
furioso, ficaria furioso. Oculto pelos huambisas que o amuralham, a voz de Fusha soa fracamente na manh ensolarada, e 
eles falam com veemncia, agitam os punhos, 
cospem e vibram. Sobre suas cabeleiras lassas, aparece a mo do patro com o revlver, aponta para o cu e dispara, e os 
huambisas murmuram por um segundo, calam-se, 
outro disparo, e as mulheres tambm se calam. S os cachorros continuam latindo. Por que o patro queria partir logo? Os 
huambisas estavam cansados, Pantacha tambm 
estava cansado, e eles queriam comemorar, era justo, eles no se atiravam  imundcie pelo caucho nem pelos couros, s por 
prazer, um dia se esquentariam e matariam 
a gente.  que o patro est doente, Pantacha, queria demonstrar que no, mas no podia. Antes no ficava de bom humor? 
No gostava de comemorar tambm? Agora nem 
olhava para as mulheres e sempre andava irritado. Estaria enlouquecendo porque no ficava rico como queria? Fusha e os 
huambisas dialogam agora com animao, sem
violncia, no h rugidos mas um cochichar vivo,
261
nervoso, circular, e alguns rostos mostram-se joviais. As mulheres esto  silenciosas, grudadas umas s outras, abraadas
s suas crias e a seus
cachorros. Doente? Claro, uma noite antes de Jum sair da ilha, Nieves entrou e viu, as achuales estavam esfregando suas 
pernas com resina, e ele, porra, fora, se 
enfureceu, no queria que soubessem que estava doente. Fusha d instrues, os huambisas enrolam os couros, jogam aos ombros 
as bolas de caucho, pisoteiam e destroem 
tudo aquilo que o patro eliminou, e Pantacha e Nieves se aproximam do grupo. Estavam cada vez pior esses cachorros, no 
queriam obedecer, estavam insolentes, porra, 
mas ele os ensinaria.  que queriam festejar, patro, e alm disso havia tantas mulheres. Por que o patro no os deixava? 
Tamanho imbecil, ele tambm? a regio 
no estava cheia de tropa? serrano burro, se eles se embriagam, aquilo duraria dois dias, babaca, comeando por ele, os 
muratos podiam voltar, e os soldados, surpreendlos. 
O patro no queria problemas por to pouca coisa, que levassem a mercadoria ao rio, babaca, e bem depressa. Vrios huambisas 
j descem a ladeira e Pantacha vai 
atrs deles, coando-se, apressando-os, mas os homens caminham sem pressa e sem vontade, em silenciosas e morosas filas 
desordenadas. Os que permanecem no povoado 
murmuram, andam confusamente de um lado para outro, evitam Fusha, que os vigia, revlver na mo, do centro da clareira. 
Finalmente, uns tabiques comeam a se queimar. 
Os huambisas param de caminhar, esperam, como que apaziguados, que as chamas abracem, num nico torvelinho, a casa. Em seguida, 
empreendem a volta. Ao descer a ladeira 
pelada, viram-se para olhar as mulheres que, no cume, jogam punhados de terra  cabana em chamas. Chegam  mata e tm que 
abrir de novo um caminho a machete e avanar 
por um delgado, precrio corredor sombreado, entre troncos, cips, trepadeiras e curtos igaps. Quando invadem a praia, 
Pantacha e seus homens j tiraram as canoas 
da ramagem e nelas instalaram a carga. Embarcam, partem, na frente a canoa do prtico, que vai medindo com o remo a profundidade 
do leito. Navegam toda a tarde, 
com uma breve parada para comer, e quando escurece atracam numa praia, semioculta por tucuns gmeos, eriados de espinhos. 
Acendem o fogo, cortam fiambres, assam 
mandiocas, e Pantacha e Nieves chamam o patro: no, no quer comer. Deitou-se na areia, de costas, usa os braos de travesseiro. 
Eles comem e se atiram um junto 
ao outro, cobrem-se com um cobertor murato.
262
Dava no sei o qu, ver o patro to mudado, no s no comia, mas no falava. Seria aquilo das pernas, tinha notado? mal 
podia caminhar e sempre ficava
para trs. Deviam doer, claro, e, alm disso, no tirava as calas nem as botas para nada. Os murmrios se cruzam e se descruzam 
na escurido, percorrem-na em todas 
as direes: vozes de insetos, vozes do rio que bate nas pedras, na grama e na margem. Nas trevas dos arredores os vaga-lumes 
brilham como fogos-ftuos. Pantacha 
viu quando ele pegou aquele akitai1 dos muratos, era mais bonito, tinha mais cores que os dos huambisas, viu como ele o 
escondia nas calas. Ah, sim? E em que estava 
pensando o Pantacha, por que Jum fugiria da ilha? Que no mudasse de conversa; levava o akitai para z.shapra? tinha se apaixonado 
por ela? Como poderia se apaixonar, 
se nem sequer a entendia, e nem sequer lhe agradava? Passaria para ele ento? Quando chegassem? Na mesma noite? Sim, na 
mesma noite que chegassem, se quisesse. Para 
quem, ento, daria o akitai? Para uma das achuales? O patro ia lhe passar uma achual? Para ningum, s para ele, gostava 
de plumas, e depois seria uma lembrana.
' Vestimenta indgena.
263



I.



Bonifcia esperou o sargento ao p da cabana. O vento levantava seus cabelos como uma crista, e pareciam tambm de um galinho 
sua atitude satisfeita, a postura
de suas pernas plantadas na areia e a bundinha firme e saliente. O sargento sorriu, acariciou o brao nu de Bonifcia, palavra 
de honra, ficara emocionado ao v-la
de longe, e os olhos verdes se dilataram um pouco, o sol se refletia como uma vibrao de dardos minsculos em cada pupila.
- Voc lustrou as botas - disse Bonifcia. - Sua farda parece nova.
Um sorriso satisfeito arredondou a cara do sargento e quase escondeu seus olhos:
- Foi a Senhora Paredes que a lavou - disse. - Tinha medo de que chovesse, mas que sorte, nem uma nuvenzinha. Parece um 
dia piurano.
- Voc nem notou - disse Bonifcia. - No gosta do meu vestido?  novo.
-  verdade, no tinha notado - disse o sargento.
- Est bem em voc, o amarelo fica muito bem nas moreninhas.
Era um vestido sem mangas, com decote quadrado e saia rodada. O sargento examinava Bonifcia, risonho, sua mo continuava 
acariciando o brao dela, que permanecia 
imvel, os olhos nos do sargento. Lalita lhe emprestara os sapatos brancos, experimentou-os de noite e machucavam, mas ela 
os calaria para ir  igreja, e o sargento 
olhou os ps de Bonifcia, descalos, afogados na areia: no gostava que andasse descala, aqui no tinha importncia, chininha, 
mas quando se fossem, teria que 
andar sempre calada.
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- Primeiro tenho de me acostumar - disse Bonifcia. - Voc no sabe que na misso s usei sandlias? No so a mesma coisa, 
no apertam.
Lalita apareceu no parapeito: o que sabia do tenente, sargento. Uma fita prendia seus cabelos compridos, e no pescoo brilhava 
um colar de prolas. Tinha os lbios 
pintados, que bonitona estava a senhora, ruge nas faces, com ela  que o sargento gostaria de casar e Lalita, o tenente 
no chegara? que  que sabia?
- Nenhuma notcia - disse o sargento. - S que ainda no chegou  guarnio de Borja. Parece que chove muito, tero virado 
no meio do caminho. Mas por  que se preocupam 
tanto com ele, at parece que o tenente  filho de vocs.
- V embora, sargento - disse Lalita, de mau humor. - D azar ver a noiva antes da missa.
- Noiva? - explodiu Madre Anglica. - Voc quer dizer concubina, companheira.
- No, madrezinha - insistiu Lalita, com voz humilde. - Noiva do sargento.
- Do sargento? - perguntou a superiora. - Desde quando? Como foi isso?
Incrdulas, surpresas, as madres inclinaram-se para Lalita, que assumira uma atitude reservada, as mos juntas, a cabea 
baixa. Mas espiava as madres com o rabo 
do olho, e seu meio sorriso era enganador.
- Se no prestar, a senhora e Dom Adrin sero os culpados - disse o sargento. - Vocs me meteram neste buraco, senhora.
Ria com a boca aberta, muito alto, e seu corpo, tambm regozijado, estremecia dos ps  cabea. Lalita fazia esconjuros 
com os dedos para espantar a m sorte, 
e Bonifcia se afastara alguns passos do sargento.
- V para a igreja - repetiu Lalita. - Est se desgraando e desgraando-a s por prazer. Que  que veio fazer aqui?
E para o que queria, senhora, e o sargento estendeu as mos para Bonifcia, para ver a sua chininha, e ela correu, ento 
viera na frente, e tal como Lalita, cruzou 
os dedos e exorcizou o sargento, que, cada vez de melhor humor, bruxas, bruxas, ria a gargalhadas: ah, se os mangaches vissem 
essa dupla de bruxas. Mas elas no 
estavam de acordo, e o pequeno punho trmulo de Madre Anglica escapou
da manga,
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esmurrou o ar e desapareceu entre as pregas do hbito: no poria os ps naquela casa. Estavam no ptio, frente  residncia 
e, ao fundo, as pupilas
corriam entre as rvores da horta. A superiora parecia ligeiramente desatenta.
-   da  senhora  que  ela  mais  sente falta, Madre Anglica - disse Lalita. - Tenho mais sorte que qualquer outra, diz, 
tenho muitas mes, diz, e a primeira  
a mezinha Anglica. Acho que ela pensava que a senhora me ajudaria a pedir  superiora, madrezinha.
-  um demnio cheio de tretas e maldades - o punho apareceu e desapareceu. - Mas a mim no engana facilmente. Que v embora 
com o seu sargento, se quiser, aqui 
no entrar.
- Por que em vez de mandar voc no veio ela mesma? - perguntou a superiora.
- Tem vergonha, madrezinha - disse Lalita. - No sabia se a senhora a receberia ou a mandaria embora de novo. No  porque 
nasceu pag que no tem orgulho. Perdoe-lhe, 
madre, olhe que vai se casar.
- Ia procur-lo, sargento - disse o prtico Nieves.
- No sabia que estava aqui.
Tinha sado ao terrao e se apoiava no parapeito, junto a Lalita. Vestia umas calas de algodo branco e uma camisa de mangas 
compridas, sem colarinho. Estava sem 
chapu, calava uns sapatos de sola grossa.
- Andem logo - disse Lalita. - Adrin, leve-o agora mesmo.
O prtico desceu a escadinha, as pernas duras como estacas, o sargento fez uma continncia para Lalita e piscou um olho 
para Bonifcia. Caminharam para a misso, 
no pelo caminho paralelo ao rio, mas entre as rvores da colina. Como se sentia, sargento? At que hora foi a festa de 
despedida de ontem na casa dos Paredes? At 
as duas, e o Pesado se embriagou e se jogou na gua com roupa, Dom Adrin, ele tambm ficou um pouco tocado. J sabia alguma 
coisa do tenente? Mas, outra vez, Dom 
Adrin? No sabia nada, vai ver que as chuvas o prenderam l, devia estar fazendo espuma. Ento, que sorte que no ficaram 
com ele. Sim, talvez ainda ficassem um 
bom tempo por l, diziam que no Santiago havia um verdadeiro dilvio. Vamos ver, aqui entre ns, estava contente por se 
casar, sargento? e o sargento sorriu, por 
uns segundos seus olhos se arregalaram,
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e, em seguida, bateu no peito:  aquela mulher  se metera aqui, Dom Adrin, por isso casava com ela.
- O senhor se portou como um bom cristo - disse Adrin Nieves. - Aqui s se casam os que vivem h muitos anos juntos; as 
madres e o Padre Vilncio se matam aconselhando 
essa gente e nada. A moa est contente. Ontem  noite prometia: vou ser uma boa mulher.
- Na minha terra falam que o corao nunca engana - disse o sargento. - E meu corao me diz que ser boa mulher, Dom Adrin.
Caminhavam devagar, evitando as poas, mas as perneiras do sargento e as calas do prtico j estavam cheias de respingos. 
As rvores da colina filtravam a luz do 
sol, que se agitava e ganhava certo frescor. Aos ps da misso, Santa Maria d Nieva jazia quieta e dourada entre os rios 
e a mata. Pularam um montculo, subiram 
o caminho pedregoso e, l em cima, na porta da capela, um grupo de aguarunas chegou  beira do barranco para v-los: mulheres 
de peitos cados, crianas nuas, homens 
de olhos esquives e cabeleiras profusas. Afastaram-se para deix-los passar e alguns meninos estenderam as mos e grunhiram. 
Antes de entrar na igreja, o sargento 
limpou a farda com o leno e ajeitou o quepe; Nieves desdobrou a bainha das calas. A capela estava cheia, cheirava a flores 
e a lamparina de azeite, a careca de 
Dom Fbio Cuesta reluzia como uma fruta na penumbra. Tinha posto gravata e, de seu banco, acenou para o sargento, que levou 
a mo ao quepe. Atrs do governador, 
o Gordo, o Chiquito, o Oscuro e o Rubio bocejavam, as bocas azedas, os olhos injetados, e os Paredes e seus filhos ocupavam 
dois bancos: incontveis meninos de cabelos 
molhados. Na ala oposta, atrs de uma grade onde a penumbra se convertia em escurido, uma formao de aventais e cabeleiras 
idnticas: as pupilas. Ajoelhadas, imveis, 
seus olhos, como uma nuvem de vaga-lumes curiosos, perseguiam o sargento que nas pontas dos ps ia apertando as mos dos 
presentes, e o governador tocou na careca, 
sargento: tinha que tirar o quepe na igreja e ficar com a cabea descoberta, como ele. Os guardas sorriam, e o sargento 
alisava os cabelos alvoroados pelo mpeto 
com que havia tirado o quepe. Foi sentar-se na primeira fila, junto ao prtico Nieves. Arrumaram bonito o altar, no? Muito 
bonito. Dom Adrin, eram simpticas 
as freirinhas. Os jarres de barro vermelho brilhavam de flores, e tambm havia orqudeas tranadas em colares, que desciam 
do
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crucifixo de madeira at o cho; de ambos os lados do altar, vasos de altas samambaias alinhavam-se em filas duplas at 
chegar s paredes, e o cho da capela fora
lavado e estava brilhando. Dos castiais acesos, rolos de fumaa transparente e cheirosa ascendiam pelo ar escuro e iam 
alimentar a capela densa de vapor que flutuava 
junto ao teto: j chegaram, sargento, a noiva e a madrinha. Houve um murmrio, as cabeas giraram at a porta. Empinada 
nos sapatos brancos de salto alto, Bonifcia 
tinha agora a mesma altura de Lalita. Um vu negro ocultava seus cabelos, seus olhos percorriam os bancos, grandes e assustados, 
e Lalita cochichava com os Paredes, 
seu vestido estampado dava quele setor da capela uma animao bizarra e juvenil. Dom Fbio inclinou-se para Bonifcia, 
disse alguma coisa ao seu ouvido e ela sorriu, 
coitada: estava atrapalhada a chininha, Dom Adrin, que cara envergonhada tinha. Dariam depois um trago a ela e se alegraria, 
sargento, acontece que morria de medo 
de encontrar as madres, pensava que iam brigar com ela, no  verdade que eram bonitos seus olhos, Dom Adrin? O prtico 
levou um dedo  boca, e o sargento olhou 
o altar e se persignou. Bonifcia e Lalita sentaram-se junto a eles e, um momento depois, Bonifcia ajoelhou-se e ficou 
a rezar, as mos juntas, os olhos fechados, 
os lbios mal mexendo. Continuava assim quando a grade rangeu e as madres entraram na capela, a superiora na frente. De 
duas em duas, iam at o altar, ajoelhavam-se, 
persignavam-se, sem rudo dirigiam-se aos bancos. Quando as pupilas comearam a cantar, todos ficaram de p, e entrou o 
Padre Vilncio, as vermelhssimas barbas 
como 
um peitilho sobre o hbito roxo. A superiora fez sinais para Lalita, indicando o altar, e Bonifcia, ainda de joelhos, secava 
os olhos com o vu. Logo se levantou 
e caminhou entre o prtico e o sargento, muito empertigada, sem olhar para os lados. E durante toda a missa esteve retesada, 
o olhar cravado em um ponto intermedirio 
entre o altar e os colares de orqudeas, enquanto as madres e as pupilas rezavam em voz alta e os demais ajoelhavam-se, 
sentavam-se e se levantavam. Depois Padre 
Vilncio se aproximou dos noivos, o sargento ficou em posio de sentido, as vermelhas barbas estavam a milmetros do rosto 
de Bonifcia, interrogou o sargento, 
que bateu os calcanhares e disse sim, com deciso, e Bonifcia, mas no se ouviu a resposta dela. Agora Padre Vilncio sorria 
cordialmente e estendia a mo para 
o sargento, para Bonifcia, que a beijou. O ambiente da capela pareceu mais
leve,
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as pupilas pararam de cantar e havia dilogos a meia voz, sorrisos, movimentos. O prtico Nieves e Lalita abraaram os noivos 
e, na roda formada em torno deles,
Dom Fbio brincava, as crianas riam, o Gordo, o Chiquito, o Oscuro e o Rubio esperavam, um atrs do outro, para felicitar 
o sargento. Mas a superiora dispersou-os, 
senhores, estavam na capela, silncio, que sassem ao ptio, e sua voz dominava as outras. Lalita e Bonifcia passaram a 
grade, em seguida os convidados, por fim 
madres, e Lalita, boba, que a soltasse, Bonifcia, as madrezinhas tinham posto uma mesa com toalha branca, cheia de sucos 
e pasteizinhos, que a soltasse, que todos 
queriam felicit-la. As pedras do ptio faiscavam e, nos muros brancos da residncia, atormentados pelo sol, as sombras 
pareciam trepadeiras. Que vergonha tinha 
delas, madrezinhas, nem a olh-las se atrevia, e hbitos, sussurros, risos, fardas revoluteavam ao redor de Lalita. Bonifcia 
continuava abraada a ela, a cabea 
escondida no vestido estampado e, enquanto isso, o sargento recebia e distribua abraos: estava chorando, madrezinhas, 
que boba. Por que ficava assim, Bonifcia? 
Era por causa das senhoras, madres, e a superiora, boba, no chore, venha, quero abra-la. Bruscamente, Bonifcia soltou 
Lalita, virou-se e caiu nos braos da superiora. 
Agora passava de uma madre a outra, tinha que rezar sempre, Bonifcia, sim, mezinha, ser boa crist, sim, no se esquecer 
delas, nunca as esqueceria, e Bonifcia 
as abraava com fora e elas tambm com muita fora, e grossas, involuntrias, invencveis lgrimas corriam pelas faces 
de Lalita, borravam o ruge, sim, sim, no 
deixava de quer-las, e revelavam os estigmas de sua pele, tinha rezado tanto por elas, espinhas, manchas, cicatrizes. Essas 
madres no tm preo, Padre Vilncio, 
quanta coisa haviam preparado. Mas, ateno, o chocolate estava esfriando, e o governador estava com fome. Podiam comear, 
Madre Griselda? A superiora resgatou 
Bonifcia dos braos de Madre Griselda, claro que podiam, Dom Fbio, e a roda se abriu: duas pupilas abanavam a mesa cheia 
de travessas e de jarras, e, entre elas, 
havia uma silhueta escura. Quem lhe preparara tudo isso, Bonifcia? Tinha que adivinhar, e Bonifcia choramingava, madre, 
diga que me perdoou, puxava o hbito da 
superiora, que lhe desse esse presente, madre. Fino, rosado, o indicador da superiora apontou para o cu: pedira perdo 
a Deus? arrependera-se? Todos os dias, madre, 
e ento estava perdoada, mas tinha que adivinhar, quem foi? Bonifcia se lamuriava, quem
podia ser,
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seus olhos procuravam entre as madres, onde estava, aonde tinha ido. A silhueta escura afastou as duas pupilas e avanou, 
arrastando os ps, o rosto
mais estranho que nunca: at que enfim lembrava-se dela essa ingrata, essa mal-agradecida. Mas j Bonifcia se lanara em 
seus braos, e Madre Anglica cambaleava, 
o governador e os outros comearam a comer pasteizinhos, e ela, fora a sua mezinha, e Madre Anglica, nunca viera v-la, 
demnio, mas sonhara com ela, pensando 
em cada dia e cada noite em sua mezinha e Madre Anglica, que provasse daqueles, destes, que tomasse um suco.
- Nem me deixou entrar na cozinha, Dom Fbio dizia a Madre Griselda. - Desta vez tem que elogiar Madre Anglica. Ela preparou 
tudo para a sua mimosa.
- Que  que eu no fiz por ela? - perguntou a Madre Anglica. - Fui sua ama-seca, sua criada, agora sua cozinheira.
Seu rosto empenhava-se em continuar emburrado e rancoroso, mas sua voz j estava alquebrada, roncava como uma pag, e de 
repente seus olhos se molharam, torceu a 
boca, e rompeu em soluos. Sua velha mo curva batia levemente em Bonifcia e as madres e os guardas trocavam as travessas, 
enchiam os copos, o Padre Vilncio e 
Dom Fbio riam s gargalhadas, e um dos meninos do Paredes trepara na mesa, a me dava palmadas nele.
- Como gostam dela, Dom Adrin - disse o sargento. - Como a mimam.
- Mas por que tanto choro? - disse o prtico. Se no fundo esto contentes.
- Posso levar alguma coisa para elas, mezinha? disse Bonifcia. Apontava para as pupilas, formadas em trs filas na frente 
da residncia. Algumas sorriam para ela, 
outras davam adeusinhos tmidos.
- Elas tambm tm sua refeio especial - disse a superiora. - Mas v abra-las.
- Elas prepararam presentes para voc - grunhiu a Madre Anglica, o  rosto deformado pelas lgrimas e as caretas. - E ns 
tambm, eu fiz um vestidinho para voc.
- Todos os dias virei ver a senhora - disse Bonifcia. - Eu a ajudarei, mezinha, eu continuarei tirando o lixo.
Separou-se de Madre Anglica e foi at as pupilas, que debandaram e foram a seu encontro, em meio a uma gritaria. Madre 
Anglica abriu caminho entre os convidados 
e,
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quando chegou junto ao sargento, seu rosto estava menos plido, escuro de novo.
- Voc vai ser bom marido? - grunhiu, sacudindo-o pelo brao. - Ai de voc se der nela, ai de voc se andar com outras mulheres. 
Voc se portar bem com ela?
- Claro que sim, madrezinha - respondeu o sargento, confuso. - Pois eu gosto tanto dela.
- Ah, voc acordou - disse Aquilino. -  a primeira vez que dorme assim desde que samos. At agora, era voc que ficava 
me olhando, quando eu abria os olhos.
- Sonhei com Jum - disse Fusha. - Toda a noite vendo a cara dele, Aquilino.
- Vrias vezes ouvi voc se queixar, e uma vez achei que at chorava - disse Aquilino. - Era por isso?
- Que coisa estranha, velho - disse Fusha -, eu no fazia nada no sonho, s o Jum.
- E o que  que voc sonhava com o aguaruna? perguntou Aquilino.
- Que estava morrendo, na praiazinha onde o Pantacha preparava  seus cozimentos - disse Fusha.  - E algum se aproximava 
e dizia, venha comigo, e ele, no posso, 
estou morrendo. E assim todo o sonho, velho.
- Talvez at estivesse acontecendo - disse Aquilino. -- Talvez tenha morrido de noite e se despediu de voc.
- Os huambisas devem ter matado o Jum, eles o odiavam muito - disse Fusha. - Mas espere, no seja assim, no se v ainda.
-  de propsito - disse Lalita, arquejando -, voc me chama e sempre  de propsito. Para que me faz vir se voc no pode, 
Fusha?
- Posso, sim - gritou Fusha -, s que voc quer fazer tudo correndo, nem sequer me d tempo, e fica furiosa. Posso, sim, 
puta.
Lalita virou-se e ficou de costas na rede, que rangia ao balanar. Uma claridade azul entrava na cabana pela porta e pelas 
rendas, com os vapores clidos e os murmrios 
da noite, mas no chegava at a rede; estes, sim.
- Voc pensa que me engana - disse Lalita. Pensa que sou boba.
- Tenho preocupaes na cabea - disse Fusha -, preciso esquec-las, mas voc no me d tempo. Sou um homem, no um animal.
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- O que h  que voc est doente - sussurrou Lalita.
- O que h  que essas suas espinhas me do nojo
- gritou Fusha -, o que h  que voc ficou velha. S com voc  que no posso, com qualquer outra, quantas vezes quiser.
- Voc as abraa e beija, mas tambm no pode com elas - disse Lalita, muito devagar. - As achuales me contaram.
- Voc fala de mim com elas, puta? - o corpo de Fusha transmitia  rede um ansioso e contnuo tremor. Fala de mim para 
as pags? Est querendo que eu a mate?
- Voc quer saber aonde ia cada vez que desaparecia da ilha?  - perguntou Aquilino. - A  Santa Maria de Nieva.
- Para Nieva? E o que ia fazer l? - perguntou Fusha. - Como  que voc sabe que o Jum ia a Santa Maria de Nieva?
- Soube faz pouco - disse Aquilino. - A ltima vez que fugiu faz uns oito meses?
- Quase no fao mais a conta do tempo, velho disse Fusha. - Mas, talvez, h uns oito meses. Voc encontrou o Jum e ele 
lhe contou?
- Agora que estamos longe voc pode saber - disse Aquilino. - Lalita e Nieves esto vivendo l. E o Jum foi v-los pouco 
tempo depois de chegarem a Santa Maria de 
Nieva.
- Voc sabia onde estavam? -- suspirou Fusha. Voc os ajudou, Aquilino? Voc tambm foi um cachorro? Voc tambm me traiu, 
velho?
-  por isso que voc tem vergonha e se esconde e no se despe na minha frente - disse Lalita, e a rede deixou de ranger. 
- Por acaso no sinto como fedem? Suas 
pernas esto  apodrecendo,  Fusha, isso   pior que minhas espinhas.
O vaivm da rede era outra vez mais ativo e, de novo, rangiam as estacas, longamente, mas agora no era ele quem tremia, 
era Lalita. Fusha se encolhera, e era uma 
forma rgida e como que aniquilada entre os cobertores, uma garganta quebrada tentando falar, e na sombra de seu rosto havia 
duas luzinhas vivas e espantadas na 
altura dos olhos.
- Voc tambm me insulta - balbuciou Lalita. E se lhe acontece alguma coisa, eu  que tenho a culpa;
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agora me chamou e ainda fica bravo. Eu tambm fico com raiva e no sei. o que digo.
- So os pernilongos, puta - gemeu Fusha baixinho e seu brao nu golpeou, sem foras. - Me picaram, e infeccionou.
- Sim, so os pernilongos e  mentira que estejam fedendo, voc vai se curar logo - soluou Lalita. - No fique assim, Fusha, 
com raiva a gente no pensa, diga 
qualquer coisa. Trago gua?
- Eles esto construindo uma casa?  - perguntou Fusha. - Aqueles cachorros vo ficar para sempre em Santa Maria de Nieva?
- Os guardas dali contrataram Nieves como prtico
- disse Aquilino. - Chegou outro tenente, mais jovem que aquele que se chamava Cipriano. E Lalita esperando um filho.
- Tomara  que morra na sua barriga, e morra ela tambm - disse Fusha. - Mas me diga, velho, no foi l que o penduraram? 
Que  que o Jum ia fazer em Santa Maria 
de Nieva. Queria se vingar?
- Ia por causa daquela histria to velha - disse Aquilino. - Para reclamar o caucho que o Senhor Retegui tomou dele, quando 
foi a Urakusa com os soldados. Mas 
no 
o ouviram, e Nieves soube que no era a primeira vez que ele ia reclamar, que todas as suas escapadas da ilha eram para 
isso.
- Ia reclamar dos guardas enquanto trabalhava para mim?  - perguntou Fusha. - Ser que no entendia? Esse burro podia nos 
foder, velho.
- Acho que era coisa de louco - disse Aquilino.
- Continuar teimando depois de tantos anos. Deve estar morrendo sem tirar da cabea o que aconteceu. No conheci nenhum 
pago to teimoso como o Jum, Fusha.
- Me picaram quando entrei na laguna para tirar a tartaruga que morreu - gemeu Fusha. - Os pernilongos, as aranhas-d'gua. 
Mas as feridas j esto secando, burra, 
voc no sabe que quando a gente se coa infeccionam? Por isso fedem.
- No fedem, no fedem - disse Lalita -, eu disse aquilo porque estava com raiva, Fusha. Antes voc queria a toda hora 
e eu tinha que inventar coisas, estou de 
regras, no posso. Por que voc mudou, Fusha?
- Voc ficou mole, est velha, um homem s tem teso por mulheres rijas - gritou Fusha, e a rede
comeou a pular,

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- isso no tem nada que ver com as picadas dos pernilongos, cadela.
- No estou falando mais dos pernilongos - sussurrou Lalita -, sei que est se curando. Mas meu corpo di de noite. Para 
que  que voc me chama ento, se sou como 
voc diz? No me pea para vir  sua rede se no pode.
- Posso, sim - gritou ele -, quando quero, posso, mas com voc no quero. Saia daqui, fale de novo dos pernilongos e, bem 
a onde est lhe doendo tanto, meto um 
balao. Fora, saia daqui.
Continuou gritando at que ela afastou o mosquiteiro, levantou-se e foi deitar-se na outra rede. Ento, Fusha se calou, 
mas as estacas continuavam rangendo de quando 
em quando, com violentas sacudidas, como atacadas de febres, e s muito tempo depois a cabana ficou apaziguada, envolta 
pelas murmuraes noturnas da mata. Estendida 
de costas, os olhos abertos, Lalita acariciava com as mos as cordas de tucum da rede. Um de seus ps escapou do mosquiteiro 
e minsculos e alados inimigos atacaram-no 
s dezenas, vorazmente pousaram em suas unhas e dedos. Esgaravatavam a pele com suas armas finas, compridas e zumbidoras. 
Lalita bateu o p contra a estaca e eles 
fugiram, aturdidos. Um segundo depois tinham voltado.
- Ento o cachorro do Jum sabia onde estavam disse Fusha. - E ele tambm no me disse nada. Todos ficaram contra mim, Aquilino, 
at o Pantacha talvez soubesse.
- Isso quer dizer que ele no se acostumou, e que tudo o que faz  para voltar a Urakusa - disse Aquilino.
- Deve sentir muito a falta de seu povo, deve gostar muito dele.  verdade que quando ia com voc ele fazia discursos aos 
pagos?
- Ele os convencia a me entregarem o caucho sem briga - disse Fusha. - Ameaava-os e sempre contava a histria daqueles 
dois cristos. Voc os conheceu, velho. 
Qual era o negcio deles? Nunca pude saber.
- Os que foram viver em Urakusa?  - perguntou Aquilino. - Uma vez ouvi o Senhor Retegui falar disso. Eram estrangeiros 
que vinham levantar os selvagens, aconselh-los 
a matar todos os cristos daqui. Por acreditar neles  que Jum se desgraou.
- Eu no sei se odiava ou se gostava deles - disse Fusha. - s vezes falava de Bonino e Tefilo como se
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quisesse  mat-los,  e outras  como  se  tivessem  sido  seus amigos.
- Adrin Nieves falava o mesmo - disse Aquilino.
- Que o Jum mudava de opinio sobre aqueles cristos todo o tempo, e que no se decidia, um dia eram bons, no seguinte, 
maus, malditos diabos.
Lalita atravessou a cabana nas pontas dos ps, e saiu; fora, o ar estava carregado de um vapor que umedecia a pele e que, 
ao entrar pela boca e pelo nariz, estonteava. 
Os huambisas tinham apagado as fogueiras, suas cabanas eram bolsas negras, muito espessas, quietas sobre a ilha. Um cachorro 
veio se coar a seus ps. No alpendre, 
junto ao curral, as trs achuales dormiam sob um s cobertor, os rostos brilhantes de leo. Quando Lalita chegou  frente 
da cabana do Pantacha e espiou, a tnica, 
molhada de suor, grudava no seu corpo: uma perna musculosa emergia das sombras, entre as coxas lisas e sem plos da shapra. 
Ficou observando, a respirao ofegante, 
a boca entreaberta, a mo no peito. Correu, em seguida, at a cabana vizinha e empurrou a porta de cips. No canto escuro, 
onde estava a esteira de Adrin Nieves, 
um rudo. O prtico devia ter acordado, reconhecia sua silhueta na entrada, delineada contra a noite, os dois rios de cabelos 
que enquadravam seu corpo at a cintura. 
Depois rangeram as tbuas e um tringulo branco avanou at ela, boa noite, um contorno de homem, que aconteceu? uma voz 
sonolenta e surpresa. Lalita no dizia nada, 
s respirava e esperava, exausta, como ao final de uma longa corrida. Faltavam muitas horas para que trinados e rumores 
alegres substitussem os grasnidos noturnos 
e, sobre a ilha, revoluteassem pssaros, borboletas coloridas, e a luz clara do amanhecer iluminasse os troncos carbonizados 
das lupunas. Era ainda a hora dos pirilampos.
- Mas vou dizer uma coisa a voc - disse Fusha. O que mais me di em tudo, Aquilino, o que mais me desgosta,  ter tido 
tanto azar.
- Cubra-se, no se mexa - disse Aquilino. - A vem um barquinho,  melhor que voc se esconda.
- Depressa, velho - disse Fusha. - Aqui no posso respirar, me asfixio. Passe logo por ele.
Est claro como no vero, o sol dispara raios, os olhos lacrimejam ao fix-los. E o corao sente esse calor, quer atravessar 
a rua, passar sob os tamarindeiros, 
sentar-se em seu bando.
275
Levanta-te' logo, para que serve a cama se o sono no vem, uma areinha fina como os cabelos dela estar caindo sobre Viejo 
Puente, anda a sentar-te no
La Estrella del Norte, baixa o chapu, espera-a, j chegar. No te impacientes assim, e Jacinto,  triste a cidade vazia, 
veja, Dom Anselmo, os varredores j passaram 
e a areia sujou tudo de novo. Olha a esquina do mercado, a vem o burro carregado de cestos, no  agora que a cidade desperta? 
A est, leve, silenciosa, entra 
na praa como que deslizando, olha como a leva para junto do coreto, senta-a, pega suas mos, seus cabelos, e ela, dcil, 
os joelhos grudados, os braos cruzados: 
a est a tua recompensa por tanto desvelo. E ento a gallinaza vai embora, dando varadas no burro, endireita-te na cadeira, 
acomoda-te melhor, continua olhando-a. 
Vem de frente o amor, o rosto descoberto, vem dissimulado? E tu,  pena, ternura, compaixo, vontade de lhe dar presentes. 
Deixa-lhe a rdea solta e que se v como 
quiser, a passo, a trote, a galope, ele sabe aonde,  cedo. Enquanto isso faz apostas: tanto que estar de branco, tanto 
de amarelo, tanto com a fita, verei suas 
orelhas, tanto sem a fita, os cabelos soltos, hoje no as verei, tanto com sandlias, tanto descala. E se ganhas,  Jacinto 
quem vai ganhar, e ele, por que tanta 
gorjeta hoje e ontem a metade, se consumiu a mesma coisa, como entenderia? No sabe nada, o senhor est com cara de sono, 
nunca dorme, Dom Anselmo? tu,  um velho 
costume, no me deitar sem tomar o caf, o ar da madrugada limpa o crebro, l tudo cheira a farra, fumo e lcool, agora 
volto e comea para mim a noite. E ele irei 
visit-lo logo, tu, claro rapaz, procura-me, tomaremos um copo, tens crdito, j sabes. Mas agora que se v, que queres 
ficar s, que ningum ocupe tua mesa, que
a manh entre logo, que cheguem os fregueses, que uma branca qualquer se aproxime dela e a leve a passear, que a traga ao 
La Estrella del Norte e que lhe pague um
doce. E ento, de novo, a tristeza, o dio no corao, o tempo no os aplacou. E ento, retira o caf, Jacinto, um traguinho, 
e depois outro, e por fim meia garrafa
do especial. E, ao meio-dia, Chpiro, Dom Eusbio, o Doutor Zevallos,  preciso mont-lo no cavalo que o levar at o areal, 
as mulheres se encarregaro de deit-lo.
' Manteve-se o tratamento na segunda pessoa neste belo e potico delrio de Anselmo, na certeza de que facilitar o entendimento 
do texto traduzido.
276
Segura-te  montaria, pois, cabeceia entre as dunas, rola como um fardo ao solo, chega ao salo engatinhando, e elas, que 
durma aqui mesmo, pesa muito lev-lo 
torre, tragam
uma baciazinha que est vomitando, desam um colcho, tirem-lhe as botas. E ento, violentas, amargas, as nsias, os riozinhos 
de blis e de lcool, a comicho das 
plpebras, o fedor, a maciez bria dos msculos. Sim, vem dissimulado, no princpio parecia compaixo: deve ter s dezesseis 
anos, a desgraa que lhe aconteceu, 
o escuro de sua vida, o silncio de sua vida, seu rostinho. Tenta imaginar: como teria sido, os gritos que teria dado, o 
terror que teria sentido e quanto assombro 
haveria em seus olhos. Tenta ver: os cadveres, o sangue aos borbotes, as feridas, os vermes, e ento, Doutor Zevallos, 
conta-me de novo, no pode ser,  horrvel, 
j estaria desmaiada? como  que no morreu? Tenta adivinhar: primeiro, crculos areos, enegrecidos entre as dunas e as 
nuvens, sombras que se refletem na areia, 
em seguida, corpos emplumados na areia, bicos curvos, dolorosos grasnidos, e ento puxa teu revlver, mata-o, e ali tem 
outro e mata-o, e as mulheres, que  que 
tem, patro, por que tanto dio dos urubus', que lhe fizeram, e tu, bala, porra, derruba-os, fura-os. Disfarado de pena, 
de carinho. Aproxima-te tu tambm, que 
h de mal, compra-lhe doce de leite, po de mel, balas. Fecha os olhos e ento, de novo, o redemoinho dos sonhos, tu e ela 
na torre, ser como tocar harpa, junta 
a ponta dos teus dedos e sente-a, mas ser mais suave ainda que a seda e o algodo, ser como uma msica, no abras os olhos 
ainda, continua tocando em suas faces, 
no acordes. Primeiro curiosidade, depois algo que parecia pena e, de repente, medo de perguntar. Elas falam, os bandidos 
de Sechura, assaltaram e mataram os Quiroga, 
a senhora estava nua quando a encontraram, inesperadamente falam dela, dizem pobrezinha, e ento esse sbito calor, a lngua 
que se enrola, que h comigo, as mulheres 
vo maliciar, que houve. Ou, em vez disso,  um grado que a traz ao La Estrella del Norte, pede-lhe um refresco, sufoca-se, 
inveja, preciso ir, bom dia, o areal, 
o porto verde, uma garrafa de aguardente, leva a harpa  torre, toca. Afeto, compaixo? J estava tirando seus disfarces. 
E nessa manh est, como agora, difano. 
Ela  velha, no a aceite, talvez doente, que o Doutor Zevallos a examine antes, tu,
' No original gallinazos, que so tambm os habitantes da favela Gallinacera.
277
como disseste que te chamas? tens que mudar de nome, Antnia no. E ela, como o senhor quiser, patro, era assim que se 
chamava a mulher que o senhor amava? e ento,
de novo, o rubor, o tpido fruir sob a pele e, intempestiva, a verdade. A noite  preguiosa, insone, sempre igual o espetculo 
da janela: no alto, as estrelas,
no
ar o lento dilvio da areia e,  esquerda, Piura, muitos olhos na sombra, as brancas formas de Castilla, o rio, o Viejo 
Puente como um grande lagarto entre as duas
margens. Mas que passe logo a noite ruidosa, que amanhea, pega a harpa, no desas por mais que  te  chamem,  toca  na 
 escurido,  canta-lhe  baixinho, doce, muito 
devagar, vem, Tonita, esta serenata  para ti, escutas? O espanhol no est morto, a vem, pela esquina, da catedral, leno 
azul no pescoo, as botinas como espelhos, 
o colete sob a levita branca, outra vez o calorzinho, as ondas que engordam as veias, o pulso  agitado, o olhar alerta, 
vai ao coreto? sim, aproxima-se de ti? sim, 
te sorri? sim. E de novo ela, expondo-se ao sol, imvel, inconsciente, muito tranqila, a seu redor engraxates e mendigos, 
Dom Eusbio  frente do seu banco. Agora 
j sabe, est sentindo uma mo no seu queixo, endireitou-se no assento? sim, ele est falando com ela? sim. Imagina o que 
lhe diz: bom dia, Tonita, linda manh, 
o sol esquenta sem queimar, pena que vente areia, ou se pudesse ver como est este dia, como o cu est azul, tanto quanto 
o mar de Paita, e ento, o latejar das 
fontes, as ondas se atropelando, o corao saindo pela boca, a insolao interior. Vm juntos? sim,  terraa? sim, de brao 
dado? sim, e Jacinto, no est se sentindo 
bem, Dom Anselmo? ficou plido, tu, um pouco cansado, traz outro caf e um copinho de pisco, direto  tua mesa? sim, levanta-se, 
estende a mo, Dom Eusbio, como 
est, ele, meu querido, esta senhorita e eu vamos lhe fazer companhia, nos permite? A a tens agora, junto a ti, olha-a 
sem temor, esse  seu rosto, essas pequenas 
aves, suas sobrancelhas, e atrs de suas plpebras fechadas reina a penumbra, e atrs de seus lbios fechados h tambm 
uma minscula morada deserta e escura, esse 
o seu nariz, essas as suas faces. Olha  seus longos braos morenos e as pontas de cabelo claro, que ondulam sobre seus ombros, 
e sua testa que  lisa mas, por instantes, 
se franze. E Dom Eusbio, vamos ver, vamos ver, um cafezinho com leite?  mas j deves ter tomado caf, quem sabe um doce, 
isso agrada os jovens, o senhor no foi 
guloso? digamos, marmelada, e um  suquinho de mamo, vamos ver,  Jacinto.  Concorda,
278
condescende, fui guloso, essa fina coluna  o meu pescoo, dissimula a ebulio, boceja, fuma, essas flores de caule frgil, 
suas mos, e as breves sombras que ao
receber o sol parecem loiras, suas pestanas. E fala-lhe, sorri, para ela, de modo que afinal comprou a casa do lado, ento 
aumentar o negcio e por mais empregados, 
interessa-te e estimula-o, abrir sucursais em Sulluna? e em Chiclayo, como te alegras, s uma voz e um olhar, verdade que 
faz tempo que no nos vemos, sua expresso 
 distante e grave, est concentrada na bebida, umas gotinhas de luz alaranjadas brilham em sua boca e  por isso, o trabalho 
 assim, as obrigaes, a famlia, 
mas d uma escapada, Dom Eusbio, uma mecha de cabelo branco esvoaando de quando em quando, seus dedos se abrem, pegam 
uma marmelada, levantam-na, como vo as mulheres? 
sentindo sua falta, perguntando pelo senhor, quando quiser ir, eu o atenderei, olha-a agora que est mordendo, v que vorazes 
e limpos so seus dentes. E ento o 
burrico e as cestas, baixa o chapu, sorri, conversa sempre, e ento a gallinaza fazendo reverncias, os senhores so to 
bons, Tonita, diga adeus a estes senhores, 
eu lhes agradeo por ela, e ento, de novo, o vio fugaz, cinco contatos suaves na tua mo, algo que entra no corpo e o 
sossega. Que calma agora, no  verdade? 
que paz, e veja, Dom Eusbio, essa  a razo e o senhor no sabia, nem a soube quando morreu. E ele, no faltava mais nada, 
tenho vergonha, Anselmo, deixe-me pagar 
pelo menos uma rodada, faz-me sentir como. . . tu, nunca, nem um centavo, aqui tudo  seu, est na sua casa, o senhor me 
tirou o medo, trouxe-a  minha mesa, e as 
pessoas no fizeram cara feia, nem lhes chamou a ateno. E ento, a exaltao. Agora sim, atreve-te, vai ao seu banco todas 
as manhs, acaricia seus cabelos, compra-lhe 
frutas, leva-a ao La Estrella del Norte, passeia com ela sob o sol ardente, ama-a tanto como nesses dias.
- Os burrinhos - disse Bonifcia - passam todo o dia aqui na frente e no me canso de olhar.
- No h burros na selva, prima? - perguntou Jos.
- Eu sempre achei que l havia mais animais que gente.
- Mas no burrinhos - disse Bonifcia. - S um ou outro, nunca como aqui.
- Est chegando - disse o Mono, da janela. - Os sapatos, prima.
279
Bonifcia calou os sapatos velozmente, o esquerdo no entrava, puxa, levantou-se, foi at a porta, insegura, temerosa sobre 
os saltos, abriu-a, e Josefino estendia 
a mo, uma lufada de ar quente, Lituma, jorros de luz. A pea ficou escura de novo. Lituma tirava a tnica, vinha meio morto, 
primos, o quepe, que tomassem um pouco 
de algarobina'. Atirou-se numa cadeira e fechou os olhos, Bonifcia foi para o quarto ao lado e Josefino, deitado em uma 
esteira junto a Jos, esse calor desgraado 
embrutecia a gente. Os postigos filtravam prismas de luz crivados de p e de insetos, e fora tudo parecia silencioso e desabitado, 
como se o sol tivesse dissolvido 
as crianas e os cachorros vira-latas com seus brancos cidos. O Mono afastou-se da janela, eram os invencveis, no sabiam 
trabalhar, s jogar, s foder, eram 
os invencveis, e agora iam mamar, mas os outros s cantaram depois do primeiro copo de algarobina.
- Estvamos falando de Piura com a prima - disse o Mono. - O que mais chama a ateno dela so os burros.
- E tanta areia e to poucas rvores - disse Bonifcia. - Na selva tudo  verde e aqui, tudo amarelo. E o calor, tambm, 
muito diferente.
- O diferente  que Piura  uma cidade com edifcios, carros e cinemas - explicou Lituma, bocejando. - E Santa Maria de 
Nieva, um povoadinho com uns caras pelados, 
mosquitos e chuvas que apodrecem tudo, comeando pela gente.
Duas ferazinhas esconderam-se atrs de umas mechas de cabelos soltos e, verdes, hostis, espreitaram. O p esquerdo de Bonifcia, 
meio sado do sapato, forava para 
entrar de
novo.
- Mas em Santa Maria de Nieva h dois rios que tm gua todo o ano, e bastante - disse Bonifcia, suavemente, um momento 
depois. - O Piura tem muito pouquinha e 
s
no vero.
Os invencveis deram gargalhadas, dois e dois, trs; trs e dois, quatro; e Bonifcia j se esquentou. Suado, sem abrir 
os olhos, gordo, Lituma se mexia vagarosamente 
na
cadeira.
- Voc no se acostuma  civilizao - suspirou afinal. - Espere um tempinho e ver as diferenas. Voc nem vai querer ouvir 
falar da selva e ter vergonha de dizer 
que  selvagem.
' Bebida extrada do fruto da algarobeira ou algarobo, rvore, subfatntlia mimoscea.
280
Quatro e dois so cinco, cinco e dois so seis, e o primo Lituma j lhe respondeu. O p entrara no sapato, de mau jeito, 
esmagando selvagemente o calcanhar.
- No terei vergonha nunca - disse Bonifcia. Ningum pode ter vergonha de sua terra.
- Somos todos peruanos - disse o Mono. - Por que voc no nos serve mais algarobina, prima?
Bonifcia levantou-se e, muito devagar, foi de um a outro enchendo de novo seus copos, mal levantando os ps desse cho 
resvaladio, que as humilhadas ferazinhas 
observam do alto, com desconfiana.
- Se tivesse nascido em Piura, no andaria pisando em ovos - riu Lituma, abrindo os olhos. - Voc estaria acostumada aos 
sapatos.
- No brigue com a prima - disse o Mono. - No fique com raiva dela, Lituma.
As gotinhas douradas da algarobina caam no cho inimigo, no no copo de Josefino, e a boca e o nariz de Bonifcia, como 
suas mos, tambm se haviam posto a tremer, 
mas no era pecado, e inclusive sua voz: Deus a fizera assim.
- Claro que no  pecado, prima, nem pense nisso disse o Mono. - Nem as mangaches se acostumam com os saltos.
Bonifcia deixou a garrafa em uma sapata, sentou-se, as ferazinhas sossegaram e, de sbito, silenciosos, rebeldes, rapidssimos, 
ajudando-se um ao outro, seus ps 
se livraram dos sapatos. Abaixou-se, sem pressa colocou-os sob a cadeira, e agora Lituma deixara de se mexer, os invencveis 
no cantavam mais, e uma viva, beligerante 
agitao comovia as figurinhas verde-escuras que se mostravam com atrevimento.
- Ela no me conhece ainda, no sabe com quem se mete - disse Lituma aos Len; e levantou a voz: - Voc no  mais uma selvagem, 
mas a mulher do Sargento Lituma. 
Ponha os sapatos!
Bonifcia no respondeu, nem se mexeu quando Lituma se ps de p, a cara molhada e colrica, nem se esquivou da bofetada 
que soou curta, sibilante, e os Len pularam 
e os apartaram: no era para tanto, primo. Seguravam Lituma, que no fosse assim, e o repreendiam brincando, que controlasse 
esse gnio mangache. O suor tingira 
o peito e as costas de sua camisa caqui, que s nos braos e nos ombros continuava clara.
- Tem que aprender - disse, sacudindo-se outra vez, ainda mais depressa, no ritmo de sua voz.
281
- Em Piura no pode se portar como uma selvagem. E alm disso, quem  que manda na casa?
As ferazinhas espiavam entre os dedos de Bonifcia, quase invisveis, chorosas? e Josefino ps no seu copo um pouco mais 
de algarobina. Os Len sentaram-se, no 
h amor sem murros, diz o povo, e as caboclas chulucanas dizem, meu marido quanto mais me bate mais me quer, mas talvez 
na selva as mulheres pensem de outra forma; 
e uma, duas e trs, que a prima lhe perdoe, que levante o rostinho, que seja boazinha, um sorrisinho. Mas Bonifcia continuou 
com a cara escondida, e Lituma se 
levantou, bocejando.
- vou dormir uma sestazinha - disse. - Fiquem ainda, acabem essa garrafa, depois sairemos por a. - Olhou de lado para Bonifcia, 
modulou virilmente a voz: - Se 
no h amor em casa, a gente procura fora.
Fez um aceno entediado para os invencveis e entrou no outro quarto. Ouviu-se assoviar uma cano, chiaram umas molas. Eles 
continuaram bebendo, um copo, calados, 
dois copos, e ao terceiro, comearam os roncos: fundos, metdicos. A estavam as ferazinhas de novo, speras, crispadas 
atrs dos cabelos.
- Esses servios a noite inteira estragam o seu humor
- disse o Mono. - No faa caso, prima.
- Que maneiras so essas de tratar a mulher - disse Josefino, buscando os olhos de Bonifcia, mas ela olhava para o Mono. 
-  um verdadeiro tira.
- Voc, sim, sabe trat-las, primo, no  verdade? perguntou Jos, atirando um olhar  porta: roncos prolongados, profundos.
- Claro que sim - Josefino sorria e engatinhava sobre a esteira em direo a Bonifcia. - Se ela fosse minha mulher, eu 
nunca poria a mo nela. Quer dizer, no para 
bater nela, s para fazer carinhos.
Agora tmidas, assustadias, as ferazinhas examinavam as paredes descoloridas, as vigas, as moscas azuis zumbindo junto 
 janela, os grozinhos de ouro imersos nos 
prismas de luz, as nervuras do assoalho. Josefino parou, sua cabea tocava nos ps descalos, que retrocederam, e os Len, 
voc  o homem-minhoca, e Josefino, a 
serpente que tentou Eva.
- Em Santa Maria de Nieva no h ruas como aqui
- disse Bonifcia. - So de areia e chove tanto,  puro barro. Os saltos se afundariam e as mulheres no poderiam caminhar.
- Pisando em ovos, que burrice to grande - disse Josefino.
282
- E depois, mentira. Caminha to elegante, quantas gostariam de caminhar como ela.
Os Len olhavam sincronizadamente para a porta: uma cabea ia, outra voltava. E, uma vez mais, Bonifcia estava tremendo, 
obrigada pelo que lhe dizia, suas mos, 
sua boca, mas ela sabia que era s por dizer, e sobretudo sua voz, no fundo no pensava assim. E os ps retrocederam. Josefino 
afundou a cabea sob a cadeira, e 
sua voz vinha morosa e abafada, pensava assim com toda a sua alma, todinha, palavras lentas, cheias de mel, e mil coisas 
mais ele diria se no houvesse mais ningum.
- No se preocupe comigo, invencvel - disse o Mono. - Est em sua casa, e aqui s h um par de surdos-mudos. Se quiser, 
vamos ver se est chovendo. Como vocs quiserem.
- Vo, vo - palavras melosas, musicais -, me deixem com Bonifcia, para consol-la um pouco.
Jos tossiu, levantou-se, e nas pontas dos ps chegou  porta. Voltou risonho, de verdade, estava entregue, dormia como 
um frade, e as curiosas, inconstantes ferazinhas 
exploravam incansveis as tbuas da sapata, as pernas das cadeiras, o fio da esteira, o comprido corpo deitado.
- A prima no gosta de galanteios - disse o Mono -, ficou vermelha, Josefino.
- Voc ainda no conhece os piuranos, prima - disse Jos. - No pense em nada de mau. Ns somos assim, as mulheres puxam 
nossa lngua.
- Ande, Bonifcia - disse Josefino. - Mande esses caras l fora, para ver se est chovendo.
- Se voc insistir, ela contar a Lituma - disse o Mono. - E o primo vai se esquentar.
- Que conte - pegajosas, mornas -, no me importa. Vocs me conhecem, se gosto de uma mulher eu digo, seja quem for.
- A algarobina te deixou bbado - disse Jos. Fale mais baixo.
- E eu gosto de Bonifcia - disse Josefino. - Que fique sabendo logo.
As mos de Bonifcia fecharam-se sobre os joelhos e seu rosto se levantou: os lbios sorriam heroicamente sob as espantadas 
ferazinhas.
- Como voc corre, primo! - disse o Mono. - Campeo dos cem metros rasos.
283
- No continue por esse caminho - disse Jos. Voc a est assustando.
- Se ele o ouvisse, se zangaria - balbuciou Bonifcia; olhou para Josefino, ele lhe atirou um beijo, e ela olhou para o 
teto, a sapata, o cho. - Se soubesse, se 
zangaria.
- Que se zangue, tanto faz - disse Josefino. - Querem saber de uma coisa, rapazes? Bonifcia no escapa de ser minha mulher 
um dia.
Agora olha o cho, fixamente, e seus lbios murmuram algo. Os Len tossiam, no tiravam os olhos do quarto vizinho: uma 
pausa, um ronco, outro mais longo, tranqilizador.
- Chega, Josefino - disse o Mono. - No  piurana,
mal nos conhece.
- No se assuste, prima - disse Jos. - D mais corda a ele, ou uma bofetada.
- No me assusto - sussurrava Bonifcia -, mas se souber, e se ouvir. . .
- Pea desculpas a ela, Josefino - disse o Mono -, diga que  brincadeira, olhe s como ficou.
- Era brincadeira, Bonifcia - riu Josefino, engatinhando para trs. - Juro a voc. No fique assim.
- No fico assim - balbuciava Bonifcia. - No fico assim.
284



II.



- Por que tanta palhaada, desde quando andam to cheios de frescuras por aqui? - perguntou o Rubio. - Por que no juntar 
a patota e tir-lo de l por bem ou por 
mal?
-  que o sargento est somando pontos - disse o Chiquito. - Voc no viu como est obediente? Quer fazer tudo como Deus 
manda. Ser que o casamento o estragou, 
Rubio?
- Esse casamento vai  matar o Pesado de inveja disse o Rubio. - Parece que ontem  noite ele mamou outra vez, no Paredes, 
e outra vez se amaldioava por no ter 
chegado antes, outra vez perdi a minha ltima chance de encontrar mulher. Essa mulherzinha deve ter suas coisinhas, mas 
o Pesado exagera.
Estavam em posio entre os cips e apontavam para a cabana do prtico, suspensa sobre a ramagem, a poucos metros deles. 
Um dbil resplendor oleoso crescia em seu 
interior e chegava a iluminar um canto do parapeito. No tinha sado ningum, rapazes? Uma silhueta abaixou-se sobre o Rubio 
e o Chiquito: no, meu sargento. O Pesado 
e o Oscuro j estavam do outro lado, s podia escapar voando. Mas que no se precipitassem, rapazes, o sargento falava devagar, 
se precisasse deles chamaria, seus 
movimentos eram tambm pausados e, em cima, umas nuvens pouco densas filtravam a luz sem ocult-la. Longe, limitada pelas 
trevas da mata e o suave cintilar dos rios, 
Santa Maria de Nieva era um punhado de luzes e de brilhos furtivos. Sem se apressar, o sargento abriu o coldre, puxou o 
revlver, destravou-o, sussurrou algo mais 
para os guardas. Sempre lento, tranqilo, afastou-se em direo  cabana, desapareceu engolido
285
pelos cips e pela noite, e pouco depois reapareceu junto  esquina iluminada do parapeito; seu rosto se revelou rapidamente 
na macilenta claridade que escapava 
do tabique.
- Voc viu como anda e como fala? - perguntou o Oscuro. - Est meio abobalhado. Tem alguma coisa, antes no era assim.
- A selvagem est espremendo ele como um limo disse o Pesado. - Vai ver, ele a trepa trs vezes de dia e trs de noite. 
Ento no v que, por qualquer pretexto, 
ele deixa o posto?  para ir  cama com a selvagem, claro.
- Esto em lua-de-mel,  justo - disse o Oscuro. Voc morre de inveja, Pesado, no disfarce.
Tambm estavam estendidos, em uma faixa minscula de praia, atrs de uma trincheira de matagais, muito perto da gua. Tinham 
os fuzis na mo, mas no apontavam para 
a cabana, que, dali, se via oblqua e ensombrecida, alta.
- Ficou todo convencido - disse o Pesado. - Por que a gente no veio prender Nieves logo que chegou a ordem do tenente, 
hem? Esperemos que escurea,  preciso fazer 
um plano, vamos cercar a casa, onde  que voc ouviu tantas besteiras juntas. Para impressionar Dom Fbio, Oscuro, para 
se dar importncia, nada mais.
- O tenente se preparou, vai lhe dar outro galo disse o Oscuro. - E para ns nada, voc vai ver. No viu quando chegou 
aquele prprio de Borja? O governador, que 
o tenente fez isto, que fez aquilo, e por acaso no fomos ns que encontramos o louco na ilha?
- A selvagem deve ter dado puanga a ele, Oscuro disse o Pesado. - Quer que fique louco com aquelas beberagens. Por isso 
anda to cansado, dormindo de p.
- Que desgraa, que desgraa - disse o sargento. Que faz aqui, o que est acontecendo?
Lalita e Adrin Nieves olhavam-no, imveis, do catre. A seus ps, um prato estourava de bananas, a lamparina soltava uma 
fumacinha branca e cheirosa, e na entrada 
prosseguia o atnito piscar do sargento sob a pala, Aquilino no o avisara? tinha a voz aflita, mas j fazia umas duas horas, 
Dom Adrin, que disse  criana, corra, 
 questo de vida ou morte, e sua mo mexia o revlver com dificuldade: que desgraa, que desgraa. Sim, dera o recado, 
sargento, o prtico falava como que mastigando: 
mandara os filhos  casa de um conhecido, no outro lado do rio. Dos cantos de sua boca duas estrias avanavam gravemente 
pelas faces. E agora? Por que no fugira
tambm? No eram as crianas que tinham de se esconder,
286
mas ele, Dom Adrin: o sargento bateu com o revlver na coxa. Agentara a coisa vrias horas, senhora, arriscando-se, que 
mais queria que fizesse? tivera
tempo de sobra, Dom Adrin.
- Est passando a conversa nele - disse o Chiquito.
- Depois, dir a Dom Fbio, entrei sozinho, tirei-o sozinho. Quer repartir o mrito com o tenente. Est trabalhando sua 
transferncia como uma formiga, o piurano.
com a claridade, da cabana saa agora um sussurro que mal perturbava a noite, flutuava nela sem feri-la, como uma onda solitria 
em guas paradas.
- Mas quando o tenente chegar contaremos - disse o Rubio. - Que nos mandem a Iquitos com os prisioneiros. Assim, pelo menos, 
a gente ganha mais uns dias de licena.
- Pode ser um pouco bruxa, um pouco retaca e o que voc quiser - disse o Oscuro. - Mas, no diga que no, Pesado, qualquer 
um teria comido aquela selvagem, e voc 
seria o primeiro. Cada vez que toma um porre, s fala dela, homem.
- Eu a comeria, claro - disse o Pesado. - Mas voc se casaria com uma pag? Nunca na vida, irmo.
--  bem capaz de mat-lo e dizer me enfrentou, tive de liquid-lo - disse o Chiquito. - O piurano  capaz de qualquer coisa 
para ganhar a sua medalha.
- E se no fim so histrias? - perguntou o Rubio.
- Quando o prprio de Borja chegou e li a parte do tenente nem podia acreditar, Chiquito. Nieves no tem cara de bandido 
e parecia boa gente.
- Hum, ningum tem cara de bandido - disse o Chiquito. - Ou melhor, todas as caras so de bandido. Mas eu tambm fiquei 
espantado quando li a parte. Quantos anos 
pegar?
- Quem  que sabe? - disse o Rubio. - Muitos, na certa. Roubaram de todo mundo e o pessoal daqui os marcou. Voc v, quanto 
tempo estiveram enrolando para que a 
gente fosse busc-los, s agora, quando no roubam mais.
- O que no acredito  que ele fosse o chefe - disse o Chiquito. - Alm disso, se roubou tanto como dizem, no seria um 
morto de fome.
- Quem era ento o chefe? - perguntou o Rubio. -
- Mas isso  o de menos, se os outros no aparecem, faro Nieves e o louco pagar por todos.
- J chorei, sargento, j implorei - disse Lalita. -

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Desde que vocs foram  ilha, estou chorando, vamos nos esconder, Adrin. E agora que o senhor mandou avisar, os meninos 
colheram frutas, enrolamos as coisas dele, 
Aquilino tambm pediu. Mas ele no ouve nada, no faz caso de ningum.
A luz da lamparina caa de cheio sobre o rosto de Lalita, iluminava a abrupta superfcie de suas faces, os furnculos, as 
crateras do pescoo, e o cabelo desgrenhado 
e oscilante que cobria sua boca.
- Apesar de sua farda, o senhor tem bom corao disse Adrin Nieves. - Por isso aceitei ser seu padrinho.
Mas o sargento no o escutava. Dera meia-volta e, agachado, esquadrinhava o terrao, um dedo nos lbios, Dom Adrin, se 
joga agorinha mesmo, pelo gradeado, sem fazer 
rudo, o rio, ele contaria at dez, o cu, e atirava para cima, saa correndo, rapazes, fugiu por aquele lado, e levava 
os guardas para a mata. Que empurrasse a 
lancha pelo escuro, Dom Adrin, e no ligasse o motor at o Marann, e que corresse depois como alma que o Diabo persegue, 
e no se deixasse agarrar, Dom Adrin, 
principalmente isso, ele podia se foder tambm, que no se deixasse agarrar, e Lalita, sim, sim, ela soltaria a lancha, 
tirava os remos, iria com ele, e as palavras 
se atropelavam em seus lbios, a testa se esticava e havia um inusitado e rpido rejuvenescimento de sua pele, Adrin, a 
roupa estava pronta, e a comida, no faltava 
nada, e remariam, e antes de chegar  guarnio se esconderiam na mata. E o sargento, alto, explorando o exterior: se estenderiam 
contra o fundo da lancha, cuidado 
para no levantar a cabea, se os rapazes vissem, disparariam, e o Chiquito acertava sempre no alvo.
- Eu lhe agradeo, mas j pensei muito e no se pode sair pelo rio - disse Adrin Nieves. - No h quem passe agora o pongo, 
sargento, nem sendo bruxo. J viu como 
o tenente ficou preso no Santiago, que no  nada perto do Marann.
- Mas, Dom Adrin - disse o sargento. - O que quer, ento, no o entendo.
- A nica chance  me esconder na mata, como me escondi na ltima vez - disse Nieves. - Mas no quero, sargento, j pensei 
at me cansar, desde que vocs foram  
ilha. No vou passar o que me resta de vida correndo pela mata. Eu era s o prtico, s manobrava a lancha dele, como para 
vocs, no podem me fazer nada. Sempre 
me portei bem aqui
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e todos sabem disso, as madres, o tenente, o governador tambm.
- No esto brigando - disse o Chiquito. - A gente ouviria os gritos, parece que conversam.
- Acho que o encontrou dormindo e deve estar esperando que se vista - disse o Rubio.
- Ou estar fodendo a Lalita - disse o Pesado. Amarrou o Nieves e est comendo a mulher na sua frente.
- As coisas que voc imagina, Pesado - disse o Oscuro. - Parece que voc tomou puanga, anda com teso dia e noite. Alm 
disso, quem quer comer a Lalita, com tanta 
espinha?
- Mas ela  branca - disse o Pesado. - Eu prefiro uma crist com espinhas a uma selvagem sem. E depois, s a cara  assim, 
j a vi tomando banho, tem boas pernas. 
Agora vai ficar sozinha e precisar que a consolem.
- A falta de mulher deixa voc louco - disse o Oscuro. -  verdade que a mim tambm, s vezes.
- Para que tem cabea, Dom Adrin? - perguntou o sargento. - Se no se atirar  gua agora, vai entrar bem, no v que vo 
culp-lo por tudo? A parte do tenente 
diz que o louco est morrendo, no seja teimoso.
- Vo me prender por uns meses, mas depois viverei tranqilo e poderei voltar aqui - disse Adrin Nieves. Se me esconder 
na mata, no verei nunca mais minha mulher 
e meus filhos, e no quero viver como um animal at a morte. Eu no matei ningum, e Pantacha e os pagos sabem disso. Aqui 
me portei como um bom cristo.
- O sargento o aconselha por seu bem - disse Lalita -, oua o que ele diz, Adrin. Pelo que voc mais quer, por seus filhos, 
Adrin.
Escavava o cho, batia nas bananas, perdia a voz, e Adrin Nieves comeara a se vestir. Vestia uma camisa desbotada, sem 
botes.
- No sabe como me sinto - disse o sargento. - O senhor continua sendo meu amigo, Dom Adrin. O pior vai ser com Bonifcia. 
Ela pensava que o senhor j estava longe, 
eu tambm.
- Tome, Adrin - soluou Lalita. - Calce.
- No preciso - disse o prtico. - Guarde at que eu volte.
- No, no, calce - insistiu Lalita, gritando. - Ponha os sapatos, Adrin.
Uma expresso de embarao alterou o rosto do prtico
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durante um segundo: olhou confusamente o sargento, mas ps-se de ccoras e calou os
sapates de grossas solas, Dom Adrin
faria o que pudesse para cuidar de sua
famlia, pelo menos que no se preocupasse com isso. Ele j estava de p, e Lalita se aproximara dele e o tinha preso pelo
brao. No ia chorar, no? Tinham passado
tantas coisas juntos e nunca chorou, agora tambm no devia chorar. Eles o soltariam logo, ento a vida seria mais tranqila 
e, enquanto isso, que cuidasse bem dos 
meninos. Ela concordava como um autmato, velha de novo, o rosto crispado e os olhos esbranquiados. O sargento e Adrin 
Nieves saram ao terrao, desceram a escadinha 
e, quando pisavam nos primeiros cips, um grito de mulher cortou a noite e, nas sombras da direita, a vinha o pssaro! 
a voz do Rubio. E o sargento, porra, mos 
na cabea: calminho ou fuzilava-o. Adrin Nieves obedeceu. Ia na frente, os braos para cima, e o sargento, o Rubio e o 
Chiquito o seguiam, caminhando devagar, entre 
os sulcos da chcara.
- Por que demorou tanto, meu sargento? - perguntou o Rubio.
- Eu o interroguei um pouco - disse o sargento. E deixei que se despedisse da mulher.
Ao chegarem ao matinho de juncos, o Pesado e o Oscuro vieram ao seu encontro. Somaram-se ao grupo sem dizer nada e, assim, 
em silncio, percorreram o atalho at 
Santa Maria de Nieva. Nas cabanas imprecisas ouviam-se cochichos  sua passagem, tambm entre as capironas e sob os moures 
havia gente que observava. Ningum, porm, 
se aproximou deles, nem perguntou nada. Frente ao cais, ouviu-se, muito prxima, uma correria de ps descalos, meu sargento: 
era Lalita, viria brava, criaria problemas. 
Mas ela passou ofegante pelos guardas e s parou uns segundos junto ao prtico Nieves: esquecera-se da comida, Adrin. Entregou 
a ele um atado e afastou-se, correndo 
como tinha vindo; seus passos perderam-se na escurido e, longe, quando chegavam ao posto, soou um lamento, que pareceu 
de mocho.
- Voc est vendo, eu no falei. Oscuro? - perguntou o Pesado. - Tem um bom corpo ainda. Melhor que o de qualquer selvagem.
- Ah, Pesado - disse o Oscuro. - Voc no pensa noutra coisa, voc  um bom sacana.
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- com bom tempo, amanh  tarde, Fusha - disse Aquilino. - Eu irei primeiro, para ver. H um lugar perto, onde voc pode 
ficar escondido na lancha.
- E se no aceitam, velho? - perguntou Fusha. Que vou fazer, que vai ser da minha vida, Aquilino?
- No fique imaginando o que pode acontecer - disse Aquilino. - Se encontro aquele cara que eu conheo, ele nos ajudar. 
Alm disso, o dinheiro ajeita tudo.
- Voc vai dar todo o dinheiro? - perguntou Fusha.
- No seja bobo, velho. Guarde um pouco para voc, pelo menos, para ajudar o seu negcio.
- No quero o seu dinheiro - disse Aquilino. - Eu voltarei depois a Iquitos, para recolher mercadoria, e vou fazer um pouco 
de comrcio pela regio. Quando vender 
tudo, irei a San Pablo visitar voc.
- Por que voc no fala comigo? - perguntou Lalita. - Por acaso fui eu que comi as conservas? Dei todas elas a voc. No 
 por minha culpa que acabaram.
- No tenho vontade de falar com voc - disse Fusha. - E nem vontade de comer. Vista isto e chame as achuales.
- Voc quer que elas esquentem gua? - perguntou Lalita. - J esto fazendo isso, eu pedi. Coma s um pouquinho de peixe, 
Fusha.  savelha, Jum o trouxe agora.
- Por que voc no me fez a vontade? - perguntou Fusha. - Eu queria ver Iquitos de longe, ainda que s as luzes.
- Voc ficou louco, homem? - perguntou Aquilino.
- E a polcia martima? Alm disso, todo mundo me conhece por aqui. Eu quero ajudar voc, mas no ir para a cadeia.
- Como  San Pablo, velho? - disse Fusha. - Voc j foi l muitas vezes?
- Algumas, de passagem - disse Aquilino. - Chove pouco e no tem pntanos. Mas h dois San Pablo, eu s estive na Colnia, 
fazendo comrcio. Voc viver do outro 
lado. Uns quilmetros daqui.
- H muitos cristos? - perguntou Fusha. - Uns cem, velho?
- Acho que h mais - disse Aquilino. - Passeiam pelados pela praia quando faz sol. O sol deve fazer bem a eles, ou  para 
impressionar o pessoal das lanchas que 
passam. Pedem comida e cigarros aos gritos. Se a gente no atende, insultam, atiram pedras.
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- Voc fala deles com nojo - disse Fusha. - Tenho certeza de que me deixar em San Pablo e que no vou mais ver voc, velho.
- Eu prometi - disse Aquilino. - Por acaso no cumpri sempre o que prometi?
- Ser esta a primeira vez em que no cumprir disse Fusha. - E tambm a ltima, velho.
- Quer que ajude voc? -- perguntou Lalita. - Me deixe tirar suas botas.
- Saia daqui - disse Fusha. - No volte mais at que a chame.
As achuales entraram, silenciosas, trazendo duas grandes vasilhas fumegantes. Colocaram-nas junto  rede, sem olhar Fusha, 
e saram.
- Sou sua mulher - disse Lalita. - No se envergonhe. Por que tenho que sair?
Fusha virou a cabea, olhou-a, e seus olhos eram duas lasquinhas gneas: loretana puta. Lalita deu meia-volta, saiu da 
cabana e tinha escurecido. O ar carregado 
parecia prximo a romper em troves, chuva e raios. No povoado huambisa crepitavam fogueiras, sua luz brilhava entre as 
lupunas e revelava uma crescente agitao, 
deslocamentos, gritos, vozes roucas. Pantacha, sentado na varanda de sua cabana, balanava as pernas.
- Que h com eles? - perguntou Lalita. - Por que h tantas fogueiras? Por que fazem tanto barulho?
- Voltaram os que foram caar, patroa - disse Pantacha. - No viu as mulheres? Passaram o dia fazendo masato, vo festejar. 
Querem que o patro v, tambm. Por que 
ele est to furioso, patroa?
- Porque Dom Aquilino no chegou - disse Lalita.
- Acabaram-se as conservas e a bebida tambm.
- Faz uns dois meses que o velho no vem - disse Pantacha. - Desta vez no vem mais, patroa.
- Para voc, tudo d no mesmo agora, no ? perguntou Lalita. - J tem mulher e no se importa com mais nada.
Pantacha deu uma gargalhada, e, na porta da cabana, apareceu a shapra, cheia de enfeites: diadema, pulseiras, caneleiras, 
tatuagens nas faces e nos seios. Sorriu 
para Lalita e sentou-se na varanda, junto dela.
- Aprendeu o cristo melhor que eu - disse Pantacha. - Gosta muito da senhora, patroa. Est assustada agora
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porque chegaram os huambisas que foram caar. No perde o medo deles por mais que eu faa.
A shapra apontou os matagais que ocultavam o barranco: o prtico Nieves. Vinha com o chapu de palha na mo, sem camisa, 
as calas arregaadas at o joelho.
- Ningum viu voc todo o dia - disse Pantacha. Esteve pescando?
- Sim, desci at o Santiago - disse Nieves. - Mas no tive sorte. Vai cair tormenta, e os peixes fogem ou se escondem bem 
no fundo.
- Os huambisas j voltaram - disse Pantacha. Vo festejar esta noite.
- Por isso  que o Jum foi embora - disse Nieves.
- Eu vi quando saiu da laguna, em sua canoa.
- Ficar fora dois ou trs dias - disse Pantacha. Aquele pago tambm no perde o medo dos huambisas.
- No  medo, s no quer que cortem a sua cabea
- disse o prtico. - Sabe que, quando esto bbados, cresce o seu dio contra ele.
- Voc tambm vai festejar com os pagos? -- perguntou Lalita.
- A viajada me deixou muito cansado -- disse Nieves.
- vou dormir.
-  proibido, mas s vezes saem - disse Aquilino.
- Quando querem reclamar algo. Constrem suas canoas, entram na gua e ficam diante da Colnia. Fazem o que pedimos ou desembarcamos, 
dizem.
- Quem vive na Colnia, velho? - perguntou Fusha. - H policiais?
- No, no vi nenhum - disse Aquilino. - Vivem as famlias. As mulheres, os filhos. Fizeram suas chacrinhas.
- E as famlias tm tanto nojo deles? - perguntou Fusha. - Mesmo sendo parente, Aquilino?
- H casos em que o parentesco no influi - disse Aquilino. - Deve ser porque no se acostumam, devem ter medo de se contagiar.
- Ento ningum vai visit-los - disse Fusha. -- As visitas devem ser proibidas.
- No, no, ao contrrio, vo muitas visitas - disse Aquilino. - A gente precisa se lavar numa lancha antes de entrar, e 
do um sabo para o banho, e voc tem de 
tirar a roupa e pr um avental.
- Por que voc quer que eu acredite que vir me ver, velho? - perguntou Fusha.
293
- Do rio a gente v as casas - disse Aquilino. Boas casas, algumas como as de Iquitos, de tijolos. A voc viver melhor 
que na ilha, homem. Ter amigos e estar
tranqilo.
-. Me deixe numa praiazinha, velho - disse Fusha.
- Voc passar, de tempo em tempo, para me trazer comida. Viverei escondido, ningum me ver. No me leve para San Pablo, 
Aquilino.
- Mas voc mal pode caminhar, Fusha - disse Aquilino. - No entende, homem?
- Como foi que voc deixou que o bruxo dos huambisas curasse a sua febre, se continua tendo medo deles? perguntou Lalita. 
A shapra sorriu, sem responder.
- Trouxe-o mesmo ela no querendo, patroa - disse Pantacha. - Cantou para ela, danou, cuspiu tabaco no nariz dela, e ela 
no abria os olhos. Tremia mais de medo
que das febres. Acho que se curou com o susto.
Retumbou o trovo, comeou a chover, e Lalita se abrigou sob o telhado. Pantacha continuou na varanda, recebendo a gua 
nas pernas. Minutos depois a chuva parou, 
e a clareira se encheu de nvoa. A cabana do prtico j no tinha luz, patroa, devia estar dormindo, e aquilo foi s um 
aviso, o aguaceiro de verdade cairia sobre 
os huambisas em plena festa. Na certa Aquilino se assustara com os troves, e Lalita pulou da escadinha, ia v-lo, atravessou 
a clareira e entrou na cabana. Fusha 
tinha as pernas afundadas na gua e a pele de suas coxas, como a argila das vasilhas, era rosada, escamosa. Batia no mosquiteiro 
sem deixar de olh-la, Fusha, por 
que tinha vergonha? e o arrancou e se cobriu, e agora grunhia, que tinha de mal que ela o visse? e dobrado em dois tentava 
alcanar a bota, Fusha, se ela no se 
importava, e por fim agarrou-a e a jogou nela, sem fazer pontaria: passou perto de Lalita, chocou-se contra o catre, e a 
criana no chorou. Lalita voltou a sair 
da cabana. Caa uma chuva fina, agora.
- E os que morrem, velho? - perguntou Fusha. So enterrados l mesmo?
- Claro que l mesmo - disse Aquilino. - No vo atir-los no Amazonas, no seria coisa de cristos.
- Voc vai andar dum lado para outro nos rios, Aquilino? - perguntou Fusha. - Voc no pensou que um dia pode morrer na 
lancha?
- Gostaria de morrer no meu povoado - disse Aquilino. - Mas no tenho mais ningum em Moyobamba, nem
famlia,
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nem amigos. Gostaria que me enterrassem no cemitrio de l, no sei por qu.
- Eu tambm gostaria de voltar a Campo Grande disse Fusha. - Saber o que aconteceu com meus parentes, com meus amigos de 
menino. Algum deve se lembrar de mim 
ainda.
- s vezes me arrependo de no ter scio - disse Aquilino. - Muitos se ofereceram para trabalhar comigo, pr um capitalzinho 
para uma lancha nova. Todos sonham passar 
a vida viajando.
- E por que voc no aceitou? - perguntou Fusha.
- Teria companhia, agora que est velho.
- Eu conheo os cristos - disse Aquilino. - Teria ido bem com o scio enquanto ensinava os negcios e o apresentava  clientela. 
Ento o outro pensaria, por que 
continuar dividindo o que d to pouco dinheiro? E como sou velho, teria sido sacrificado.
- Sinto no continuarmos juntos, Aquilino - disse Fusha. - Pensei nisso toda a viagem.
- No era negcio para voc - disse Aquilino. Voc  era muito ambicioso, no se contentaria com as misrias que se ganha 
com isso.
- E voc v para o que me serviu a ambio - disse Fusha. - Para acabar mil vezes pior que voc, que nunca teve ambies.
- Deus no ajudou voc, Fusha - disse Aquilino.
- Tudo o que acontece depende disso.
- E por que no me ajudou e a outros sim? - perguntou Fusha. - Por que me sacaneou e ajudou o Retegui, por exemplo?
- Pergunte-lhe isso quando morrer - disse Aquilino.
- Como  que voc quer que eu saiba, Fusha?
- Vamos l um pouquinho, antes que caia o aguaceiro, patro - disse Pantacha.
- Est bem, mas s um pouco -- disse Fusha. Para que esses cachorros no se ofendam. O Nieves no vai?
- Estava pescando no Santiago -- disse Pantacha. Agora dormiu, patro. Faz pouco que apagou a lamparina.
Afastaram-se das cabanas em direo ao brilho avermelhado do povoado huambisa, e Lalita esperou, sentada junto aos moures 
da cabana, que gotejava. O prtico apareceu 
pouco depois, de calas e camisa: estava tudo pronto. Mas Lalita no queria mais, amanh, agora ia cair tormenta.
- Amanh, no, agora mesmo - disse Adrin Nieves.
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- O patro e o Pantacha ficaro festejando e os huambisas devem estar bbados. Jum est no canal, esperando, ele nos levar 
at o Santiago.
- No vou deixar Aquilino aqui - disse Lalita. No quero abandonar meu filho.
- Ningum falou que ele ia ficar - disse Nieves. Eu tambm quero lev-lo.
Entrou na cabana, saiu com um volume nos braos e, sem dizer nada a Lalita, caminhou em direo ao tanque das tartarugas. 
Ela o seguiu, choramingando, mas logo, 
no barranco, acalmou-se e se agarrou ao brao do prtico. Nieves esperou que ela subisse primeiro  canoa, passou para ela 
a criana e, pouco depois, a embarcao 
rasgava suavemente a superfcie escura da laguna. Atrs da paliada sombria das lupunas assomava, tenuemente, a luz das 
fogueiras e se ouviam cantos.
- Para onde estamos indo? - perguntou Lalita. Voc no me diz nada, faz tudo sozinho. No quero ir mais com voc, quero 
voltar.
- Fique calada - disse o prtico. - No fale at a gente deixar a laguna.
- J est amanhecendo - disse Aquilino. - No pregamos os olhos, Fusha.
-  a ltima noite que ficamos juntos - disse Fusha.
- Sinto um fogo aqui dentro, Aquilino.
- Eu tambm tenho pena - disse Aquilino. - Mas no podemos ficar mais tempo aqui, temos que continuar. Voc est com fome?
- Uma prainha, velho - disse Fusha. - Pela nossa amizade, Aquilino. Para San Pablo, no, me deixe em qualquer lugar. No 
quero morrer l, velho.
- Tenha mais coragem, Fusha - disse Aquilino. Olhe, estive contando. Faz trinta dias justos que samos da ilha.
As coisas so como so, a realidade e os desejos se confundem e se no fosse assim por que teria vindo essa manh? Reconhecia 
tua voz, teu cheiro? Fala-lhe e v 
como em seu rosto se levanta algo risonho e ansioso, retm sua mo por uns segundos e descobre sob sua pele esse discreto 
temor, o delicado sobressalto de seu sangue, 
v como se franzem seus lbios, como se agitam suas plpebras. Queria saber? Por que apertas assim meu brao, por que brincas 
com meus
cabelos,
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por que tua mo na minha cintura e, quando falas, teu rosto to perto do meu. Explica-lhe: para que no me confundas com 
os outros, porque quero que me
reconheas, Tonita, e esse ventinho e esses rudos da minha boca so as coisas que estou te dizendo. Mas s prudente, ateno, 
cuidado com as pessoas e agora no 
h ningum, pega sua mo, larga-a depressa, tu te assustaste Tonita, por que ficaste tremendo? pede-lhe que te perdoe. E 
ento, de novo, o sol que doura suas pestanas 
e ela, certamente pensando, duvidando, imaginando, tu, no  nada ruim, Tonita, no tenhas medo de mim, e ela esforando-se 
confusamente, imaginando, por qu, como, 
e ento os outros, Jacinto limpa as mesas, Chpiro fala do algodo, dos galos e das caboclas que come, umas mulheres oferecem 
doce de leite e ela, empenhada, angustiadamente 
esgaravatando nas trevas mudas, por qu, como. Tu, estou louco,  impossvel, fao-a sofrer, tem vergonha, salta do cavalo, 
outra vez o areal, o salo, a torre. 
Fecha as cortinas, que a Mariposa suba, que tire a roupa sem abrir a boca, vem, no te mexas, s uma menina, beija-a, tu 
queres, suas mos so flores, ela, que coisas 
lindas, patro,  verdade que lhe agrado tanto? Que se vista, que volte ao salo, por que falaste, Mariposa, vai embora, 
nenhuma mulher voltar  torre. E de novo 
a solido, a harpa, a aguardente, embriaga-te, atira-te  cama e procura tu tambm, cava na escurido, tem direito a que 
a amem? tenho o direito de am-la? me importaria 
se fosse pecado? A noite  lenta, em claro, oca sem a presena dela, que acaba com as dvidas. Embaixo riem, brindam e troam, 
entre violes buliosos insinua-se 
o fino assovio de uma flauta, excitam-se, danam. Foi pecado, Anselmo, vais morrer, arrepende-te, tu, no foi, padre? no 
me arrependo de nada, d de que ela morresse. 
E ele foi de m-f, pela fora, tu, no foi de m-f, nos entendamos sem que me visse, nos amvamos sem que me falasse, 
as coisas eram o que eram. Deus  grande, 
Tonita, no  verdade que me reconheces? Tira a prova, aperta sua mo, conta at seis, ela aperta? at dez, vs que no 
solta tua mo? at quinze e ento continua 
na tua, confiada e suave. E enquanto isso j no chove areia, um vento fresco sobe do rio, vem ao La Estrella del Norte, 
Tonita, tomaremos alguma coisa e, qual brao 
procurava sua mo? em quem se apoiava para atravessar a praa? tu, o meu e no o do Dom Eusbio, em mim e no em Chpiro, 
ento te ama? Sente o que sentias: a carne 
adolescente e morena, a fina pelugem do seu brao e, debaixo da mesa, seu joelho junto
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ao teu joelho, gostoso o suco de lucuma, Tonita? e seu joelho continua, e ento dissimula e goza, quer dizer que vo bem 
os negcios de Dom Eusbio, quer dizer
que a loja que abriu em Sullana  a mais prspera, ento Arrese est morrendo, Doutor Zevallos, que desgraa para Piura, 
era o homem mais culto, e ento, agradavelmente 
o calorzinho entre as veias e os msculos, uma chaminha no corao, outra nas fontes, duas minsculas crateras supurando 
sob os pulsos. No apenas o joelho agora, 
o p tambm, logo aparecer e indefeso junto  grossa bota, e o tornozelo, e a coxa esbelta paralela  tua, teu Deus  grande 
mas talvez nem entenda, ser por acaso? 
Tira outra prova, empurra, afasta-se? se mantm grudada  tua? ela tambm empurra? tu, no ests brincando, menininha? que 
sentes por mim? Ento, de novo, o ambicioso 
desejo: estarem sozinhos algum dia no aqui mas na torre, no de dia mas de noite, no vestidos mas nus, Tonita, no te 
afastes, continua tocando em mim. E ento, 
a sufocante manh de vero, os engraxates, os mendigos, as vendedoras, a gente que sai da missa, La Estrella del Norte com 
seus homens e suas conversas, o algodo, 
as cheias, o churrasco do domingo e, de repente, sente sua mo que busca, que encontra e apanha a tua, ateno, cuidado, 
no a olhes, no te mexas, sorri, o algodo, 
as apostas, as caadas, a dura carne dos veados e as pragas traioeiras e, entretanto, ouve sua mo na tua, sua misteriosa 
mensagem, decifra essa voz de secretas 
presses e suaves belisces, e todo o tempo, Tonita, Tonita, Tonita. Agora chega de dvidas, amanh mais cedo ainda, esconde-te 
na catedral e espia, escuta o minsculo 
canto da areia na copa dos tamarindeiros, espera tenso, os olhos fixos na esquina semi-oculta pelo coreto e as rvores. 
E ento, de novo, o tempo parado sob a abbada 
e os arcos, os speros tijolos, os bancos despovoados, e a implacvel vontade e uma fria secreo nas costas, o brusco vazio 
no estmago: o burrinho, a gallinaza, 
as cestas, uma silhueta que avana flutuando. Que no chegue ningum, que v embora logo, que no aparea o padre, e agora, 
depressa, correndo, a luz exterior, o 
trio, os largos degraus, a rua, o quadriltero sombreado. Abre os braos, recebe-a, olha como sua cabea se reclina no 
teu ombro, acaricia seus cabelos, limpa-os 
da areia loura e, ao mesmo tempo, cuidado, La Estrella del Norte vai abrir e Jacinto aparecer bocejando, viro os da cidade 
e os forasteiros, apressa-te. Nada de 
enganos, beija-a e, enquanto seu rosto se inflama, no te assustes, s bonita, eu te amo, no chores, sente tua boca na 
sua
face e nota,
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seu arrebatamento vai passando, sua postura  outra vez dcil, e a superfcie que cede sob teus lbios  fugaz como a chuva 
no vero mais forte, assim
tambm como quando o arco-ris ilumina o cu. E ento rouba-a: no podemos continuar assim, vem comigo, Tonita, cuidars 
dela, tu a endeusars, ser feliz contigo, 
um tempinho e iro para longe de Piura, vivero sem precisar se esconder. Corre com ela, os beirais ainda gotejam areia, 
as pessoas dormem ou se espreguiam na 
cama, mas olha, observa os arredores, d-lhe a mo, monta-a no cavalo. No a faas ficar nervosa, fala-lhe com calma: agarra-te 
 minha cintura, firme, s um pouquinho. 
E, de novo, o sol que se instala sobre a cidade, a temperatura agradvel, as ruas desertas, a pressa doida e, de repente, 
olha como se prende, agarra tua camisa, 
como seu corpo se gruda ao teu, olha esse fogaru no seu rosto: entende? apressa-te? que no nos vejam? vamos? quero ir 
contigo? tu, Tonita, Tonita, sabes para onde 
vamos, para que vamos, o que somos? Atravessa o Viejo Puente mas no entres na madrugadora Castilla, segue rapidamente as 
algarobeiras da margem, e agora sim, o 
areal, esporeia com raiva, que pule, que galope, que seus cascos maltratem as lisas costas do deserto e se levante uma poeirada 
protetora. Ento, os relinchos, 
a fadiga do animal, na tua cintura seu brao e, de Vez em quando, o sabor de seus cabelos que o vento incrusta na tua boca. 
Esporeia sempre, esto chegando, usa 
o relho e, de novo, aspira o cheiro dessa manh, a poeira e a louca excitao dessa manh. Entra sem fazer rudo, carrega-a, 
sobe a estreita escada da torre, sente 
seus braos no teu pescoo como um colar vivo, e ento os gemidos, a aflio que separa seus lbios, o brilho de seus dentes, 
tu, ningum nos v, gente que dorme, 
acalma-te, Tonita. Dize-lhe seus nomes: Lucirnaga, Ranita, Flor, Mariposa. E ainda mais: esto entregues, beberam e fizeram 
amor e no nos ouvem nem diro nada, 
tu, explicars a elas, elas compreendem as coisas. Mas continua, como lhes dizem, mulheres da vida. Conta-lhe da torre e 
do espetculo, pinta-lhe o rio, os algodoais, 
o pardo perfil das distantes montanhas e o cintilar dos telhados de Piura ao meio-dia, as casas brancas de Castilla, a imensido 
do areal e do cu. Tu, eu olharei 
por ti, emprestars teus olhos a ela, tudo o que tenho  teu, Tonita. Que imagine quando o rio entra; essas serpentes fininhas 
que, num dia de dezembro, chegam rastejando 
pelo leito, e como se unem e se avolumam, e sua cor, tu, verdemarrom, e vo engordando e se estendendo.
299
Que oua o dobrar dos sinos e adivinhe a gente que vai receb-lo, as crianas que estouram foguetes, as mulheres que espargem 
flores e serpentinas, e as saias roxas 
do bispo
que abenoa as guas viageiras. Conta-lhe como se ajoelham no Malecn e descreve-lhe a feira - os quiosques, as tendas, 
os sorvetes, os preges -, fala-lhe dos grados 
felizardos que se expem com seus cavalos  corrente e do tiros para o alto e tambm dos gallinazos e mangacbes que tomam 
banho de cuecas e dos valentes que mergulham 
do Viejo Puente. E conta-lhe como o rio  rio agora, e como noite e dia corre para Catacaos, espesso e sujo. Conta-lhe tambm 
quem  Anglica Mercedes, que ser 
sua amiga, e as comidas que lhe far, tu, as que mais te agradem, Tonita, picantes, guisados com batata, ovo e queijo, assados 
e tira-gostos, e at chicha, mas 
no quero que te embriagues. E no esqueas a harpa, tu, toda noite uma serenata s para ti. Fala-lhe ao ouvido, senta-a 
nos teus joelhos, no  fora, tem pacincia, 
acaricia-a de leve, ou melhor, cheira-a sem toc-la, sem pressa, suavemente espera que busque teus lbios. E fala-lhe sempre, 
ao ouvido, com ternura, o peso de 
seu corpo  leve e de sua pele flui um morno perfume, toca nos cabelos dos seus braos como nas cordas da harpa. Fala-lhe, 
murmura-lhe, descala-a com delicadeza, 
beija seus ps, e ento, de novo, claros e lentos, seus calcanhares, a curva do peito do seu p, seus pequenos dedos geis 
na tua boca, seu riso fresco na penumbra. 
Ri tambm, estou te fazendo cosquinhas? beija-a todo o tempo, a esto seus tornozelos to finos e seus duros joelhos redondos. 
Deita-a, ento, com cuidado, acomoda-a, 
e muito lentamente, muito docemente, abre sua blusa e toca-a, seu corpo endurece? solta-a, toca-a de novo, e fala-lhe, tu 
a amas, ser mimada como uma criana, vivers 
para ela, no a apertes, no a mordas, cinge-a apenas, guia sua mo at sua saia, que ela mesma a desabotoe. Tu, eu te ajudo, 
Tonita, eu a tiro, menininha, e deita-te 
a seu lado. Dize-lhe que sentes que so seus seios, tu, dois coelhinhos, beija-os, tu os desejas, via-os em sonhos, de noite 
entravam na torre, brancos e saltitantes, 
ias peg-los e eles escapavam, tu, mas so mais doces e mais vivos, e ento, a discreta penumbra, o esvoaar das cortinas, 
as apagadas silhuetas dos objetos, e a 
pureza e o resplendor imvel do seu corpo. Acaricia-o uma, outra vez e diz-lhe teus joelhos so, e teus quadris so, e teus 
ombros so, e o que sentes, e que a amas, 
sempre que a amas. Tu, Tonita, menininha, criana, e aperta-a contra ti, agora sim busca suas coxas, separa-as timidamente, 
s cuidadoso, s obediente,
300
no a apresses, beija-a e afasta-te, volta a beij-la, tranqiliza-a, sente como tua mo se umedece e seu corpo se abandona 
e afrouxa, a preguiosa modorra que o 
invade
e como se ativa sua respirao e seus braos te chamam, sente como a terra comea a girar, a abrasar-se, a desaparecer entre 
dunas quentes. Dize-lhe s minha mulher, 
no chores, no te abraces a mim como se fosses morrer, diz-lhe comeas a viver, e agora diverte-a, brinca com ela, seca 
suas faces, canta-lhe, embala-a, dize-lhe 
que durma, tu, serei teu travesseiro, Tonita, velarei teu sono.
- Levaram Lituma para Lima hoje de manh - gemeu Bonifcia. - Dizem que por muitos anos.
E da? A cadeia de Piura no era pior que um chiqueiro? Josefino deu uns passos pelo quarto, viviam na imundcie, apoiou-se 
no peitoril da janela, matavam-nos de 
fome,  fraca luz de um lampio o Colgio San Miguel, a igreja e as algarobeiras da Plaza Merino apareciam como em sonhos, 
e aos rebeldes davam merda em vez de comida, 
e Lituma era rebelde, e ai deles se no a comiam: era melhor que o tivessem mandado a Lima.
- Mas nem sequer me deixaram despedir-me dele gemeu Bonifcia. - Por que no me avisaram que o levariam?
As despedidas no eram tristes? Josefino aproximou-se do sof onde ela acabara de se sentar, os ps de Bonifcia se descalaram 
com raiva, seu corpo sofria bruscas 
sacudidas. Era prefervel assim tambm para Lituma, que teria ficado triste, e ela, de onde ia tirar dinheiro, a passagem 
era carssima, disseram na Empresa Roggero. 
Josefino passou o brao pelos ombros dela. Que  que a coitada ia fazer em Lima? Ficaria aqui em Piura, e ele cuidaria dela, 
e ele faria com que se esquecesse de 
tudo.
-  meu marido, tenho que ir - gemeu Bonifcia. Apesar de tudo, irei visit-lo todos os dias, levarei comida.
Mas em Lima era diferente, que boba, davam boa comida e eram bem tratados. Josefino apertou o brao em volta de Bonifcia, 
ela resistiu um pouco, cedeu, e por fim 
j estava embravecendo, o tira no era um grosseiro? e ela, mentira, no fazia sua vida um inferno? e ela, no  verdade, 
mas se deixou apertar por ele, e de novo 
comeou a chorar. Josefino acariciou seus cabelos. E depois, para que isso, era uma
sorte,
301
ao po, po e ao vinho, vinho, Selvtica: tinham se livrado dele.
- Eu no presto, mas voc  pior que eu - choramingou Bonifcia. - Ns vamos ser condenados, mas por que me chama de Selvtica, 
se sabe que no me agrada, v, v 
como voc no presta?
Josefino afastou-a com suavidade, ficou de p, e isso era o cmulo, no teria morrido de fome sem ele? no teria vivido 
esmolando? Procurou em seus bolsos, apoiado 
na janela, como em sonhos, e agora vinha e chorava pelo tira na sua frente, puxou um cigarro e o acendeu: um homem tinha 
o seu orgulho, que diabo.
- Agora j est me tratando por voc - disse, de sbito, voltando-se para Bonifcia. - Antes, s na cama; fora, era sempre 
senhor. Como voc  estranha, Selvtica.
Voltou para o seu lado e ela iniciou um movimento de retirada, mas se deixou abraar e Josefino riu. Tinha vergonha? Coisas 
que as freirinhas do povoado meteram 
na sua cachola? Por que s na cama o tratava por voc?
- Eu sei que  pecado, mas apesar disso continuo soluou Bonifcia. - Voc no d bola, mas Deus vai me castigar, e a voc 
tambm, e tudo por sua culpa.
Que hipcrita era, nisso sim se parecia com as piuranas, a todinhas as mulheres, que hipcrita era, caboclinha, sabia ou 
no que seria sua mulher naquela noite 
mesmo em que ele a trouxe? e ela, no sabia, fazendo beicinho, no teria vindo, no tinha para onde ir, Josefino cuspiu 
o cigarro no cho, e Bonifcia estava aninhada 
junto a ele, e Josefino podia falar ao seu ouvido. Mas gostava, que fosse sincera, Selvtica, que confessasse, s uma vez, 
devagarzinho, dele s, chininha, gostou 
ou no gostou, caboclinha?
- Gostei porque no presto - sussurrou ela. - No me pergunte,  pecado, no me fale disso.
Melhor que com o tira? que jurasse, ningum a ouvia, ele a amava, verdade que gozava mais? beijou-a no pescoo, mordeu sua 
orelha, sob a saia tudo era apertado, 
tenso e morno; verdade que o tira nunca a fez gritar? e ela, com voz sumida, sim, na primeira vez, mais de dor; verdade 
que ele, sim, a fazia gritar, quando lhe 
dava na veneta? e s de gozo, no era mesmo? e ela, que se calasse, Josefino, Deus estava ouvindo, e ele, toco em voc e 
logo voc muda, gosta de mim porque  quente. 
Soltou-a, ela deixou de ronronar e, um pouco depois, chorava de novo.
- Ele estava estragando voc, Selvtica - disse Josefino.
302
- Voc perdia seu tempo com o tira. Por que tem tanta pena dele?
- Porque  meu marido - disse Bonifcia. - Tenho que ir a Lima.
Josefino abaixou-se, apanhou a guimba do cho, acendeu-a, e umas crianas corriam na Plaza Merino, uma trepara na esttua 
e os postigos da casa do Padre Garcia estavam 
iluminados, no devia ser to tarde, sabia que ontem empenhou o relgio? esquecera-se de contar, Selvtica, e verdade, verdade, 
que cabea: tudo estava acertado 
com Dona Santos, amanh cedo.
- Agora no quero mais - disse Bonifcia. - No quero, no vou.
Josefino jogou a guimba em direo  Plaza Merino, mas no chegou sequer  Avenida Snchez Cerro, e saiu da janela, e ela 
estava tensa, e ele, que h com voc, 
queria mat-lo com o olhar? j sabia que tinha olhos bonitos, porque os abria tanto e que histria era essa. Bonifcia no 
chorava e tinha um ar agressivo, uma 
vez decidida: no queria, era o filho do seu marido. E com o que ia dar de comer ao filho do seu marido? E o que ia comer 
ela at que nascesse o filho do seu marido? 
E que ia Josefino fazer com um enteado? O pior de tudo  que a gente nunca pensa nas coisas, que faziam com a cachola que 
Deus lhes ps sobre o pescoo, que merda 
faziam?
- Trabalharei de criada - disse Bonifcia. - E depois irei v-lo em Lima.
De criada, barriguda? Estava sonhando, ningum a empregaria, e se por acaso algum quisesse, seria para esfregar cho e, 
com tanto esforo, o filho do seu marido 
se perderia, ou nasceria morto, ou monstro, que perguntasse a um mdico, e ela, que morra se tiver de morrer, mas ela no 
queria mat-lo: estava decidido.
Comeou a choramingar de novo, e Josefino sentou a seu lado e passou o brao nos seus ombros. Era mal-agradecida, ingrata 
com ele. Tratava-a bem, sim ou no? Por 
que a trouxe para sua casa? porque a amava, por que lhe dava de comer? porque a amava, e, em troca, e depois de tudo, e 
apesar disso um enteado para que toda a gente 
se risse dele? Merda, um homem no  um palhao. E alm disso, quanto ia cobrar a Santos? Uma barbaridade de dinheiro e, 
em vez de agradecer, chorava. Por que era 
assim com ele, Selvtica? Parece que no o queria, e ele gostava tanto dela, caboclinha, e beliscava o seu pescoo e soprava 
atrs de sua orelha,
303
e ela gemia, seu povoado, as madrezinhas, queria voltar, mesmo que fosse terra de selvagens, mesmo que no tivesse edifcios 
nem automveis, Josefino, Josefino, 
voltar a Santa Maria de Nieva.
- Voc precisa de mais dinheiro para voltar a seu povoado que para fazer uma casa, caboclinha - disse Josefino.
- Voc fala sem saber o que est dizendo. No precisa ser assim, amor.
Tirou o leno e limpou seus olhos, e beijou-os e fez com que meio corpo dela se virasse, abraou-a com paixo, ele se preocupava 
com ela, por qu? fazia tudo 
pensando no seu bem, por qu, infeliz, por qu? porque a amava. Bonifcia suspirava, o leno na boca; por seu bem, mas queria 
matar o filho de seu marido?
- Isso no  mat-lo, boba, por acaso j nasceu? perguntou Josefino. - E por que voc fala tanto do seu marido, se no  
mais seu marido?
Sim, era, casaram-se na Igreja, e para Deus era o nico que valia, e Josefino, que mania, por que meter Deus em tudo, Selvtica? 
e ela, v, v? e ele, caboclinha, 
boba, que lhe desse um beijo, e ela, no, e ele, no se importaria se no a quisesse tanto, sacudindo-a, procurando suas 
axilas, impedindo-a de se levantar, boba, 
teimosinha, sua Selvatiquita, v, v? e entre um suspiro e um soluo ria, e, por uns momentos, sua boca ficava quieta e 
ele a beij-la. Amava-o? uma vez, s uma 
vez, boba, e ela, no amo voc, e ele, mas eu muito, Selvtica, s que voc se envaidece e abusa de mim por isso, e ela, 
voc diz mas no me quer, e ele, que tocasse 
no seu corao e visse como batia por ela, e alm disso, se o quisesse, faria sua vontade em tudo, e sob a saia tudo era 
apertado, morno, escorregadio, como debaixo 
da blusa, e tambm nas costas, morno, sedento, espesso, e a voz de Josefino comeava a vacilar e a ser, como a dela, muito 
baixa, no iria  casa da Santos mesmo 
que quisesse, e contida, mesmo que a matasse no iria, e preguiosa, mas gostava dele, e desigual e quente.
304



III.



- Voc est com uma cara - disse o sargento -, parece que a tiraram daqui  fora. Por que no est contente?
- Mas estou - disse Bonifcia. - Sinto s um pouco de pena por causa das madrezinhas.
- No ponha essa maleta to no canto, Pintado disse o sargento. - E as caixas no esto seguras, cairo na gua ao primeiro 
solavanco.
- Lembre-se de ns quando estiver no paraso, meu sargento - disse o Chiquito. - Escreva, conte como  a vida na cidade. 
Se  que ainda existem cidades.
- Piura  a cidade mais alegre do Peru, senhora disse o tenente. - Vai gostar muito dela.
- com certeza, senhor - disse Bonifcia. - Se  to alegre, vai me agradar.
O prtico Pintado j instalara toda a bagagem na lancha e agora examinava o motor, ajoelhado entre duas latas de gasolina. 
Corria uma brisa suave e as guas do Nieva, 
cor de uva, avanavam para o Maran, alvoroadas de ondinhas, balanos e curtos redemoinhos. O sargento ia e vinha pela 
lancha, diligente, risonho, verificando 
os volumes, as amarras, e Bonifcia parecia interessada nessa movimentao, mas, s vezes, seus olhos afastavam-se da embarcao 
e espiavam as colinas: a misso 
resplandecia entre as rvores, sob o cu limpo, seus zincos e muros reverberavam mansamente na clara luz da madrugada. O 
caminho pedregoso, por outro lado, aparecia 
dissimulado por fiapos de bruma que flutuavam quase ao rs-do-cho, inclumes: a mata desviava a brisa que os teria desagregado.
305
- No  verdade que j estamos com coceira para chegar a Piura, chininha? - perguntou o sargento.
-  verdade - disse Bonifcia. - Queremos chegar logo.
- Deve ser longssimo - disse Lalita. - E a vida, to diferente desta.
- Dizem que  cem vezes maior que Santa Maria de Nieva - disse Bonifcia -, com casas iguais s que a gente v nas revistas 
das madres. H poucas rvores, dizem, 
e areia, muita areia.
- Tenho pena porque vai embora, mas fico contente por voc - disse Lalita. - As madres j sabem?
- Me deram muitos conselhos - disse Bonifcia. Madre Anglica chorou. Como est velhinha, no ouve mais o que se diz, tive 
que gritar. Mal caminha, Lalita, parece 
que seus olhos vivem danando todo o tempo. Me levou  capela e rezamos juntas. Agora nunca mais a verei, tenho certeza.
-  uma velha m, perversa - disse Lalita. - No varreu isso, no lavou as panelas, e me assusta com o inferno; e toda manh, 
voc se arrependeu dos pecados? E 
tambm me diz coisas horrveis de Adrin, que  um bandido, que enganava todo mundo.
- Tem um gnio difcil porque est velhinha - disse Bonifcia. - Deve saber que vai morrer logo. Mas comigo  boa. Gosta 
de mim e eu tambm gosto dela.
- Algarobeiros, burros e tonderos - disse o tenente.
- E conhecer o mar, senhora, no est longe de Piura. Aquilo  melhor que se banhar no rio.
- E tambm dizem que l esto as mulheres mais lindas do Peru, senhora - disse o Pesado.
- Ah, Pesado - disse o Rubio. - E que importa  senhora que haja mulheres lindas em Piura?
- Estou lhe avisando para que tome cuidado com as piuranas - disse o Pesado. - Seno, ficar sem marido.
- Ela sabe que sou srio - disse o sargento. - S tenho vontade de ver meus amigos, meus primos. De mulheres, a minha me 
chega e sobra.
- Ah, caboclo cnico - riu o tenente. - Cuidado com ele, senhora, e se escapar, pau nele.
- Se for possvel, embrulhe uma piurana e mande-a para mim, meu sargento - disse o Pesado.
Bonifcia sorria para uns e outros, mas, ao mesmo tempo, mordia os lbios e, a intervalos regulares,
306
uma expresso diferente voltava a seu rosto e o abatia, empanava seu olhar por uns segundos e agitava sua boca com um leve 
tremor, e logo desaparecia e seus olhos 
sorriam
de novo. O povoado j despertava, havia cristos reunidos na loja do Paredes, a velha criada de Dom Fbio varria o terrao 
da sede do governo e, sob as capironas, 
passavam aguarunas jovens e velhos em direo ao rio, com varas e arpes. O sol acendia os tetos de jarina.
- Seria bom partir logo, sargento - disse o Pintado.
-  melhor passar agora o pongo, depois haver mais vento.
- Escute primeiro, e depois diga no - disse Bonifcia. - Pelo menos deixe que lhe explique.
-  melhor que voc nunca faa planos - disse Lalita. - Depois, se no se concretizam,  pior. Pense s no que est acontecendo 
no momento, Bonifcia.
- J lhe falei, ele est de acordo - disse Bonifcia.
- Me dar um sol por semana, e eu farei trabalhos para fora, no sabe que as madres me ensinaram a costurar? Mas no roubaro 
de voc? Tem que passar por tantas 
mos, talvez nem chegue.
- No quero que me mande - disse Lalita. - Para que preciso de dinheiro?
- J sei qual o jeito - disse Bonifcia, batendo na cabea. - Mandarei para as madres, quem vai se atrever a roubar delas? 
E as madres o entregaro a voc.
- Apesar da vontade que a gente tem de ir, sempre d um pouco de tristeza - disse o sargento. - Me deu agorinha mesmo, rapazes, 
pela primeira vez. A gente se apega 
aos lugares, mesmo que no valham nada.
A brisa se transformara em vento e as copas das rvores mais altas inclinavam seus penachos, sacudiam-nos sobre as rvores 
pequenas. L em cima, a porta da residncia 
se abriu, a silhueta escura de uma madre saiu apressada e, enquanto atravessava o ptio em direo  capela, o vento alargava 
seu hbito, encrespava-o como uma onda. 
Os Paredes tinham sado  porta de sua cabana e, debruados no parapeito, olhavam o cais, davam adeus.
-  humano, meu sargento - disse o Oscuro. Tanto tempo aqui e, alm disso, casado com uma daqui. A gente compreende que 
tenha um pouco de pena. A senhora ter mais 
ainda.
- Obrigado por tudo, meu tenente - disse o sargento. - Se puder servi-lo em Piura, j sabe, estou s suas
ordens,
307
para qualquer coisa. Quando  que o senhor estar em Lima?
- Dentro de um ms, mais ou menos - disse o tenente. - Tenho que ir a Iquitos antes, para liquidar este assunto. Desejo-lhe 
tudo de bom em sua terra, caboclo, apareo 
por l um dia desses.
-  melhor que voc guarde o dinheiro para quando tiver filhos - disse Lalita. - Adrin dizia, no ms que vem comeamos, 
e, em seis meses, teremos para um motor 
novo. E nunca juntamos um s centavo. Mas ele no gastava quase nada, era tudo para a comida e os filhos.
- E ento voc poder ir a Iquitos - disse Bonifcia.
- Faa as madres guardarem o dinheiro que vou mandar, at que seja bastante para a passagem. Ento voc ir v-lo.
- O Paredes me disse que no voltarei a v-lo disse Lalita. - E tambm que morrerei aqui, como criada das madres. No me 
mande nada. Vai fazer falta l, precisar 
de muito dinheiro na cidade.
Permitia, caboclo? O sargento concordou, e o tenente abraou Bonifcia, que piscava muito e mexia a cabea como que aturdida, 
mas seus lbios e seus olhos midos 
sorriam ainda, insistentemente, senhora: agora era a vez deles. Primeiro, abraaram-na o Pesado e o Oscuro, puxa, que abrao 
demorado, e ele, meu sargento, no pense 
mal, era um abrao de amigo, e o Rubio, e o Chiquito. O prtico Pintado soltara as amarras e mantinha a lancha junto ao 
cais, curvado sobre a vara. O sargento e 
Bonifcia subiram e instalaram-se entre os volumes, Pintado levantou a vara e a corrente apoderouse da embarcao, comeou 
a balan-la, a lev-la sem pressa rumo 
ao Maran.
- Voc tem de ir v-lo - disse Bonifcia. - Eu lhe mandarei, mesmo que no queira. E quando estiver livre, iro a Piura, 
ajudarei vocs, como me ajudaram. L ningum 
conhece Dom Adrin, ele poder trabalhar no que quiser.
- Voc mudar de cara quando vir Piura, chininha disse o sargento.
Bonifcia tinha a mo fora da lancha, seus dedos tocavam a gua turva e abriam retos, efmeros canais, que desapareciam 
na espumosa confuso que a hlice ia semeando. 
s vezes, sob a opaca superfcie do rio, aparecia um peixe pequeno e veloz. Sobre eles, o cu se mostrava limpo, mas, longe, 
em direo  cordilheira, flutuavam 
nuvens gordas que o sol fendia como um cutelo.
308
- Voc est triste s por causa das madres? - perguntou o sargento.
- Tambm por Lalita - disse Bonifcia. - E penso o tempo todo na Madre Anglica. Ontem  noite prendeu-se a mim, no queria 
me soltar, e no lhe saam as palavras.
- As freirinhas se portaram bem - disse o sargento.
- Quantos presentes deram a voc.
- Voltaremos um dia? - perguntou Bonifcia. Uma vez que seja, a passeio?
- Quem sabe - disse o sargento. - Mas  um pouco longe para vir at aqui a passeio.
- No chore - disse Bonifcia. - vou lhe escrever e contar tudo o que fizer.
- Desde que sa de Iquitos no tive amigas - disse Lalita. - Desde que era menina. L na ilha, as achuales, as huambisas 
quase no falavam cristo, e a gente no 
se entendia seno em certas coisas. Voc foi a minha melhor amiga.
- E voc tambm a minha - disse Bonifcia. Mais que amiga, Lalita. Voc e Madre Anglica so o que mais quero aqui. Ande, 
no chore.
- Por que voc demorou, Aquilino? - perguntou Fusha. - Por que demorou, velho?
- No pude vir mais depressa, homem, acalme-se disse Aquilino. - O cara me crivava de perguntas, e falava sobre as freiras 
e que o doutor, e eu no conseguia convenc-lo. 
Mas convenci, Fusha, j est resolvido.
- As freiras? - perguntou Fusha. - L tambm tem freiras?
- So enfermeiras, cuidam de todos - disse Aquilino.
- Me leve para outro lugar, Aquilino - disse Fusha -, no me deixe em San Pablo, no quero morrer l.
- O cara ficou com todo o dinheiro, mas me prometeu um monto de coisas - disse Aquilino. - Vai conseguir papis para voc, 
arranjar tudo para que ningum saiba 
quem  voc.
- Voc deu a ele tudo o que juntei nestes anos? perguntou Fusha. - Foi para isso tanto sacrifcio, tanta luta? Para que 
um cara qualquer fique com tudo?
- Tive que ir subindo aos pouquinhos - disse Aquilino. - Primeiro, quinhentos, e no e no, depois mil, e no e no, nem 
queria discutir, dizia, a cadeia  mais 
cara.
309
Tambm me prometeu que dar a voc a melhor comida, os melhores remdios. Que podamos fazer, Fusha, teria sido pior se 
no aceitasse.
Chovia a cntaros e o velho, molhado at os ossos, amaldioando o tempo, tirou a lancha do canal a golpes de remo. J perto 
do cais viu silhuetas nuas no alto do 
barranco. Gritando, ordenou em huambisa que descessem para ajud-lo, e eles desapareceram atrs das lupunas que o vento 
sacudia, e depois surgiram, avermelhados, 
dando pulinhos, escorregando no barro da ladeira. Amarraram a lancha em umas estacas e, chapinhando sob os gotes que salpicavam 
em suas costas, levaram Dom Aquilino 
para terra, nas mos. O velho comeou a se despir enquanto subia o barranco. Ao chegar no alto, j tirara a camisa e, no 
povoado, sem responder aos sinais amistosos 
que faziam crianas e mulheres das cabanas, as calas. Assim, s com o chapu de palha e umas cuecas curtas, atravessou 
o mato at a clareira dos cristos, e ali, 
um tanto simiesco e cambaleante, pendurou-se a um parapeito, Pantacha abraou-o, voc est sonhando, e balbuciou fracamente 
em seu ouvido, cheio de erva e nem sequer 
pode falar, solte-me. Pantacha tinha os olhos atormentados e fiozinhos de baba escorriam de sua boca. Muito agitado, fazia 
gestos apontando as cabanas. O velho viu 
a shapra no terrao, fosca, imvel, o pescoo e os braos ocultos por enfiadas de colares e braceletes, a cara muito pintada.
- Fugiram, Dom Aquilino - grunhiu, finalmente, Pantacha, virando os olhos. - E o patro com raiva, encerrado ali, faz meses, 
no quer sair.
- Est na sua cabana? - perguntou o velho. - Solte-me, tenho de falar com ele.
- Quem  voc para mandar em mim? - perguntou Fusha. - V de novo, que o cara devolva o dinheiro. Me leve para o Santiago, 
prefiro morrer entre gente que conheo.
- Temos que esperar at a noite - disse Aquilino.
- Quando todos estiverem dormindo, levarei voc at a lancha onde fazem as visitas se lavar, e a o cara leva voc. No 
seja assim, Fusha, agora trate de dormir 
um pouco. Ou quer comer algo?
- Assim como voc est me tratando, vo me tratar l - disse Fusha. - Nem me ouve, voc decide tudo e eu tenho que obedecer. 
 a minha vida, Aquilino, no a sua, 
no quero, no me abandone naquele lugar. Tenha um pouco de compaixo, velho, voltemos  ilha.
- Nem querendo podia atender voc - disse Aquilino.
310
- De sulcada at o Santiago e nos escondendo, so meses de viagem, e no h mais gasolina, nem dinheiro para comprar. Trouxe 
voc para c por amizade, para
que morra entre cristos, e no como um pago. Oua o que lhe digo, durma um pouco.
O corpo mal enchia os cobertores que o cobriam at o queixo. O mosquiteiro s protegia meia rede, e reinava uma grande desordem 
em volta: latas esparramadas, cascas, 
cabaas com restos de masato, de comida. Havia uma horrvel pestilncia e muitas moscas. O velho tocou no ombro de Fusha, 
ele roncou, e ento o velho sacudiu-o 
com as duas mos. As plpebras de Fusha se abriram, duas brasas sanguinolentas pousaram fatigadamente no rosto de Aquilino, 
apagaram-se, acenderam-se vrias vezes. 
Fusha ergueu-se um pouco sobre os cotovelos.
- A chuva me pegou no meio do canal - disse Aquilino. - Estou empapado.
Falava e espremia a camisa e as calas, torcia com fora; em seguida, pendurou-as na corda do mosquiteiro. L fora continuava 
a chover muito forte, uma luz turva 
descia s poas e a lama cinza da clareira, o vento investia rugindo contra as rvores. s vezes, um ziguezague multicolorido 
iluminava o cu e, segundos depois, 
vinha o trovo.
- Aquela puta se foi com o Nieves - disse Fusha, os olhos fechados. - Aqueles cachorros fugiram juntos, Aquilino.
- E que lhe importa que tenham ido? - perguntou Aquilino, secando o corpo com a mo. - Hum, antes s do que mal-acompanhado.
- Aquela puta no me importa - disse Fusha. Mas fugir com o prtico, isso ela tem de me pagar.
Sem abrir os olhos, Fusha virou o rosto, cuspiu, homem, puxou os cobertores at a boca,  melhor que olhasse onde cuspia, 
tinha passado raspando.
- H quantos meses que voc no vem? - perguntou Fusha. - Faz sculos que o estou esperando.
- Voc tem muita carga? -- perguntou Aquilino. Quantas bolas de caucho? Quantos couros?
- Estamos com azar - disse Fusha. - S encontramos povoados abandonados. Desta vez no tenho mercadoria.
- Mas voc no podia viajar mais, as pernas no agentavam andar pela mata - disse Aquilino.
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- Morrer entre conhecidos!  Pensa que os huambisas iam continuar com voc? A qualquer momento se mandariam.
- Eu podia dar ordens da rede - disse Fusha. Jum e Pantacha levariam os huambisas aonde eu mandasse.
- No se faa de bobo - disse Aquilino. - Odeiam Jum e s no o mataram at agora por sua causa. E o Pantacha est abarrotado 
de infuses, mal podia falar quando 
o deixamos. Aquilo tinha acabado, homem, perca a esperana.
- Vendeu bastante? - perguntou Fusha. - Quanto dinheiro voc trouxe?
- Quinhentos soles - disse Aquilino. - No vire a cara, o que levei no valia mais, e tive que fazer fora para que me dessem 
isso. Mas, o que lhe aconteceu?  a 
primeira vez que no tem mercadoria.
- A regio est queimada - disse Fusha. - Esses cachorros andam prevenidos e se escondem. Irei mais longe, entrarei at 
nas cidades, mas vou encontrar caucho.
- Lalita roubou todo o seu dinheiro? - perguntou Aquilino. - Deixaram um pouco para voc?
- Que dinheiro? - Fusha segurava os cobertores perto da boca, mais encolhido ainda. - De que dinheiro voc fala?
- Do que eu venho lhe trazendo, Fusha - disse o velho. - Do lucro dos seus roubos. Eu sei que voc o guarda. Quanto sobrou? 
Cinco mil soles? Dez mil?
- Nem voc, nem sua me, nem ningum vai tirar o que  meu - disse Fusha.
- No me faa ter mais pena do que j tenho - disse Aquilino. - E no me olhe assim, seus olhos no me assustam. Em vez 
disso, responda ao que estou lhe perguntando.
- Ela devia estar com tanto medo, ou com tanta pressa, que at se esqueceu de me roubar o dinheiro disse Fusha. - Lalita 
sabia onde estava guardado.
- Tambm pode ser que tivesse pena - disse Aquilino. - Teria pensado, est fodido, vai ficar s, vamos deixar-lhe pelo menos 
o dinheiro para que se console um pouco.
- Era melhor que aqueles cachorros tivessem me roubado - disse Fusha. - Sem dinheiro, esse cara no teria aceitado. E voc, 
que tem bom corao, no teria me largado 
na mata. Me levaria at de volta  ilha, velho.
- Puxa, at que enfim voc est mais calmo - disse Aquilino. - Sabe o que vou fazer? Esmagar umas bananas
e cozinh-las.
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A partir de amanh, voc comer como os cristos, vai se despedir da comida pag.
O velho riu, atirou-se na rede vazia e comeou a se balanar, impelindo-se com um p.
- Se eu fosse seu inimigo, no estaria aqui - disse.
- Ainda tenho esses quinhentos soles, teria ficado com eles. Tinha certeza de que desta vez voc no teria mercadoria.
i A chuva varria o terrao, chicoteava surdamente o teto, o ar quente que vinha de fora levantava o mosquiteiro, mantinha-o 
esvoaando como uma cegonha branca.
- Voc no precisa se cobrir tanto - disse Aquilino.
- J sei que est perdendo a pele das pernas, Fusha.
- Aquela puta contou a voc dos pernilongos? murmurou Fusha. - Me cocei e infeccionaram, mas j est passando. Eles pensam 
que no irei busc-los porque estou assim. 
Vamos ver quem ri por ltimo, Aquilino.
- No mude de conversa - disse Aquilino. -  verdade que voc est se curando?
- Me d um pouquinho mais, velho - disse Fusha.
- Ainda tem?
- Tome o meu, no quero mais - disse Aquilino. -- Eu tambm gosto. Nisso sou como um huambisa, todas as manhs, quando acordo, 
esmago umas bananas e cozinho.
- vou sentir saudade da ilha, mais que de Campo Grande, mais que de Iquitos - disse Fusha. - Parece que a ilha  a nica 
ptria que eu tive. At dos huambisas vou 
sentir falta, Aquilino.
- Voc vai sentir falta de todos, mas no do seu filho
- disse Aquilino. -  s dele que voc no fala. No se importa que Lalita o tenha levado?
- Talvez no fosse meu filho - disse Fusha. Talvez a cadela. . .
- Cale-se, cale-se, faz anos que conheo voc, e  muito difcil que me engane - disse Aquilino. - Diga a verdade, esto 
sarando ou esto pior que antes?
- No me fale nesse tom - disse Fusha. - No permito, merda.
Sua voz, sem convico, extinguiu-se numa espcie de uivo. Aquilino levantou-se da rede, foi at ele, e Fusha cobriu a 
cara: era um volumezinho tmido e amorfo.
- No tenha vergonha de mim, homem - sussurrou o velho. - Deixe-me ver.
Fusha no respondeu, Aquilino pegou uma ponta do cobertor e levantou-o. Fusha estava sem as botas,
313
o velho ficou olhando, a mo incrustada como uma garra no cobertor, a testa pregueada de rugas, a boca aberta.
- Sinto muito, mas j  hora, Fusha - disse Aquilino. - Temos de ir.
- Um pouquinho mais, velho - gemeu Fusha. Olhe, acenda um cigarro para mim, fumo e voc me leva at esse cara. S dez minutos, 
Aquilino.
- Mas fume rpido - disse o velho. - Ele deve estar esperando.
- Olhe tudo de uma vez - gemeu Fusha, sob o cobertor. - Nem eu me acostumo, velho. Olhe mais em cima.
As pernas se dobraram e, ao se esticarem, os cobertores caram no cho. Agora Aquilino podia ver, tambm as coxas translcidas, 
as virilhas, o pbis pelado, o pequeno 
gancho de carne que tinha sido o sexo, e o ventre: ali a pele estava intacta. O velho se abaixou precipitadamente, pegou 
os cobertores, cobriu a rede.
- Est vendo? - soluou Fusha. - Nem homem sou mais, Aquilino.
- Tambm prometeu que dar cigarros quando voc quiser - disse Aquilino. - J sabe, quando tiver vontade de fumar, pea 
a ele.
- Gostaria de morrer agora mesmo - disse Fusha -, sem sentir, de repente. Voc me enrolaria num cobertor e me penduraria 
numa rvore, como fazem com os huambisas. 
S que ningum choraria por mim todas as manhs. De que  que voc est rindo?
- Porque voc faz que est fumando, para que o cigarro dure mais e o tempo passe - disse Aquilino. - Que  que adianta, 
se de qualquer maneira ns vamos at l, 
que diferena faz para voc dois minutos mais ou menos, homem?
- Como  que vou viajar at l, Aquilino? - perguntou Fusha. -  muito longe.
-  melhor morrer l - disse o velho. - L cuidaro de voc e a doena no continuar aumentando. Conheo um cara, com o 
dinheiro que voc tem, ele o receber sem 
pedir papis nem nada.
- No chegaremos, velho, me pegaro no rio.
- Prometo a voc que chegaremos - disse Aquilino.
- Ainda que seja viajando s de noite, procurando os canais. Mas  preciso partir hoje mesmo, sem que o Pantacha nos veja, 
nem os pagos. Ningum pode saber, s 
assim voc estar seguro l.
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- A polcia, os soldados, velho - disse Fusha. No v que todos esto me procurando? No posso sair daqui. H muita gente 
que quer se vingar de mim.
- San Pablo  um lugar onde nunca iro buscar voc
- disse o velho. - Ainda que soubessem que voc est l, no iriam. Mas ningum saber.
- Velho, velho - soluou Fusha. - Voc  bom, estou pedindo, voc acredita em Deus? Faa isso por Deus, Aquilino, voc 
tem de me compreender.
- Claro que compreendo, Fusha - disse o velho, levantando-se. - Mas faz pouco que escureceu, tenho de lev-lo logo, ele 
vai se cansar de esperar.
 noite outra vez, a terra  fofa, os ps se afundam at os tornozelos e so sempre os mesmos lugares: a ribeira, o sendeiro 
que se afina entre as chcaras, um bosquezinho 
de algarobeiras, o areai. Tu, por aqui, Tonita, por ali no, algum pode ver-nos de Castilla. A areia cai sem misericrdia, 
cobre-a com a manta, pe nela teu chapu, 
baixe sua cabecinha se no quer que lhe arda o rosto. Os mesmos rudos: o rumor do vento nos algodoais, msica de violo, 
cantos, gritos e, ao alvorecer, os profundos 
mugidos das reses. Tu, vem, Tonita, sentemo-nos aqui, descansaro um pouco e continuaro passeando. As mesmas imagens: uma 
cpula negra, estrelas que piscam, brilham 
fixas ou se apagam, o deserto de pregas e dunas azuis e, ao longe, a construo ereta, solitria, suas lvidas luzes, sombras 
que saem, sombras que entram e, s 
vezes, na madrugada, um cavaleiro, uns pees, um rebanho de cabras, a lancha de Carlos Rojas e, na outra margem do rio, 
as portas cinzentas do Camal. Fala-lhe do 
amanhecer, tu, ests me ouvindo, Tonita? adormeceste? como se podem ver os campanrios, os telhados, os balces, se chover 
e se h neblina. Pergunta-lhe se sente 
frio, se quer voltar, abriga-lhe as pernas com teu casaco, que se apoie em teu ombro. E ento, de novo, o alvoroo intempestivo, 
o estranho galope dessa noite, 
o sobressalto do seu corpo. Levanta-te, olha, quem corre? um desafio? Chpiro, Dom Eusbio, os gmeos Temple? Tu, escondamo-nos, 
agachemo-nos, no te mexas, no 
te assustes, so dois cavalos e ento, na escurido, quem, por qu, como. Tu, passaram perto e em cavalos xucros, que gente 
louca, vo at o rio, agora voltam, no 
tenhas medo, menina, e ento seu rosto girando, interrogando, sua ansiedade, o tremor de sua boca,
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suas unhas como com espinhos, e sua mo por qu, como, e sua respirao junto  tua. Agora acalma-a, tu, eu te explico, 
Tonita, j se foram, iam to depressa,
nem pude ver suas caras e ela insistente, ansiosa, explorando na negrura, quem, por qu, como. Tu, no fiques assim, quem 
podia ser, que importa, que bobinha. Uma 
brincadeira para distra-la: enfia-te debaixo da manta, esconde-te, deixa que te cubra, a vm, so muitos, se nos vem 
nos matam, sente sua agitao, sua fria, 
seu terror, que se aproxime, que te abrace, que se afunde em ti, tu, mais. Tonita, chega-te mais, e diz-lhe agora que  
mentira, no vem ningum, me d um beijo, 
te enganei, menina. E hoje no lhe fales, escuta-a a teu lado, sua silhueta  um barco, o areal, um mar, ela navega, tranqilamente 
evita dunas e arbustos, no a 
interrompas, no pises na sombra que projeta. Acende um cigarro e fuma, pensa que s feliz e que darias qualquer coisa para 
saber se ela  feliz tambm. Fala com 
ela e brinca, tu, estou fumando, ensinars a ela quando crescer, as crianas no fumam, se engasgaria, ri, que se ria, roga-lhe, 
tu, no fique sempre to sria. 
Tonita, eu te suplico. E ento, de novo, a incerteza, esse cido que destri a vida, tu, j sei, se aborrece muito, as mesmas 
vozes, a clausura, mas espera, falta 
pouco, viajaro para Lima, uma casa s para os dois, no ser preciso esconder-se, comprars tudo para ela, vers, Tonita, 
vers. Sente outra vez essa amarga emoo, 
tu nunca te zangas, menina, que seja diferente, que se zangue uma vez, que quebre as coisas, chore gritando, e ento, ausente, 
igual a expresso de seu rosto, o 
suave latejar de suas fontes, suas plpebras cadas, o segredo de seus lbios. Agora s recordaes e um pouco de melancolia, 
tu, por isso te mimam tanto, como se 
portaram, no disseram nada, te trazem doces, te vestem, te penteiam, parecem outras, entre elas brigam tanto, quanta maldade, 
contigo so to boas e to prestativas. 
Diz-lhes eu a trouxe, eu a roubei, que a amas, vai viver contigo, tm que te ajudar e ento, de novo, sua excitao, seus 
protestos, ns lhe juramos, prometemos, 
corresponderemos  sua confiana, seus cochichos, sua agitao, olha-as, comovidas, curiosas, risonhas, sente seu desespero, 
para subir  torre, para v-la e falar-lhe. 
E outra vez ela, e tu, todas gostam de ti, porque s jovem? porque no falas, porque tm pena? E ento, nessa noite, o rio 
flui sombriamente e na cidade no restam 
luzes, a lua ilumina o deserto, as plantaes so manchas apagadas e ela est longe e desamparada. Chama-a, pergunta-lhe, 
Tonita, me ouves? o que ests
sentindo?
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por que tua mo puxa assim, ser que se assustou com a areia que cai to forte? Tu, vem, Tonita, abriga-te, vai passar logo, 
pensas que vai nos cobrir, que
vai nos enterrar vivos? por que tremes, o que sentes, te falta ar? queres voltar? no respires assim. E no entendias, tu, 
sou to burro, que terrvel no compreender, 
menina, no saber nunca o que te acontece, no adivinhar. E ento, de novo, teu corao como um manancial, e as perguntas, 
seu bater, como imaginas que sou, como 
as mulheres, e as caras e o cho que pisas, de onde sai o que ouves, como s tu, que significam essas vozes, pensas que 
todos so como tu? que ouvimos e no respondemos? 
que algum nos d comida, deitanos e nos ajuda a subir a escada? Tonita, Tonita, que sentes por mim? sabes o que  o amor? 
por que me beijas? Faz um esforo agora, 
no lhe transmitas tua angstia, baixa a voz e suavemente diz, a ela no importa, meus sentimentos so teus sentimentos, 
queres sofrer quando ela sofrer. Que esquea 
esses rudos, tu, nunca mais, Tonita, fiquei nervoso, conta-lhe coisas da cidade, da pobre gallinaza que chora suas penas, 
do burrinho e das cestas, e do que diz 
a gente no La Estrella del Norte, tu, todos perguntam, Tonita, te procuram, esto de luto, coitadinha, ser que a mataram? 
um forasteiro a teria roubado? o que inventam, 
suas mentiras, suas murmuraes. Pergunta-lhe se ela se lembra, gostaria de voltar  praa? tomar sol junto ao coreto? se 
sente falta da gallinaza, tu, gostarias 
de v-la de novo? ns a levamos para Lima? Mas ela no pode ou no quer ouvir, algo a isola, atormenta-a e ento, sempre, 
sua mo, seu tremor, seu espanto, tu, o 
que , est te doendo? queres que te massageie? Faz sua vontade, toca onde ela te indica, no apertes muito, examina seu 
ventre, acaricia o mesmo lugar, dez vezes, 
cem vezes, e agora j sei, est doendo, a comida, queres fazer pipi? ajuda-a, coczinho? que se agache, que no se preocupe, 
tu sers seu abrigo, abre a manta, interrompe 
a chuva sobre sua cabea, que a areia a deixe em paz. Mas  em vo, e agora suas faces esto midas, aumentou o susto em 
seu corpo, a crispao de seu rosto e saber 
se est chorando e no adivinhar  terrvel, Tonita, que podes fazer, que quer que faas. Leva-a em teus braos, corre, 
beija-a, tu, j chegamos, est bem perto, 
ela tomar um mate, tu a pors na cama e amanh despertar boa, e que no chore, que por Deus no chore. Chama a Anglica 
Mercedes, que a cure, ela,  uma elica, 
patro, tu, um ch quente? umas ventosas? ela, no  nada grave, no se assuste, tu, erva-doce? macela? e sua
mo a,
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apalpando, acariciando o mesmo lugar, e que burro, que burro, no entendias. E ento, as mulheres, seu regozijo, seus corpos que entulham a torre, seus cheiros,
cremes, talco, vaselina, seus gritos e pulos, o patro no entendeu, que inocente, que ingnuo. Olha para elas, amontoadas, v, cercam-na, agradam-na e lhe dizem
coisas. Deixa que a entretenham e desce ao salo, abre uma garrafa, atira-te numa poltrona, brinda por ti, sente a confusa emoo, alvoroada, fecha os olhos e tenta 
ouvi-las: pelo menos duas, a Mariposa, trs, a Lucirnaga, quatro, e puxa, como  bobo, patro, por que pensava que as regras dela no vinham? quando  que pararam, 
patro? assim saberemos certinho. Sente o lcool, sua mitigada efervescncia que afrouxa as pernas e o remorso, e como afasta as aflies, e tu, nunca fiz a conta. 
Que importncia tinha, que te importa que nasa amanh ou dentro de oito meses, a Tonita engordar, e depois isso a far contente. Ajoelha-te junto  sua cama, tu, 
no era nada, festejemos, tu o mimars, mudars fraldas, e se for mulherzinha que se parea com ela. E que elas vo  loja de Dom Eusbio, amanh mesmo, que comprem 
tudo o que for preciso e certamente os empregados vo goz-las, quem vai parir? e de quem? e se for machinho que se chame Anselmo. Vai  Gallinacera, procura os 
carpinteiros, que tragam tbuas, pregos e martelos, que construam um quartinho, inventa-lhes qualquer histria. Tonita, Tonita, tens desejos, vmitos, mau humor, 
s como as outras, podes toc-lo? J se mexe? E uma ltima vez pergunta-te se foi melhor ou pior, se a vida deve ser assim, e o que teria acontecido se ela no, 
se tu e ela, se foi um sonho ou se as coisas so sempre diferentes dos sonhos, e ainda um esforo final, e pergunta-te se alguma vez te resignaste, e se  porque 
ela morreu ou porque s velho que ests to conformado com a idia de tu mesmo morreres.
- Voc   vai   esper-lo,   Selvtica?   -   perguntou   a Chunga. - Talvez esteja com outra mulher.
- Quem ? - perguntou o harpista, seus olhos brancos voltados para a escada. - Sandra?
- No, maestro - disse o Bolas. - Aquela que comeou anteontem.
- Ficou de me buscar, senhora, mas talvez tenha se esquecido - disse a Selvtica. - Irei assim mesmo.
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- Primeiro tome o caf, moa - disse o harpista. Ande, Chunguita, convide-a.
- Sim, claro, traga uma xcara - disse a Chunga.
- A leiteira tem leite quente.
Os msicos tomavam caf numa mesa prxima ao balco,  luz da lmpada violeta, a nica que permanecia acesa. A Selvtica sentou-se entre o Bolas e o Joven Alejandro: 
at agora quase no tinham ouvido sua voz, que caladinha que era; todas as mulheres eram assim em sua terra? Pelas janelas via-se a favela, s escuras, e no alto 
trs estrelas dbeis, as Trs-Marias? No, senhora, falam muito, pareciam papagaios. O harpista mordiscava uma fatia de po, papagaios? e ela, sim, um pssaro que 
havia em sua terra, e ele parou de mastigar, como, moa? no nascera em Piura? No, senhor, era de muito longe, da selva. No sabia onde nascera, mas vivera sempre 
num lugar que se chama Santa Maria de Nieva. Pequena, senhor, sem carros nem edifcios, nem cinemas como em Piura, conhecia? O harpista continuou mastigando, a selva? 
papagaios? a cabea levantada, surpresa, e logo ps os culos, rapidamente, moa: j esquecera que isso existia.  margem de que rio estava Santa Maria de Nieva? 
perto de Iquitos? longe? a selva, que estranho. Idnticas e contnuas, ao sair da boca do Joven, as rodelas de fumaa cresciam, deformavam-se, desvaneciam-se sobre 
a pista de danas. Ele tambm teria gostado de conhecer a Amaznia, escutar a msica dos selvagens. No se parecia em nada com a piurana, no  verdade? Em nada, 
senhor, os de l cantavam pouco, e seus cantos no eram alegres como a marinera ou a valsa, eram mais tristes, e to estranhos. Mas o Joven gostava de msica triste. 
E como eram as letras de suas canes? Muito poticas? Porque ela devia entender o idioma deles, no? No, ela no falava o idioma deles, e baixou os olhos, dos 
selvagens, gaguejou, uma ou outra palavrinha apenas, de tanto ouvi-los, sabe? Mas que no pensasse, l havia brancos tambm, muitos, e quase no se vem selvagens, 
porque ficam na mata.
- E como voc foi cair nas mos desse? - perguntou a Chunga. - Que foi que viu no pobre-diabo do Josefino ?
- Isso no interessa, Chunga - disse o Joven. So coisas do amor, e o amor no entende razes. Nem aceita perguntas, nem d respostas, como dizia o poeta.
- No se assuste - riu a Chunga. - Perguntava por perguntar, de
brincadeira.
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Eu pouco me importo com a vida dos outros, Selvtica.
- Que  que h, maestro? Por que ficou to pensativo? - perguntou o Bolas. - Est esfriando o seu leite.
- O seu tambm, senhorita - disse o Joven. Tome-o logo. Quer mais po?
- At quando voc vai tratar de senhora as mulheres da vida? - perguntou o Bolas. - Que engraadinho que voc , Joven.
- Trato todas as mulheres igual - disse o Joven.
- Mulheres da vida ou freiras, para mim no h diferena, respeito-as do mesmo modo.
- E ento por que voc as insulta tanto em' suas canes? - perguntou a Chunga. - Voc parece um compositor veado.
- No insulto, canto verdades - disse o Joven. E sorriu levemente, lanando uma ltima rodela de fumaa, branca e perfeita.
A Selvtica ps-se em p, senhora, tinha bastante sono, j ia embora, e muito obrigada pelo caf, mas o harpista agarrou-a pelo brao, moa, sacudiu-a, que esperasse. 
Ia  casa do invencvel, ali, pela Plaza Merino? Eles a levariam, e que o Bolas fosse buscar um txi, ele tambm estava com sono. O Bolas levantou-se, saiu  rua, 
e um resto de ar fresco veio at a mesa ao se fechar a porta: a favela continuava s escuras. Viam como era caprichoso o cu de Piura? Ontem, a estas horas, o sol 
estava alto e abrasador, no caa areia e as choas pareciam lavadas. E hoje, a noite preguiosa no ia embora, como se fosse ficar ali para sempre, e o Joven apontou 
com a mo o quadradinho do cu recortado na janela: ele, por seu gosto, feliz, mas muitos no gostavam. A Chunga bateu na sua testa: as coisas que o preocupavam, 
que cara doido. Eram seis? A Selvtica cruzou as pernas e apoiou os cotovelos na mesa, na selva amanhecia cedinho, a estas horas todo mundo estava acordado, e o 
harpista, sim, sim, o cu ficava vermelho, verde, azul, de todas as cores, e a Chunga, como? e o Joven, como, maestro, conhecia a selva? No, coisas que imaginava, 
e se sobrava leite na leiteira tomaria com prazer. A Selvtica serviu-o e ps acar, a Chunga olhava o harpista com desconfiana e agora sua expresso era carrancuda. 
O Joven acendeu outro cigarro e, de novo, transparentes, efmeras, flutuantes, umas rodelas cinzentas saam de sua boca em direo ao quadradinho negro da janela, 
alcanavam-se a meio caminho,
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e a ele acontecia o contrrio que a outras pessoas com aquela histria da luz, misturavam-se e eram como nuvenzinhas, uns ficavam contentes e otimistas com o sol 
e
a noite os entristecia, e, por fim, adelgaavam-se tanto que se tornavam invisveis, mas ele, em contrapartida, de dia se sentia amargo e s ao anoitecer se levantava 
o seu esprito.  que eles eram noctvagos, Joven, como as raposas e as corujas: a Chunguita, o Bolas, ele e agora ela tambm, moa, e ouviram bater  porta. Na 
entrada, o Bolas segurava Josefino pela cintura, que vissem quem encontrara, a Selvtica levantou-se, falando sozinho, na estrada.
- Que boa vida voc leva, Josefino - disse a Chunga. - Est caindo de bbado.
- bom dia, rapaz - disse o harpista. - Pensvamos que no viria mais busc-la. Ns amos lev-la conosco.
- No adianta falar, maestro - disse o Joven. Est nas ltimas.
A Selvtica e o Bolas trouxeram-no  mesa, e Josefino, no estava nas ltimas, que sacanagem, o ltimo gole quem pagava era ele, que ningum sasse, e que a Chunguita 
trouxesse uma cervejinha. O harpista se punha de p, rapaz, agradecia a sua inteno, mas era tarde e o txi estava esperando. Josefino fazia caretas, eufrico, 
iam se enferrujar todos, grito, tomando leite, alimento de crianas, e a Chunga, sim, est bem, at logo, que o levassem. Saram, e em direo ao Quartel Grau j 
apontava uma estria azul horizontal e, na favela, sonolentas silhuetas movimentavam-se atrs da cana-brava, ouvia-se o crepitar de um braseiro, e o ar conduzia cheiros 
ranosos. Atravessaram o areal, o harpista levado nos braos pelo Bolas e o Joven, Josefino apoiado na Selvtica e, na estrada, entraram todos num txi, os msicos 
no banco de trs, Josefino ria, a Selvtica estava enciumada, velho, dizia por que voc bebe tanto, e onde voc esteve, e com quem? queria faz-lo confessar, harpista.
- Bem feito, moa - disse o harpista. - Os mangaches so o pior que h, nunca se fie neles.
- Que ? - disse Josefino. - Quer se fazer de esperto? Que ? No toque nela, companheiro, pode correr sangue, companheiro, que ?
- Eu no me meto com ningum - disse o chofer.
- No tenho culpa se o carro  estreito. Por acaso toquei na senhorita? Eu fao meu trabalho, no procuro problemas.
Josefino riu com a boca aberta, no entendia as brincadeiras, companheiro, s gargalhadas, que tocasse nela se
desejasse,
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tinha o seu consentimento, e o chofer riu tambm, senhor: tinha acreditado de verdade. Josefino virou-se para os msicos, era o aniversrio do Mono,
que viessem com eles, comemorariam juntos, os Len gostavam tanto dele, velho. Mas o maestro estava cansado, tinha de descansar, Josefino, e o Bolas deu um tapinha
nele, Josefino lamentava, lamentava e bocejou e fechou os olhos. O txi passou na frente da catedral e os lampies da Plaza de Armas j estavam apagados. As silhuetas
terrosas dos tamarindeiros cercavam austeramente o coreto circular, de teto curvo, como o de um guarda-chuva, e a Selvtica, que no fosse assim mau, tanto que lhe
tinha pedido. Verdes, grandes, assustados, seus olhos buscavam os de Josefino,  ele estendeu zombeteiramente a mo, era mau, comia-os crus e de uma abocanhada.
Teve um acesso de riso, o chofer olhou-o de vis: baixava pela Calle Lima, entre La Industria e as grades da prefeitura. Ela no queria, mas o Mono fez ontem cem
anos, e a estava esperando, e os Len eram seus irmos, e ele fazia a vontade dela em tudo.
- No incomode a moa, Josefino - disse o harpista. - Deve estar cansada, deixe-a quieta.
- No quer ir para minha casa, harpista - disse Josefino. - No quer ver os invencveis. Diz que tem vergonha, imagine. Pare, companheiro, ficamos aqui.
O txi freou, a Calle Tacna e a Plaza Merino estavam s escuras, mas a Avenida Snchez Cerro brilhava com os faris de uma caravana de caminhes que ia em direo
ao Viejo Puente. Josefino desceu de um salto, a Selvtica no se mexeu, comearam a se puxar, e o harpista, no briguem, rapazes, faam as pazes, e Josefino, que
viessem todos, e o chofer tambm, o Mono estava velhssimo, fazia mil anos. Mas o Bolas deu uma ordem ao chofer e ele partiu. Agora, tambm, a avenida estava no
escuro e os caminhes eram umas piscadelas vermelhas e rugidoras afastando-se em direo ao rio. Josefino comeou a assoviar entre dentes, pegou a Selvtica pelos
ombros e ela agora no oferecia qualquer resistncia, caminhava a seu lado muito tranqila. Josefino abriu a porta, fechou-a atrs deles e, dobrado em uma poltrona,
a cabea sob um abajur, estava o Mono, roncando. Um cheiro picante errava pelo quarto, sobre garrafas vazias, taas, guimbas e restos de comida. Estavam entregues,
eram esses os mangaches? Josefino dava pulos, os invencveis mangaches? e uma voz incoerente saiu do quarto vizinho: Jos se deitara em sua cama, matava-o. O Mono
levantou-se sacudindo a cabea.
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Quem, merda, se entregara, e sorriu, e brilharam seus olhos, mas, meu Deus, e aflautou a voz, quem estava aqui, e levantou-se, mas h quanto
tempo, e caminhou tropeando, mas que prazer v-la, primnha, afastando as cadeiras com as mos, as garrafas do cho com os ps, com a vontade que tinha de v-la 
de novo, e Josefino, cumpro ou no cumpro? sua palavra valia ou no valia tanto quanto a de um mangache? Os braos abertos, despenteado, um largo sorriso na boca, 
o Mono avanava sinuosamente, tanto tempo e, alm disso, que bonitona estava, e por que fugia, priminha, tinha que felicit-lo, no sabia que era seu aniversrio?
-  verdade, faz um milho de anos - disse Josefino. - Chega de manha, Selvtica, d um abrao nele.
Deixou-se cair numa poltrona, agarrou uma garrafa e a levou  boca, e bebeu, e a bofetada ressoou como um pedregulho na gua, priminha m, Josefino riu, o Mono se 
deixou esbofetear outra vez, priminha m, e agora ela ia de um lado para outro, quebravam taas, o Mono atrs dela, escorregando e rindo, e no quarto vizinho, eram 
os invencveis, no sabiam trabalhar, s mamar, e a voz de Jos se perdia, e Josefino cantarolava tambm, enroscado sob o abajur, a garrafa escapava de sua mo devagarznho. 
Agora, a Selvtica e o Mono estavam parados, num canto, e ela seguia esbofeteando-o, priminha m, priminha m, doa de verdade, por que batia nele? e ria, era melhor 
que o beijasse, e ela tambm ria das palhaadas do Mono, e at o invisvel Jos ria, priminha bonita.
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EPLOGO





O governador d trs suaves toques com os ns dos dedos, a porta da residncia se abre: o rosto vermelho de Madre Griselda teima em sorrir para Jlio Retegui,
mas seus olhos desviam-se cheios de susto em direo  Plaza de Santa Maria de Nieva, e sua boca treme. O governador entra, a menina segue-o docilmente. Caminham
por um corredor sombreado at o gabinete da superiora, e o vozerio do povoado  agora apagado e distante, como o bulcio dos domingos, quando as pupilas vo ao rio.
No gabinete, o governador se deixa cair em uma das cadeiras de lona. Suspira com alvio, fecha os olhos. A menina permanece na porta, a cabea baixa, mas, um pouco
depois, ao entrar a superiora, corre para Jlio Retegui, madre, que se levantou: bom dia. A superiora responde com um sorriso glacial, indica-lhe com a mo que
volte a sentar, e ela fica de p, ao lado da escrivaninha. Tivera pena de v-la feito uma selvagenzinha em Urakusa, madre, com os olhos inteligentes que tinha,
Jlio Retegui pensava que na misso poderiam educ-la, fizera bem? Muito bem, Dom Jlio, e a superiora fala como sorri, fria e distante, sem olhar a menina: para
isso elas estavam aqui. No entendia nada de espanhol, madre, mas aprenderia logo, era muito esperta e no dera nenhum trabalho em toda a viagem. A superiora escuta-o
com ateno, to imvel como o crucifixo de madeira cravado na parede, e, quando Jlio Retegui se cala, ela no concorda, nem pergunta, espera, com as mos enlaadas
sobre o hbito e a boca levemente franzida, madre: ento ele a deixava. Jlio Retegui fica de p, precisava ir agora, e sorri para a superiora. Fora muito difcil
tudo isso, muito duro, tiveram chuvas e problemas de toda ordem,
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e ainda no podia ir dormir como gostaria, os amigos prepararam um almoo e, se no fosse, se ofenderiam, o pessoal era to sensvel. A superiora
estende a mo e, nesse instante, o rudo aumenta de volume, ressoa muito prximo por uns segundos, como se exclamaes e gritos no subissem da praa mas estalassem 
na horta, na capela. Logo diminui, e continua como antes, moderado, difuso, inofensivo, e a superiora pisca uma vez, pra antes de chegar  porta, volta-se para
o governador, Dom Jlio, sem sorrir, plida, os lbios midos: o senhor levaria em conta o que fazia por esta menina, a voz aflita, ela s queria lembrar-lhe que
um cristo deve saber perdoar. Jlio Retegui concorda, baixa um pouco a cabea, cruza os braos, sua posio , ao mesmo tempo, grave, mansa e solene, Dom Jlio:
que o fizesse por Deus. A superiora fala agora com veemncia, e tambm por sua famlia, e suas faces se afoguearam, Dom Jlio, por sua esposa, que era to boa e
to piedosa. O governador concorda de novo, no era por acaso um pobre homem, um infeliz? o rosto cada vez mais preocupado, por acaso fora
educado? sua mo esquerda
acariciava reflexivamente a face, sabia o que fazia? e brotaram umas rugas em sua testa. A menina olha-as de vis, entre os cabelos brilham seus olhos, assustadios, 
verdes e selvagens: ele sentia mais que ningum, madre. O governador fala, sem levantar a voz, era algo que contrariava sua natureza e suas idias, com certa tristeza, 
mas no se tratava dele, que j estava saindo de Santa Maria de Nieva, mas daqueles que ficavam, madre, de Benzas, de Escabino, de Aguila, dela, das pupilas e da 
misso: no queria que esta fosse uma terra habitvel, madre? Mas um cristo tem outras armas para corrigir as injustias, Dom Jlio, ela sabia que ele tinha bons 
sentimentos, no podia estar de acordo com aqueles mtodos. Que tratasse de faz-los voltar  razo, aqui todos lhe obedeciam, que no fizessem aquilo com o infeliz. 
Ia decepcion-la, madre, sentia muito, mas ele tambm achava que era a nica maneira. Outras armas? As dos missionrios, madre? H quantos sculos estavam aqui? 
Quanto se progredira com aquelas armas? S tratavam de evitar futuras queixas, madre, aquele criminoso e sua gente espancaram barbaramente um cabo de Borja, assassinaram 
um recruta, lograram Dom Pedro Escabino e, de repente, a superiora, no, nega com raiva, no, no, eleva a voz: a vingana no  humana,  coisa de selvagens, e
isso  o que estavam fazendo eles com o infeliz.
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Por que no julg-lo? Por que no p-lo na cadeia? No via que era horrvel, que no podiam tratar assim um ser humano? No era vingana, nem
sequer um castigo, madre, e Jlio Retegui baixa a voz e acaricia, com a ponta dos dedos, os cabelos sujos da menina: tratavam de prevenir. Ficava triste por ir 
daqui deixando essa m recordao na misso, madre, mas era necessrio, pelo bem de todos. Ele tinha amor por Santa Maria de Nieva, a administrao fizera com que 
se descuidasse de seus assuntos, perdera dinheiro, mas no se arrependia, madre, no era verdade que fizera o povoado progredir? Agora havia autoridades, logo se 
instalaria ali um posto da Guarda Civil, o povo viveria em paz, madre: no podiam perder isso. A misso era a primeira a agradecer pelo que fizera por Santa Maria 
de Nieva, Dom Jlio, mas que cristo podia compreender que matassem um pobre infeliz? Que culpa tinha ele que ningum lhe ensinasse o que era bom e o que era mau? 
No vo mat-lo, madre, nem o poriam na cadeia, no duvidava que ele tambm preferia isso a que o prendessem. No tinham dio dele, madre, s queriam que os aguarunas 
aprendessem isso, o que era bom e o que era mau, e se s entendiam assim, no era culpa deles, madre. Ficam em silncio, por uns segundos, logo o governador d 
a mo  superiora, sai, e a menina o segue, mas, mal d uns passos, a superiora pega-a pelo brao e ela no trata de se livrar, mas baixa a cabea, Dom Jlio, tinha 
nome? porque era preciso batiz-la. A menina, madre? No sabia, de qualquer modo no teria um nome cristo, que elas lhe dessem um. Faz uma reverncia, sai da residncia, 
atravessa a passos largos o ptio da misso e desce rapidamente. Ao chegar  praa, olha para Jum: as mos atadas sobre a cabea, pendurado das capironas como uma 
chumbada, e, entre seus ps suspensos no vazio e as cabeas dos curiosos, h um metro de luz. Benzas, Aguila, Escabino j no esto ali, s o Cabo Roberto Delgado, 
uns soldados, e aguarunas velhos e jovens, reunidos num grupo compacto. O cabo j no vocifera, Jum est calado tambm. Jlio Retegui observa o cais: as lanchas 
balanam vazias, j terminaram de descarregar. O sol  cruel, vertical, de um amarelo quase branco. Retegui d uns passos em direo  sede do governo, mas ao passar 
diante das capironas pra, e volta a olhar. Suas duas mos alongam a pala do capacete e, ainda assim, os raios fortes cravam-se nos seus olhos. S se v sua boca, 
est desmaiado? que parece aberta,
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ele o v? vai gritar piruanos outra vez? vai insultar o cabo de novo? No, no grita nada, talvez nem esteja com a boca aberta. A posio em que est fez sumir
seu estmago e crescer seu corpo, parecia um homem magro e alto, no o pago fortudo e gorducho que . Algo estranho escorre dele, assim como est, quieto e areo, 
convertido pelo sol numa esbelta forma incandescente. Retegui continua andando, entra na sede do governo, a nvoa adensa o ar, tosse, aperta algumas mos, abraa 
e o abraam. Ouvem-se brincadeiras e risos, algum pe em suas mos um copo de cerveja. Bebe-o de um gole e senta-se.  sua volta h dilogos, cristos que suam, 
Dom Jlio, sentiriam falta dele, iam sentir saudades. Ele tambm, muita, mas j era tempo que voltasse a se ocupar de suas coisas, descuidara-se de tudo, das plantaes, 
da serraria, do hotelzinho de Iquitos. Aqui perdera dinheiro, amigos, e tambm envelhecera. No gostava de poltica, seu elemento era o trabalho. Mos solcitas 
enchem seu copo, do tapinhas, recebem seu capacete, Dom Jlio, toda a gente viera cumpriment-lo, at os que viviam do outro lado do pongo. Estava cansado, Arvalo, 
h duas noites no dormia e doam-lhe todos os ossos. Seca a testa, o pescoo, as faces. Aos poucos, Manuel Aguila e Pedro Escabino afastam-se e, entre os dois corpos, 
aparece a redinha metlica da janela,  distncia, as capironas na praa. Os curiosos ainda esto ali, ou o calor j os afugentou? No se v Jum, seu corpo terroso 
dissolveu-se em jorros de luz ou se confunde com a acobreada casca dos troncos, amigos: que no morresse. Para que fosse um bom castigo, o pago tinha que voltar 
a Urakusa e contar aos outros o que lhe acontecera. No morreria, Dom Jlio, at que faria bem a ele tomar um banho de sol: Manuel Aguila? Que no deixasse de pagar 
sua mercadoria, Dom Pedro, para que no dissesse que houve abusos; s tinham posto as coisas no seu lugar. Por certo, Dom Jlio, ele pagaria a diferena queles 
vigaristas, e Escabino, a nica coisa que pedia era poder continuar o comrcio com eles, como antes. Garantia que o tal Dom Fbio Cuesta era homem de confiana, 
Dom Jlio? perguntou Arvalo Benzas. Se no fosse, no teria feito com que o nomeassem. Fazia anos que trabalhava com ele, Arvalo. Um homem algo aptico, mas 
leal e servial como poucos, eles se dariam muito bem com Dom Fbio, assegurava. Tomara que no haja mais problemas, uma coisa horrorosa o tempo que se perdia, 
e Jlio Retegui j estava melhor, amigos: quando entrou sentiu-se
tonto.
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No seria fome, Dom Jlio? Melhor ir almoar logo, o Capito Quiroga os esperava. E, a propsito, que tipo de gente era aquele capito, Dom Jlio? Tinha suas
fraquezas, como qualquer ser humano, Dom Pedro: mas, afinal, gente boa.
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- H mais de um ano que voc no vem - grita Fusha.
- No ouo - diz Aquilino, a mo na orelha, como uma buzina; seus olhos vagam sobre as copas entreveradas das juaras e das capanahuas, ou, furtivos e temerosos, 
perscrutam as cabanas que aparecem atrs de um muro de samambaias, no fundo do caminho. - Que  que voc est dizendo, Fusha?
- Que h mais de um ano - grita Fusha. - H mais de um ano que voc no vem, Aquilino.
Dessa vez o velho concorda, e seus olhos, cobertos de remelas, pousam em Fusha por um instante. Logo voltam a errar pela gua lodosa da margem, as rvores, os meandros 
do caminho, o mato: no fazia tanto, homem, s uns meses. Das cabanas no vem rudo algum, e tudo parece deserto, mas ele no confiava, Fusha, e se aparecessem 
como daquela vez, ululantes, pelados, e impedissem o caminho, e corressem para ele e tivesse que se lanar  gua? Garantido que no viriam, Fusha?
- Um ano e uma semana - diz Fusha. - Conto todos os dias. Na hora em que voc sair, comeo a contar de novo, a primeira coisa que fao, a cada manh, so os risquinhos. 
No comeo no podia, agora manejo o p como se fosse a mo, agarro o palito com os dedos. Quer ver, Aquilino?
O p bom avana, esfrega a areia, escava um montinho de pedras, os dois dedos intactos se separam como a tenaz de um escorpio, fecham-se sobre uma pedrinha, elevam-se, 
o p se mexe veloz, roa a areia, retira-se e fica um risquinho,
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reto e minsculo, que o vento cobre em poucos segundos.
- Para que essas coisas, Fusha? - diz Aquilino.
- Voc viu, velho - diz Fusha. - Assim, todos os dias, risquinhos pequenos, cada vez menores para que caibam na parede que me toca, os deste ano so um monte, so 
por volta de vinte fileiras de risquinhos. E quando voc chega dou minha comida ao enfermeiro, e ele pinta a parede com cal e as apaga, e eu posso marcar de novo 
os dias que faltam. Esta noite eu lhe darei minha comida e amanh ele pintar com cal.
- Sim, sim - a mo do velho pede a Fusha que se acalme -, como voc quiser, faz um ano, est bem, no fique nervoso, no grite. No pude vir antes, j no  fcil 
para mim estar viajando, fico dormindo, os braos no agentam. Voc no v que os anos passam? No quero morrer na gua, o rio  bom para viver, no para morrer, 
Fusha. Por que voc grita assim todo o tempo, sua garganta no di?
Fusha d um pulo, fica na frente de Aquilino, pe seu rosto sob o do velho e este retrocede, fazendo caretas; mas Fusha grunhe e pula at que Aquilino o olha: 
pronto, j tinha visto, homem. O velho tapa o nariz, e Fusha volta a seu lugar. Por isso no entendia o que falava, Fusha; podia comer assim, com a boca vazia? 
Os dentes no faziam falta, no se engasgava? Fusha nega com a cabea vrias vezes.
- A freira molha tudo para mim - grita. - O po, as frutas, tudo na gua, at que amoleam e se desfaam, ento posso engolir. Mas para falar  foda, a voz no sai.
- No se zangue se tapo o nariz - Aquilino oprime as narinas com dois dedos, e sua voz soa fanhosa. - Fico tonto com o cheiro, faz minha cabea dar voltas. A ltima 
vez levei o cheiro comigo, Fusha, me dava vmitos de noite. Se soubesse que lhe custa tanto comer, no teria trazido bolachas para voc. Vo arranhar suas gengivas. 
Na prxima vez, vou trazer umas cervejinhas, umas tnicas. Tomara que me lembre, porque, olhe, minha cabea no est boa, esqueo as coisas, tudo vai embora. J 
estou velho, homem.
- E isso porque agora no h sol - diz Fusha. Quando tem e samos  praia, at as freiras e o doutor tapam os narizes, dizem que fede muito. Eu no sinto nada, 
j me acostumei. Voc sabe o que ?
- No grite tanto - Aquilino olha as nuvens: grossos rolos grisceos e manchinhas brancas salpicadas aqui e ali ocultam o cu, uma luz plmbea desce lentamente sobre
as rvores.
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- Acho que vai chover, mas ainda que chova tenho que ir. No vou dormir aqui, Fusha.
- Voc se lembra daquelas flores que havia na ilha?
- Fusha pula, como um macaquinho pelado e vermelho. Aquelas amarelas, que se abrem com o sol e se fecham ao escurecer, aquelas que os buambisas diziam que so 
espritos. Voc se lembra?
- vou mesmo que chova torrencialmente - diz Aquilino. - No dormirei aqui.
- Assim, igualzinho a essas flores - grita Fusha. Abrem-se com o sol e sai uma baba, isso  que fede, Aquilino. Mas faz bem, j no comicha, a gente se sente melhor. 
Ficamos contentes e no brigamos.
- No grite tanto, Fusha - diz Aquilino. - Olhe como o cu est nublado, e corre tanto vento. A freira disse que isso faz mal, voc tem que voltar  cabana. E eu 
vou embora logo,  melhor.
- Mas ns no sentimos nem com o sol nem quando est nublado - grita Fusha -, nunca sentimos nada. Cheiramos assim todo o tempo e nem parece que fede, mas que 
o cheiro da vida  que  assim. Voc me entende, velho?
Aquilino solta o nariz e respira fundo. Finas rugas dividem seu rosto, franzem-no sob o chapu de palha. O vento agita sua camisa de algodo e, aos poucos, descobre-lhe 
o peito esqulido, as costelas salientes, a pele brilhante. O velho baixa os olhos, olha de vis: continua ali, em repouso, como um grande caranguejo.
-  parecido com o qu? - grita Fusha. - com peixe podre?
- Eu  lhe   suplico,  no  continue  gritando  -  diz Aquilino. - Agora tenho que ir. Quando voltar, vou trazer coisas moles, para que voc engula sem mastigar. 
vou procurar nas lojas.
- Sente-se, sente-se - grita Fusha. - Por que est de p, Aquilino? Sente-se, sente-se.
Pula de ccoras,  volta de Aquilino, e procura seus olhos, mas o velho teima em olhar as nuvens, as palmeiras, as sonolentas guas do rio, as ondinhas sujas. Rio 
abaixo, uma ilhota de terra ocre fende orgulhosamente a corrente. Fusha est agora junto s pernas de Aquilino. O velho se senta.
- Um pouquinho mais, Aquilino - grita Fusha. No ainda, velho, mal acaba de chegar.
- Agora me lembro, tenho de contar uma coisa a voc
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- o velho bate na testa e, por um instante, olha: o p bom est escavando a areia. - Em abril, estive em Santa Maria de Nieva. Viu como est a minha cabea? J
ia embora sem contar. A polcia martima me contratou, estavam com um prtico doente, e me levaram num desses barcos que voam sobre a gua. Estivemos l dois dias.
- Voc tinha medo de que eu o agarrasse - grita Fusha. - Que me abraasse nas suas pernas, por isso voc se sentou, Aquilino. Seno, voc ia sair devagarzinho.
- Vamos, no grite mais, me deixe contar - diz Aquilino. - A Lalita engordou muito, no princpio no nos reconhecemos. Ela pensava que eu tinha morrido. Chorou de 
emoo.
- Antes voc ficava todo o dia - grita Fusha. - Ia dormir na lancha e, no dia seguinte, voltava e conversava comigo, Aquilino. Voc ficava dois ou trs dias. Agora 
mal chega e j quer ir.
- Me hospedaram na casa deles, Fusha - diz Aquilino. - Tm um monto de filhos, no me lembro quantos, muitos. E o Aquilino est um homem. Era lancheiro e agora 
foi trabalhar em Iquitos. J no  como era quando pequeno, no tem os olhos to rasgados. Quase todos so homens e se voc visse Lalita no pensaria que  ela, 
to gorda. Voc se lembra como eu a fiz parir com estas mos? O Aquilino  um homo, e simptico. E os filhos de Nieves tambm, e tambm os do policial. No h 
quem os distinga, todos se parecem com Lalita.
- Todos tinham inveja de mim - grita Fusha. Porque voc vinha me ver, e ningum vem v-los. E depois me gozavam porque voc demorava tanto a voltar. Ele j vem, 
 porque faz viagens, anda comerciando pelos rios, mas vir, amanh, ou depois de amanh, mas vir de qualquer jeito. Agora  como se voc no viesse nunca, Aquilino.
- Lalita me contou sua vida - diz Aquilino. - Ela no queria mais filhos, mas o guarda queria e a embarrigou um monte de vezes, e em Santa Maria de Nieva chamam 
os meninos de Pesados. Mas no s aos filhos do guarda, tambm aos do Nieves e ao seu.
- Lalita? - grita Fusha. - Lalita, velho?
Brota uma agitao roscea, gemidos e exalaes ftidas, e o velho fecha o nariz, atira a cabea para trs. Comeou a chover e o vento assobia entre as rvores, 
a mata se agita no outro lado, h um crepitar sussurrante de folhas. A chuva  ainda fina, invisvel. Aquilino fica de p:
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- Est vendo, comeou a chover, tenho que ir - fanhoso. - Terei que dormir na lancha, me molhar toda a noite. No posso ir de sulcada com essa chuva, se o motor
falhar no terei foras, e a corrente me arrastar, j me aconteceu isso. Por que no grita mais, Fusha?
Ele est mais encolhido que antes, curvo, ovide, e no responde. Seu p bom brinca com os pedregulhos espalhados na areia: derruba e empilha, derruba e empilha, 
alinha-os, e em todos esses movimentos, minuciosos e lentos, h uma espcie de melancolia. Aquilino d dois passos, agora no tira o olhar daquelas costas afogueadas, 
daqueles ossos que a gua est molhando. Recua um pouco mais, e agora no distingue as chagas e a pele, tudo  uma superfcie entre azul-violcea e roxa, furta-cor. 
Destapa o nariz e respira fundo.
- No fique triste, Fusha - murmura. - Virei no ano que vem, ainda que esteja muito cansado, palavra. vou trazer para voc coisas moles. Voc se zangou porque falei 
da Lalita? Voc se lembrou de outros tempos? Assim  a vida, homem, pelo menos, para voc foi melhor que para outros, veja s o Nieves.
Murmura e vai recuando, j est no caminho. H poas nos desnveis, e um cheiro vegetal muito forte invade o ar, um cheiro de seiva, resinas e plantas que germinam. 
Uma bruma morna, rarefeita ainda, eleva-se em camadas ondulantes. O velho continua recuando, o montinho de carne viva e sangrenta est imvel l longe, desaparece 
atrs das samambaias. Aquilino d meia-volta, corre para as cabanas, Fusha, viria no prximo ano, sussurrando, que no ficasse triste. Agora chove a cntaros.
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II.



- Depressa, padre - disse a Selvtica. - Tenho um
txi esperando a.
- Um momento - pigarreou o Padre Garcia, esfregando os olhos. - Tenho de me vestir.
Meteu-se na casa, e a Selvtica fez sinais para que o chofer esperasse. Punhados de insetos revoluteavam crepitando em volta dos lampies da deserta Plaza Merino, 
o cu estava alto e estrelado, e pela Avenida Snchez Cerro apareciam, rugindo, os primeiros caminhes e nibus noturnos. A mulher permaneceu na calada at que 
a porta voltou a se abrir e o Padre Garcia saiu, o rosto escondido por um cachecol cinza, um chapu de pano enterrado at as sobrancelhas. Subiram no txi, que partiu.
- Ande rpido, mestre - disse a Selvtica. - A toda
a velocidade, mestre.
-  longe? - perguntou o Padre Garcia, e sua voz se transformou num largo bocejo.
- Um pouquinho, padre - disse a Selvtica. - Perto
do Clube Grau.
- Ento por que voc veio at aqui? - grunhiu o Padre Garcia. - Para que existe a parquia de Buenos Aires? Por que voc tinha que me acordar e no ao Padre
Rubio?
O Trs Estrellas estava fechado, mas havia luz no interior, padre: a senhora queria que fosse ele. Trs homens abraados cantarolavam na esquina, e outro, um pouco 
mais adiante, mijava na parede. Um caminho sobrecarregado de caixotes avanava impavidamente pelo meio da rua, o chofer do txi pedia passagem em vo, a buzinadas,
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apagando e acendendo os faris e, logo, o chapu de pano adiantou-se at quase a boca da mulher: que senhora queria que ele fosse? O caminho se afastou, finalmente, 
e o txi
pde passar, padre, a Senhora Chunga, um sobressalto brusco, o qu? quem estava morrendo? a batina comeou a se agitar e uma espcie de arranco estrangulava a voz 
do 
Padre Garcia, sob o cachecol: quem estava indo confessar?
- O Senhor Dom Anselmo, padre - sussurrou a Selvtica.
- O harpista est morrendo? - exclamou o chofer.
- Que houve? Era ele?
O carro, freado bruscamente, rechinou sobre a Avenida Grau, em seguida partiu com mais impulso e, a luz alta ligada, continuou aumentando a velocidade, nos becos 
no a reduzia, limitava-se a anunciar sua passagem veloz com fortes buzinadas. Enquanto isso, o chapu de pano oscilava aturdido diante do rosto da Selvtica e 
a garganta do Padre Garcia parecia empenhada em uma rouca batalha contra alguma coisa que a obstrua e asfixiava.
- Estava tocando muito alegre e, de repente, caiu no cho - suspirou a Selvtica. - O pobre ficou todo roxo, padre.
Uma mo saiu apressada da sombra, sacudiu a Selvtica pelo ombro e ela gemeu, estavam indo ao prostbulo? assustada, e se resguardou contra a porta do txi: no, 
padre, no,  Casa Verde.  l que ele estava morrendo, por que a empurrava assim, que lhe fizera, e o Padre Garcia soltou-a, e com puxes arrancou o cachecol do 
pescoo. Respirando penosamente, aproximou a boca da janela e ficou assim por um momento, inclinado, os olhos fechados, aspirando com angstia o ar leve da noite. 
Em seguida deixou-se cair de costas contra o banco, e voltou a pr o cachecol.
- A Casa Verde  o prostbulo, infeliz - roncou. J sei quem  voc, j sei por que est meio nua e to pintada.
- No chamaram um mdico? - perguntou o chofer.
- Que notcia to triste, senhorita. Perdo se me meto, mas  que conheo bem o harpista. Quem no o conhece, e todos ns gostamos muito dele.
- Chamaram, sim - disse a Selvtica. - O Doutor Zevallos j est l. Mas ele disse que seria um milagre ele no morrer. Todos esto chorando, padre.
O Padre Garcia encolhera-se no banco e no falava, mas, intermitente, dbil, longo, o rudo escapava do cachecol.
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O txi parou diante da grade do Clube Grau; o motor continuou rugindo e lanando fumaa.
- Eu iria at a favela - disse o chofer -, mas a areia est muito solta. Se for, atolo. Sinto muito, de verdade.
Enquanto a Selvtica desatava um leno, tirava o dinheiro e pagava, o Padre Garcia desceu e fechou a porta com raiva. Comeou a caminhar pelo areal, a passos largos. 
Escorregava de quando em quando, afundava e subia na superfcie desigual e, na noite clara, avanava por entre as dunas amarelentas, encurvado e escuro como um grande 
urubu. A Selvtica o alcanou a meio caminho.
- O senhor o conhecia, padre? - sussurrou. - Pobrezinho, no  verdade? Se visse como tocava, que bonito. E olhe que mal enxergava.
O Padre Garcia no respondeu. Caminhava encolhido, com as pernas muito abertas, a um ritmo muito rpido, a respirao cada vez mais ansiosa.
- Que estranho, padre - disse a Selvtica. - No se ouve nenhum rudo, e todas as noites a msica da orquestra chegava at aqui. L adiante, tambm, da estrada, 
a gente ouvia bem claro.
- Cale-se, infeliz - rugiu o Padre Garcia, sem olhla. - Feche essa boca!
- No se zangue, padre - disse a Selvtica. - Nem sequer sei o que falo.  que estou com pena, o senhor no sabe como era Dom Anselmo.
- Sei de sobra, infeliz - murmurou o Padre Garcia.
- Eu o conheo desde muito antes de voc nascer.
Disse algo mais, incompreensvel, e de novo voltou o estranho som rouco e anelante. Nas portas das choas da favela havia gente, e,  sua passagem, eles ouviam murmrios, 
boas-noites, algumas mulheres se persignavam. A Selvtica bateu na porta, e, no mesmo instante, uma voz de mulher: estava fechado, no se atendia; senhora, era ela, 
aqui estava o padre. Houve um silncio, passos precipitados, a porta se abriu, e uma luz enfumaada iluminou o rosto magro e decrpito do Padre Garcia, o cachecol 
que danava em seu pescoo. Entrou, seguido pela Selvtica, no respondeu ao cumprimento que duas vozes masculinas lhe dirigiram do balco, talvez nem tivesse escutado 
o respeitoso murmrio que se elevara de duas mesas rodeadas de figuras imprecisas. Permaneceu azedo e imvel, em frente  pista de danas vazia, e quando surgiu 
diante dele uma silhueta sem rosto, onde est? grunhiu rapidamente, e a Chunga,
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que estendera a mo para ele, desviou-a e apontou a escada: onde, que o levassem. A Selvtica pegou-o pelo brao, padre, ela mostraria. Atravessaram o salo, subiram
ao primeiro andar e, no corredor, o Padre Garcia livrou-se com um safano da mo da Selvtica. Ela bateu muito suavemente em uma das quatro portas gmeas e abriu-a. 
Ficou de lado e, quando o Padre Garcia entrou, fechou-a e voltou ao salo.
- Fazia frio l fora? - perguntou o Bolas. - Voc est tremendo.
- Tome um pouco - disse o Joven Alejandro. Voc se sentir melhor.
A Selvtica pegou o copo, bebeu e secou os lbios com a mo.
- O padre ficou furioso de repente - disse. - No txi, me agarrou pelo ombro, me sacudiu. Pensei que ia bater em mim.
- Tem um mau humor danado - disse o Bolas. Eu no pensava que viesse.
- O Doutor Zevallos continua l, senhora? - perguntou a Selvtica.
- Desceu faz pouco, para tomar um caf - respondeu a Chunga. - Disse que continuava na mesma.
- vou tomar outro gole, Chunguita,  para os nervos
- disse o Bolas. - No tenho dinheiro, posso pendurar?
A Chunga concordou e encheu os dois copos. Em seguida, com a garrafa na mo, foi at as mesas da beira da pista de danas, onde as mulheres cochichavam discretamente: 
queriam tomar algo? No queriam, senhora, obrigado, e tambm no valia a pena ficarem, podiam ir. Um novo cochicho retrucou, mais prolongado, uma cadeira rangeu, 
senhora, se no se importava, preferiam ficar, podiam? e a Chunga, claro, como quisessem, e voltou ao balco. As sombras continuaram nos seus dilogos abafados, 
e os msicos bebiam em silncio, olhando, de quando em quando, a escada.
- Por que no tocam alguma coisa? - perguntou a Chunga, a meia voz, com um gesto vago. - Se ele pode ouvir, talvez goste; saber que o esto acompanhando.
O Bolas e o Joven achavam que no, a Selvtica, sim, sim, a senhora tinha razo, ele gostaria, e as sombras deixaram de murmurar: est bem, tocariam para ele. Foram 
at o lugar da orquestra, devagar, o Bolas instalou-se no banquinho, contra a parede, e o Joven levantou o violo
do cho.
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Comearam com um triste, e s um bom tempo depois  que se encorajaram a cantar, entre dentes, sem convico, mas, pouco a pouco, foram subindo de
tom e acabaram por recuperar a desenvoltura e a vivacidade habituais. Quando interpretavam alguma composio do Joven, notava-se que ficavam mais comovidos, diziam 
os
versos com voz arrastada e sentimental, e o Bolas, s vezes, desafinava e se calava. A Chunga serviu mais bebida. Ela tambm parecia triste e no andava com o 
aprumo ligeiramente arrogante de sempre, mas nas pontas dos ps, sem mexer os braos nem olhar para ningum, como que atemorizada ou confusa, senhora: a vinha o 
Doutor Zevallos. O Bolas e o Joven pararam de tocar, as mulheres se levantaram, a Chunga e a Selvtica correram tambm  escada.
- Dei uma injeo nele - o Doutor Zevallos enxugava a testa com o leno. - Mas no devem ter muitas esperanas. O Padre Garcia est com ele.  do que precisa agora, 
que rezem por sua alma.
Passou a lngua pelos lbios, Chunga, tinha uma sede horrvel; fazia calor l em cima. A Chunga foi ao bar e voltou com um copo de cerveja. O Doutor Zevallos estava 
sentado a uma mesa com o Joven, o Bolas e a Selvtica. As mulheres tinham voltado a seus lugares e segredavam de novo, monotonamente.
- Assim  a vida - o Doutor Zevallos bebeu, suspirou, fechou e abriu os olhos. - Isso vai acontecer a todos um dia. E a mim, muito antes do que a vocs.
- Est sofrendo muito, doutor? - perguntou o Bolas, com voz de bbado; mas seu olhar e seus gestos eram serenos.
- No, por isso  que lhe dei a injeo - disse o doutor. - Perdeu os sentidos. Recobra-os aos poucos, por uns segundos. Mas no sente nenhuma dor.
- Estavam tocando para ele - sussurrou a Chunga, com voz tambm mudada e olhos vacilantes. - Achamos que gostaria.
- L do quarto no se ouve - disse o doutor. Mas eu tenho ouvido ruim, talvez Dom Anselmo possa ouvir. Gostaria de saber exatamente que idade tem. Mais de oitenta, 
certamente.  mais velho que eu, que j ando pelos setenta. Sirva outro copinho, Chunga.
Logo se calaram e assim estiveram por longo tempo. A Chunga se levantava de quando em quando, ia ao balco e trazia cervejas e copinhos de pisco.

339
O cochichar das mulheres continuava sempre ali, s vezes spero e nervoso, s vezes dissimulado e quase inaudvel. E de repente todos se levantaram outra vez e correram 
at a escada,
pois o Padre Garcia descia, sem chapu e sem cachecol, penosamente, fazendo sinais com a mo para o Doutor Zevallos. O mdico subiu os degraus agarrado ao corrimo, 
perdeu-se no corredor, padre, que acontecera, muitas perguntas brotaram de uma vez, e como se o rudo os tivesse assustado, todos se calaram ao mesmo tempo: o Padre 
Garcia murmurava algo, engasgado. Seus dentes batiam muito forte e seu olhar errante no se detinha em nenhum rosto. O Joven e o Bolas estavam abraados, e um deles 
soluava. Pouco depois as mulheres comearam a esfregar os olhos, a gemer, a se lamentar em voz alta, a se jogar umas nos braos das outras, e s a Chunga e a Selvtica 
ampararam o Padre Garcia, que tremia e virava os olhos de um modo insistente e atormentado. As duas arrastaram-no at uma cadeira, e ele, inerte, se deixava acomodar, 
esfregar a testa, e bebia, sem se rebelar, o copo de pisco que a Chunga esvaziava em sua boca. O corpo tremia sempre, mas seus olhos tinham serenado e estavam parados 
no vazio, rodeados de grandes olheiras escuras. Pouco depois, o Doutor Zevallos apareceu na escada. Desceu sem pressa, cabisbaixo, coando lentamente o pescoo.
- Morreu em paz com Deus - disse. - Isso  o que importa agora.
As sombras das mesas do fundo tambm se haviam acalmado e o cochichar renascia, tmido ainda, dodo. Os dois msicos, abraados, choravam, o Bolas muito alto, o 
Joven sem rudo e estremecendo os ombros. O Doutor Zevallos sentou, uma expresso melanclica atravessou seu rosto gordo, padre: chegara a falar com ele? O Padre 
Garcia 
negou com a cabea. A Selvtica acariciava sua testa, e ele, muito encolhido no assento, fazia esforo para falar, no o reconhecera, e um assobio rouco nascia 
de sua boca e, uma vez mais, seu olhar recomeou a extraviada, incessante explorao dos arredores: e dizia sem parar, La Estrella del Norte, era s o que se entendia. 
Sua voz, afogada pelo choro do Bolas, mal se ouvia.
- Foi um hotel que havia aqui, quando eu era jovem
- disse o Doutor Zevallos, com certa saudade, para a Chunga, mas ela no   escutava. - Na Plaza de Armas, onde est, agora, o Hotel de Turistas.
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III.



- Voc passa o tempo todo dormindo, mal aproveita a viagem - diz Lalita. - E agora vai perder a chegada.
Ela est debruada na borda e Huambachano, no cho, as costas contra uns cabos enrolados, abre os olhos esbugalhados, antes fosse dormindo, sua voz soa dbil e
doente,
fechava os olhos para no vomitar mais, Lalita: j botara para fora tudo o que tinha dentro, mas as nsias no paravam. Era culpa dela, ele queria ficar em Santa
Maria de Nieva. Meio corpo para fora da amurada, Lalita devora com os olhos o horizonte de telhados vermelhos, as fachadas brancas, as altas palmeiras que arrepiam 
a cidade, e as silhuetas, j bem definidas, movimentando-se pelo molhe. O pessoal da coberta trata de ganhar um lugar junto  amurada.
- Pesado, no seja fraco, voc vai perder o melhor
- diz Lalita. - Olhe minha terra, Pesado, que grande, que linda. Me ajude a encontrar o Aquilino.
O rosto abatido de Huambachano esboa um simulacro de sorriso, seu corpo rechonchudo se contorce e levanta por fim, trabalhosamente. Uma grande azfama ganha a coberta; 
os passageiros examinam suas maletas, atiram-nas aos ombros e, contagiados pela excitao, os porcos grunhem, as galinhas cacarejam e batem asas frenticas, e os 
cachorros vo e vm, latindo, as orelhas em p, os rabos sacudidos. Uma sirena perfura o ar, a fumaa negra da chamin se espessa, e chovem partculas de carvo 
sobre todos. J entraram no porto, avanam por um arquiplago de lanchas a motor, balsas carregadas de bananas, canoas, Pesado, estava vendo? preste ateno, tinha 
que estar ali, mas o Pesado piorava outra vez: que sorte desgraada.
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Tem um acesso de nsias, mas no vomita, limita-se a cuspir com raiva. Seu rosto gorducho est contrado e violceo, seus olhos ficaram muito vermelhos. Da ponte 
de
comando, um homenzinho grita ordens, gesticulando, e dois marinheiros descalos, o torso nu, encarapitados na proa, jogam os cabos para o molhe.
- Voc estraga tudo, Pesado - diz Lalita, sem deixar de olhar para o porto. - Volto a Iquitos depois de tanto tempo e voc adoece.
No vaivm das guas oleosas, balanam latas, caixas, jornais, lixo. Esto rodeados de lanchas, algumas recm-pintadas e com bandeirinhas nos mastros, de botes, 
balsas, bias e barcaas. No molhe, junto  passarela de tabues, uma pequena turba amorfa de carregadores ruge e grita em direo aos passageiros, dizem seus nomes, 
batem no peito, todos procuram ocupar o primeiro lugar na ponta da passarela. Atrs deles h um alambrado e uns telheiros de madeira sob os quais se apinha a gente 
que espera os viajantes: ali estava, Pesado, o de chapu. Que alto, que bonito, que acenasse para ele, e Huambachano abre os olhos vidrados, que o cumprimentasse, 
Pesado, levanta a mo e a sacode, frouxamente. A embarcao est parada e os dois marinheiros saltam ao molhe, manipulam os cabos, amarram-nos a umas estacas. Agora, 
os carregadores berram, pulam e, com caretas e palhaadas, tratam de chamar a ateno dos passageiros. Um homem de uniforme azul e quepe branco passeia indiferente 
em frente aos tabues. Atrs do alambrado, todos agitam as mos, riem e, em meio ao bulcio, a intervalos regulares, ressoa a estridente sirena: Aquilino! Aquilino! 
As cores voltam ao rosto de Huambachano, e seu sorriso  agora mais natural, menos pattico. Abre caminho entre as mulheres carregadas de embrulhos, arrastando uma 
maleta cheia e uma bolsa.
- Engordou, est vendo? - pergunta Lalita. - E como se vestiu bem para nos receber, Pesado. Fale alguma coisa, no seja mal-agradecido, por acaso voc no entende 
tudo o que ele faz por ns?
- Sim, est gordo e ps camisa branca - diz, mecanicamente, Huambachano. - J era tempo, no fui feito para a gua. Meu corpo no se acostuma, vim sofrendo toda 
a viagem.
O homem de uniforme azul recebe os bilhetes e livra cada passageiro, com um ligeiro empurro, dos simiescos, desesperados carregadores, que se atiram sobre ele,
342
arrebatam seus animais e pacotes, suplicando, increpando-o se resiste em soltar sua bagagem. So s uns dez, mas parece que so cem, pelo rudo que fazem: sujos, 
melenudos,
esquelticos, vestem apenas umas calas cobertas de remendos e, um ou outro, camisetas em tiras. Huambachano afasta-os a empurres, patro, o que quisesse dar, fora, 
e eles voltam  carga, seus merdas, cinco redes, patro, e ele, fora, saiam. Deixa-os para trs e chega  barreira, cambaleante. Aquilino vem ao seu encontro e se 
abraam.
- Voc deixou crescer o bigode - diz Huambachano -, ps brilhantina. Como mudou, Aquilino.
- Aqui no  como l,  preciso estar bem vestido sorri Aquilino. - Que tal a viagem? Estou esperando vocs desde a manh.
- Sua me fez uma boa viagem, sempre contente diz Huambachano. - Mas eu enjoei muito, passei todo o tempo vomitando. H tantos anos sem subir num barco.
- Isso se cura com um trago - diz Aquilino. Que est fazendo minha me, por que ficou ali?
Slida, os compridos cabelos grisalhos soltos nas costas, Lalita est rodeada de carregadores. Inclinou-se at um deles, seus lbios se movem, e observa-o muito 
de perto, com uma curiosidade quase agressiva: aqueles merdas, no viam que estava sem mala? Que queriam? carreg-la? Aquilino ri, puxa um mao de Inca, oferece 
um cigarro a Huambachano e acende-o. Agora Lalita ps a mo no ombro do carregador e fala com animao; ele escuta em atitude reservada, nega com a cabea, e em 
seguida afasta-se e se mistura com os outros, comea a brincar, a gritar, a correr atrs dos viajantes. Lalita vem at o alambrado, muito ligeira, com os braos 
abertos. Enquanto ela e Aquilino se abraam, Huambachano fuma, e seu rosto, entre as espirais de fumaa, aparece recuperado e plcido.
- Voc est um homem, vai se casar, logo me dar netos - Lalita aperta Aquilino, obriga-o a recuar e a se voltar. - E como est elegante, to bonito.
- Sabem onde vo ficar hospedados?  - pergunta Aquilino. - Na casa dos pais da Amlia, eu tinha procurado um hotelzinho, mas eles, no, colocamos uma cama na sala. 
So boas pessoas, ficaro amigos.
- Quando  o casamento?  - pergunta Lalita. Trouxe um vestido novo, Aquilino, para estre-lo no dia. E o Pesado tem que comprar uma gravata, a que tinha era muito 
velha, no deixei que a trouxesse.
343
- No domingo - diz Aquilino. - J est tudo pronto, a igreja paga, e uma festinha na casa dos pais de Amlia. Amanh  a despedida de solteiro. Mas a senhora no
me falou dos irmos. Esto todos bem?
- Bem, mas sonhando em vir a Iquitos - diz Huambachano. - At o menorzinho quer se mandar, como voc.
Saram do Malecn, e Aquilino leva a mala ao ombro e a bolsa debaixo do brao. Huambachano fuma, e Lalita olha com cobia o parque, as casas, os transeuntes, os 
automveis, Pesado, no  uma linda cidade? Como tinha crescido, nada disso existia quando ela era pequena, e Huambachano, sim, a cara aptica:  primeira vista 
parecia linda.
- O senhor nunca esteve aqui quando era guarda civil? - pergunta Aquilino.
- No, s em lugares da costa - diz Huambachano.
- E depois em Santa Maria de Nieva.
- No podemos ir a p, os pais de Amlia moram longe - diz Aquilino. - Vamos tomar um txi.
- Um dia quero ir aonde nasci - diz Lalita. - Minha casa ainda existe, Aquilino? vou chorar quando vir Benn, talvez exista e esteja igualzinha.
- E seu trabalho?  - pergunta Huambachano. Voc ganha bem?
- Por enquanto, pouco - diz Aquilino. - Mas o dono do curtume vai nos aumentar no ano que vem, foi o que nos prometeu. Ele me adiantou o dinheiro para a viagem de 
vocs.
- Que  curtume? - pergunta Lalita. - Voc no trabalhava numa fbrica?
- Onde se curtem os couros de lagarto - diz Aquilino. - Para fazer sapatos, bolsas. Quando entrei no sabia nada, agora eles me pem para ensinar os novos.
Ele e Huambachano chamam aos gritos cada txi que passa, mas nenhum pra.
- J me passou o enjo da gua - diz Huambachano. - Agora estou com enjo de cidade. Tambm me desacostumei disso.
- O problema  que para o senhor no h nada como Santa Maria de Nieva - diz Aquilino. -  s do que gosta no mundo.
-  verdade, no viveria mais na cidade - diz Huambachano. - Prefiro a chacrinha, a vida tranqila. Quando pedi minha baixa na Guarda Civil disse  sua me que morreria 
em Santa Maria de Nieva, e vou cumprir.
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Um velho calhambeque freou diante deles com um estrondo de latas, rechinando como se fosse desarmar-se. O chofer coloca a mala no teto, amarra-a com uma corda, 
e Lalita e Huambachano sentam-se atrs, Aquilino junto ao chofer.
- Procurei o que a senhora me pediu, me - diz Aquilino. - Tive muito trabalho, ningum sabia, me mandavam para toda parte. Mas finalmente descobri.
- O qu? - pergunta Lalita. Olha embriagada para as ruas de Iquitos, um sorriso nos lbios, os olhos comovidos.
- Sobre o Senhor Nieves - diz Aquilino, e Huambachano, com empenho repentino, olha pela janelinha. - Eles o soltaram no ano passado.
- Ficou preso tanto tempo? - perguntou Lalita.
- Deve ter ido para o Brasil - diz Aquilino. - Os que saem da cadeia vo para Manaus. Aqui no conseguem trabalho. L, talvez tenha conseguido, se  que era to 
bom prtico como dizem. S que tanto tempo longe do rio, talvez tenha at esquecido o ofcio.
- No acredito que tenha esquecido - diz Lalita, outra vez interessada no espetculo das ruas estreitas e cheias de gente, de altas caladas e casas com sacadas. 
- Pelo menos, ainda bem que o soltaram.
- Qual  o sobrenome da noiva? - pergunta Huambachano.
- Marn - diz Aquilino. -  uma moreninha. Tambm trabalha no curtume. No receberam a foto que mandei?
- Anos sem pensar nas coisas passadas - diz Lalita, de sbito, voltando-se para Aquilino. - E hoje vejo Iquitos de novo, e voc me fala de Adrin.
- O carro tambm me deixa enjoado - interrompe-a Huambachano. - Falta muito para chegar, Aquilino?
345



IV



J amanhece entre as dunas, atrs do Quartel Grau, mas as sombras ainda escondem a cidade quando o Doutor Zevallos e o Padre Garcia atravessam o areal, de braos 
dados, 
e entram no txi estacionado na estrada. Embuado em seu cachecol, o chapu cado, o Padre Garcia  um par de olhos inflamados, um nariz carnudo que cresce debaixo 
das sobrancelhas espessas.
- Como se sente? - pergunta o Doutor Zevallos, sacudindo a bainha da cala.
- A cabea continua dando voltas - murmura o Padre Garcia. - Quando me deitar, passa.
- No pode ir para a cama assim - diz o Doutor Zevallos. - Tomaremos um caf antes, algo quente nos far bem.
O Padre Garcia faz um gesto de aborrecimento, no havia nada aberto a estas horas, mas o Doutor Zevallos interrompe-o, aproximando-se do chofer: estaria aberta a 
casa 
da Anglica Mercedes? Devia estar, patro, e o Padre Garcia grunhe, ela abria cedinho; l no, e sua mo treme diante do rosto do Doutor Zevallos, l no, treme 
outra 
vez e volta a seu covil de cobras.
- Deixe de contrariar-me todo o tempo - diz o Doutor Zevallos. - Que importa o lugar. O principal  esquentar um pouco o estmago depois de uma noite ruim. No disfarce, 
o senhor sabe que no pregar olho se for agora para a cama. Na casa da Anglica Mercedes comeremos alguma coisa e falaremos.
Um bafo azedo atravessa o cachecol, o Padre Garcia, se mexe em seu assento sem responder. O txi entra no bairro
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de Buenos Aires, passa na frente de chals de amplos jardins, alinhados em ambos os lados da estrada, contorna um opaco monumento e desliza at o macio sombrio
da catedral. Algumas vitrinas da Avenida Grau cintilam na madrugada, o caminho do lixo est na frente do Hotel de Turistas, e homens em macaces vo at ele carregados 
de latas, O chofer dirige com um cigarro na boca, uma esteira cinzenta escapa de seus lbios em direo ao banco traseiro, e o Padre Garcia comea a tossir. O Doutor 
Zevallos abre um pouco a janelinha.
- No voltou  Mangachera desde o velrio de Domitila Yara? - pergunta o Doutor Zevallos; no h resposta, o Padre Garcia est com os olhos fechados e ronca estranhamente.
- O senhor sabe que quase o matam naquela vez, no velrio? - pergunta o chofer.
- Cale-se, homem - sussurra o Doutor Zevallos. - Se ouvir, vai ficar com raiva.
-  verdade que o harpista morreu, patro? - pergunta o chofer. - Por isso  que foram chamados  Casa Verde?
A Avenida Snchez Cerro se prolonga como um tnel e, na penumbra das caladas, se delineia, de trecho em trecho, a silhueta de uma arvorezinha. No fundo, sobre o 
difuso horizonte de telhados e areias, uns reflexos circulares aparecem piscando.
- Morreu esta madrugada - diz o Doutor Zevallos. Ou voc pensa que o Padre Garcia e eu ainda estamos em idade de passar a noite com a Chunga?
- Para isso no h idade, patro - ri o chofer. Um colega levou uma das mulheres para buscar o Padre Garcia, aquela que chamam de Selvtica. Ele me contou que o 
harpista estava morrendo, patro, que desgraa.
O Doutor Zevallos olha, distrado, os muros caiados, os portes com aldravas, o edifcio novo de Solari, as algarobeiras recm-plantadas nas caladas, frgeis e 
garbosas, 
nos seus quadrilteros de terra: como voavam as notcias nesta terra. Mas ele tinha de saber, patro, e o chofer baixa a voz, era verdade o que o povo contava? espia 
o Padre Garcia pelo espelho retrovisor, era verdade que o Padre Garcia queimara a Casa Verde do harpista? Tinha conhecido aquele puteiro, patro? Era to grande 
como diziam, to formidvel?
- Por que  que os piuranos so assim?
347
- pergunta o Doutor Zevallos. - No se cansaram, trinta anos depois, de repetir a mesma histria? Estragaram a vida do pobre padre.
- No fale mal dos piuranos, patro - diz o chofer.
- Piura  minha terra.
- Tambm a minha, homem - diz o Doutor Zevallos.
- E depois no estou falando, mas pensando em voz alta.
- Mas deve haver alguma coisa de verdade, patro
- insiste o chofer. - Seno, por que  que o povo falaria, por que essa histria de incendirio, incendirio?
- E eu sei? - pergunta o Doutor Zevallos. - Por que voc no se atreve a perguntar ao padre?
- com o gnio que ele tem! Nem de brincadeira ri o chofer. - Mas, pelo menos, me diga se aquele puteiro existia ou se so invenes do povo.
Passam agora pelo novo setor da avenida: a velha estrada se encontrar logo com esta pista asfaltada, e os caminhes que vm do sul e seguem viagem para Sullana, 
Talara e Tumbes no tero mais que atravessar o centro da cidade. As caladas so largas e baixas, os postes de luz cinzentos esto recm-pintados, esse altssimo 
esqueleto de cimento armado ser, talvez, um arranha-cu maior que o Hotel Cristina.
- O bairro mais moderno se juntar com o mais velho e pobre - diz o Doutor Zevallos. - No acredito que a Mangachera dure muito.
- Vai acontecer o que houve com a Gallinacera, patro - diz o chofer. - Vo trazer tratores e faro casas como estas para brancos.
- E para onde diabo iro os mangaches com suas cabras e burros? - pergunta o Doutor Zevallos. - Onde se poder tomar uma boa chicha em Piura?
- Os mangaches vo ficar tristssimos, patro - diz o chofer. - O harpista era um deus para eles, mais popular que Snchez Cerro. Agora tambm vo acender velas 
para Dom Anselmo, e rezaro para ele como para a santeira Domitila.
O txi deixa a avenida e, aos pulos, solavancos, avana por uma ruazinha de terra, entre choas de cana-brava. Levanta uma poeirada e enfurece os cachorros vira-latas 
que correm, grudados aos pra-lamas, latindo, patro, os mangaches tinham razo, aqui amanhecia mais cedo que em Piura. Na claridade azul, atravs de nuvens de p, 
distinguem corpos atirados sobre esteiras, s portas das casas,
348
mulheres com cntaros na cabea que viram esquinas, burros de olhar sonolento e aptico. Atradas pelo rugido do motor, crianas saem das choas e, nuas ou esfarrapadas,
correm atrs do txi, dando adeus, o que havia, bocejando, o que estava acontecendo: nada, padre, j estavam em terra proibida.
- Deixe-nos aqui - diz o Doutor Zevallos. - Caminharemos um pouco.
Descem do txi e, de braos dados, devagar, amparando-se um no outro, percorrem um caminho oblquo, escoltados por crianas que brincam, incendirio! gritam e riem, 
incendirio! incendirio! e o Doutor Zevallos finge apanhar uma pedra e lan-la: merda, crianas de merda, ainda bem que estavam chegando.
A cabana de Anglica Mercedes  maior que as outras e as trs bandeirinhas que drapejam sobre sua fachada de adobe do a ela um ar gracioso e imponente. O Doutor 
Zevallos 
e o Padre Garcia entram espirrando, escolhem dois banquinhos e uma mesa de tbuas largas, sentam-se. O cho foi regado h pouco e cheira a terra mida, coentro e 
salsa. No h ningum nas outras mesas, nem no balco. Aglomeradas na porta, as crianas continuam gritando, esticam suas cabeas sujas e eriadas, Dona Anglica! 
seus braos magros, Dona Anglica! riem mostrando os dentes. O Doutor Zevallos esfrega as mos, pensativo, e o Padre Garcia, entre bocejos, olha a porta com o rabo 
dos olhos. Anglica Mercedes aparece, por fim, fresca, rolia, matutina, a barra da saia roando nos banquinhos. O Doutor Zevallos se levanta, doutor, abre os braos 
para ele, mas que prazer, que milagre v-lo aqui a estas horas, h tantos meses que no vinha, e ela estava cada dia mais bonitona, Anglica, como fazia para no 
envelhecer? qual era o seu segredo? E ento deixam de se bater nas costas, Anglica, no vira quem trouxera, no o reconhecia? Como que atemorizado, o Padre Garcia 
junta os ps e esconde as mos, bom dia, o cachecol muge asperamente e o chapu se agita, por um segundo, Virgem Santa! era o Padre Garcia. As mos juntas sobre 
o corao, os olhos alvoroados, Anglica Mercedes abaixa-se, padrezinho, que alegria tinha em v-lo, nem sabia, que bom que o trouxera, doutor, e a mo ossuda 
e desconfiada se levanta sem afeto at Anglica Mercedes, e se retira antes que ela a beije.
- Voc pode preparar algo quente, comadre? - pergunta o Doutor Zevallos. - Estamos meio mortos, passamos a noite em claro.
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- Claro, claro, agora mesmo - Anglica Mercedes limpa a mesa com a saia -, um caldinho e um tira-gosto? Umas chichas clarinhas tambm? No,  muito cedo para isso,
vou fazer uns suquinhos e caf com leite. Mas, por que no se deitaram ainda, doutor? O senhor est pondo o Padre Garcia no mau caminho.
Um sarcstico grunhido subiu do cachecol e o chapu se endireita, os olhos fundos do Padre Garcia fitam Anglica Mercedes e ela deixa de sorrir, volta o rosto intrigado 
para o Doutor Zevallos, que, com o queixo entre dois dedos, tem agora uma expresso melanclica: onde estiveram, doutorzinho? Sua voz  tmida, a mo empunha a barra 
da saia a uns milmetros da mesa, e est imvel: na casa da Chunga, comadre. Anglica Mercedes solta um gritinho, na casa da Chunga? desfigura-se, na casa da Chunga? 
pe a mo na boca.
- Sim, comadre, Anselmo morreu - diz o Doutor Zevallos. - Uma triste notcia para voc, eu sei. Para todos ns. Que vamos fazer, assim  a vida.
Dom Anselmo? gagueja Anglica Mercedes, a boca entreaberta, a cabea cada, morreu, padrezinho? e seu nariz palpita rapidamente, umas covinhas aparecem em suas faces, 
as crianas da porta saram correndo, e ela sacode a cabea, esfrega os braos, morreu, doutor? chora.
- Todos tm que morrer - ruge o Padre Garcia, batendo na mesa; o cachecol se abre e sua cara lvida, com a barba por fazer, est deformada pelo tremor de sua boca.
- Voc, eu, o Doutor Zevallos, a morte vir para todos, ningum se livra.
- Acalme-se, homem - o Doutor Zevallos abraa Anglica Mercedes, que solua, apertando a saia contra os olhos.
- Acalme-se voc, tambm, comadre. O Padre Garcia ficou muito nervoso,  melhor no falar com ele, no pergunte nada. Ande, prepare algo quente, no chore.
Anglica Mercedes concorda sem deixar de chorar, e se afasta, o rosto entre as mos. No outro aposento, eles a ouvem falar sozinha, suspirar. O Padre Garcia recolheu 
o cachecol, novamente enrosca-o no pescoo, e tira o chapu: eriadas, cinza, as mechas de cabelos de sua fronte mal ocultam o crnio liso e cheio de sinais. Apoia 
o queixo no punho, uma ruga de apreenso rasga sua testa, e a barba crescida d s suas faces um aspecto de coisa gasta e suja. O Doutor Zevallos acende um cigarro. 
 dia j, e o sol que inunda o local e doura os bambus secou o cho,
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moscas azuis e ciciantes invadem o ar. No exterior, as vozes, latidos, balidos, zurros e rudos domsticos aumentam gradualmente e, ao lado, Anglica Mercedes est 
rezando,
murmura o nome da santeira misturado a invocaes a Deus e  Virgem, doutor: aquela machorra fizera de propsito.
- Mas por que santo?- murmura o Padre Garcia.
- Por que santo, doutor?
- Que importa? - pergunta o Doutor Zevallos, vendo a fumaa se desvanecer. - E depois, talvez no tenha sido de propsito. Pode ter sido por acaso.
- Bobagem, mandou chamar o senhor e a mim por alguma coisa - diz o Padre Garcia. - Queria nos fazer passar um mau momento.
O Doutor Zevallos encolhe os ombros. Recebe um raio de sol no meio da testa, e metade do seu rosto est dourado e brilhante; a outra metade  uma ndoa plmbea. 
Tem 
os olhos sumidos numa suave modorra.
- No sou nada perspicaz - diz, depois de um momento. - Nem sequer pensei nisso. Mas o senhor tem razo, talvez tenha querido nos fazer passar um mau momento. A 
Chunga  uma mulher estranha. Pensei que ela no sabia.
Volta-se para o Padre Garcia e a ndoa ganha terreno, ocupa todo o rosto, s uma orelha e a mandbula recebem agora o banho amarelo: que no sabia o qu? O Padre 
Garcia olha o Doutor Zevallos de vis.
- Que eu a trouxe ao mundo - o Doutor Zevallos levanta a cabea, que se ilumina, sua calva se destaca, luzente e espinhenta. - Quem ter contado isso a ela? Anselmo 
no, estou certo. Ele pensava que a Chunga vivia sem saber.
- Neste povoadinho mexeriqueiro tudo se sabe com o tempo - grunhe o Padre Garcia. - Ainda que seja trinta anos depois, sabe-se tudo o que acontece.
- Jamais foi ao meu consultrio - diz o Doutor Zevallos. - Jamais me chamou para qualquer coisa, e agora sim. Se queria me fazer passar um mau momento, conseguiu. 
Me 
fez reviver tudo de repente.
- Sobre o senhor est evidente - grunhe o Padre Garcia, como se falasse com a mesa. - Aquele sujeito viu minha me morrer, que veja morrer meu pai tambm. Mas por 
que aquela machorra tinha de me chamar tambm?
- Que quer dizer isso? - pergunta o Doutor Zevallos.
- Que  que tem?
- Venha comigo, doutor - a voz sai da direita,
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retumba no alto do saguo. - Agorinha, assim como est, doutor, no h tempo.
- Pensa que eu no o reconheo? - pergunta o Doutor Zevallos. - Saia da, Anselmo. Por que se esconde? Ficou louco, homem?
- Venha, doutor, depressa - uma voz cansada, na escurido do saguo, que o eco repete, no alto. - Est morrendo, Doutor Zevallos, venha.
O Doutor Zevallos levanta o lampio, procura e o encontra afinal, no distante da porta: no est bbado nem louco, mas crispado de medo. Seus olhos danam loucamente 
nas rbitas inchadas, e suas costas esto pegadas  parede como se quisesse derrub-la.
- Sua mulher? - pergunta o Doutor Zevallos, atnito.
- Sua mulher, Anselmo?
- Os dois podem estar mortos, mas eu no aceito o Padre Garcia golpeia a mesa e seu banquinho range. No posso aceitar aquela baixeza. Daqui a cem anos ainda direi 
que  uma baixeza.
A porta do vestbulo se abriu, e o homem recua como se visse uma fantasma, foge do cone de luz do lampio. A figurinha envolta em um chambre branco d uns passos 
pelo ptio, filhinho, pra antes de chegar ao saguo: quem estava a? por que no entravam? Era ele, mame, o Doutor Zevallos baixa o lampio, esconde Anselmo com 
seu corpo: tinha que sair um momento.
- Me espere no Malecn - sussurra. - vou pegar minha maleta.
- Vo tomando o caldinho. - Anglica Mercedes pe duas cabaas fumegantes sobre a mesa. - J tem sal, num instantinho trago o tira-gosto.
J no chora, mas sua voz  lamuriosa, e ps a manta preta sobre os ombros. Afasta-se para a cozinha, agora banboleia de leve ao caminhar. O Doutor Zevallos mexe 
o 
caldo pensativamente, o Padre Garcia levanta a cabaa com quatro dedos, aproxima-a do nariz, cheira o aroma quente.
- Eu tambm nunca o entendi, e naquele tempo achei que era uma infmia - diz o Doutor Zevallos. - Agora estou velho, muitas guas rolaram e nada mais me parece infmia. 
Se o senhor estivesse l naquela noite, no teria odiado tanto o pobre Anselmo, Padre Garcia, tenho a certeza.
- Que Deus lhe pague, doutor - choraminga o homem, enquanto correm, dando encontres nas rvores, nos
bancos,
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no parapeito do Malecn. - Eu farei o que me pedir, lhe darei todo o meu dinheiro, doutor, toda a minha vida, doutor.
- Quer me comover?  - grunhe o Padre Garcia, olhando o Doutor Zevallos, entrincheirado atrs da cabaa, que continua cheirando. - Tenho que chorar tambm?
- Na verdade, nada disso importa agora - sorri o Doutor Zevallos. - Coisas que o vento levou, meu amigo. Mas por culpa da Chunguita, nesta noite, elas me voltaram 

cabea e continuam aqui. Falo delas para livrar-me delas, no se importe comigo.
O Padre Garcia toma a temperatura do caldo com a ponta da lngua, sopra, bebe um golinho, arrota, resmunga uma desculpa, e continua tomando aos golinhos e soprando.
Pouco depois, volta Anglica Mercedes com uma bandeja de tira-gosto e sucos de lucuma. Cobriu a cabea com o cachecol, doutor, no estava bom? e sua voz se esfora
por ser natural, comadre, muito bom. Um pouquinho quente, logo que esfriasse ele o tomaria, e que boa cara tinha o tira-gosto que fizera. Agora esquentava o caf,
qualquer outra coisa que a chamassem, padrezinho. O Doutor Zevallos embala a cabaa com um dedo, examina meticulosamente a turva e redonda superfcie que oscila, 
e
Padre Garcia comeou a trinchar pedacinhos de carne e a mastigar com empenho. Mas, de repente, interrompe-se, todos j sabiam? e a boca fica aberta: as perdidas
e os perdidos que estavam l?
- Elas sabiam do romance desde o princpio, como  lgico - murmura o Doutor Zevallos, acariciando a borda da cabaa -, mas no acredito que algum mais soubesse. 
Havia
uma escadinha que dava para o ptio de trs, e por ali subimos  torre, os do salo no nos viram. Vinha uma bulha selvagem l de baixo, e Anselmo devia t-las instrudo
para que entretivessem os freqentadores, e no os deixassem maliciar sobre o que acontecia.
- Que bem o senhor conhecia o lugar - o Padre Garcia mastiga de novo. - No tinha sido a primeira vez que ia l, acredito.
- Tinha ido dezenas de vezes - diz o Doutor Zevallos, com um brilho fugaz nos olhos. - Eu tinha trinta anos ento. A flor da idade, meu amigo.
- Sujeiras, tolices - grunhe o Padre Garcia, mas sua mo desce o garfo que levava  boca. - Trinta anos? Eu teria essa idade mais ou menos.
- Claro,  somos da mesma gerao
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- diz o doutor Zevallos. - Anselmo tambm, embora um pouco mais velho que ns.
- J no restam muitos daquela poca - diz o Padre Garcia com mau humor. - Ns os enterramos todos.
Mas o Doutor Zevallos no o escuta. Est mexendo os lbios, piscando, agitando a cabaa at derramar gotinhas de caldo sobre a mesa, homem, como  que ele podia 
imaginar, 
nem quando viu o vulto na cama adivinhou, homem, quem teria adivinhado?
- No fique a falar para dentro - resmunga o Padre Garcia -, no se esquea de que estou aqui. Que  que no podia imaginar?
- Que a mulher dele era aquela criana - diz o Doutor Zevallos. - Quando entrei, vi na cabeceira uma gorda ruiva, que chamavam de Lucirnaga, e no me pareceu doente, 
e eu ia fazer uma brincadeira, e ento, vi o vulto e o sangue. No calcula, meu amigo, nos lenis, no cho, todo o quarto era pura mancha. Parecia que tinham degolado 
algum.
O Padre Garcia no trincha, tritura ferozmente os pedaos de carne, enfia-os no garfo, retorce-os contra o prato. O pedao gotejante no sobe at sua boca, a criana 
se esvaa em sangue? fica tremendo no ar, como sua mo e a toalha da mesa, sangue por toda parte? e uma brusca ronqueira afoga-o, sangue daquela menina? Um fiozinho 
de baba clara desce por seu queixo, imbecil, que a soltasse, no era hora para beijos, ele a estava afogando, tinha de faz-la gritar, imbecil: melhor que a esbofeteasse. 
Mas Josefino leva um dedo  boca: nada de gritos, no v que h tantos vizinhos? no os ouvia conversando? Como se no o ouvisse, a Selvtica grita com mais fora 
e Josefino tira o leno, abaixa-se sobre o catre e tapa sua boca. Sem se perturbar, Dona Santos continua esgaravatando, manipulando habilmente as coxas morenas. 
E a ento, viu-lhe o rosto, Padre Garcia, e comearam a tremer suas pernas e mos, esqueceu que ela estava morrendo e que ele estava ali para tentar salv-la, sim, 
sim, s atinava a olh-la, no tinha dvida: era Antnia, meu Deus. Dom Anselmo j no a beijava, desmoronado aos ps da cama oferecia dinheiro de novo, Doutor Zevallos,
sua vida, salve-a! e Josefino assustou-se, Dona Santos, no tinha morrido? Que no a matasse, que no a matasse, Dona Santos, e ela, psiu: s desmaiara. Era melhor,
no faria barulho e acabaria mais depressa, que molhasse sua testinha com o pano. O Doutor Zevallos passou-lhe a bacia bruscamente,
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que fervessem mais gua, imbecil, choramingando em vez de ajudar. Est em mangas de camisa, o colarinho aberto e, agora, muito sereno. Anselmo no consegue segurar 
a bacia, cai de suas mos, doutor, que no morresse, apanha a bacia e, de gatinhas, chega  porta, doutor, era sua vida, e sai.
- A puta que o pariu - murmurou o Doutor Zevallos.
- Que loucura, Anselmo, como  que voc pde, homem, que bestialidade voc cometeu, Anselmo.
- Me passe a bolsa - diz Dona Santos. - E agora dou um chazinho e acorda. Leve isso, e enterre-a bem, e que ningum o veja.
- Havia alguma esperana? - grunhe o Padre Garcia, esmagando os pedaos de carne, fisgando-os e arrastando-os de um lado para outro. - Era impossvel salvar a menina?
- Talvez num hospital - diz o Doutor Zevallos. - Mas no se podia transferi-la. Precisei oper-la quase s escuras, sabendo que estava morrendo. Acho que foi um 
milagre 
que a Chunguita se salvasse, nasceu quando a me j estava morta.
- Milagre, milagre - grunhe o Padre Garcia. Tudo  milagre aqui. Tambm diziam milagre quando mataram os Quiroga, e a criana se salvou. Teria sido melhor para ela 
morrer ento.
- No se lembra da moa quando passa pelo coreto?
- pergunta o Doutor Zevallos. - Eu sim, sempre me parece v-la sentada ali, tomando sol. Mas esta noite cheguei a sentir mais pena do Anselmo do que de Antnia.
- No o merecia - ronca o Padre Garcia. - Nem pena, nem compaixo, nem nada. Toda essa tragdia foi culpa dele.
- Se o senhor o tivesse visto esperneando, beijando-me os ps para que salvasse a moa, tambm teria se apiedado - diz o Doutor Zevallos. - Sabe que, se no fosse 
pela 
minha comadre, a Chunguita teria morrido tambm? Ela me ajudou a atend-la.
Ficam em silncio e o Padre Garcia leva um pedao de carne  boca, mas faz uma careta de nojo e solta o garfo. Anglica Mercedes volta com outra jarrinha de suco, 
vem espantando as moscas com a mo.
- Voc no ouviu, comadre? - diz o Doutor Zevallos.
- Estvamos lembrando da noite em que a Antnia morreu. J parece sonho, no? Dizia ao padre que voc me ajudou a salvar a Chunga.
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Anglica Mercedes olha-o muito sria, sem espanto nem susto, como se no tivesse entendido.
- No me lembro de nada, doutor - diz em voz baixa, finalmente. - Eu era cozinheira, mas no me lembro. No se deve falar disso agora. vou  missa das oito para 
rezar por Dom Anselmo, para que descanse na morte. E depois irei vel-lo.
- Que idade voc tinha? - grunhe o Padre Garcia.
- No me lembro de como voc era. De Anselmo e das perdidas, sim, mas no de voc.
- Era uma criana, padrezinho. - A mo de Anglica Mercedes  um rpido, eficiente abanador: nenhuma mosca se aproxima do prato de tira-gosto, nem dos sucos.
- No mais de quinze anos - diz o Doutor Zevallos. E que bonita, comadre. Ns todos olhvamos para voc e Anselmo, porm, ainda no  mulher, olha-se mas no se 
toca, 
cuidando de voc como de sua filha.
- Eu era virgenzinha, e o Padre Garcia no acreditava - um brilho maroto anima os olhos de Anglica Mercedes, mas seu rosto  sempre uma severa mscara. - Ia me 
confessar tremendo, e o senhor, sempre, saia daquela casa do Diabo, voc j est condenada. Tambm no se lembra, padre?
- O que se fala no confessionrio  segredo - grunhe o Padre Garcia, com uma espcie de rouquido alegre.
- Guarde essas histrias para voc.
- Casa do Diabo - diz o Doutor Zevallos. - Ainda acredita que Anselmo era o Diabo?  verdade que cheirava a enxofre, ou era para assustar os beatos?
Anglica Mercedes e o doutor sorriem e, sob o cachecol, logo em seguida, soa algo inesperado e rude, hbrido como um acesso de tosse e riso sufocante.
- Naquele tempo s estava l, na Casa Verde - diz o Padre Garcia pigarreando. - O Chifrudo est agora por toda parte. Na casa da machorra, e na rua e nos cinemas, 
toda Piura virou a casa do Chifrudo.
- Mas no a Mangachera, padrezinho - diz Anglica Mercedes. - Aqui no entrou nunca, no o deixamos, Santa Domitila nos ajuda nisso.
- Ainda no  santa - diz o Padre Garcia. - Voc no ia nos fazer caf?
- Sim, j est pronto - diz Anglica Mercedes. vou traz-lo.
- Faz pelo menos vinte anos que no passava uma noite em claro
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- diz o Doutor Zevallos. - E agora perdi o sono de todo.
As moscas, logo que Anglica Mercedes d meia-volta, retornam e caem sobre o prato de tira-gosto, salpicam-no de pontos escuros. De novo, crianas esfarrapadas correm 
diante da porta e, atravs dos bambus, se v passar gente falando alto, e um grupo de velhos que toma sol e conversa diante da cabana da frente.
- Pelo menos se sentia arrependido? - grunhia o Padre Garcia. - Percebia que aquela menina morrera por sua culpa?
- Saiu correndo atrs de mim - diz o Doutor Zevallos.
- Espojava-se no areal, queria que o matasse. Levei-o para minha casa, dei uma injeo nele e o mandei embora. No sei nada, no vi nada, v para casa. Mas no foi, 
desceu o rio e ali ficou esperando a lavadeira, como se chamava? Aquela que criou a Antnia.
- Sempre foi louco - grunhe o Padre Garcia. Espero que tenha se arrependido e que Deus lhe tenha perdoado.
- E ainda que no se arrependesse, teve bastante castigo com o que sofreu - diz o Doutor Zevallos. - Alm disso, seria preciso saber se realmente merecia castigo. 
E se Antnia, ao invs de vtima, foi sua cmplice? Se no se apaixonou por ele?
- No diga disparates - grunhe o Padre Garcia. vou pensar que est caducando.
-  uma coisa que tenho me perguntado sempre diz o Doutor Zevallos. - As mulheres diziam que ele a mimava, e que a moa parecia contente.
- Agora j lhe parece normal? - grunhe o Padre Garcia. - Raptar uma cega, met-la em um prostbulo, engravid-la. Estava certo que fizesse isso? A coisa mais natural 
do mundo? Deveriam recompens-lo por esse favor?
- No tem nada de normal - diz o Doutor Zevallos -, mas no levante a voz, cuidado com sua asma. S digo que ningum sabe o que ela pensava. Antnia no sabia o 
que 
era bom nem mau, e depois de tudo, graas a Anselmo, foi uma mulher completa. Eu sempre pensei. . .
- Cale-se, homem! - o Padre Garcia lana-se com as mos contra as moscas, que fogem, espavoridas. - Uma mulher completa! As freiras so incompletas? Os padres so 
incompletos, porque no fazem porcarias? No permito heresias to estpidas.
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- O senhor est lutando contra fantasmas - sorri o Doutor Zevallos. - S queria dizer que acredito que Anselmo a amou de verdade, e que provavelmente ela o amou 
tambm.
- Esta conversa no me agrada - grunhe o Padre Garcia. - No vamos chegar a um acordo, e no quero brigar com o senhor.
- S faltava isto - murmura o Doutor Zevallos. - Olhe quem chega.
Eram os invencveis, no queriam trabalhar, s beber, s jogar, eram os invencveis e vinham tomar caf, puxa: quem estava ali.
- Vamo-nos - grunhe o Padre Garcia, -exasperado. - No quero ficar junto desses bandidos.
Mas os Len no lhe do tempo de se levantar e caem sobre ele batendo palmas, Padre Garcia, os cabelos emaranhados, padrezinho, os olhos cheios de ressacas noturnas. 
Pulam em volta do Padre Garcia, hoje cairia neve em Piura e no areia, procuram apertar sua mo, era o milagre dos milagres, batem em suas costas, era feriado para 
os mangaches receberem visita. Esto de camisetas, sem meias, os sapatos desamarrados, cheiram a suor, e o Padre Garcia, escondido atrs do cachecol, sob o chapu, 
que ps apressadamente, permanece imvel, olha fixamente o tira-gosto, atacado de novo pelas moscas.
- No admito que lhe faltem com o respeito - diz o Doutor Zevallos. - Cuidado com a lngua, rapazes.  um homem de batina e encanecido.
- Mas ningum est faltando com o respeito, doutor
- diz o Mono. - Estamos felicssimos de v-lo aqui, palavra, s queremos que nos d a mo.
- Nunca se viu um mangache quebrar a hospitalidade, doutor - diz Jos. - bom dia, Dona Anglica.  preciso comemorar o acontecimento, traga algo para brindar com 
o Padre Garcia. Vamos fazer as pazes com ele.
Anglica Mercedes chega com duas xcaras de caf nas mos, muito sria.
- Por que essa cara zangada, Dona Anglica? - pergunta o Mono. - No est contente com esta visita?
- Vocs so o pior que h nesta cidade - grunhe o Padre Garcia. - O pecado original de Piura. Nem que me matem tomarei alguma coisa com vocs.
- No se enfurea, Padre Garcia - diz o Mono.
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- No o estamos gozando, estamos contentes de verdade que tenha voltado  Mangachera.
- Corruptos, vagabundos - o Padre Garcia iniciou uma nova ofensiva contra as moscas. - com que direito me falam, seus perdidos!
- Veja o senhor, Doutor Zevallos - diz o Mono. Quem est faltando com o respeito.
- Deixem o padre tranqilo - diz Anglica Mercedes. - Dom Anselmo morreu. O padre e o doutor foram atend-lo, no dormiram toda a noite.
Pe a xcara sobre a mesa, volta  cozinha, e, quando sua silhueta desaparece na pea do fundo, s se ouve o tilintar das colherinhas, os sorvos de caf do Doutor 
Zevallos, 
a ofegante respirao do Padre Garcia. Os Len se olham, estonteados.
- Esto vendo, rapazes - diz o Doutor Zevallos. - No  dia para brincadeiras.
- Dom Anselmo morreu - diz Jos. - Perdemos o harpista, Mono.
- Era um grande homem, doutor - balbucia o Mono. - Era um grande artista, doutor, uma glria de Piura. E o melhor de todos. Minha alma est partida, Doutor Zevallos.
- Como se fosse o pai de todos ns, doutor - diz Jos. - O Bolas e o Joven devem estar morrendo de dor, Mono. Os seus discpulos, doutor, unha e carne com o harpista. 
O senhor no sabe como cuidavam dele, doutor.
- No sabamos de nada, Padre Garcia - diz o Mono. - Ns lhe pedimos perdo por estas brincadeiras.
- Morreu assim, de repente? - perguntou Jos. Ontem estava muito-bem.  noite comemos com ele aqui, Doutor Zevallos, e ele ria e brincava.
- Onde est, doutor? - perguntou o Mono. - Temos de ir v-lo, Jos, temos de arranjar gravatas pretas.
- Est l, onde morreu - diz o Doutor Zevallos. - Na casa da Chunga.
- Morreu na Casa Verde? - perguntou o Mono. Nem sequer levaram o harpista a um hospital?
- Isso  um terremoto para a Mangachera, doutor
- diz Jos. - No ser mais a mesma sem o harpista.
Balanam as cabeas, consternados, incrdulos, e prosseguem em seus monlogos e dilogos, enquanto o Padre Garcia bebe seu caf, sem afastar a xcara dos lbios, 
que mal saem do cachecol. O Doutor Zevallos tomou o seu, e agora brinca com a colherinha, tenta mant-la em equilbrio na
ponta de um dedo.
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Os Len se calam, finalmente, e sentam-se em uma mesa vizinha. O Doutor Zevallos oferece cigarros. Quando Anglica Mercedes entra, pouco depois, eles
fumam em silncio, igualmente deprimidos e carrancudos.
- Por isso  que o Lituma no veio - diz o Mono.
- Deve estar fazendo companhia  Chunguita.
- Fazia-se de indiferente, de mulher fria - diz Jos.
- Mas no fundo deve estar sofrendo tambm. No acha, Dona Anglica? O sangue chama o sangue.
- Deve estar com pena, talvez - diz Anglica Mercedes. - Mas com aquela nunca se pode saber, por acaso era uma boa filha?
- Por que diz isso, comadre?  - pergunta o Doutor Zevallos.
- O senhor acha que era certo ter o pai como empregado?  - pergunta Anglica Mercedes.
- Tudo parece certo ao Doutor Zevallos - grunhe o Padre Garcia. - com a velhice, descobriu que no h nada de mau no mundo.
- O senhor diz isso com sarcasmo - sorri o Doutor Zevallos. - Mas, veja bem, h um pouco de verdade nisso.
- Dom Anselmo teria morrido se no tocasse, Dona Anglica - diz o Mono. - Os artistas vivem de sua arte. Que tinha de errado que tocasse l? A Chunguita pagava bem.
- Tome depressa o caf, meu amigo - diz o Doutor Zevallos. - O sono me veio de repente, meus olhos esto se fechando.
- A est nosso primo, Mono - diz Jos. - Que cara aflita ele tem.
O Padre Garcia afunda o nariz na xcara de caf, solta um grunhido surdo quando a Selvtica, os sapatos na mo, os olhos muito maquilados e a boca sem pintura, abaixa-se 
at ele e beija sua mo. Lituma sacode o p que suja seu terno cinza, a gravata de pintas verdes, os sapatos amarelos. Tem os cabelos despenteados e brilhantes de 
vaselina, as feies extenuadas, e cumprimenta muito srio o Doutor Zevallos.
- Vo vel-lo aqui, Dona Anglica - diz. - A Chunga me encarregou de avisar.
- Na minha casa? - pergunta Anglica Mercedes.
- E por que no o deixam onde est? Para que vo mexer com o coitado?
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- Voc quer que o velem num prostbulo? - ronca o Padre Garcia. - Onde  que voc tem a cabea?
- Fico feliz por emprestar minha casa, padre - diz Anglica Mercedes. - Mas pensei que era pecado andar com o defunto de um lado para outro. No  sacrilgio?
- E por acaso voc sabe o que quer dizer sacrilgio?
- grunhe o Padre Garcia. - No fale do que no entende.
- O Bolas e o Joven foram comprar o caixo e tratar da questo do cemitrio - Lituma sentou-se entre os Len.
- Vo traz-lo depois. A Chunga pagar tudo, Dona Anglica, os licores, as flores, pede que a senhora empreste a casa.
- Eu acho muito bom que o velrio seja na Mangachera - diz o Mono. - Era um mangache, que seus irmos o velem.
- Ela gostaria que o senhor rezasse a missa, Padre Garcia - diz Lituma, tratando de ser natural, mas sua voz  muito lenta. - Fomos  sua casa dizer isso, mas no 
atenderam. Que sorte encontr-lo aqui.
A cabaa vazia cai no cho e h um torvelinho de pregas negras sobre a mesa, com que licena, o Padre Garcia golpeia o prato de tira-gosto, quem o autorizara a 
lhe dirigir a palavra, e Lituma levanta-se de um salto, incendirio, que
tom era esse: incendirio. O Padre Garcia tenta se levantar e gesticula entre os braos
do Doutor Zevallos, seu canalha, chacal, e a Selvtica puxa o casaco de Lituma, que ficasse calado, dando gritinhos, que no o desrespeitasse, era um padre, que 
tapassem 
sua boca. Logo iria para o inferno, seu canalha, a pagaria por tudo, sabia o que era o inferno, seu canalha? O rosto inflamado, a boca torcida, o Padre Garcia treme 
como uma vara verde, e Lituma sacode a Selvtica sem poder afast-la, incendirio, no o estava insultando, no o chamava de canalha, incendirio, e Padre Garcia 
perde, recupera a voz, era pior que aquela perdida que o sustentava, e estende suas mos exasperadas no vazio, um parasita da imundcie, um chacal, e agora tambm 
os Len seguravam Lituma: ia quebrar o focinho daquele velho, no agentava, ainda que fosse padre, incendirio de merda. A Selvtica comeou a chorar, e Anglica 
Mercedes tem um banquinho nas mos, balana-o na frente de Lituma, disposta a quebr-lo na cabea dele se avanasse um milmetro. Na porta, atrs dos bambus, em 
toda a redondeza, h cabeas atentas e excitadas, olhos, cabeleiras, cotovelaos e um vozerio crescente que parece propagar-se at o resto do bairro,
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e os nomes do harpista, dos invencveis e do Padre Garcia despontam, s vezes, entre o coro berrado das crianas: incendirio, incendirio. Agora o Padre Garcia
tosse, os braos no alto, olhos esbugalhados, vermelho como uma brasa, a lngua para fora, e espalha saliva  sua volta. O Doutor Zevallos segura suas mos no alto, 
a Selvtica abana, Anglica Mercedes d batidinhas suaves nas suas costas, e Lituma parece agora confuso.
- Qualquer um solta a lngua quando  insultado assim - diz com voz vacilante. - No  por minha culpa, vocs viram que foi ele que comeou.
- Mas voc o desrespeitou, e, alm disso,  velhinho, primo - diz o Mono. - Passou toda a noite sem pregar os olhos.
- Voc no devia, Lituma - diz Jos. - Pea desculpas, homem, olhe como voc o fez ficar.
- Peo desculpas - gaguejou Lituma. - Agora acalme-se, Padre Garcia. Tambm, no  para tanto.
Mas o Padre Garcia continua estremecido de tosse e de arrancos, e tem o rosto empapado de ranho, baba e lgrimas. A Selvtica limpa sua testa com a saia, Anglica 
Mercedes tenta faz-lo beber um copinho de gua, e Lituma empalidece, estava pedindo desculpas, padre, e fica a gritar, que mais queriam que fizesse, amedrontado, 
se ele no queria que morresse, que desgraa, e retorce as mos.
- No se assuste - diz o Doutor Zevallos. -  a asma e a areia que se meteram em sua garganta. Vai passar logo.
Mas Lituma no pode dominar mais os nervos, insultava-o, e ele mesmo se alterava, e se lamenta quase chorando entre os Len, que o abraam, andava amargurado com 
tanta desgraa, faz beicinho e, por um momento, parece que ia romper em soluos, primo, tranqilo, eles compreendiam, e ele, batendo no peito: tinham despido o harpista, 
lavado, vestido de novo, no havia quem resistisse, era humano. E eles, que se acalmasse, primo, coragem, mas ele no podia, porra, porra, no podia, e desaba sobre 
um banquinho, a cabea entre as mos. O Padre Garcia deixou de tossir e, embora respire com esforo, est com o rosto mais sereno. A Selvtica est ajoelhada junto 
dele, padrezinho, estava melhor? e ele concorda, pensava que fosse uma perdida, isso era com ela, grunhindo, infeliz, mas tinha que ser burra, condenando-se por 
sustentar um intil, um assassino, tinha que ser burra, e era sim, padrezinho, mas que no se zangasse, que se acalmasse, j tinha passado.
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- Deixe que ele o insulte se isso o tranqiliza, primo
- diz o Mono.
- Est bem, deixo, me agento - sussurra Lituma.
- Que me insulte, chame de assassino, intil, que continue, tudo o que quiser.
- Cale-se, chacal - grunhe o Padre Garcia, sem mpeto, com evidente repugnncia, e na porta, atrs dos bambus, h uma onda de risos. - Silncio, chacal.
- Estou calado - ruge Lituma. - Mas no me insulte mais, sou um homem, no me agrada, feche sua boca, Padre Garcia. Pea a ele, Doutor Zevallos.
- J passou, padrezinho - diz Anglica Mercedes.
- No diga palavres, no senhor parece pecado, padre, no se enfurea assim. Quer outro cafezinho?
O Padre Garcia tira um leno amarelado do bolso, est bem, outro cafezinho, e se assoa com fora. O Doutor Zevallos ajeita as sobrancelhas, limpa a saliva das lapelas 
com um gesto de aborrecimento. A Selvtica passa a mo pela testa do Padre Garcia, assenta suas mechas das frontes, e ele est enfadado e dcil.
- Meu primo quer lhe pedir perdo, Padre Garcia diz o Mono. - Sente muito o que aconteceu.
- Que pea perdo a Deus, e deixe de explorar as mulheres - resmunga tranqilamente o Padre Garcia, completamente apaziguado. - E vocs tambm peam perdo a Deus, 
seus vadios. Voc sustenta tambm esta dupla de vagabundos?
- Sim, padrezinho - diz a Selvtica, e h uma nova onda de risos na rua. O Doutor Zevallos ouve com ar divertido.
- No se pode dizer que no seja franca - diz o Padre Garcia, esgaravatando o nariz com o leno. - Que idiota completa voc , infeliz.
- Eu digo isso para mim muitas vezes, padre - reconhece a Selvtica, esfregando a testa rugosa do Padre Garcia. - E digo isso na cara deles, no pense que no.
Anglica Mercedes traz outra xcara de caf, a Selvtica volta  mesa dos Len, e a gente amontoada na porta e atrs dos bambus, aps um momento, comea a se desagregar. 
As crianas retornam s suas correrias empoeiradas, de novo se ouvem suas vozes finas e estridentes. Os transeuntes param diante do bar, metem a cabea, miram o 
Padre Garcia, que, curvado, bebe seu caf a golinhos, partem. Anglica Mercedes, os invencveis e a Selvtica falam, a meia voz, de carnes e bebidas,

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calculam quanta gente vir ao velrio, murmuram nomes, cifras, e discutem preos.
- Acabou seu caf? - pergunta o Doutor Zevallos. J tivemos agitao de sobra por hoje, vamos para a cama.
No h resposta: o Padre Garcia dorme aprazivelmente, a cabea cada sobre o peito, uma ponta do cachecol mergulhada na xcara.
- Adormeceu - diz o Doutor Zevallos. - No sei se devo acord-lo.
- Quer que preparemos uma caminha para ele? pergunta Anglica Mercedes. - No outro quarto, doutor. Ns o abrigaremos bem, no faremos barulho.
- No, no, quando acordar eu o levo - diz o Doutor Zevallos. - Ele no d nunca seu brao a torcer, mas eu o conheo. A morte do Anselmo o abateu bastante.
- Devia estar contente - sussurrou o Mono, desolado. - Sempre que via Dom Anselmo na rua o insultava. Tinha dio dele.
- E o harpista no respondia, fazia como se no tivesse ouvido e ia para a outra calada - diz Jos.
- No o odiava tanto - diz o Doutor Zevallos. - Pelo menos nestes ltimos anos, s que era um costume nele, um vcio.
- Quando devia ser o contrrio - diz o Mono. Dom Anselmo, sim, tinha razes para odi-lo.
- No diga isso,  pecado - diz a Selvtica. - Os padres so os ministros de Deus, no se pode odi-los.
- Se  verdade que ps fogo na sua casa, por a se v a alma grande que tinha o harpista - diz o Mono. - Nunca ouvi dele nem meia palavra contra o Padre Garcia.
-  verdade que queimaram a casa de Dom Anselmo, doutor? - pergunta a Selvtica.
- J no lhe contei essa histria cem vezes? - pergunta Lituma. - Por que tem de perguntar ao doutor?
- Porque voc sempre me conta diferente - diz a Selvtica. -- Pergunto porque quero saber como foi de verdade.
-- Cale-se, deixe os homens conversarem em paz diz Lituma.
- Eu tambm gostava do harpista - diz a Selvtica.
- Tinha mais afinidade com ele do que voc; por acaso, no era meu conterrneo?
- Seu conterrneo? - pergunta o Doutor Zevallos, interrompendo um bocejo.
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- Claro, moa - diz Dom Anselmo. - Como v, mas no de Santa Maria de Nieva, nem sei onde fica esse povoado.
-  mesmo, Dom Anselmo? - pergunta a Selvtica.
- O senhor tambm nasceu l? No  verdade que a selva  linda, com tantas rvores e tantos passarinhos? No  verdade que a gente de l  melhor?
- A gente  igual em toda parte, moa - diz o harpista. - Mas  verdade que a selva  linda. J me esqueci de tudo o que tem, menos da cor, por isso pintei de verde 
a harpa.
- Aqui todos me desprezam, Dom Anselmo - diz a Selvtica. - Me chamam de Selvtica como um insulto.
- No pense assim, moa - diz Dom Anselmo. -  como um carinho. Eu no me incomodaria se me chamassem de Selvtico.
-  curioso - o Doutor Zevallos coa o pescoo enquanto boceja. - Mas  possvel, afinal de contas.  verdade que tinha a harpa pintada de verde, rapazes?
- Dom Anselmo era mangache - diz o Mono. Nasceu aqui, no bairro, e nunca saiu daqui. Mil vezes ouvi ele dizer, sou o mais velho dos mangaches.
- Claro que era - afirma a Selvtica. - E sempre fazia o Bolas pint-la de novo.
- Anselmo, selvtico? - pergunta o Doutor Zevallos.  possvel, afinal de contas, por que no, mas que estranho.
- So mentiras desta mulher, doutor - diz Lituma.
- Para ns, a Selvtica nunca disse isso, acaba de inventar. Vamos ver, por que s agora conta?
- Ningum me perguntou - diz a Selvtica. - Voc no fala que as mulheres tm de viver com a boca fechada?
- E por que ele contou isso a voc? - pergunta o Doutor Zevallos. - Antes, quando a gente queria saber onde tinha nascido, mudava de conversa.
- Porque eu tambm sou selvtica - diz ela, e lana um olhar orgulhoso  sua volta. - Porque ramos conterrneos.
- Voc est nos gozando, novia - diz Lituma.
- Novia, mas bem que voc gosta do meu dinheiro
- diz a Selvtica. - Meu dinheiro tambm tem jeito de novia?
Os Len e Anglica Mercedes sorriem, Lituma enrugou a testa,
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o Doutor Zevallos continua coando o pescoo, com olhos melanclicos.
- No me irrite, chininha - Lituma sorri artificialmente. - No  dia para discusses.
- Cuidado para que ela no se irrite - diz Anglica Mercedes. - E o abandone e voc morra de fome. No se meta com o homem da famlia, invencvel.
Os Len aplaudem-na, seus rostos no esto mais de luto, mas muito alegres, e Lituma acaba rindo tambm, Dona Anglica, com bom humor, que se fosse quando quisesse. 
Ela andava grudada neles como um carrapato, e tinha mais medo de Josefino que do Diabo. E se o abandonasse, Josefino a mataria.
- Nunca mais Anselmo falou da selva, moa?  pergunta o Doutor Zevallos.
- Era mangache, doutor - assegura o Mono. - Esta mulher inventou que era seu conterrneo porque ele est morto e no pode se defender, s para se fazer de importante.
- Uma vez perguntei se tinha famlia l - diz a Selvtica. - Quem sabe, disse, j devem ter morrido todos. Mas outras vezes negava e me dizia, nasci mangache e morrerei 
mangache.
- Est vendo, doutor? - pergunta Jos. - Se alguma vez contou que era seu conterrneo, foi de brincadeira. Afinal, agora voc diz a verdade, prima.
- No sou sua prima - diz a Selvtica. - Sou uma puta e uma novia.
- Que o Padre Garcia no a oua, porque ter outro ataque de raiva - diz o Doutor Zevallos, um dedo sobre os lbios. - E o que  feito do outro invencvel, rapazes? 
Por que no andam mais com ele?
- Brigamos, doutor - diz o Mono. - Ns proibimos a sua entrada na Mangachera.
- Era um mau-carter, doutor - diz Jos. - Gente ruim. No soube que se afundou na vida? Esteve at preso por ser ladro.
- Mas antes eram inseparveis e andavam com ele chateando a pacincia de toda Piura - diz o Doutor Zevallos.
- O que acontece  que ele no era mangache - diz o Mono. - Um mau amigo, doutor.
-  preciso contratar um padre - diz Anglica Mercedes. - Para a missa, e tambm para que venha ao velrio e reze por ele.
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Ao ouvi-la, os Len e Lituma simultaneamente espertam os rostos, franzem o cenho, concordam.
- Algum padre do Salesiano, Dona Anglica - diz o Mono. - Quer que a acompanhe? H um simptico, que joga futebol com as crianas. O Padre Domnico.
- Sabe futebol mas no sabe espanhol - grunhe, afonicamente, o cachecol. - O Padre Domnico, que disparate.
- Como o senhor quiser, padre - diz Anglica Mercedes. - Era para ter um velrio como Deus manda, o senhor entende? A quem poderamos chamar, ento?
O Padre Garcia se levantou e est ajeitando o chapu. O Doutor Zevallos tambm se levantou.
- Virei eu - o Padre Garcia faz um gesto impaciente.
- Aquela machorra no pediu que eu viesse? Para que tanta conversa fiada, ento?
- Sim, padrezinho - diz a Selvtica. - A Senhora Chunga preferia que o senhor viesse.
O Padre Garcia caminha at a porta, curvado e escuro, sem levantar os ps do cho. O Doutor Zevallos tira sua carteira.
- No faltava mais  nada,  doutor - diz Anglica Mercedes. -  convite meu, pelo prazer que me deu trazendo o padre.
- Obrigado, comadre - diz o Doutor Zevallos. - Mas deixo isso, de qualquer maneira, para os gastos do velrio. At a noite, eu tambm virei.
A Selvtica e Anglica Mercedes acompanham o Doutor Zevallos at a porta, beijam a mo do Padre Garcia e voltam ao bar. De braos dados, o Padre Garcia e o Doutor 
Zevallos 
caminham dentro de uma nuvem de p, sob um sol brilhante, entre burros carregados de lenha e de moringas, cachorros peludos e crianas, incendirio, incendirio, 
incendirio, incendirio, de vozes agressivas e infatigveis. O Padre Garcia no se perturba: arrasta os ps com dificuldade e vai com a cabea pendurada sobre 
o peito, tossindo e pigarreando. Ao tomar uma ruazinha reta, um poderoso rumor vem a seu encontro, e eles tm que se encostar a um tabique de bambus para no serem 
atropelados pela massa de homens e mulheres que escolta um velho txi. Uma buzina raqutica e desafinada atravessa o ar o tempo todo. Das choas, sai gente que se 
soma ao tumulto, e algumas mulheres se lamentam e outras levantam seus dedos em cruz para o cu. Uma criana se pe  frente deles, sem os olhar, os olhos vivos
e aturdidos,
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morreu o harpista, puxa a manga do Doutor Zevallos, estavam trazendo-o no txi, com sua harpa, e todos o acompanhavam, e sai disparado, gesticulando.
Afinal, termina de passar a multido. O Padre Garcia e o Doutor Zevallos chegam  Avenida Snchez Cerro, com passinhos muito curtos, exaustos.
- Eu virei busc-lo - diz o Doutor Zevallos. - Iremos juntos ao velrio. Trate de dormir umas oito horas, pelo menos.
- Est bem, est bem - grunhe o Padre Garcia. No fique me dando conselhos o tempo todo.
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HISTRIA SECRETA DE UM ROMANCE'
CARLOS FUENTES
' Esta conferncia, originalmente escrita num ingls um tanto rudimentar, porm mais tarde purificado por meu amigo Robert B. Knox, foi lida na Washington State
University (Pullman, Washington) no dia 11 de dezembro de 1968.




Escrever um romance  um ritual semelhante ao striptease. Como a moa que sob impudicos refletores se desfaz das roupas e mostra, um a um, seus ntimos segredos,
o romancista tambm desnuda sua intimidade em pblico atravs de seus romances. Mas, logicamente, existem diferenas. O que o romancista revela no so seus encantos
ocultos, como o faz a desembaraada moa, seno demnios que o atormentam e o obsediam, ou seja, a parte mais feia de si mesmo: suas nostalgias, culpas e rancores.
Outra diferena  que num strip-tease a moa est vestida no princpio e no final, despida. No caso do romance a trajetria  inversa: no comeo o romancista est
despido e no final, vestido. As experincias pessoais (vividas, sonhadas, ouvidas e lidas) que se constituram no primeiro estmulo para escrever a histria ficam
to maliciosamente disfaradas durante o processo da criao que quando o romance est terminado quase sempre ningum, nem o prprio romancista, pode escutar com
facilidade esse corao autobiogrfico que bate fatalmente em toda fico. Escrever um romance  um striptease invertido, e todos os romancistas, discretos exibicionistas.
Pensei que poderia ser interessante para vocs, leitores de romances, assistir a um desses strip-teases dos quais resulta uma fico. Gostaria de reconstituir
esta noite, numa rigorosa sntese, o processo atravs do qual nasceu um romance que escrevi entre 1962 e 1965: A Casa Verde. No pretendo contar-lhes os problemas
tcnicos
que tive ao escrev-lo, mas os fatos que foram as razes desse romance e o curioso modo pelo qual estas experincias,
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ocorridas em diferentes perodos e circunstncias, convergiram, se misturaram, transformaram-se mutuamente e, de certa forma, se emanciparam de mim para uma histria 
verbal.
O romance se passa em dois lugares muito diferentes de meu pas. Um  Piura, ao extremo norte da costa, uma cidade cercada por grandes arcais. O segundo, muito longe 
de Piura, no outro lado dos Andes,  um pequeno povoado da regio amaznica chamado Santa Maria de Nieva. Esses lugares representam dois mundos histricos, sociais 
e geogrficos completamente opostos e encontram-se isolados um do outro, pois as comunicaes entre ambos so dificlimas. Piura  o deserto, a cor amarela, o algodo, 
o Peru espanhol, a "civilizao". Santa Maria de Nieva  a selva, a exuberncia vegetal, a cor verde, tribos que ainda no entraram na histria, instituies e costumes 
que parecem sobrevivncias medievais. Nesses dois cenrios fixos, principalmente, passa-se A Casa Verde; h tambm outro, mvel, o rio Maran, com o qual corre
outro trecho da histria.
A origem deste romance na minha vida ocorreu h vinte e trs anos, em 1945, quando minha famlia chegou a Piura pela primeira vez (e desde o comeo eu nem suspeitava). 
Ali vivemos apenas um ano, e em seguida minha me e eu nos mudamos para Lima. Esse ano que passei em Piura, quando era um garoto de nove anos, foi decisivo para 
mim. As coisas que fiz, as pessoas que conheci, as ruas, as pracinhas, as igrejas, o rio e as dunas onde meus companheiros do Colgio Salesiano e eu amos brincar 
ficaram gravados a fogo em minha memria. Creio que nenhum outro perodo, antes ou depois, me marcou tanto quanto esses meses em Piura. Qual a razo? Por que me 
lembro desse ano, com tanta nitidez, com essa excessiva riqueza de detalhes? O assunto intriga-me e tentei compreend-lo vrias vezes. Segundo minha me, a razo 
talvez esteja no fato de que nesse ano vi pela primeira vez o mar. At ento vivramos em Cochabamba, uma cidade mediterrnea. No meu entender, a descoberta do oceano 
Pacfico excitou-me mais que a Balboa, a tal ponto que durante muito tempo sonhei ser marinheiro. Ou talvez tivesse sido a descoberta de meu pas, j que 1945 foi 
o primeiro ano que passei no Peru (minha famlia levara-me  Bolvia poucos meses depois que nasci). Nessa poca, entre os nove e dez anos, eu era um nacionalista 
exaltado. Acreditava que ser peruano era prefervel a ser, digamos, equatoriano ou chileno.
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Ainda no havia compreendido que a ptria era uma casualidade irrelevante na vida. Mas talvez a principal razo pela qual essa temporada em Piura afetou-me to profundamente
tenha se originado do fato de que nesse ano alguns amigos solcitos, numa tarde em que tentvamos nos banhar nas guas j quase moribundas do rio Piura, comunicaram-me 
algo que se constituiu num terremoto emocional para mim: que os bebs no vinham de Paris, que no era certo que brancas cegonhas os traziam  vida vindas de exticas 
paragens. Suponho que at ento vivia convencido de haver chegado ao mundo nas fogosas asas desse lindo pssaro (que jamais vira) e de que a cegonha me havia depositado 
nos braos de minha me. O certo  que fiquei seriamente ofendido quando descobri que as coisas haviam corrido de maneira mais terrestre, e foi muito difcil resignar-me 
a aceitar a verdadeira origem dos bebs. Ocorre-me ter sido essa a razo: como fiz a explosiva descoberta em Piura, talvez todos os fatos relacionados no espao 
e no tempo com esse acontecimento capital tenham-se instalado, por contgio, com a mesma tenacidade que ele em minha memria. Seja como for, quando parti de Piura 
para Lima, no vero de 1946, tinha a cabea constelada de imagens. com o tempo algumas se foram apagando, outras sobreviveram, tornando-se fracas e descoloridas. 
Mas duas delas adquiriram a cada dia mais peso e mais vida e se converteram em duas inseparveis companheiras e em dois mitos secretos. A primeira era a silhueta 
de uma casa erguida nas cercanias de Piura, na outra margem do rio, em pleno deserto, e que podia ser vista do Viejo Puente, solitria entre as dunas de areia. A 
casa exercia uma atrao fascinante sobre mim e meus companheiros. Era uma construo rstica, mais uma choa que uma casa, tendo sido inteiramente pintada de verde. 
Tudo nela era diferente: o fato de estar to afastada da cidade e sua inusitada cor. A vegetao era rara na Piura de ento, as casas no tinham jardins, havia poucas 
rvores nas ruas (os algodoais estavam distantes da cidade, s algumas escassas algarobeiras agitavam o areal de vez em quando), e os muros, portas e janelas eram 
quase sempre brancos, amarelos, ocre, quase nunca verdes. Talvez tivesse sido sua solido e sua pele mida que primeiro despertaram a curiosidade de meus amigos 
e a minha em torno dela. Porm, coisas mais inquietantes logo vieram avivar essa curiosidade. Havia algo maligno e enigmtico, um orvalho diablico em torno dessa
habitao que batizramos de "Casa Verde".
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Tinham-nos proibido que nos aproximssemos dela. Segundo os mais velhos, era perigoso e pecaminoso acercar-se desse lugar, e entrar nele, impensvel. Diziam que 
era como morrer
ou entrar no inferno. Os adultos envergonhavam-se quando lhes perguntvamos sobre a Casa Verde. O que ocorria em seu interior? Nada, coisas ms e perversas, no 
faam perguntas tolas, calem-se, vo jogar futebol. Meus amigos e eu nos sentamos inquietos com essas advertncias. Falvamos o tempo todo disso, nossa imaginao 
trabalhava tentando adivinhar o que se escondia por trs de tanto mistrio. Eu suspeitava que havia algum vnculo entre a Casa Verde e a destruio do mito de Paris 
e das brancas cegonhas, mas no era capaz de saber qual, nem como ou por qu. Meus amigos e eu no nos atrevamos a acercar-nos muito da Casa Verde porque, ao mesmo 
tempo em que nos atraa, tambm nos assustava. Mas todo o tempo amos espi-la. Tnhamos um formidvel posto de observao no Viejo Puente. Observar a Casa Verde 
de noite era verdadeiramente divertido, uma vez que durante o dia essa pequena construo era quieta, pacfica e inofensiva. Parecia um lagarto dormindo na areia, 
uma rvore tomando sol. Mas ao anoitecer a Casa Verde tornava-se um ser vivente e lcido, alegre e barulhento. Podamos ver as luzes e apreciar a msica: porque 
nas noites da Casa Verde se cantava e se danava. Mas do Viejo Puente meus companheiros e eu podamos tambm e isso era ainda mais excitante - reconhecer os visitantes 
da Casa Verde. Porque, assim que desciam as sombras sobre Piura, a Casa Verde comeava a receber muitas visitas e, curiosamente, s masculinas. Espivamos e disfarvamonos 
quando reconhecamos nossos irmos, nossos tios, nossos prprios pais atravessando sigilosamente o Viejo Puente. Ao nos ver surgir diante deles, alarmavam-se e confundiam-se. 
Enlouqueciam de raiva ao nos ouvir gritar seus nomes. No queriam que soubssemos que freqentavam a Casa Verde, e para silenciar-nos tentavam nos subornar ou nos 
castigavam. Outra brincadeira que eu e meus amigos costumvamos fazer era reconhecer uma das senhoras que viviam na Casa Verde quando ia  cidade fazer compras, 
 igreja ou ao cinema, j que nessa estranha habitao havia mais um mistrio: s existiam mulheres. No recordo qual de ns, talvez eu mesmo, comeou um dia a chamar 
de "habitantes" as enfeitadas senhoras da Casa Verde. Desde ento s as chamvamos assim. Logo que reconhecamos uma dessas elegantes e orgulhosas senhoras na rua,
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corramos atrs dela rodeando-a e gritando: "Ei, habitante, moradora da Casa Verde!" Ento a senhora perdia a compostura, enrubescia, vinha ao nosso encalo, atirava 
pedras, espantava-nos
com furiosas grosserias. Tampouco as "habitantes" queriam que soubessem que viviam na Casa Verde. Tnhamos no colgio um professor de religio, o Padre Garcia, 
um padre velho e mal-humorado que perdia as estribeiras quando se inteirava que estivramos espiando a Casa Verde ou provocando alguma "habitante". Ento repreendia-nos 
e nos castigava. Era um apaixonado colecionador de estampas religiosas e seus castigos consistiam sempre em mandar obter alguma pea rara para sua coleo. Bem, 
essa era uma das imagens que levei a Lima e que perdurou, marcando obstinadamente minha memria.
A outra imagem que, como a Casa Verde, viveu e cresceu comigo era a de um bairro piurano, um setor curiosssimo da cidade. O bairro chamava-se Mangachera. Vivia 
nele uma gente muito pobre, e a maioria de suas casas eram frgeis cabanas de barro e cana-brava, erguidas na areia, porque a Mangachera se achava tambm no deserto, 
exatamente no ngulo da cidade oposto ao da Casa Verde. Esse bairro miservel era o mais alegre e o mais original de Piura. Em muitas de suas choas uma haste rstica 
desfraldava bandeirinhas vermelhas ou brancas sobre os telhados. Estas choupanas eram as chicheras e as picanteras, onde se podiam beber todas as variedades da 
chicha, desde a clarinha at a mais espessa, e saborear os inmeros pratos da cozinha local. Todos os conjuntos musicais, todas as orquestras piuranas haviam nascido 
na Mangachera. Os melhores violonistas, os melhores harpistas, os melhores compositores de valses e tonderos, os melhores cantadores da cidade eram mangaches. O 
bairro tinha uma personalidade poderosa e diferente. Todos os mangaches sentiam-se orgulhosos de haverem nascido e de viverem no bairro. Primeiro eram mangaches, 
depois piuranos, e s ento peruanos. A rivalidade da Mangachera com outro bairro da Piura, a Gallinacera, fora algo lendrio e provocara combates corpo a corpo 
e a faca, desafios individuais e lutas coletivas. Entretanto, nessa ocasio a Gallinacera j se havia dissolvido no que poderamos chamar, com um pouco de ironia, 
de civilizao. Era um bairro modesto, de empregados, comerciantes e artesos, e s a Mangachera representava ainda a antiga, colorida e ruidosa vida brbara da 
cidade. Uma lenda circulava em Piura sobre a Mangachera:
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que os mangaches jamais haviam permitido que uma patrulha da Guarda Civil entrasse  noite no bairro. Os mangaches odiavam os policiais. O homem fardado que se aventurasse 
pelo bairro
era insultado, sofria zombarias, era apedrejado pelos meninos e quase sempre agredido. Os mangaches odiavam a polcia, entre outras razes porque a Mangachera era 
tambm o bero dos ladres mais audazes, dos mais inventivos e eficazes delinqentes de Piura. Nesse ano de 1945 li vrios romances de Alexandre Dumas que me encantaram 
(e ainda me fascinam), e os lia com essa paixo to pura e ardente de quem os l aos dez anos de idade. Recordo muito bem que, quando aparecia nos romances de Dumas 
o Ptio dos Milagres, esse alucinante bairro (segundo a viso que dele nos deram os romnticos) da antiga Paris, refgio de aventureiros e criminosos, imediatamente 
pensava na Mangachera. Essa identificao perdurou em minha mente. No posso ouvir mencionar o Ptio dos Milagres sem deixar de visualizar, no mesmo instante, as 
choas, as chicheras, os cachorros vira-latas, os burrinhos (chamados piajenos), os mangaches ruidosos e briges.
Outra caracterstica dos mangaches consistia em serem eles "urristas", ou seja, filiados ou simpatizantes do Partido Unio Revolucionria, fundado pelo General Snchez 
Cerro e por Luis A. Flores, um dos poucos entusiastas que teve o fascismo no Peru. Os mangaches no eram urristas por adeso  ideologia fascista, que ignoravam, 
mas sim por devoo pessoal ao General Snchez Cerro, o qual, segundo um mito falso e pertinaz, nascera em uma choa da Mangachera. Diziam que, l pelos anos 30, 
Flores organizara manifestaes urristas nas quais os mangaches desfilaram com camisas e trapos negros, fazendo a saudao imperial pelas ruas de Piura. Em 1945, 
a Unio Revolucionria dissimulava com afinco esses antecedentes totalitrios e se apresentava como um partido democrtico. Para essa poca o urrismo era uma curiosidade 
arqueolgica no Peru. S em Piura tinha certa raz popular, pela lealdade pitoresca e irracional da Mangachera  figura de Snchez Cerro, morto j h vrios anos. 
Tambm num sentido poltico, Piura significava um caso  parte no pas: era o nico lugar onde se podia falar de um certo equilbrio de partidos, ao passo que no 
resto do Peru todo o povo organizado, ou quase todo ele, era aprista. Os outros partidos s reuniam comits e grupos reduzidos. Em Piura eram partidos de massas:
o urrismo, o aprismo e o Partido Socialista,
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este ltimo tambm por lealdade pessoal de bom nmero de camponeses e operrios  admirvel figura de Hildebrando Castro Pozo, um grande lutador social piurano. 
Certos bairros eram
apristas, outros socialistas e a Mangachera era urrista. Em todas as choas mangaches havia fotos recortadas de jornais e revistas, j amareladas, do General Snchez 
Cerro.
Outro orgulho do bairro era jamais ter admitido em seu seio uma famlia aprista. Os mangaches, em suas bomias e farras, se no cantavam valses e tonderos, davam 
vivas a Snchez Cerro e insultavam o Apra. As brigas polticas eram tambm, nesse ano de 1945-1946 (um dos mais democrticos e livres de toda a histria peruana), 
espetculo cotidiano da cidade. A Mangachera foi outra grande recordao que levei de Piura.
Em Lima ingressei no Colgio La Salle. Cresci. Nos anos seguintes (como vocs podero imaginar) ocorreram-me coisas mais importantes que os prprios ensinamentos 
escolares. Sete anos depois voltei a Piura. Foi em 1952, e tambm dessa vez, tal como a primeira, vivi um ano nessa cidade. Tinha ento dezesseis anos quando terminei 
o colgio. A Casa Verde ainda estava l, no mesmo lugar. E tambm a Mangachera. A coleo de estampas religiosas do Padre Garcia aumentara, como tambm seu mau 
humor. Ele era um velhinho rabugento que, bradando e agitando os braos, perseguia os meninos que brincavam fazendo algazarra na Plazuela Merino. J nessa poca 
eu admitia que a verdadeira origem dos bebs no era to terrvel, e que, inclusive, a coisa tinha certa graa. Meus companheiros de classe (em vez de regressar 
ao Salesiano ingressei no Colgio Nacional de San Miguel, e ali reencontrei muitos colegas de classe da poca de 1945, que por sua vez tambm tinham mudado de colgio) 
continuavam muito interessados na Casa Verde, e eu tambm. Os adultos ainda insistiam que no convinha aproximar-se desse lugar, que era perigoso para o corpo e 
pernicioso pbra a alma. Contudo, nessa poca j no ramos obedientes, j no temamos o inferno e os perigos fsicos e espirituais nos atraam. Ousvamos dela acercar-nos 
e tambm nela entrar. Assim conheci a Casa Verde por dentro, assim se desfez o mistrio de tantos anos. Confesso que senti uma certa desiluso. A realidade encontrava-se 
abaixo dos mitos e caminhos com que a fantasia povoara o verde palcio das dunas.
De fato, o palcio revelava-se agora primitivo e pauprrimo. A manso dos sonhos era apenas um modestssimo
bordel.
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As senhoras pareciam menos orgulhosas, menos altivas, menos elegantes, mais folclricas e vulgares que h sete anos. Mas ainda que a imagem que eu forjara
fosse to diferente, havia algo de feiticeiro e memorvel nesse bordel. Era uma instituio subdesenvolvida, nada confortvel, mas verdadeiramente original. Consistia 
numa s e enorme habitao, cheia de portas que davam para o deserto. Havia uma orquestra de trs homens: um velho quase cego que tocava harpa, um violonista e cantor 
muito jovem, e uma espcie de gigante, levantador de pesos ou lutador profissional, que tocava o tambor e os pratos. Num canto do salo via-se o bar, um balco sobre 
dois cavaletes onde atendia uma mulher sem idade, de cara amarrada e puritana. Entre o bar e a orquestra estavam as "habitantes", caminhando de um lado para outro, 
ora fumando, ora sentadas em toscos bancos, apoiadas na parede,  espera dos visitantes noturnos. Estes chegavam com as sombras. Os visitantes e as "habitantes" 
ento conversavam, brincavam, danavam e bebiam. Mais tarde os casais saam para se amar na areia, ao p das dunas, sob as fosforescentes estrelas noturnas. No 
havia problema algum: em Piura quase nunca chove, as noites so mornas e estimulantes. Nisso consistia, exceto algumas espordicas brigas de bbados ou alguma suntuosa 
festa financiada por um grande senhor que celebrava uma colheita notvel, todo o mistrio da Casa Verde. Quando deixei Piura, nos primeiros meses de 1953, essa nova 
imagem do lugar coexistiu com a antiga. Desde ento, nunca mais voltei a essa cidade.
Retornei a Lima e ingressei na universidade. Minha famlia estava convencida de que eu deveria ser advogado porque possua forte esprito de contradio e detestava 
matemtica. Coerente com esse esprito de contradio, logo troquei as leis pelas letras e filosofia. At ento eu j vinha h algum tempo escrevendo contos, poemas 
e at conclura uma pea teatral versando sobre os incas. Mas a primeira coisa que julguei escrever seriamente, trabalhando com afinco durante vrias semanas, foi 
um curto romance ou um extenso relato onde procurei construir uma histria inspirada justamente nessas recordaes provenientes de Piura: a Casa Verde e a Mangachera. 
Mas no recordo o relato: as personagens e a histria me fugiram. S sei que era uma espcie de tragdia, injetada de sangue e fanatismo. Sentime um pavo real quando 
a terminei. Pensei que j me tornara um escritor. Dei-a a ler a um amigo, cujo juzo literrio
respeitava,
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e ele abriu-me os olhos sem contemplaes. "Prefiro o original", disse-me. "Teu relato se parece muito com A letra escarlate, de Hawthorne." E com
efeito provou-me que minha histria repetia com fidelidade alguns detalhes de A letra escarlate. Foi um golpe bastante duro. Eu estava confuso, angustiosamente
consciente das marcas que Daro, Neruda, Vallejo deixavam nos poemas que escrevia, mas com esse relato tive a certeza de que escrevera algo bem pessoal. No havia
nem remotamente suspeitado, enquanto trabalhava esse texto, que imitava Hawthorne. Como efetivamente me impressionara muito com seu romance, pensei que tinha poucas
esperanas como escritor. Furioso comigo mesmo e com todos, reduzi a pedaos o manuscrito e esqueci a Casa Verde, as "habitantes" e os mangaches. Pensei que os 
esquecera, mas o certo  que permaneceram ali no fundo da minha memria, obstinados e invictos.
Apesar dessa lamentvel experincia como criador, continuei escrevendo enquanto estudava na universidade, mas no com a idia de um dia chegar a me tornar escritor. 
 muito difcil pensar em "ser um escritor" quando se nasce num pas onde quase ningum l: os pobres porque no sabem ou porque no possuem os meios para adquirir 
conhecimentos, e os ricos porque no sentem vontade. Numa sociedade assim, querer ser escritor no  optar por uma profisso, mas sim por um ato de loucura. Nesses 
anos sequer me atrevia a alimentar a ambio de ser somente um escritor. Um dia disse a mim mesmo: apesar de tudo, por que no ser advogado? No dia seguinte tentei 
convencer-me de que seria professor, j no outro, que talvez fosse mais sensato dedicar-me ao jornalismo. Mudava minhas decises e profisses a todo instante e, 
paralelamente, continuava escrevendo em segredo, como quem pratica uma vocao vergonhosa. Assim se passaram cinco anos. Em 1957 terminei meus estudos. Havia comeado 
a trabalhar como auxiliar do curso de literatura peruana na Universidade de San Marcos e tudo indicava que me tornaria professor. No ano seguinte obtive uma bolsa 
de estudos para realizar o curso de doutorado em Madri. J estava preparando as malas quando chegou a Lima um antroplogo mexicano, o Doutor Juan Comas. Vinha ao 
Peru 
para proceder a certas pesquisas nas tribos da Amaznia. Juntamente com a Universidade de San Marcos, o Instituto Lingstico de Verano organizou uma expedio 
 regio, e graas  amizade com uma das organizadoras, Rosita Corpancho,
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tive a sorte de participar do pequeno grupo que acompanhou o Doutor Comas. Estivemos na selva durante vrias semanas viajando num pequeno hidroavio e de canoa, 
sobretudo pela regio do
alto Maran, onde se encontram, disseminadas num amplo territrio, as tribos aguarunas e huambisas. Foi assim que conheci essa pequena localidade, Santa Maria de 
Nieva, o outro cenrio de A Casa Verde. Essa viagem pelo Peru amaznico impressionou-me profundamente. Descobri um rosto de meu pas que desconhecia por completo; 
at ento a selva era um mundo que eu s conhecia atravs das leituras de Tarz e de certos seriados cinematogrficos. Como algum que nunca se afastou de Lima ou 
da costa, descobri ali que o Peru no somente era um pas do sculo XX com enormes problemas, e que tambm participava, embora de maneira catica e desigual, dos 
avanos sociais, cientficos e tcnicos do nosso tempo, mas tambm que o Peru era a Idade Mdia e a Idade da Pedra. Descobri que nessa afastada regio (afastada 
pela ausncia de comunicaes, embora situada a poucas horas de vo de Lima) a vida era para os peruanos algo atrasado e selvagem, que a violncia e a injustia 
eram ali a primeira lei da existncia, no com o refinamento e a sofisticao de Lima, porm de modo mais imediato e descarado. Quando o antroplogo mexicano e 
seus acompanhantes voltaram a Lima, eu trazia comigo um pequeno lagarto embalsamado pelos skapras, arco e flechas shipibos e, sobretudo, uma infinidade de recordaes 
da viagem. Nos anos seguintes, dessa massa de coisas vistas e ouvidas prevaleceriam trs, destacando-se como as imagens mais agressivas. A primeira era a misso 
de Santa Maria de Nieva. Segundo a tradio, o povoado surgira em redor dessa misso, fundada na dcada de 40 por freiras espanholas que chegaram a essa inspita 
regio com o propsito de catequizar os huambisas e os aguarunas. Tivemos oportunidade de conhec-las de perto e de presenciar a dura vida que levavam nesse lugar. 
Durante os meses de chuvas, quando os riachos que a cercam se convertem em torrentes homicidas, essa localidade ficava isolada do mundo. Assistimos ao enorme sacrifcio 
que representava para as freiras permanecer em Santa Maria de Nieva. As caras gordas e rosadas das freiras galegas e os rostos morenos das andaluzas haviam sido 
feridos pelos insetos e pelas febres, e algumas delas, principalmente as mais velhas, comeavam a esquecer sua lngua, arranhando o espanhol empobrecido dos indgenas. 
Sem dvida alguma o caso pessoal dessas missionrias era
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digno de respeito e at de admirao. Mas, ao mesmo tempo, percebemos como todos esses herosmos, em vez de alcanarem a meta que os inspirava, logravam exatamente
o contrrio, e como as boas freiras nem sequer remotamente percebiam isso. O que acontecia ento? As freiras tinham construdo uma escola para os aguarunas. Queriam 
ensinarlhes a ler e a escrever e a falar o castelhano, a no viverem nus, a adorarem o verdadeiro Deus. O problema surgira pouco depois de aberta a escola: as meninas 
aguarunas no iam  misso e seus pais no se davam ao trabalho de mand-las; embora a distncia entre os povoados aguarunas e Santa Maria de Nieva no fosse grande, 
o nico meio de transporte era o rio, por isso a viagem demorava horas e, em certos casos, dias. Essa era uma das razes pelas quais a escola das missionrias tinha 
poucas alunas. Entretanto, a principal razo provavelmente vinha do fato de as famlias aguarunas no desejarem que suas filhas fossem "civilizadas" pelas irms. 
E por que motivo se opunham ento? Porque desconfiavam que, uma vez "civilizadas", as meninas se afastariam de suas tribos e de suas famlias. Esse era o motivo, 
indubitavelmente, pelo qual se negavam a confiar suas respectivas filhas s esforadas freiras. Contudo, o problema foi resolvido de maneira policial. Ocasionalmente 
um grupo de freiras saa acompanhado por uma patrulha de guardas para recolher alunas nas choas dos bosques. As freiras entravam nas aldeias, escolhiam as meninas 
em idade escolar e as levavam  misso de Santa Maria de Nieva, tendo os guardas por incumbncia neutralizar qualquer resistncia. As meninas permaneciam na misso 
dois, trs ou quatro anos e efetivamente eram civilizadas. Aprendiam a linguagem da civilizao, os costumes "civilizados", ler, escrever, coser, bordar, e, naturalmente, 
a "verdadeira religio". Aprendiam a vestir-se, a usar sapatos, a cortar os cabelos, a odiar sua condio anterior e a envergonhar-se de suas antigas crenas e costumes. 
Mas o que acontecia to logo essas meninas estivessem devidamente preparadas para a civilizao? O problema que se apresentava s freiras era enorme, porque em Santa 
Maria de Nieva no havia nada que se assemelhasse  vida civilizada; ali imperava a barbrie. O que fazer dessas meninas? Devolv-las s tribos, a suas famlias? 
Teria sido absurdo e cruel restitu-las a um sistema de vida que lhes haviam sistematicamente ensinado a repudiar e do qual j se lembravam com certo espanto. Dificilmente 
se adaptariam  vida de outrora, andando seminuas,
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adorando serpentes ou rvores, sendo uma das duas ou trs mulheres-escravas de um cacique. Mas essas meninas tampouco podiam permanecer indefinidamente
com as freiras, pois era preciso dar lugar s novas alunas. Como resolviam as freiras esse segundo problema? Confiavam muitas dessas meninas aos representantes 
da civilizao que apareciam em Santa Maria de Nieva: oficiais das guarnies da fronteira, comerciantes de Bagua, Contamana ou Iquitos, engenheiros e tcnicos que 
faziam prospeces petrolferas na regio. As freiras lhes entregavam essas meninas para que fossem trabalhar como empregadas, com toda sorte de recomendaes. 
Queriam estar seguras de que as meninas no perderiam, em suas novas e afastadas residncias, o que haviam adquirido na misso. Faziam-nos prometer que nas novas 
famlias as moas continuariam a receber instruo, civilizando-se. Ento os oficiais, comerciantes e engenheiros faziam todos os juramentos necessrios: naturalmente 
que aos domingos iriam  missa; estariam sempre bem-vestidas e, evidentemente, seriam bem tratadas. Em vez de uma, os representantes da civilizao s vezes levavam 
duas e at trs aguarunas, para amigos e parentes. Assim partiam essas moas da selva rumo s cidades, principalmente para Lima, onde, com certeza, terminariam 
seus dias como cozinheiras ou babs nas casas miserveis dos subrbios ou nas "casas verdes". Inadvertidamente,  custa de tremendos trabalhos, as freiras de Santa 
Maria de Nieva estavam fazendo o papel de provedoras de domsticas para famlias da classe mdia, e povoando com novas inquilinas o inferno dos subrbios e os prostbulos 
da civilizao. A extraordinria ambigidade de tudo isso pareceu-me quase to impressionante quanto o invisvel drama pelo qual as amveis freiras missionrias 
eram cegas responsveis.
No gostaria de lhes dar a impresso de ser ingnuo conservador da teoria voltairiana do bom selvagem corrompido pela civilizao crist. A vida nas tribos est 
longe de ser ideal. Tenho bem presente as imagens dos meninos de barrigas-d'gua, o fantasma da desnutrio, as cabeleiras cheias de lndeas, as mulheres deformadas 
pelo trabalho animal, as chocantes estatsticas sobre a mortalidade na Amaznia, as histrias de populaes dizimadas por uma simples gripe. Estou muito longe de 
compartilhar da atitude temvel de certos antroplogos que pretendem conservar a todo custo, fielmente intacta, a vida pr-histrica das tribos, para (como o lobo
com Chapeuzinho Vermelho) "estud-la melhor".
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Nada disso. S direi que a soluo proposta pelas freiras ao drama aguaruna no passava de uma maneira de acrescentar problemas (com abnegada cegueira)
 vida dessa maltratada gente.
Nessa expedio viajava Efran Morote Best, professor da Universidade de Cuzco, que alguns anos antes fora coordenador do Ministrio da Educao na selva. Sua funo 
era supervisionar e ajudar as escolas indgenas da Amaznia. Durante dois anos Morote percorrera praticamente toda a selva em condies muito difceis. s vezes 
acompanhado por um guia e outras sozinho, cruzou de canoa os rios amaznicos, dormindo onde o surpreendia a noite, no meio do bosque ou em praias, alimentando-se 
do que os indgenas lhe ofereciam. Vangloriava-se de ter feito a barba todos os dias durante essas viagens, de nunca ter cedido  tentao de adotar uma aparncia 
de "aventureiro" ou "explorador". Morote no se limitara a fornecer material de trabalho aos professores indgenas e a organizar escolas nas tribos. Folclorista 
e socilogo, estudara as condies de vida nos povoados, seus sistemas de trabalho, suas crenas, e tambm compilara lendas e canes. A presena de Morote Best 
foi muito til para ns: era uma fonte de informao inestimvel. Ademais, graas a ele foi-nos possvel conversar com os aguarunas, os huambisas e os shapras, 
que o conheciam e confiavam nele. Se nos poucos dias que durou nossa viagem pela selva vimos tanta dor, provocava-nos certa angstia imaginar tudo o que j havia 
visto Morote em seus dois anos amaznicos. Pequenino, cerimonioso, cultivando o hbito da dico perfeita como todos os intelectuais cuzquenhos, uns olhos vivos 
que demonstravam sua energia, Morote, nesses dois anos, tornara-se mais um defensor das tribos do que um simples inspetor de educao. O Ministrio de Educao e 
da Guerra e as prefeituras e subprefeituras da selva haviam sido bombardeados durante esses vinte e quatro meses com cartas e informes de Morote, denunciando raptos, 
roubos, abusos de autoridade e atentados contra as escolas. Algumas vezes esse homenzinho assustado (como o hidroavio era pequeno, cada vez que amos decolar o 
Doutor Comas costumava erguer sobre os ombros Morote para que a cauda do aparelho ficasse livre de peso) enfrentara pessoalmente os autores das confuses e, logicamente, 
conquistara inimigos. Quando estvamos no povoado aguaruna de Urakusa chegou um homem procedente de Santa Maria de Nieva. Ao avistar Morote, deu mostras de uma agitao
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desconcertante e de verdadeiro terror. Pouco depois soubemos a razo. As autoridades desse povoado convenceram os aguarunas e os huambisas da regio de que Morote
fora torturado por t-los enfrentado. Montaram toda uma pantomima: transmitiam aos indgenas um programa de rdio de Lima, com choros, gritos e gemidos, no qual 
se dizia: "Esto ouvindo? Esse homem que pede auxlio  Morote, esto matando-o por ter-se metido conosco". Ao se deparar com Morote em Urakusa o homem acreditou 
estar diante de um ressuscitado.
Em outro povoado aguaruna onde estivemos numa noite conhecemos Esther Chuwik. Era uma menina de uns dez ou doze anos, alta, abestalhada, de olhos claros e voz suave. 
Falava um pouco o espanhol e tivemos oportunidade de conversar com ela durante uma festa que os aguarunas organizaram em nossa honra. Como outras meninas da selva, 
fora raptada alguns anos atrs. Seus raptores a levaram primeiramente a Chiclayo e em seguida para Lima, onde a mantiveram como empregada. Morote Best, quando exercia 
o cargo de coordenador do Ministrio de Educao na selva, chegou certo dia a Chicais, tendo o professor dos ndios lhe mostrado um casal, que chorava. Tratava-se 
dos pais de Esther Chuwik. Morote seguira a pista dos raptores, conseguindo resgatar a menina e devolv-la a seu povo. Esther no podia ou no queria recordar nada 
sobre sua passagem por Chiclayo e por Lima. Mas as coisas que me contou, sua timidez e seus olhos vivos ficaram gravados em minha memria. Sua histria no era excepcional, 
o rapto de crianas ocorria com freqncia na selva. S na minscula aldeia de Chicais, Morote registrara vinte e nove raptos nos ltimos anos. Os patres, os engenheiros, 
os oficiais, os comerciantes, todos os "embaixadores da civilizao", quase sempre levavam alguma menina indgena para dedicar-se aos trabalhos domsticos. Por uma 
Esther Chuwik que conseguira localizar, Morote fracassara em dezenas de outros casos. Mas, de qualquer forma, soube ganhar a simpatia e o reconhecimento das tribos. 
Era comovedor assistir a como o recebiam nas aldeias. Aguarunas, huambisas, shapras o rodeavam, barulhentos e gesticulantes, comeavam a contar-lhe suas queixas 
e a pedir-lhe coisas. Esse espetculo durava todo o tempo que permanecamos no lugar. Era divertido v-lo - belo, baixinho, narigudo - anotando tudo numa cadernetinha 
e explicando aos indgenas, com corts solenidade,
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que, embora j no fosse coordenador, faria todo o possvel para "resolver o assunto".
A misso de Santa Maria, as freiras, as meninas aguarunas, Esther Chuwik seriam uma persistente recordao dessa viagem pela selva.
Outra recordao refere-se  histria de um homem que conhecemos nessa viagem. Havamos sado de Chicais em direo a Urakusa de canoa porque o hidroavio no podia
decolar no porto fluvial do povoado, j que o rio estava raso. Tivemos que navegar durante algumas horas. Nunca esquecerei o caminho dos canos, estreitos cursos
d'gua cobertos pelas rvores, tneis escuros que unem rio a rio, ou lago a lago, e que s vezes tinham a largura da canoa. Era necessrio, por momentos, atravessar
encolhidos at tocar o rosto com os joelhos. Em Urakusa, situada a pequena distncia de Santa Maria de Nieva, conhecemos a histria de Jum, o alcaide desse povoado
aguaruna. Ele aparecera para receber-nos com a cabea raspada, o rosto machucado e cicatrizes nas costas e nas axilas. A histria comeara algumas semanas atrs,
quando um cabo da guarnio de Borja, chamado Roberto Delgado Campos, pediu a seus chefes licena para ir a sua terra natal, Bagua. O cabo empreendeu a travessia
para Borja acompanhado de sete homens. Quando souberam em Urakusa que o grupo se aproximava, os aguarunas, temerosos de que se tratasse de uma leva de soldados,
internaram-se nas montanhas. O cabo e seus homens pernoitaram aquela noite na comunidade abandonada. Delgado Campos e os outros partiram no dia seguinte com as
malas repletas de provises e objetos de valor que encontraram no povoado. Quando os urakusas regressaram e perceberam que haviam sido roubados, saram em busca
dos ladres. Alcanaram-nos alguns dias depois quando Delgado Campos e seus homens dormiam no bosque. O cabo e trs de seus soldados foram capturados, agredidos
e recambiados para Urakusa; l chegando, encontraram-se com Jum, que voltava de uma viagem de vrios dias pela selva. O alcaide, que at aquele momento ignorava
o ocorrido, ordenou a liberdade de Delgado Campos, emprestando-lhe inclusive sua canoa para que retornasse a Borja. Alguns dias mais tarde desembarcava em Urakusa,
procedente de Santa Maria de Nieva, uma expedio oficial para pedir ao povoado contas do ocorrido. Encabeava-a o tenente-governador de Nieva, Jlio Retegui, e
integravam-na onze homens. Ao v-los chegar  aldeia,
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Jum dela se aproximou para dar as boas-vindas ao governador. Este, em vez de estender-lhe a mo para cumpriment-lo, jogou-lhe a lanterna no rosto. Os aguarunas 
comearam a
correr, mas alm de Jum foram capturados cinco homens, duas mulheres e vrias crianas. O restante do povoado desapareceu no bosque. Os seis prisioneiros ficaram
amarrados numa cabana de Urakusa, que os vizinhos nos mostravam excitados e loquazes. Ali os prisioneiros foram amarrados, aoitados e golpeados a pontaps pelos
soldados que acompanhavam o governador. As duas aguarunas foram violentadas. Uma delas, mulher de um homem chamado Tandm (lembro-me dele, um homem desconfiado e 
triste, com uma grande barriga-d'gua e hermeticamente silencioso), que se encontrava amarrado com Jum e que tambm fora ferido no rosto, foi maltratada oito vezes 
diante do marido e dos filhos. No dia seguinte Jum foi transportado, sozinho, a Santa Maria de Nieva. Penduraram-no despido numa rvore da praa e aoitaram-no at 
perder os sentidos. Chegaram at a queimar-lhe as axilas com ovos quentes (nunca consegui entender como o fizeram). Depois da tortura veio a humilhao: rasparam-lhe 
a cabea. Assistiram ao castigo o tenente-governador de Santa Maria de Nieva, Jlio Retegui, o juiz de paz Arvalo Benzas, o alcaide Manuel Aguila, um tenente do 
Batalho de Engenheiros n. 5, Ernesto Bohrquez Rojas, a professora do lugar, Alicia de Retegui, e um missionrio jesuta. Aps trs dias de torturas, Jum foi 
posto em liberdade, regressando ento a Urakusa. Como falava castelhano muito bem, pde contar-nos a histria detalhadamente. Quando vacilava, Morote Best, que tinha 
alguns conhecimentos de aguaruna, vinha em sua ajuda. Vez por outra Jum dava um gritinho histrico e apontava para as rvores dizendo: "paiche, paiche". Era uma 
metfora: queria dizer que o haviam pendurado numa rvore como na Amaznia so pendurados os paiches, peixes mamferos cujas maminhas fizeram com que os primeiros 
espanhis que navegaram pelos rios da selva acreditassem haver chegado ao mitolgico reino das amazonas.
O incidente com o Cabo Delgado Campos no explica totalmente a violncia que sofreram Urakusa e Jum. A razo profunda da brutalidade das autoridades de Santa Maria 
de Nieva era econmica. Os aguarunas haviam tratado, pouco antes desse episdio, de organizar uma cooperativa para escapar ao domnio dos "patres", homens que controlavam 
o comrcio da borracha e das peles na regio.
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As tribos do alto Maran viviam ento - temo que as coisas no se tenham modificado muito - da borracha que vendiam aos "patres" ou intermedirios, que, por sua 
vez, a revendiam
aos centros industriais ou ao Banco de Desenvolvimento Agropecurio. O "patro" comprava o quilo da borracha a um preo que oscilava entre um sol e vinte e cinco 
soles e a revendia em Contamana por uma quantia trs a quatro vezes maior. Esse era apenas um filo do negcio. A maioria dos aguarunas e huambisas fornecedores 
da borracha no sabia ler nem escrever, e menos ainda usar as balanas em que se pesava a mercadoria. Assim, ao receber a borracha era o "patro" quem determinava 
seu peso, e, naturalmente, este resultava sempre inferior ao real: as balanas estavam astuciosamente preparadas... E havia ainda mais: a transferncia no se fazia 
por meio de dinheiro, e sim em espcie. O "patro" pagava em machadinhas, espingardas, vestidos, cujo preo ele mesmo fixava. Assim, ao entregar a borracha o aguaruna 
ficava sempre em dvida com o intermedirio. A machadinha, a espingarda, os vveres e a roupa que recebia no chegavam nunca a ser pagos pelas bolas de borracha, 
de modo que ele tinha que penetrar de novo na floresta a fim de extrair mais borracha, e, alguns meses depois, em uma nova transao com o intermedirio, teria 
sua dvida aumentada. Esse sistema imperava h dezenas de anos, era uma sobrevivncia da poca de ouro da selva (fins do sculo passado e comeos deste), quando 
a "febre da borracha" se espalhou. Essa poca j findara. Os "patres" eram agora pobres e miserveis, descalos, semi-analfabetos e de costumes primrios. A borracha 
e as peles da Amaznia deixaram de ser um bom negcio. No alto Maran a explorao do homem pelo homem alcanava limites de violncia bestial, mas os beneficirios 
desse horror no obtinham dele a riqueza, nem sequer o bemestar, mas apenas uma sombria sobrevivncia. A pobreza da regio e o anacronismo dessa sociedade provocavam 
uma explorao feita a nvel desumano. Dentro do "Plano de Educao" para a selva, idealizara-se nesses anos um sistema que consistia em levar os homens mais vivos 
e esforados das tribos a freqentar um curso de alguns meses de durao em Yarinacocha (perto de Pucallpa), onde est a central do Instituto Lingstico de Verano, 
a fim de que logo retornassem a suas tribos e abrissem escolas. Jum recebera esse treinamento em Yarinacocha. No sei se essa temporada na "civilizao" transformaria
o grupo de aguarunas em bons professores.
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Mas alertou alguns sobre um problema muito concreto: compreenderam, ao constatar o verdadeiro valor do dinheiro e das coisas, o abuso de que
eram vtimas por obra dos "patres". Descobriram que, se em vez de vender as bolas de borracha e as peles aos intermedirios, as vendessem diretamente nas cidades, 
obteriam benefcios muitssimo maiores. Aprenderam tambm que os objetos recebidos dos "patres" em troca da borracha lhes custariam muito menos se adquiridos nas 
lojas. Assim nasceu a idia de organizar uma cooperativa aguaruna, e Jum fora um dos promotores dessa idia. Em Chicais havia sido celebrada uma reunio de alcaides 
de dez ou doze povoados pelos quais esto dispersos os aguarunas no alto Maran. Ali Jum e os outros professores convenceram seu povo a que deixassem de comerciar 
com os "patres" e reunissem a borracha e as peles de todas as tribos em Chicais para, uma vez por ano, realizar uma expedio at Iquitos a fim de vend-las diretamente 
aos industriais. Uma grande cabana foi construda para servir de depsito. Ns a visitamos e a cobrimos com os mosquiteiros na noite em que estivemos em Chicais, 
mas no conseguimos pegar no sono (devido ao cheiro forte das bolas de borracha, das peles de anta, jaguar e jacar). O projeto da cooperativa aguaruna era uma sentena 
de morte para o negcio dos "patres". Era esta, na realidade, a causa do castigo de Jum e de Urakusa ordenado pelas autoridades de Santa Maria de Nieva. Os "patres" 
da regio, sob o pretexto do incidente do Cabo Delgado Campos, avisaram Jum, enquanto o torturavam e quando o libertaram, "que os aguarunas se esquecessem de vender 
suas mercadorias na cidade". Quando passamos por Urakusa e ficamos sabendo da histria, no poderamos prever se o castigo exemplar sofrido por esse aguaruna e seu 
povoado daria exatamente os resultados esperados pelos verdugos. O rosto e a histria de Jum seriam uma das mais detestveis recordaes dessa viagem pela selva.
Outra recordao foi tambm a de um homem que nunca cheguei a conhecer, s ouvi falar em sua lenda. Todos o mencionavam, era a figura mais popular, o centro dos 
comentrios e das intrigas em todos os povoados e aldeias do alto Maran por onde passvamos. Suas faanhas eram mitos narrados em todos os lugares com picardia 
e ampliados pela fantasia local. Todos diziam tratar-se de um demnio, porm falavam dele sem esconder a admirao. Quem era esse homem, qual a sua histria?
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Reconstruo como posso um redemoinho de dados contraditrios que fomos recolhendo aqui e ali. Ele fora visto, muitos anos atrs, subindo o rio Maran. Nos lugares 
onde se detinha,
anunciava seu propsito de percorrer o rio Santiago, onde se encontram desagregados os huambisas. Ningum sabia de onde ele vinha nem por que escolhera essa difcil 
comarca para instalar-se. Chamava-se Tusha, e era japons. Como durante a Segunda Guerra Mundial os japoneses foram hostilizados no Peru, Tusha vinha fugindo dessa 
perseguio, segundo alguns, ou de delitos porventura cometidos em Iquitos, segundo outros. Todos tentaram dissuadi-lo de continuar em direo a essa regio inspita 
e distante. Nesse tempo os huambisas quase no tinham contato com o "mundo civilizado", e em torno deles, como de todas as tribos jvaras peruano-equatorianas, 
corriam lendas de ferocidade e sangue. "No v l, no seja louco, os huambisas so perigosos", diziam a Tusha os "cristos" dos povoados que cruzava. "Vo devor-lo, 
vo mat-lo." O misterioso japons no ouviu os conselhos, adentrou o rio Santiago e instalou-se numa pequena ilha na parte mais inacessvel da regio, muito perto 
da fronteira com o Equador, ali permanecendo at a morte. Esta extraordinria personagem converteu-se em poucos anos em um corrupto senhor feudal, um heri macabro 
de romance de aventuras. Os huambisas no o mataram, mas foi um verdadeiro milagre que ele no matasse todos os huambisas. Tusha formou um pequeno exrcito pessoal, 
com aguarunas e huambisas desgarrados, homens que por alguma razo haviam sido expulsos das tribos, com soldados desertores das guarnies da fronteira e com 
outros "cristos" aventureiros como ele. Tusha e seu bando assaltavam periodicamente as tribos aguarunas e huambisas nas pocas que sabiam que a borracha e as peles 
estavam para serem entregues aos "patres". Logo, atravs de terceiros (era evidente que entre seus cmplices figuravam alguns "patres"), vendia sua mercadoria 
nas cidades. Tusha e seu bando no s levavam a borracha e as peles, mas tambm as moas. Era essa, sobretudo, a causa da sua popularidade na regio, do invejoso 
culto que merecia: as meninas que raptara. Todos falavam do mito do harm de Tusha, uns diziam que tinha dez meninas, outros, vinte ou mais: cada homem povoava 
o harm com o nmero que almejava para si.
Quando estivemos em Chicais, uma das mulheres de Tusha - na realidade uma menina de doze anos,
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a quem Morote Best havia conhecido -- acabara de passar por ali. Fugira da ilha do depravado japons e retornara a seu povoado. Vrios anos depois, numa segunda 
viagem
 selva, ouvi no povoado de Nazareth o testemunho de um homem que conhecera Tusha e o tinha visto em ao quando invadia uma tribo com o seu bando. Era uma cerimnia
barroca e sensual, algo mais complexo e artstico que um simples ato de pilhagem. Ocupado o povoado, vencida a resistncia dos indgenas, Tusha se vestia de aguar 
una, pintava a cara e o corpo com achiote e rupina como os nativos, e presidia uma grande festa, na qual danava e se embebedava com masato at cair inerte. Aprendera 
os dialetos aguaruna e huambisa com perfeio e gostava de danar, cantar e embriagar-se com aqueles de quem roubara a borracha e a mulher. Essa histria no remontava 
ao passado: ocorria na mesma hora em que nos contavam. Repetia-se h vrios anos, na mais absoluta impunidade, quase diante dos nossos olhos. A misso de Santa Maria 
de Nieva, o castigo de Jum, a lenda de Tusha so as trs imagens que essa viagem pela selva deixou gravadas em minha mente. Meus sentimentos estavam ento definidos. 
Agora entendo melhor, mas h alguns anos envergonhava-me confess-lo. Por um lado, toda esssa barbrie enfurecia-me: tornava patentes o subdesenvolvimento, a injustia 
e o atraso cultural de meu pas. Por outro, fascinava-me: que formidvel material para contar! Nesse tempo comecei a descobrir esta spera verdade: a matria-prima 
da literatura no  a felicidade mas a infelicidade humana, e os escritores, como os urubus, alimentam-se preferivelmente de carnia.
Desde o princpio pensei escrever algo sobre tudo isso e conservei um caderno cheio de apontamentos tomados nessa viagem. Estive umas semanas em Lima e logo parti 
para a Europa, via Brasil. Lembro-me de ter perdido um par de dias no esplendoroso Rio de Janeiro, fechado num quarto de hotel, escrevendo uma crnica de viagem 
sobre a selva que me havia pedido Jos Florez Araoz, outro integrante da expedio, para a revista Cultura Peruana. Esse despretensioso artigo e a novidade da Europa 
esfriaram temporariamente a deciso de escrever algo a respeito da curta mas profunda experincia amaznica. Ao chegar a Madri esquecera-me de Santa Maria de Nieva, 
de Jum e de Tusha. Entretanto, foi ali em Madri, enquanto acompanhava sem interesse os cursos de doutoramento na faculdade de letras e devorava arrebatadores romances
de cavalaria na Biblioteca Nacional
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(havia adquirido o vcio desde que li Tirant Io Blanch1, em Lima), que senti pela primeira vez a ambio de ser um escritor e nada mais que um escritor.
Cheguei a essa concluso pelo mtodo eliminatrio assim que descobri que tampouco queria lecionar. Nem advogado, nem jornalista e nem professor: a nica coisa que 
me interessava era escrever, e tinha a certeza de que, se me propusesse a me dedicar a qualquer outra coisa, seria sempre um infeliz. Que ningum deduza que a literatura 
garante a felicidade: diria que quem renuncia  sua vocao por "razes prticas" comete a idiotice menos prtica. Alm da rao normal de infelicidade que lhe corresponde 
na vida como ser humano, ter por complemento a dor de conscincia e a dvida. Assim, em fins de 1958, numa penso da Calle del Doctor Castelo, no longe do Retiro, 
foi perpetrado o ato de loucura: "vou procurar ser um escritor". Tudo o que havia escrito at ento - um opsculo de teatro, um punhado de poemas, alguns contos, 
imensos artigos - era muito ruim. Decidi que a razo dessa mediocridade era minha indeciso e covardia anteriores de no ter assumido a literatura como o primordial. 
Terminara um livro de contos que encontrou editor em Barcelona (misteriosamente, essa cidade seria o bero da publicao de todos os meus livros), e o resultado 
era por assim dizer deprimente. Havia escrito quase todos em Lima, nos intervalos de tempo livre que me deixavam inmeros e cansativos trabalhos de ganha-po. Justifiquei 
assim esse fracasso: s me seria possvel ser um escritor se organizasse a minha vida em funo da literatura. Se pretendesse, como fizera at ento, organizar a 
literatura em funo de uma vida consagrada a outras tarefas, o resultado seria catastrfico. Completei essas justificaes com uma teoria voluntarista: a inspirao 
no existia. Era algo que, talvez, guiava as mos de escultores e pintores e ditava imagens e notas aos ouvidos dos poetas e msicos, mas ao romancista no visitava 
jamais. Ele era o desprezado das musas e estava condenado a substituir essa negada colaborao com teimosia, trabalho e pacincia. No me restava outra alternativa: 
se a inspirao existia para os romancistas, eu nunca seria um deles. Sobre mim jamais caa essa fora divina: cada slaba escrita custava-me um esforo brutal.
' Sartre, escritor a quem lia por esses anos com agressivo fervor
' Romance de cavalaria do escritor catalo Johanot Martorell, considerado pela crtica precursor do romance moderno.
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(Lus Loayza zombava de mim: "o sartrezinho valente"), foi uma ajuda importante nesse momento: ningum nascia romancista mas sim se tornava escritor. Tambm em
literatura -nos dado escolher o que seremos.
Para provar essa teoria escrevi um romance sem inspirao,  base de puro empenho e suor. A teoria funcionava, chegava-se a um rendimento literrio respeitvel, 
mas o preo era alto. Demorei cerca de trs anos para acabar esse livro. Tentei reescrev-lo vrias vezes e, sobretudo no princpio, custava-me muito respeitar os 
horrios de trabalho que estabelecia e permanecer muitas horas diante da mquina de escrever, mesmo que no escrevesse uma s linha. O nico momento de alvio vinha 
a cada tarde, quando ia  Jute, uma penso na esquina da Doctor Castelo com a Menndez y Pelay, para rever o escritor. Um camareiro vesgo, de cujo nome no me 
recordo, surpreendia-me ao se aproximar nas pontas dos ps para ler sobre meus ombros. s vezes dava-me uma palmada nos ombros dizendo-me: "E como vai indo esse 
livrinho?" Quando terminei esse primeiro romance senti-me doente, desgostoso da literatura. Concebi ento o projeto - curiosa teraputica - de escrever dois romances 
simultaneamente. Supunha que escrever dois seria menos angustioso que um s, porque passar de um livro para outro seria gratificante e rejuvenescedor. Gravssimo 
equvoco: ocorria justamente o contrrio. Em vez de diminurem as dores de cabea, os problemas e a ansiedade duplicaram.
Naquela poca eu vivia em Paris e ganhava a vida (bela ironia) como jornalista e professor. Foi assim que, em
1962, em um apartamento barulhento e glorioso (porque no andar abaixo tinha morado Grard Philippe) da Rue de Tournon, essas recordaes de Piura - a Casa Verde, 
a Mangachera - e da selva - a misso de Santa Maria de Nieva, Jum, Tusha - retornaram  minha memria. Raras vezes pensara nelas durante os anos anteriores, mas 
agora essas imagens voltavam de maneira impetuosa e pujante. Decidira escrever dois romances, como j disse, um situado em Piura, a partir de minhas recordaes 
dessa cidade, e outro localizado em Santa Maria de Nieva, aproveitando como material de trabalho o que recordava das freiras, de Urakusa e de Tusha. Comecei a trabalhar 
segundo um plano bastante rgido: um dia um romance, no dia seguinte outro. Avancei algumas semanas (ou talvez meses) com as histrias paralelas. Logo em seguida
o trabalho comeou a se tornar rduo.
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 medida em que o mundo de cada romance se ia soltando e tomando corpo tornava-se necessrio um esforo maior para manter cada qual separado e soberano
em minha mente.
Na realidade no o consegui. A cada dia (cada noite) deparava-me com uma tremenda confuso. De uma maneira absurda, meu esforo maior consistia em manter cada personagem 
em seu lugar. No consegui: os piuranos invadiam Santa Maria de Nieva, os indgenas lutavam para invadir a Casa Verde. Cada vez tornava-se mais difcil manter cada 
um em seu mundo respectivo. Um dia acordava certo de que Bonifcia (personagem da histria da selva baseada vagamente em Esther Chuwik, a menina aguaruna resgatada 
por Morote Best) era uma das "habitantes" da Casa Verde, outro, de que um dos guardas de Santa Maria de Nieva era mangache. Estava escrevendo a histria de Piura 
e de repente surpreendia-me reconstruindo penosamente a perspectiva que oferecia o povoado a partir do local onde se situava a misso. Estava escrevendo o romance 
sobre a selva e de repente minha cabea enchia-se de areia, algarobeiras e burrinhos. Por fim sobreveio uma espcie de caos: o deserto e a selva, as "habitantes" 
da Casa Verde e as freiras da misso, o harpista cego e o aguaruna Jum, o Padre Garcia e Tusha, as dunas e os caminhos dos rios misturavam-se num sonho raro e confuso 
em que no era fcil saber onde estava cada um, quem era quem, onde terminava um mundo e onde comeava outro. Era cansativo demais seguir lutando para separ-los. 
Decidi ento no mais faz-lo. Melhor seria fundir esses dois mundos, escrever um s romance que aproveitasse toda essa gama de recordaes. Custoume outros trs 
anos e grandes atribulaes ordenar semelhante desordem.
Conservava duas imagens diferentes da Casa Verde. A primeira, esse maravilhoso palcio das dunas que eu s vira de fora e de longe, mais com a imaginao que com 
os olhos, quando era apenas um menino de nove anos. Esse objeto insinuante que aguava nossa fantasia e nossos primeiros desejos e que era alimentado pelos rumores 
misteriosos e comentrios maliciosos das pessoas adultas. A segunda, um bordel pobreto, aonde iam, sete anos mais tarde, nos sbados de bons ganhos, os alunos do 
quinto ano do Colgio San Miguel. Essas duas imagens converteram-se em duas casas verdes no romance, duas casas separadas no espao e no tempo, erguidas, alm disso,
em diferentes planos da realidade.
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A primeira, a Casa Verde fabulosa, projetouse num remoto e lendrio prostbulo cuja sangrenta histria seria conhecida unicamente atravs das recordaes,
das fantasias, das intrigas e das mentiras do povo da Mangachera. A segunda seria algo real e objetivo, algo assim como a outra face, o reverso vulgar e imediato 
da mstica, duvidosa instituio: um bordel de preos modestos onde os mangaches iam se embriagar, conversar e comprar o amor. Lembrava-me bem dos rostos e (embora 
no esteja agora totalmente seguro disso) dos nomes dos trs componentes da orquestra: Anselmo, o harpista velho e cego; o Joven Alejandro, violonista e cantor, 
e o Bolas, o musculoso tocador do tambor e dos pratos. Conservei esses rostos e nomes no romance mas tive que acrescentar a esses perfis umas biografias repletas 
de anedotas. O Joven Alejandro tinha nome e rasgos romnticos: inventei-lhe uma comovente histria de amor como as que so narradas nas valses que ele cantava. O 
fsico imponente do Bolas sugeriu-me de imediato uma personagem clssica convencional: o gigante de corao terno e bondoso como o Porthos de Oi trs mosqueteiros 
ou o Lothar de Mandrake, o mgico. Em Anselmo ressuscitei uma personagem amada de todo entusiasta de romances de cavalaria e de filmes de aventuras (sobretudo westerns): 
o forasteiro que chega a uma cidade e a conquista. Eu sempre tive uma queda pelos melodramas mexicanos. Para humanizar um pouco o "desconhecido solitrio", acrescentei 
 histria de Anselmo um episdio sentimental, sem dvida alguma cruel. Para isso me aproveitei da lembrana de um romance de Paul Bowles, O cu protetor. Num trecho 
desse romance um homem diz (de verdade ou sonhando) a uma mulher algo assim como: "Eu gostaria que fosses cega, para assustar-te e amar-te com surpresa, brincar 
contigo". Desde que a li, senti a perversa necessidade de escrever alguma vez uma histria de amor cuja protagonista fosse cega. Para tornar ainda mais tenebrosa 
a paixo de Anselmo, decidi que Antnia, a menina da qual se enamora, alm de cega seria muda. Recordava que em Piura os raptos matrimoniais eram freqentes, s 
vezes com o consentimento discreto das respectivas famlias. O noivo levava a amada para uma fazenda, os amigos despediam-se do casal na estrada, e um ms depois 
formalizavam-se as bodas de acordo com a lei. Anselmo raptaria Antnia e a levaria para viver na Casa Verde, onde a moa morreria. Isso, ademais, tinha ressonncias
faulknerianas, e Faulkner era para mim o paradigma do romancista
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(ainda o ). Pareceu-me muito difcil narrar os amores de Anselmo e de Antnia: a histria era to exagerada que chegava a levantar dvidas quanto
 sua credibilidade. Procurei narr-la de acordo com o ponto de vista de Anselmo, com o de Antnia, com o indireto de um grupo de mangaches que evocavam o episdio 
na mesa de um bar, mas nenhum chegou a ser convincente. Um dia, j no recordo como, encontrei a frmula que me pareceu adequada para traduzir em palavras esse "romance 
terrvel". A idia era esta: a histria de Anselmo e Antnia seria narrada no como efetivamente sucedeu (isso nunca se poderia saber), mas como os mangaches supunham 
ou queriam que esse fato tivesse sucedido. A existncia dessa aventura sentimental teria no romance o mesmo carter vacilante e subjetivo que o da primeira Casa 
Verde. Ocorreu-me ento - na verdade s depois de lanar  cesta de papel vrios rascunhos  que essa forma tomou corpo - introduzir uma voz, diferente da do narrador, 
que representaria a conscincia ou a alma da Mangachera e que iria literalmente ordenando, mediante imperativos, os amores de Anselmo e Tonita. Tudo isso deveria 
ser cuidadosamente ambguo. A voz estaria to perto da do prprio Anselmo que por momentos pareceria misturada com a dele, ser a dele mesmo. Porm ao mesmo tempo 
teria uma liquidez, uma certa intemporalidade, um suspeitoso tom solene que denotariam de alguma maneira a estirpe mtica dessa histria. Esses trs episdios do
romance so os que menos me desgostam de todo o livro, talvez por aquele masoquismo que nos leva a preferir sempre aquilo que nos custa mais. Eu estava muito contente 
com o ponto de vista a partir do qual esses amores eram narrados. Parecia-me bastante original. O fato  que passou despercebido aos crticos, que atriburam a 
voz desses trs episdios ao prprio Anselmo, lendo-os como monlogos tradicionais.
Castiguei meu antigo professor de religio por ser maucarter e por todos os santinhos que acrescentei  sua coleo, convertendo-o num incendirio que amotinara 
as mulheres da cidade e as fizera queimar a Casa Verde, e que por isso era odiado na Mangachera. O Padre Garcia
tornar-se-ia um dos "heris negativos" do romance,
uma personagem que serviria para criticar e desenhar com traos caricaturais o esprito dogmtico e clerical. Mas, como j me ocorrera antes, quando escrevia batismo 
de fogo - uma personagem, o Tenente Gamboa, concebido como um dos mais
odiveis do livro,
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tornou-se um dos mais simpticos -, comprovei outra vez que uma coisa  o romance projetado e outra  o romance realizado. Foi por essa poca que
descobri que os romances eram escritos principalmente com obsesses e no com convices, que a contribuio do irracional era, pelo menos, to importante quanto 
a do racional na realizao de uma fico. Enquanto escrevia o livro, o fantico incendirio foi se transformando, pouco a pouco, inexplicavelmente, num sofrido 
e terno ser humano, e tambm numa vtima atormentada pela garotada nas ruas de Piura, que o chamava de "incendirio", um velhinho um pouco chato, mas ainda capaz 
de despertar um sentimento de solidariedade. No quinto ano do San Miguel eu era bastante amigo de dois irmos, a quem chamei de Len: viviam na Mangachera, eram 
uns incorrigveis e precoces "jaranistas", de uma alegria transbordante e inesgotvel. Sabiam danar, cantar, tocar violo, enfim, ningum os sobrepujava na inveno 
de loucuras. Eles me fizeram conhecer o bairro e sua gente: serviram-me de modelo para criar esse quarteto autodenominado no romance "os invencveis". Mas, na realidade, 
o nome foi usurpado de outro grupo - quatro ou cinco - que conhecera em Piura somente de longe: os verdadeiros "invencveis" eram uma quadrilha de jovens pertencentes 
a famlias mais ou menos abastadas, que se tornaram clebres na cidade por suas farras e escndalos. Sempre davam maus exemplos aos meninos de minha idade e, logicamente, 
isso fazia com que os admirssemos mais.
Foi por essa poca, submerso em pleno trabalho de A Casa Verde, que li L'ducation sentimentale, de Flaubert. J nutria grande admirao por ele e alguns amigos 
provocavam-me porque afirmava, batendo o punho na mesa: "Tambm Salammb  uma obra-prima". Mas Uducation sentimentale provocou-me um entusiasmo infinitamente maior 
que todos os seus outros livros. Ainda  o romance que eu levaria  ilha deserta, se dispusesse de uma. Talvez o ltimo segredo dessa devoo tenha sido o fato de 
eu ter lido comovido, no final do livro, a passagem em que Frdric e seu amigo Deslauriers relembram o passado e descobrem que uma das recordaes comuns mais ricas
que conservam de sua juventude  a "maison de la Turque", um prostbulo com os muros pintados de verde que ansiosamente iam espiar durante as noites: "Ce lieu
de perdition projetait dans tout l'arrondissement un clat fantastique. Ou
le dsignait par des priphrases:
'l'endroit que vous savez -
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une certaine rue - au bas des ponts'. Les fermires des alentours en tremblaient pour leurs maris,
les bourgeoises le redoutaient pour leurs bonnes, parce que
la cuisinire de M. le sous-prfet y avait t surprise; et c'tait, bien entendu,
l'obsession secrte de toas les adolescents'".
Trabalhava de maneira disciplinada e com incessante entusiasmo. Meu ganha-po, a Rdio-Televiso Francesa, ocupava-me as noites, mas tinha todo o dia para mim. 
Acordava ao meio-dia e, mal saa do banho, sentava-me  mquina de escrever at as sete ou oito da noite. No tinha a menor dificuldade em evocar Piura. Bastava-me 
fechar os olhos para ver suas ruas largas, suas altas veredas, suas casas de amplas janelas, e escutar a maneira de falar da sua gente, com um cantar saltitante 
e pegajoso, um pouco parecido com o dos mexicanos. Recordava as conversas, e meu quarto enchia-se de churres, de piajenos, de gus, e tambm desses inesquecveis 
superlativos: grandissssimo, trabalhosssimo, putssimo. Tudo estava ali, na minha memria, palpitando. . . Porm invocar Santa Maria de Nieva e a Amaznia exigia-me 
um grande esforo: eram apenas alguns fatos, certas situaes, alguns rostos e um punhado de anedotas o material com o qual eu devia tentar reconstituir esse mundo. 
Atormentava-me muito minha ignorncia do meio: nada sabia sobre rvores ou animais e quase nada sobre usos e costumes locais. Durante um ano inteiro s li livros 
relativos  Amaznia, todos os que indiscriminadamente encontrava nas livrarias e bibliotecas de Paris. Posso dizer, sem orgulho, que li a pior, a mais absurda literatura 
do mundo: crnicas de frades espanhis do sculo XVII afirmando terem visto com seus prprios olhos as amazonas preparando suas flechas nas margens do rio ao qual 
deram o nome; um volumoso e truncado tratado de Len Pinelo demonstrando com abundantes citaes bblicas que o paraso terrestre esteve situado na selva peruana; 
um livro de um extravagante explorador belga (tambm era marqus) que apresentava os tmidos aguarunas como ferozes caadores de cabeas e comedores de carne humana.
Recordo um folheto de um ambicioso coronel de polcia que propunha
' Esse lugar de perdio projetava por todo o bairro um brilho fantstico. Era designado por perfrases: 'O lugar que o senhor conhece
- certa rua - abaixo das pontes'. As granjeiras dos arrabaldes temiam por seus maridos, as burguesas temiam por suas empregadas, pois a cozinheira do subdelegado
fora surpreendida ali; e era, logicamente, a obsesso secreta de todos os adolescentes.
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civilizar os indgenas das tribos incorporando-os ao Exrcito, e recordo tambm uma extensa tese de geografia, com a qual um sacerdote tinha se doutorado na Universidade
de San Marcos, onde se descreviam em termos supostamente cientficos animais "selvagens" que s existem em lendas e relatos fantsticos. Recordo sobretudo os incrveis 
"romances amaznicos", com sua fauna e flora demaggicas: borboletas do tamanho de guias, rvores canibais, serpentes aquticas compridas como serpentinas. Pensei 
at em escrever um ensaio sobre essa literatura amaznica, quase desconhecida, pouco interessante do ponto de vista literrio, mas curiosa como smbolo dos vcios 
mais comuns a certa narrativa latino-americana, pois conseguira assimil-los todos: predomnio da ordem natural sobre o social, o pitoresco, o dialetismo, o frenesi 
descritivo, a truculncia. Mas logo desisti porque no me sentia com foras para remexer novamente nessa feira amaznia de horrores literrios. Uma vez por semana 
ia ao Jardin ds Plantes * para ver rvores e flores da Amaznia, e talvez algum dos guardas me tomasse por um aplicado estudante de botnica. Na realidade, as leituras 
amaznicas me vacinaram contra o vcio descritivo e, finalmente, no meu livro s descreveria uma rvore que nunca pude ver em Paris, a lupuna, enorme, com corcovas, 
que aparece nos contos selvagens como residncia de espritos malignos. Ia tambm de vez em quando ao zoolgico do Bois de Vincennes ver animais da selva e recordava, 
cada vez que avistava o puma ou a vicunha, o que contava outro escritor peruano que tambm vivera muitos anos em Paris, Ventura Garcia Caldern: que ao passar pelo 
curral da lhama, os olhos do animal umedeciam-se de melancolia ao reconhecer um compatriota.
Troquei a lenda indefinida de Tusha que conhecera por uma histria mais srdida e concreta: um pattico aventureiro perseguido pela obsesso de chegar a ser rico, 
e que no decorrer de sua vida pratica as piores atrocidades para alcanar essa meta, mas fracassa em todas as suas empresas e termina seus dias no leprosrio de 
San Pablo, uma colnia perdida s margens do rio Amazonas, j perto da fronteira brasileira. Minha inteno era conservar o nome verdadeiro do modelo no romance, 
mas num dado instante, misteriosamente, o "T" do seu sobrenome converteu-se em "F", e ele passou a se chamar Fusha.
' Jardim Botnico.
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Quando viajava de Lima para o Rio de Janeiro, em 1958, o aviozinho que me transportava (da Fora Area Brasileira) se viu obrigado a aterrissar em Campo Grande, 
uma cidade de Mato
Grosso, e tivemos que permanecer ali dois dias. Guardava uma leve lembrana desse lugar; ali presenciara uma interminvel procisso, mas, sobretudo, lembrava-me 
dos mosquitos que me tinham devorado dos ps  cabea. Decidi que Fusha comeara sua trajetria de bandido em Campo Grande. Quando pequeno, em Cochabamba, ouvira 
contar, de maneira censurvel e reticente, a histria de um tio que durante a Segunda Guerra Mundial ganhara dinheiro contrabandeando borracha e outros materiais 
estratgicos entre a Bolvia e a Argentina. Agreguei essa histria  vida de Fusha, que se tornou, nos seus primeiros anos, contrabandista de borracha e de fumo 
entre o Peru e o Brasil. Decidi que fosse leproso porque essa doena ainda era possvel na Amaznia e por umas esplndidas pginas do dirio de Flaubert sobre sua 
viagem ao Oriente, onde narra com prolixidade seu intempestivo encontro, num beco sem sada egpcio, com um grupo de leprosos. Nunca tinha visto um leproso; meu 
trabalho de jornalista na ORTF permitiu-me entrar no pavilho de leprosos do hospital Saint-Paul de Paris, onde, com o pretexto de fazer uma reportagem, consegui 
que um jovem e amvel doutor me levasse para ver alguns doentes e me desse algumas explicaes tcnicas sobre a doena. Esse era um tpico em todos os romances situados 
na Amaznia e que tinha, por sua rica tradio literria, uma grande fonte. Para amenizar um pouco esse perigo decidi no mencionar no romance a palavra lepra em 
momento algum. Lembro-me nitidamente de que o momento em que fiquei mais comovido enquanto escrevia o livro foi quando concebia esse episdio final em que Fusha, 
j um escombro humano, conversa com o velho Aquilino, que viera visit-lo depois de muito tempo e, indubitavelmente, pela ltima vez. Nunca senti tanta ternura 
por uma personagem como nesse episdio. Por vezes tive que afastar-me da mquina de escrever, perturbado pela emoo; Fusha era, alm disso, uma das poucas personagens 
que eu vira em sonhos.
Propusera-me contar em A Casa Verde, com a mxima fidelidade, a histria de Jum, da cooperativa aguaruna, e da humilhao infligida a Urakusa. No plano inicial 
e no primeiro captulo do romance, Jum aparece como uma das personagens centrais, talvez a principal. Fui incapaz de pr em prtica esse propsito: muitas vezes 
tentei reconstruir
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o que poderia ter sido a vida de Jum, a partir do instante em que foi lanado ao mundo em pleno bosque ou s margens de um rio at aquele momento, quando o penduraram
numa rvore como um paiche, e, para no alongar-me muito no relato, tentei contar de acordo com o seu prprio ponto de vista o trgico episdio de sua vida que 
conheci. Acabei finalmente percebendo que essas pginas tornavam-se sempre artificiais, falsas, desajeitadamente folclricas. J o suspeitava, mas ento soube de
maneira flagrante e carnal: a "verdade real"  uma coisa, e a "verdade literria", outra, e no h nada to difcil quanto querer que ambas coincidam. Por fim resignei-me
 evidncia: no tinha capacidade suficiente para apresentar o mundo, as abjetas injustias, os outros homens, com os olhos e a conscincia desse homem cujo idioma, 
costumes e crenas eu ignorava. Resignei-me a reduzir a importncia de Jum no romance e fracionei sua histria em vrios episdios curtos que seriam narrados no 
a partir do seu ponto de vista, mas sim da perspectiva de intermedirios e testemunhas, a quem poderia conceber com mais facilidade.
Os pontos de contato entre Piura e Santa Maria de Nieva eram, segundo o projeto do livro, o Sargento Lituma, um piurano mangache, designado durante algum tempo para 
um posto de polcia na selva e logo retornando a Piura, e Bonifcia, uma menina aguar una educada pelas freiras de Santa Maria de Nieva, mais tarde esposa do Sargento 
Lituma, e que acabava por se tornar "habitante" da Casa Verde com o nome de guerra de Selvtica. Entretanto, quando dava os ltimos retoques no manuscrito, descobri 
que havia outro vnculo, menos evidente mas talvez mais profundo, e em todo caso imprevisto, entre esses dois mundos. Dom Anselmo surpreendera os piuranos com sua 
predileo pela cor verde: de verde pintara o prostbulo e a sua harpa. Por outro lado, no princpio, sua maneira de falar no surpreendera realmente os piuranos, 
que nunca conseguiram identificar seu sotaque, que no parecia ser serrano, nem da costa. Foi um desses impactos mgicos que sobrevm de quando em quando durante 
a construo de um romance que nos deixa espantados e felizes: no h dvida, Dom Anselmo amava a cor verde porque essa cor era a da sua terra, e os piuranos no 
puderam reconhecer sua maneira de falar porque em Piura jamais chegava gente da selva.
Quando terminei o romance, em 1964, senti-me inseguro, cheio de temor em relao ao livro.
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Desconfiava principalmente dos captulos passados em Santa Maria de Nieva. Minha inteno no fora, desde o princpio, escrever um documento sociolgico, um ensaio
disfarado de
romance. Mas tinha a incmoda sensao de que, apesar dos meus esforos, idealizara (para bem e para mal) o ambiente e a vida da regio amaznica. Tomei a determinao
de no publicar o livro enquanto no tivesse retornado  selva. Nesse ano voltei a Lima. Dessa vez no foi to fcil chegar a Santa Maria de Nieva, devido  falta 
de comunicaes. Seis anos antes viajara pela selva com muita comodidade, no confortvel hidroavio do Instituto Lingstico de Verano. Agora viajava por minha 
prpria conta, acompanhado de um amigo, o antroplogo Jos Matos Mar, que participara da expedio anterior. Planejvamos ir de Lima a Pucallpa de avio e ali pedir 
ajuda ao mesmo instituto, a fim de alcanar o alto Maran. Mas as dificuldades comearam antes de sarmos de Lima. Por dois ou trs dias consecutivos fomos ao aeroporto 
em vo. Certa vez tivemos de regressar aps meia hora de vo, pois o mau tempo no permitia que os avies atravessassem a cordilheira. Lembramos de ir at Chiclayo,
acreditando ingenuamente que a estrada Olmos-Rio Maran que figurava nos mapas estivesse de fato em funcionamento e que de l poderamos chegar at Bagua de nibus
ou caminho. Em Chiclayo descobrimos que a famosa estrada ao Maran ainda estava por terminar, e que acabava num posto situado a vinte quilmetros do rio. L tampouco
havia servio de nibus e caminho a Lambayeque e Bagua. Em Chiclayo explicaram-nos que a nica maneira sensata de chegar ao alto Maran era com a ajuda do Exrcito.
Meu primeiro romance, passado num colgio militar', tivera problemas e dois oficiais (o General Jos del Carmen Marn e o General Felipe de la Barra) tinham-no acusado
publicamente de subversivo e antipatritico, de modo que era improvvel a essas alturas que eu recebesse ajuda militar, precisamente para um outro romance. Discutimos 
o assunto e por fim decidimos converter-nos em dois engenheiros destacados pelo presidente da Repblica para estudar as possibilidades agropecurias na regio do 
alto Maran. Apresentamo-nos na chefia do Estado-Maior do Exrcito em Chiclayo, e o oficial que nos atendeu ficou impressionado com nossas explicaes.
' Batismo de fogo (La ciudad y los perros).
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Imediatamente ordenou que nos emprestassem um jipe e um motorista para nos levar a Bagua e em seguida ao acampamento militar de Montenegro, local at onde tinha 
chegado
a estrada, cuja construo, como as demais coisas, estava a cargo do Exrcito. Tambm nos ofereceu anunciar pelo rdio nossa chegada ao acampamento a fim de que 
nos fornecessem mantimentos e um guia para podermos seguir at o Maran. Efetivamente, num jipe conduzido por um sargento loquaz, cruzamos a fronteira e chegamos 
a Bagua, onde passamos a noite. No dia seguinte pela manh entramos no acampamento militar de Montenegro, do Batalho de Engenharia de Construo Morro Solar n.
1. Estivemos ali durante vinte e quatro horas, representando da melhor maneira possvel o nosso papel de engenheiros em viagem profissional ao alto Maran. O coronel-chefe
do acampamento teve a gentileza de preparar uma recepo em nossa honra. O mais difcil foi agentar durante uma sesso de trabalhos no restaurante as perguntas
tcnicas sobre os planos do governo para o alto Maran, que tivemos de responder num perodo de duas ou trs horas. Recordo muito bem o grande alvio que me causou 
enfiar-me na cama essa noite aps semelhante prova. Na manh seguinte iniciamos muito cedo, com um guia, a marcha inicial para o Maran, por uma estreita trilha 
que ziguezagueava pelo bosque e a cada momento nos precipitava em lodaais, tornando-se cada vez mais impenetrvel, a tal ponto que num determinado momento estivemos 
perto da desistncia. Ao entardecer, por fim, chegamos s margens do Maran. O guia despediu-se de ns ali, numa hospitaleira aldeia aguaruna, onde entramos exaustos 
e crivados de picadas de mosquitos. No dia seguinte nos levaram de canoa at Nazareth, outro povoado aguaruna, e, finalmente, dois ou trs dias depois, desembarcamos 
em Santa Maria de Nieva. Levramos uma semana para chegar.
 primeira vista quase nada mudara nesses seis anos, o tempo no parecia ter transcorrido naquela regio. As autoridades, os professores, as freiras e os problemas 
eram os mesmos. O negcio da borracha e das peles devia ser ainda mais medocre que antes, pois os "patres", os mesmos que haviam torturado Jum e humilhado Urakusa, 
viviam meio mortos de fome, quase no mesmo desamparo e no mesmo estado miservel que os aguarunas. Alojaram-nos na misso e vimos que, ao menos no que se referia
ao sistema de recolhimento de alunas,
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alguma coisa mudara: o problema da misso era agora a falta de espao e de professoras, o local no tinha capacidade para receber todas as meninas
que chegavam das tribos. Aparentemente a desconfiana e a hostilidade dos nativos em relao  misso tinham terminado, e agora empenhavam-se em que seus filhos 
fossem "cristianizados". Mas o problema com as ex-alunas era o mesmo: ou regressavam para morrer de fome na mata ou partiam para a "civilizao", como empregadas 
dos cristos. Recordo como algo terrvel a noite que passamos, Matos e eu, na cabana de um dos patres do lugar, no recordo se a de Arvalo Benzas ou a de Jlio 
Retegui, bebendo cerveja morna e ouvindo esses pobres-diabos contar-nos como uma divertida anedota do passado a histria de Jum. Matos e eu amos levando a conversa, 
com infinitas precaues, em direo a esse tema, mas nossa prudncia era intil. com a maior naturalidade, muito amveis, tirando a palavra de uns e de outros, 
se referiam a tudo o que queramos saber. Sua verso no era diferente da que tnhamos ouvido seis anos atrs em Urakusa. No mentiam, no tratavam de ocultar o 
ocorrido nem de justificar-se. A nica diferena era que para esse punhado de homens no havia nada de condenvel no sucedido: as coisas eram assim, a vida era assim. 
Jum continuava alcaide do pequeno povoado de Urakusa e no havia forma de faz-lo recordar esse episdio negro do passado; deu-nos a impresso, inclusive, de que 
se sentia envergonhado e culpado do que ocorrera. Para ele e para os seus a vida tinha recobrado sua atroz normalidade. Ainda recolhiam peles e borracha na mata, 
para os mesmos patres, e suas relaes com eles eram seguramente boas. Mas Tusha acabava de morrer em sua remota ilha do rio Santiago. Algumas semanas antes de 
sua morte enviara uma carta por meio de um de seus homens  misso de Santa Maria de Nieva e que nos foi mostrada por um jesuta. Senti uma extraordinria emoo 
enquanto tentava decifrar essa carta demente, garrancheada numa linguagem quase incompreensvel, por meio da qual Tusha, j prevendo a morte, pedia s freiras que 
ouvissem a sua confisso. Explicava que no se sentia bem e que no estava em condies de ir at a misso; fazia uma espcie de exame de conscincia, declarava-se 
pecador e pedia a absolvio por correspondncia. Alm disso tambm queria que o casassem por carta, e a parte mais inesquecvel desse testamento era aquela em que
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tratava de descrever a menina ou a mulher de sua ilha com quem pretendia casar, para evitar qualquer confuso. Em meu romance Fusha morria de lepra. Tusha morrera,
na realidade, de algo no menos espetacular: varola negra. Os mitos e as lendas na selva so como suas rvores e flores: nascem velozes, adquirem, num abrir e fechar 
de olhos, uma opulenta vitalidade, e com a mesma rapidez apodrecem e desaparecem para dar lugar a outros. H cerca de dois anos, Luis Alfonso Diez, ex-aluno do 
King's College da Universidade de Londres, que preparava uma tese, percorreu a regio do alto Maran e contou-me ter encontrado pouca gente que se lembrava de Tusha, 
e que os poucos que no o tinham esquecido referiam-se a ele como uma obscura personagem sem histria. Diez esteve tambm em Urakusa e conversou com Jum, ainda 
na funo de alcaide do povoado.
Ao regressar a Paris, entretanto, introduzi no manuscrito algumas alteraes - menos do que havia temido - e o livro acabou sendo publicado em meados de 1966. Encontrava-me
novamente em Lima quando a obra foi editada. Lancei-me ento  tarefa de escrever mais um romance. Surpreendi-me um dia ao ver a foto da Casa Verde, no dirio La 
Prensa. No se tratava do livro, mas da verdadeira Casa Verde, que a jornalista Elsa Arana Freyre fotografara havia pouco. J no era mais o rstico e solitrio 
casebre que eu recordava: crescera, tornara-se ento uma manso moderna e funcional, de dois pavimentos, com um prspero jardim, e no se achava mais no deserto. 
A cidade havia se expandido e a Casa Verde, outrora cercada pelas dunas, via-se agora rodeada de outras casas. Pouco tempo depois recebi um convite para ir a Piura. 
Alguns amigos publicitrios organizaram um extenso programa: uma conferncia, uma visita ao Colgio San Miguel e, naturalmente, uma visita comemorativa  Casa Verde. 
Mas no cheguei a ir. Apesar de j ter comprado as passagens, decidi subitamente cancelar a viagem. Desde ento, em uma ou outra ocasio estive prestes a viajar 
para Piura, porm sempre desisti no ltimo momento. Seria difcil explicar a razo. De qualquer maneira, tenho certeza de que no consegui livrar-me dessa cidade, 
de sua gente e de suas dunas. Se por acaso algum de vocs for um dia a Piura, percorrer a Mangachera e entrar na Casa Verde, digam-lhes, por favor, aos mangaches 
e s "habitantes", que eu no consigo esquec-los.
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Digam-lhes que passei trs anos empenhado em escrever sobre eles e que agora vou pelo mundo fazendo propaganda deles, e que ainda continuam intactos em meu corao.
Lluch Alcaire, Mallorca, junho de 1971.
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